sábado, 15 de agosto de 2026

15 de Agosto de 2026
EUGÊNIO ESBER

Aconteceu em Santa Rosa

"Sem pressa, foi cada um pro seu lado pensando numa mulher, ou num time."

Na terra em que nasceu e viveu, ninguém noticiou sua partida, na última segunda-feira. Nem a longa melancolia que foi devorando, aos poucos, a sua vontade de viver. E assim, sob um silêncio de amém, como cantou João Bosco em De Frente pro Crime, Seu Ronaldo Edison Richard morreu do coração, como se costuma dizer na sua Santa Rosa. 

E de desgosto, por certo, ante a indiferença dos circunstantes. Perseguido por crimes que não cometeu, viu-se, aos 63 anos, indefeso diante da brutalidade de um aparato judicial tirânico.

Em janeiro de 2024, a Polícia Federal esteve na casa de Seu Ronaldo, em Santa Rosa. Recolheu e vasculhou seu telefone. Ele não tinha estado em Brasília nos atos de janeiro de 2023, mas era preciso achar algo, qualquer coisa, para alimentar a sanha dos inquéritos de Alexandre de Moraes. A diligência encontrou mensagens em que o idoso ajudava a reunir pessoas para a locação de um ônibus com destino à capital federal, e custeou a passagem de um manifestante. Isso era tudo. 

Na verdade, era nada. Mas a Procuradoria-Geral da República, que até hoje não viu razão para abertura de inquérito contra Moraes pelas ligações milionárias com o liquidado Banco Master, foi implacável com Seu Ronaldo. Enquadrou o idoso como "financiador" de sabe-se-lá-o-quê e o denunciou por cinco crimes: associação criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito, golpe de Estado, dano qualificado ao patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.

Moraes, o carrasco da liberdade de imprensa e de tantas outras garantias constitucionais, estava pronto para sentenciar Seu Ronaldo, que já estava com seus bens bloqueados. A morte abreviou a excruciante espera por uma pena descabida. "O Brasil ainda vive as conseqüências de um 8 de janeiro que parece não ter acabado", disse Ana Maria Cemin, a jornalista gaúcha que se tornou voz essencial na denunciação do arbítrio e da perversidade da juristocracia brasileira. 

"Três anos e meio depois, já são 11 mortos. Vidas atravessadas por medidas extremas, processos longos, restrições severas e uma máquina estatal que não recuou - nem diante da fragilidade humana."

A propósito: a lei da dosimetria de penas, tímida correção dos abusos praticados pelo STF, foi promulgada pelo Congresso Nacional há 98 dias. Um único homem, Alexandre de Moraes, engavetou a lei, sob o silêncio cúmplice ou indiferente de quem tem o poder institucional para detê-lo. Mas... instituições? Que instituições? Como escreveu a jornalista norte-americana Mary Anastasia O?Grady no Wall Street Journal, houve, sim, um golpe de Estado no Brasil. Mas quem o promoveu foi a própria Suprema Corte brasileira. _

EUGÊNIO ESBER

 

15 de Agosto de 2026
PAULO GERMANO

A rebeldia dos covardes

Depois de anos de abandono, tapumes e obras, um dos monumentos mais extraordinários de Porto Alegre finalmente ensaia uma ressurreição. O icônico viaduto da Borges foi restaurado e agora recebe os primeiros lojistas de um projeto que pretende devolver cultura, gastronomia e gente às suas arcadas. Pois nesta semana, quando a cidade começava a reaver esse pedaço de si, alguém surgiu com a velha lata de spray para esculhambar. E lá foi a prefeitura, pela 11ª vez desde a entrega da reforma, há quatro meses, gastar tempo e dinheiro para apagar os garranchos.

Acho curioso que, no meio cultural e acadêmico, há sempre algum pudor em criticar essa modalidade de vandalismo. Como se reprovar a pichação fosse elitista ou insensível. Como se cada rabisco carregasse a voz dos excluídos - e calar essa linguagem seria oprimi-los ainda mais. Só que é difícil chamar de linguagem o que não comunica nada. São códigos que, no máximo, conversam entre si: funcionam como uma bolha grafada em concreto, indiferente ao resto do mundo, justamente num território concebido para ser de todos - o espaço público.

Houve uma época, de fato, em que pichar não só era justificável como era necessário. Na ditadura militar, por exemplo, pintavam-se as paredes para alertar a sociedade sobre o regime tirânico. Porque, claro, só tinham sobrado as paredes: a imprensa fora censurada, a oposição fora cassada, toda divergência fora calada. Não havia formas de se expressar, não havia redes sociais, então a pichação tornou-se uma rara via de contato entre a população e o outro lado.

Passado esse período de trevas, permaneceu uma aura romântica em torno de uma contravenção que, atualmente, só serve para alimentar vaidade. As pichações não têm indicativo político, não incitam reflexão, não defendem mudanças, não denunciam coisa nenhuma: são apenas sinais ou nomes cifrados que, se por um lado exigem ser vistos, por outro negam o direito de alguém responder.

Aliás, o que mais me incomoda não é a rabisqueira, é a covardia. Quer pichar o Palácio Piratini? Vá lá - ao menos haveria alguma contestação ao poder. Mas a escolha recai sempre sobre o alvo mais frágil: a vendinha da esquina, a escola pública, o prédio histórico, a pracinha do bairro. O spray castiga quem mal consegue pagar uma demão de tinta, mas recua diante da mansão com segurança na porta. Que diabo de rebeldia é essa?

Arquitetos e engenheiros gastaram anos projetando cada detalhe do viaduto da Borges. Não existe arrogância maior do que alguém decidir, sozinho, que a própria marca deva se sobrepor a um patrimônio coletivo de quase cem anos. É aí que desaba a retórica de que a pichação seria um ato de apropriação do espaço público: ora, o espaço é público justamente porque ninguém tem o direito de tomá-lo para si. 

PAULO GERMANO

Suco de atraso

No pódio dos sufixos ismo que conspiram contra um Brasil moderno, o patrimonialismo disputa a medalha de ouro. A palavra define a prática de encarar o ente público e as leis como propriedades das quais a autoridade pode usufruir a bel-prazer tão logo chegue a uma posição de poder.

As esdrúxulas quebras de sigilo de um jornalista do Maranhão e de sua fonte devido a reportagens envolvendo o ministro do STF Flávio Dino são um caso explícito de patrimônio coletivo - a Constituição de 1988 - confiscado por interesses pessoais. 

Nossa lei maior diz taxativamente em seu artigo 5º, inciso XIV, que é "resguardado o sigilo da fonte, quando necessário para o exercício profissional". Não há outra leitura, mas ainda assim o ministro Alexandre de Moraes autorizou a quebra de sigilo de um jornalista para chegar a sua fonte, um ex-secretário de Estado do Maranhão, e também violar seu sigilo. Patrimonialismo com corporativismo dá nisso.

Pois ambos os ismos se agarraram com tanta força ao Supremo que ministros chegam a comandar casos que envolvam a si, como o fez Dias Toffoli no mega Master escândalo antes de o STF ficar ruborizado, ou não veem nada de mal nas intenções de Daniel Vorcaro, rei do trânsito nas sombras em Brasília, ao fechar contrato de R$ 129 milhões com o escritório da esposa e filhos, como Alexandre de Moraes. 

O suco de patrimonialismo só é espremido porque os donos do poder convidam a rede de contenção para o festerê. É assim que a vanguarda do atraso toma conta do Congresso e avança sobre os topos das carreiras públicas por meio de benesses inalcançáveis por outros mortais.

Muitos se transformam em beneficiários do modelo patrimonialista porque assim o é desde os tempos coloniais. Em um belo dia, o sujeito busca um lugar para sua maleta no bagageiro sobre o assento 23C no voo para Brasília. No outro, está chamando jatinho como quem pede carro de aplicativo. Em um dia, ele está indo de táxi para o trabalho. 

No outro, o motorista o aguarda em um carrão preto e, prestativo, carrega sua pasta. Bastam algumas semanas para que essa autoridade esqueça o funcionamento das maçanetas, porque sempre haverá um bedel a lhe abrir as portas à frente. Para torcer as leis a seu favor, é só mais um passo na trilha de regalias.

Já houve um tempo em que ministros do STF faziam fila em aeroportos, tomavam táxis e conviviam com um país que não promove convescotes em Lisboa. Eram celebrados como guardiões do Estado democrático de direito. Agora, o tratamento conferido a uma rusga maranhense rompe mais um elo entre um STF já dilacerado em alas e o necessário distanciamento para fazer valer a Constituição. Convenhamos: o patrimonialismo não é a melhor forma de a Suprema Corte recuperar a credibilidade e a confiança dos cidadãos. 

MARCELO RECH 

 

15 de Agosto de 2026
OPINIÃO RBS

Largada para a eleição

Começa oficialmente neste domingo a campanha às eleições de outubro que definirão o próximo presidente do país, os governadores de 27 unidades federativas e representantes legislativos para Senado, Câmara dos Deputados e Assembleias Legislativas. De acordo com o calendário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os candidatos e partidos estarão liberados para ir às ruas e ocupar as plataformas digitais com o propósito de apresentar seus nomes e seus projetos aos 155 milhões de eleitores aptos a votar. É, portanto, um momento importante da democracia brasileira, caracterizado principalmente pela ampla e irrestrita liberdade dos eleitores para escolherem seus governantes e representantes políticos.

O Brasil ainda vive um clima de polarização no âmbito federal, comprovado por diversas pesquisas eleitorais que apontam empate técnico entre os candidatos mais cotados e altos índices de rejeição para ambos. Mas essa dicotomia também faz parte do jogo democrático, desde que não derive para a radicalização, o ódio e a violência. Essa, certamente, deve ser a principal preocupação da Justiça Eleitoral, dos órgãos de segurança pública e das lideranças políticas no momento em que os militantes partidários estão autorizados a propagar mensagens e a empunhar bandeiras e cartazes.

Nesse contexto, cabe ao eleitor o papel mais importante, que é o de identificar entre múltiplos pretendentes aos cargos em disputa quais as propostas mais responsáveis, factíveis e que melhor atendem às demandas coletivas da população. Informação, portanto, é a palavra-chave deste verdadeiro vestibular de democracia a que o país está novamente submetido. Mais do que nunca, numa época em que a tecnologia digital avança velozmente e a inteligência artificial mascara a realidade, o eleitor brasileiro precisa se manter atento para não ser ludibriado e para buscar informações verdadeiras que lhe permitam fazer as melhores escolhas políticas.

Para tanto, o caminho mais sensato é manter permanente ceticismo em relação às mensagens de ódio, às notícias pouco fundamentadas e aos ataques pessoais divulgados principalmente pela internet e pelas redes sociais - e, ao mesmo tempo, buscar a comprovação no jornalismo profissional e nos veículos de comunicação reconhecidos como responsáveis, com endereço e CPF, cumpridores da técnica da verificação e dos princípios éticos do ofício de comunicar.

Também é imprescindível que os potenciais eleitores evitem repassar mensagens falsas e se mantenham vigilantes em relação a manipulações, condicionamentos e ao assédio eleitoral, pois o exercício consciente da cidadania - mais do que intenções e ações dos ocupantes de cargos públicos - é o que leva um país a se desenvolver e um povo a realizar os seus ideais de liberdade, prosperidade e justiça. 


15 de Agosto de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Pesquisa indica que esta será a eleição do medo

Divulgada às vésperas do início da campanha eleitoral, a pesquisa Quaest que mostra o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) tecnicamente empatados na simulação de segundo turno indica que esta será também uma disputa de rejeições e uma eleição entre dois medos.

No segundo turno, Lula tem 43% das intenções de voto e Flávio, 40%. Respeitada a margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos, esse placar é quase o mesmo do medo dos eleitores. De acordo com a Quaest, 45% dos eleitores temem a volta da família Bolsonaro ao poder e 41% têm medo da permanência de Lula no Palácio do Planalto.

Os números são compatíveis com a rejeição dos dois candidatos. Neste quesito, Lula e Flávio também estão empatados: 54% responderam que conhecem Flávio e não votariam nele e 52% disseram o mesmo sobre Lula.

Nas intenções de voto, a novidade na Quaest em relação a ela mesma é que Flávio vem recuperando terreno e hoje a vantagem de Lula no primeiro turno é de sete pontos percentuais, fenômeno já detectado por outros institutos. Lula tem 38% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio, 31%. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais, significa que Lula pode ter entre 36% e 40% e Flávio entre 29% e 33%.

Como já se viu em outras pesquisas, o pelotão de baixo não consegue sair do chão. Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) têm 4%, Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante), 2%. Samara Martins (UP) tem 1% e os demais, zero. São eles: Edmilson Costa (PCB), Clariana Barão (DC), Hertz Dias (PSTU), Leonardo Avalanche (PRTB), Rui Costa Pimenta (PCO) e Wilson Grassi (Democrata). Brancos, nulos e eleitores que não pretendem votar somam 8% e os indecisos, 10%.

Um dado que o cidadão precisa prestar atenção é o da pesquisa espontânea. É aquela em que se pergunta ao eleitor em quem ele pretende votar, sem apresentar uma cartela com o nome dos candidatos. Nessa pergunta, que é das primeiras feitas ao eleitor, 51% responderam que não sabem. O que isso significa? Que a eleição ainda não está na cabeça do eleitor. Sem ver a lista com o nome dos candidatos, 25% citaram Lula e Flávio, 19%.

A pesquisa foi encomendada pela TV Globo em parceria com o jornal O Globo. A Quaest ouviu 2.004 pessoas entre 10 e 13 de agosto. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O número de registro da pesquisa é BR-06773/2026. _

Erechim fica em 1º no Ideb entre as 20 maiores cidades do Estado

Das 20 maiores cidades do Rio Grande do Sul, Erechim, no Alto Uruguai, conquistou o primeiro lugar no Ideb nos anos iniciais e nos finais do Ensino Fundamental. Nos iniciais, a média foi de 6,9. Nos finais, 5,8. A título de comparação, Porto Alegre ficou em último nesse ranking. A Capital aparece em 18º lugar na tabela porque há empates no 14º dos anos iniciais e no 16º dos finais entre São Leopoldo e Rio Grande. Qual o segredo de Erechim para um resultado tão expressivo? O prefeito Paulo Polis (MDB) tem a resposta na ponta da língua:

- Educação não é uma corrida de cem metros. É uma maratona. Exige continuidade. Em 2021, quando voltei à prefeitura, depois de quatro anos, retomamos projetos que tinham sido interrompidos. Aprovamos um plano de carreira que estimula a qualificação dos professores, adotamos os mesmos métodos dos colégios maristas e temos capacitação permanente pela Universidade Federal da Fronteira Sul. A merenda escolar é comprada de produtores da região e temos cinco nutricionistas para preparar o cardápio a ser servido para as crianças. _

O que leva Alcolumbre a destravar a pauta de projetos caros ao governo

Um dia depois de o presidente do PSD, Gilberto Kassab, vice de Ronaldo Caiado, ter dito que o centrão está com o presidente Lula e que Flávio Bolsonaro não tem chance na eleição, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, aceitou destravar pautas caras ao governo, como o fim da jornada 6x1. O que uma coisa tem a ver com a outra? Alcolumbre é um dos próceres do centrão e estava rompido com Lula.

Ambos reataram a relação. O senador sabe que votando ou não, Lula vai usar o trabalho do governo pelo fim da escala 6x1 na campanha. Então, melhor faturar dividendos eleitorais com tema que tem ampla aprovação dos trabalhadores. E Alcolumbre e Hugo Motta sonham com mais um mandato na presidência das respectivas Casas. Ficar bem com o líder das pesquisas é meio caminho andado para se cacifar. _

Manuela conquista título de doutora

Depois de anos dormindo tarde e acordando cedo para conciliar os estudos com as atividades políticas (mesmo sem mandato e sem disputar eleição desde 2018), a ex-deputada Manuela D?Ávila conquistou o título de doutora. Candidata ao Senado pelo PSOL, Manuela fez mestrado e doutorado em Políticas Públicas na UFRGS e defendeu tese sobre moderação de conteúdo na internet e a conformação de agenda no Brasil nas últimas duas décadas.

- Isso ninguém me tira - disse.

Nesse período, passou uma temporada nos EUA com a família, estudando, e criou o instituto E se Fosse Você?, destinado a estudar a violência na internet e a apoiar vítimas do ódio digital. Graduada em Jornalismo, escreveu cinco livros nos últimos anos, abordando violência de gênero, feminismo e maternidade. 

De R$ 1 mil a quase R$ 1 milhão declarados

Tem candidato que declarou ter exatos R$ 1 mil, enquanto outro informou quase R$ 1 milhão em bens. Estes são os patrimônios dos postulantes a governador(a) do Rio Grande do Sul, que aparecem nos registros das candidaturas na Justiça Eleitoral.

Na declaração, os concorrentes devem informar os elementos que constituem o patrimônio, como imóveis, veículos, aplicações financeiras, ações, participações em empresas e dinheiro em espécie.

O processo é feito pelo próprio candidato, que fica sujeito à análise da Justiça Eleitoral em caso de indícios de irregularidades. _

Total do patrimônio informado

Gabriel Souza (MDB) R$ 935.461,08

Juliana Brizola (PDT) R$ 376.137,78

Luciano Zucco (PL) R$ 709.304,00

Marcelo Maranata (PSDB) R$ 249.805,00

Priscila Voigt (UP) R$ 1.000,00

Rejane de Oliveira (PSTU) R$ 498.000,00

POLÍTICA E PODER

15 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Invasão terrestre é atacar PCC e CV?

Diante da fala do secretário de Guerra Pete Hegseth de que o governo dos EUA pretende realizar operações terrestres contra organizações do narcotráfico na América Latina, é tentador pensar em invasões em larga escala, como as de Granada e do Panamá, ou nas guerras do pós-11 de Setembro, no Afeganistão e no Iraque. Não seria assim.

O modelo estaria mais próximo de ações como a de 2026, que capturou Nicolás Maduro; a que capturou Manuel Noriega, em 1990; ou a incursão que matou Osama bin Laden, em 2011.

Mas, aqui, ideias são tão importantes quanto as possíveis operações. Hegseth anuncia a importação para a América Latina da lógica da Guerra ao Terror: grupos criminosos deixam de ser tratados como problema policial e passam a ser inimigos militares passíveis de localização e eliminação. A novidade é a possibilidade de os EUA participarem diretamente da execução dos alvos.

A partir disso, é possível imaginar uma ação americana contra o PCC e o Comando Vermelho. Isso não significa que Trump já esteja autorizado a bombardear o Brasil. A designação terrorista e o uso da força militar são diferentes.

"Ataques em terra" não significam necessariamente soldados avançando pelo território. Podem incluir bombardeios aéreos, drones ou mísseis contra alvos terrestres.

Outra medida plausível seria ampliar o bloqueio financeiro: congelamento de bens, sanções contra pessoas e empresas, bloqueio de transações e punições a bancos ou intermediários.

Também poderiam ocorrer ataques cibernéticos. Outra frente seria a vigilância de comunicações, do rastreamento de recursos, do compartilhamento de dados e imagens de satélite e da identificação de integrantes das facções.

Lideranças ou representantes do PCC e do CV que circulem por Paraguai, Bolívia, Colômbia, Equador ou outros países aliados poderiam ser alvos de operações conjuntas. Essa é uma possibilidade real, porque não dependeria da autorização brasileira.

Um laboratório, uma pista clandestina, poderia ser atacada no Equador ou na Colômbia, desde que o governo local autorizasse. O grupo seria brasileiro, mas a operação não ocorreria no Brasil.

Outra possibilidade seria a interceptação de lanchas ou cargas atribuídas às organizações em águas internacionais ou em territórios de países parceiros.

Incursão no Brasil seria o cenário mais extremo e, hoje, na minha avaliação, o menos provável. Sem autorização do Planalto, seria uma violação da soberania e abriria uma crise diplomática extrema, o que poderia levar ao rompimento das relações diplomáticas, o mais alto grau de degradação dos contatos entre países. 

Dom Jaime recebe honraria

O arcebispo de Porto Alegre e presidente da CNBB, cardeal dom Jaime Spengler, recebeu nesta semana a Ordem do Mérito do Trabalho. A honraria, entregue pelo Tribunal Superior do Trabalho, homenageia instituições e personalidades que se destacam pelas atividades ou serviços prestados à sociedade e à Justiça do Trabalho.

Entrevista - Edmundo de Carvalho Pinheiro

Presidente do Conselho Diretor da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU)

"Sem transporte público como espinha dorsal, cidades travam"

Edmundo de Carvalho Pinheiro, presidente do Conselho Diretor da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, defende uma política nacional de financiamento do transporte público como forma de ampliar os investimentos necessários para melhorar a qualidade do serviço. Durante a feira Lat.Bus 2026, em São Paulo, ele concedeu uma entrevista à coluna.

O passageiro deixou de estar no centro das discussões sobre transporte público?

Um dos grandes problemas que o setor apresenta nesse momento é a queda da demanda de passageiros por modos coletivos. Na pandemia, sofremos uma forte redução de demanda, mas essa demanda até hoje não foi recuperada. Estamos com 77,5% da demanda que existia de passageiros nas cidades brasileiras antes da pandemia. Esse fenômeno já vem acontecendo nos últimos 10 anos. 

A participação dos modos coletivos na matriz de mobilidade nos últimos 10 anos caiu de 45% para 30%. Entre os modos individuais, chama atenção as motocicletas, que saltaram de 1% para mais de 10% nesse período, trazendo uma série de consequências, por exemplo o aumento de acidentes.

Por que na Europa usam muito o transporte público e aqui é visto como algo inferior?

Tem uma frase do Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, que ficou famosa em todo o mundo: país rico é aquele no qual até o rico anda de transporte público, não que o pobre anda de automóvel. Tive a oportunidade, no mês passado, de coordenar uma comitiva em uma visita técnica a Barcelona, que é muito parecida com a minha cidade natal, Goiânia. 

São cidades que têm a mesma população, a mesma frota, mas há uma diferença. Barcelona, apesar de ser muito mais rica, tem mais pessoas andando de ônibus. Por que isso? Lá o transporte tem maior qualidade. Por que tem maior qualidade? Esse é o debate que estamos fazendo.

Em Porto Alegre, existe a polêmica sobre o uso de ar-condicionado. Quais os atributos para melhorar o transporte coletivo?

Há uma série. Conforto, com certeza, é um dos atributos importantes quando fazemos pesquisas de avaliação. O tempo também é algo fundamental para as pessoas. Segurança é um problema que, cada vez mais, tem sido apresentado. Hoje, as pessoas, especialmente as mulheres, têm insegurança para ir a um ponto (de ônibus) na madrugada. Também a confiabilidade, a regularidade, isso é muito importante. 

É um conjunto de atributos. A grande questão é que, para que você possa melhorar a qualidade, isso custa mais. E o transporte, como ele é para todos, você não pode aumentar o preço. Você precisa de um transporte de qualidade, que atenda até o rico, mas que seja acessível a qualquer cidadão.

O comportamento das pessoas mudou com a pandemia, principalmente com o teletrabalho. Ainda impacta?

A questão tecnológica contribuiu para a redução. Mas mesmo com o home office, continuamos vendo problemas graves de engarrafamento, de sinistralidade, com problemas ambientais, com os automóveis tomando espaços públicos, tomando praças. Exatamente essa é a questão: mesmo que mude o hábito das pessoas, se não tivermos um transporte público como espinha dorsal da mobilidade das cidades, elas vão travar. Eu diria que vão até colapsar. 

