sábado, 16 de maio de 2015


17 de maio de 2015 | N° 18165
L. F. VERISSIMO - As aventuras da família Brasil

A janela

Freud escreveu em algum lugar que não existe nada mais parecido com a paranoia do que a filosofia. Querendo dizer, acho eu, que a filosofia também vê uma trama por trás de tudo. Assim como todo complexo é o sintoma de uma disfunção a ser descoberta na análise, toda filosofia é uma tese conspiratória. Para a filosofia, tudo que existe é a ponta de um iceberg, exceto, talvez, a ponta de um iceberg, que deve ser outra coisa. Há uma lógica secreta na vida dos homens e das nações. O retorno do reprimido freudiano é o eterno retorno nietzschiano depois de uma análise.

Tirando um exemplo do chapéu: quando fizeram um plebiscito para decidir que nome deveria ter Leningrado, depois que Lenin caiu em desgraça, a maioria da população escolheu São Petersburgo. Não quis nem Petrogrado, nome dado em 1914, durante a I Guerra Mundial, quando, presume-se, a antipatia com santos era grande.

A população quis o santo e o “burgo” de volta à cidade que Pedro o Grande construiu sobre um pântano para ser uma janela através da qual a Europa veria como a Rússia se civilizava. O custo humano desse capricho foi terrível. Em The Russia House, John le Carré escreveu que em nenhum outro lugar do mundo o barbarismo se fez um monumento tão bonito.

A sina da cidade é ser um símbolo. Era de São Petersburgo que os exilados da União Soviética falavam quando falavam das delícias da vida antes da revolução. Ela era a “capital da memória” de Nabokov, sua cidade natal, e pelo resto da sua vida ele misturou seus mármores e seus canais e os verões idílicos nos seus arredores com lembranças de infância, e com ressentimento.

O retorno do reprimido, no caso, foi a tentativa de retomar o jardim dos prazeres do qual o tempo e a História expulsaram a criança. A lógica secreta do plebiscito foi a necessidade de anular o tempo e transformar Leningrado, de novo, num símbolo de ocidentalização.

O tempo fez outros símbolos do velho pântano. Lenin instalou seu quartel-general num ex-colégio de moças da aristocracia local, que só falava francês em casa e veraneava em Biarritz, antes de ser corrida para o exílio. A resistência da cidade ao cerco alemão por quase dois anos, na II Guerra, empolgou o mundo. Mas nada valeu tanto, para os que votaram pela mudança do nome da cidade, do que a sua conotação de fracasso.


O plebiscito serviu como um réquiem para a maior experiência de engenharia social já feita, e o tempo não foi suficiente para suprimir o reprimido: Lenin, o santo secular homenageado, não teve a força do outro santo. Se o que venceu foi a nostalgia imperial, outro capricho ou a liberdade, depende da sua filosofia, ou da sua paranoia. O fato é que pela cidade-janela se viu a outra grande convulsão na alma russa depois da revolução, que foi o fim do comunismo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas