Copa manchada
A Copa do Mundo de 2026 ficou manchada com a retirada da suspensão de Folarin Balogun, pelo Comitê Disciplinar da Fifa, permitindo que o atacante dos Estados Unidos que recebeu cartão vermelho no jogo com a Bósnia participasse das oitavas de final contra a Bélgica. O regulamento foi para a lata de lixo, abrindo perigosos precedentes.
Ainda mais com os rumores da interferência externa do presidente americano Donald Trump, que fez a solicitação e depois agradeceu a entidade por ter corrigido o que chamou de "grande injustiça". Criou-se um constrangimento para o brasileiro Raphael Claus, que puniu o jogador ao rever a jogada no VAR. A decisão extracampo o desautorizou e violou regra tácita e consensual.
Embora a Fifa tenha alegado que a revogação seguia o artigo 27 do seu Código Disciplinar, que determina que o "órgão judicial pode suspender total ou parcialmente a aplicação de uma medida disciplinar", soa como uma exceção arbitrária a serviço de interesses espúrios, uma vez que Balogun se sobressaía como artilheiro da Seleção dos EUA, com três gols no Mundial.
O futebol se mostrou acima da politicagem. A Bélgica goleou os Estados Unidos por 4 a 1, derrubando a anfitriã com requintes de humilhação e calando 80 mil torcedores em Seattle, na segunda-feira. Sequer o desfalque reagrupado indevidamente conseguiu conter o vexame. Após o triunfo que garantiu o confronto com a Espanha, a Bélgica postou nas redes sociais uma foto da comemoração de Lukaku, com a mão no ouvido, provocando o mandatário intruso: "Reverte isso".
Nem tudo é um mar de rosas no desenrolar da competição. Testemunhamos situações estranhas e atípicas de pressões de regimes no maior evento esportivo do mundo, que insinuam manipulações de resultados. Na Copa de 1978, atuando em casa, a Argentina precisava tirar uma diferença de saldo de gols com o Brasil para se classificar - uma vitória por no mínimo quatro gols no Peru. Sob a coerção da ditadura sangrenta do general Jorge Rafael Videla, contrariando o histórico das duas seleções no torneio, a Argentina varreu os peruanos por 6 a 0. O goleiro do Peru era Ramón Quiroga, argentino naturalizado peruano, duramente criticado por suas falhas imprevisíveis no duelo.
A atitude intervencionista de Trump deve ser colocada no mesmo patamar da adulteração de placar do fascismo de Benito Mussolini, que queria porque queria provar a sua supremacia ideológica no certame de 1934, na Itália.
O primeiro-ministro, com poderes incondicionais no período, transformou a arena numa vitrine de propaganda do Partido Nacional Fascista. Para alcançar o título, houve fortes indícios de cooptação da arbitragem, coação de atletas e censura na imprensa. O árbitro sueco Ivan Eklind, por exemplo, que apitou a semifinal e a final, reuniu-se com Mussolini antes das partidas e validou gols e lances controversos a favor da Itália.
Para se ter ideia de como a armação se evidenciou descarada, nas quartas de final, o goleiro espanhol Zamora saiu de cena fraturado e sete titulares de sua equipe acabaram lesionados. Tratou-se de um massacre sem precedentes. Parecia obra dos Camisas Negras (Camicie Nere), braço paramilitar do Duce. Na disputa de desempate, o juiz René Mercet acatou um gol polêmico de Giuseppe Meazza e anulou dois gols legítimos da Espanha.
Já na semifinal, com a Áustria, o juiz Ivan Eklind, egresso de um banquete com Mussolini na véspera, deu o gol da vantagem italiana (1 a 0) a partir de um empurrão do centroavante Enrique Guaita no goleiro austríaco para dentro da rede com a bola. Não tem como não compreender como uma falta abusiva em qualquer época.
A democracia futebolística, se existe, corre sérios riscos com o retrocesso. Fraudes nascem de despretensiosos lobbies e vão acuando a arte das chuteiras para a extinção da igualdade. _
CARPINEJAR