Temos de seguir o exemplo daquelas cidades que estão conseguindo reduzir a quantidade de carros nas ruas, aumentando as áreas verdes e de convívio. Aquilo que alguns urbanistas estão defendendo: cidade para pessoas, que vai contra o modelo que temos no Brasil, no qual grande parte do custo da sociedade está indo para financiar indiretamente o automóvel. Na medida que você tem que colocar recurso público para fazer um viaduto, você está destinando recursos de toda a sociedade para atender a uma parcela. Isso deveria ser para todo o transporte público. _

INFORME ESPECIAL

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

12 de Agosto de 2026
CARPINEJAR

Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes

Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora de produção nacional. A adesão é instantânea, quase inexplicável, numa bariátrica da consciência coletiva.

A aquisição dos medicamentos cresceu 23,2% no primeiro semestre deste ano. Somente no mês de junho, foram comercializadas 368 mil unidades. A pílula azul desbravou o caminho mercadológico para essa onda de procura. Quem diria: o responsável por elevar a libido gerou o rascunho da aceitação pública dos inibidores de apetite. Um para mais, outro para menos.

As canetas de semaglutida e tirzepatida operam na plataforma financeira como o Viagra em 1998: uma explosão de vendas impulsionada por consumidores dispostos a pagar do próprio bolso pelo medicamento, sem nenhuma cobertura de planos de saúde ou subsídio do governo.

Surgiu até uma nova expressão para a magreza súbita: "rosto de Ozempic". Quando o rosto murcha rapidamente. É uma epidemia. Todo mundo possui um conhecido ou familiar que usa um dos remédios.

Eles ajudam a neutralizar a fome porque imitam hormônios do intestino que mandam sinais para o cérebro. Provocam menos vontade de comer, retardam o esvaziamento do estômago e intensificam a sensação de saciedade.

Minha apreensão não é em relação a eles, mas à perigosa automedicação. Não é possível aumentar as doses por bel-prazer, tentando acelerar o processo para fazer bonito em alguma festa ou durante uma viagem.

Tomar remédio por conta é uma temeridade. Pode causar dor abdominal, constipação, diarreia, vômitos, náusea e fadiga, além de consequências adversas que exigem acompanhamento médico.

Agora quem sofre com os efeitos colaterais da disseminação das canetas são os restaurantes. Não sei qual será a sina dos rodízios, em especial churrascarias, pizzarias e galeterias. Banquetes livres estão ameaçados pela contenção da gula.

Não haverá mais sentido para o trânsito de espetos, para a abundância de massas. Perde-se o folclore de abrir o cinto para insistir em mais uma fornada e caber mais um pouco.

Uma pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, realizada com 1.417 estabelecimentos em todo o país, revelou que 61% dos endereços perceberam mudanças no consumo. Caíram drasticamente os pedidos de pratos principais e sobremesas.

Diminuiu, e muito, a quantidade de comida. As taras destinadas a pesar a refeição nos buffets a quilo resultam absolutamente modestas. A porção correspondente a uma só pessoa passou a ser dividida. Existe uma tendência por uma alimentação mais leve.

Ocorreu, também, a debandada considerável de clientes que almoçavam ou jantavam fora. Numa enquete feita pelo banco UBS com pacientes que utilizam medicamentos análogos de GLP-1, constatou-se que um terço deles prefere comer em casa.

Proprietários do setor gastronômico começam a pensar em reduzir as guarnições do serviço à la carte. Para evitar o desperdício. Para frear os gastos.

Apenas espero que não se repita o que aconteceu nos supermercados, com a manutenção dos preços em embalagens menores. Sabão em pó, amaciante e papel higiênico frequentemente apresentam queda de volume por valores semelhantes aos de antigamente. Diversos produtos com 1 litro acabaram achatados para 900 ml, 800 ml ou menos, numa prática chamada de reduflação.

Não mereço que os pratos emagreçam junto. Não tenho culpa. Continuo com a ansiedade da infância. _

CARPINEJAR

12 de Agosto de 2026
MÁRIO CORSO

Expresso 2222

Nossa estimativa de voo é de três gerações. Verifique se seu passaporte intergaláctico está válido.

Em caso de colisão com microasteroides, máscaras de oxigênio cairão automaticamente na sua frente. Coloque primeiro a sua antes de colocar no seu pet. Trave bem seu capacete antes de sair da nave.

Desligue seus aparelhos eletrônicos até ultrapassarmos o cinturão de Kuiper. Último posto de combustível antes de Andrômeda. Aproveite a promoção de energético de íons de tório para pagamento à vista.

Nas dobras do espaço/tempo, evite acenar para seus eus do passado. Faça refeições leves antes de atravessar áreas de turbulência eletromagnética.

Não abra o cinto de segurança quando a nave estiver próxima da velocidade da luz. Use protetor de raios cósmicos. É vedada a entrada de não humanoides na cabine da espaçonave.

Em caso de pane do sistema de gravidade artificial, agarre-se às boas lembranças.

Nossos banheiros são equipados com detector de fumaça. Passageiro pego fumando ficará na estação órbital, ou no planeta mais próximo. Não use maquiagem dentro da cabine de hibernação.

Evite soluçar ou espirrar durante o teletransporte, você pode ser duplicado. Em caso de duplicação, deve ser adquirida uma nova passagem.

A bagagem despachada pode chegar antes de você ter nascido. A empresa não se responsabiliza por paradoxos de entrega. Em caso de colisão com buraco de minhoca, mantenha a calma, você chegará antes de ter saído.

Objetos de mais de três dimensões devem ser despachados. Se notar o comandante em pijamas é porque o piloto automático está ativado. Se notares o piloto automático em pijamas, favor acordar o piloto.

Em caso de morte de passageiro, a família não ganha estorno do bilhete, apenas das refeições não consumidas. É gratuita a ejeção do corpo, desde que preenchido o formulário da escolha: ser arremessado em direção à alguma estrela, ou buraco negro. Lembramos que é proibido enterro em asteroides.

É proibido circular com pets sem colar gravitacional. A companhia não se responsabiliza por danos causados por fraldas de hibernação mal ajustadas. Taxa de limpeza será cobrada à parte. O comboio parte hoje de Bonsucesso e chega depois do ano três mil. 

MÁRIO CORSO

12 DE AGOSTO DE 2026
OPINIÃO RBS

A desconfiança como alerta

A mais recente pesquisa Genial/Quaest sobre a confiança dos brasileiros nas instituições públicas e privadas do país, divulgada no último domingo pelo jornal O Globo, traz subsídios valiosos para os candidatos a cargos públicos na próxima eleição, mas também para os atuais integrantes da administração do país e até para lideranças de organizações privadas. 

Consideradas naturais limitações técnicas de um levantamento por amostragem (2.004 pessoas ouvidas), o resultado indica claramente que as principais instâncias dos três poderes - a Presidência da República, o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional - continuam sendo vistas com preocupante descrédito por parcela expressiva da população brasileira. É um sinal de alerta que precisa ser considerado: a desconfiança persistente nas instituições públicas corrói a democracia e abre espaço para o autoritarismo.

Um aspecto extremamente significativo da sondagem é a aparição do Pix como instituição mais confiável dos brasileiros, com 80% de indicações. O sistema de pagamentos instantâneos instituído pelo Banco Central - e questionado pelo atual governo norte-americano como concorrência desleal às empresas de cartões de crédito - tem o apoio majoritário da população. 

Por quê? Por sua praticidade e eficiência e também por oferecer uma utilidade essencial para os usuários, como deveriam ser todos os serviços públicos. No detalhamento, a pesquisa demonstra também que o Pix detém a confiança de pessoas de todos os segmentos do espectro ideológico.

Depois dele, com alto índice de confiança na visão dos brasileiros entrevistados, aparecem a Igreja Católica (76%), a Polícia Militar (75%), os militares/Forças Armadas (70%) e os bancos (63%). Só então surgem instituições da estrutura administrativa: Presidência da República (57%), STF (50%) e Congresso Nacional (49%). 

A imprensa também é colocada nesta faixa pelos brasileiros consultados, com 50% de aprovação, indicativo de que precisa continuar investindo em precisão, transparência e credibilidade. Nas últimas posições do novo ranking aparecem os partidos políticos (44%) e as redes sociais (41%).

Cabe considerar que as instituições políticas, embora mal cotadas, apresentaram leve melhora em relação ao levantamento anterior do mesmo instituto, realizado em 2023. Mas o sistema político brasileiro carece de reformas estruturais aprofundadas para que os cidadãos passem a confiar mais nos seus representantes, com ações efetivas de aumento da transparência orçamentária, respeito às regras democráticas, combate à corrupção e prestação de serviços essenciais.

Aferições sistemáticas como o recente levantamento comprovam que todas as instituições nacionais - públicas e privadas - têm margem para aperfeiçoamento. Indicam, ainda, que os brasileiros precisam exercer melhor os seus direitos de cidadania, não apenas cobrando honestidade e eficiência dos entes políticos, mas também participando ativamente da vida do país - informando-se adequadamente, votando com consciência e acompanhando atentamente o trabalho dos seus representantes na administração pública. 

OPINIÃO RBS

12 de Agosto de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Não haverá vice decorativo nos próximos quatro anos no RS

Ganhe quem ganhar a eleição de outubro, o Rio Grande do Sul não terá o que Michel Temer chamou de "um vice decorativo". Pelo perfil dos companheiros de chapa de Gabriel Souza, Juliana Brizola, Luciano Zucco e Marcelo Maranata, nenhum é do tipo que se contenta em ganhar R$ 29,5 mil (brutos) para ficar em casa esperando o titular se afastar para assumir o cargo.

Ex-secretário do Desenvolvimento, Ernani Polo (PSD) já tem até missão definida para o caso de Gabriel se eleger governador. Será ele o interlocutor com os setores produtivos, como já vem ocorrendo na campanha, podendo retornar à secretaria, repetindo o que fez Ranolfo Vieira Júnior no primeiro governo de Eduardo Leite, quando foi secretário da Segurança. Outro exemplo é o do vice-presidente Geraldo Alckmin, que até março era ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.

O vice de Juliana, Edegar Pretto (PT), é mais experiente do que ela e estaria concorrendo a governador se não fosse o acordo pelo qual o PT abriu mão da candidatura própria para apoiar o PDT. De perfis diferentes, Pretto já vem representando a chapa em setores onde ele tem mais trânsito ou quando a candidata prefere não comparecer, como ocorreu na segunda-feira na Transposul. Caso Juliana seja eleita, Pretto terá papel central no governo, repetindo o que ocorreu com Miguel Rossetto, vice de Olívio Dutra, que tinha gabinete na ala residencial do Piratini.

A deputada estadual Silvana Covatti (PP) também é bem mais experiente do que Zucco, seu companheiro de chapa. Ex-presidente da Assembleia e ex-secretária da Agricultura, Silvana é uma mulher que precisará ter um papel no governo, pelo que o PP representa na composição da aliança. Zucco tem dito que vai montar um secretariado mais técnico, com pessoas capacitadas na área em que vão atuar. Não seria a Agricultura a área de Silvana, mas pela sua biografia também não pode ser um gabinete sem trabalho efetivo.

Com perfil de atuar na linha de frente

Maranata escolheu inicialmente uma vice acostumada a colocar a mão na massa, a produtora rural Betty Cirne Lima, mas ela acabou cedendo ao apelo do governador Eduardo Leite e dos diferentes setores do agro para continuar à frente do Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio, como uma espécie de prefeita da Expointer. Maranata então puxou Cláudio Diaz, que seria candidato ao Senado, e fez dele seu vice. Pelo perfil, Diaz é um homem da linha de frente e não aceitaria ser apenas o substituto eventual. _

"Uma pedra em cima" das divergências com o enteado

O interesse político falou mais alto do que as rusgas pessoais entre o candidato do PL a presidente, Flávio Bolsonaro, e a ex- primeira-dama Michelle Bolsonaro, sua madrasta.

Ontem, Michelle enfim se encontrou com Flávio, tirou fotos, gravou vídeos para as redes sociais e disse ter colocado "uma pedra em cima" das divergências com o enteado.

É cedo para falar em reconciliação plena. Ela diz que aceitou o pedido de desculpas de Flávio, mas não esqueceu a forma como foi tratada. O mais preciso é falar em trégua.

Esse foi o primeiro encontro entre os dois, depois de levantarem a bandeira branca.

Questionada sobre a campanha, disse que não deve viajar pelo Brasil com Flávio porque precisa cuidar do marido, Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar. _

Em busca de acesso a mais produtores

Na tentativa de ampliar o acesso dos produtores rurais às medidas de renegociação de dívidas anunciadas pelo governo federal, o governador Eduardo Leite expôs ontem ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, em Brasília, sua preocupação com a regulamentação que, no formato sugerido, atenderia apenas cerca de 10% dos agricultores.

Leite aproveitou para avançar nas negociações para adesão ao Propag, e sinalizou que o Estado deve oferecer cerca de R$ 20 bilhões em créditos de receitas futuras como ativos para amortizar o total da dívida. A divergência entre os dois se dá a respeito do índice de correção. _

Campanha nas ruas

Será em Porto Alegre a largada da campanha eleitoral dos principais candidatos ao governo e ao Senado, domingo.

O roteiro de Luciano Zucco (PL) deve começar pelo comitê em Porto Alegre, na Rua Voluntários da Pátria, seguido de mobilização em algum ponto da Capital, e depois seguir em direção a algum município da Grande Porto Alegre.

Juliana Brizola (PDT) fará caminhada e ato no Brique da Redenção, acompanhada de Edegar Pretto e dos candidatos da aliança ao Senado, Manuela D?Ávila (PSOL) e Paulo Pimenta (PT).

Gabriel Souza (MDB) deverá começar a campanha com um "adesivaço" na Capital, com a participação dos candidatos ao Senado da aliança, Germano Rigotto (MDB) e Frederico Antunes (PSD).

Marcelo Maranata (PSDB) ainda não definiu a agenda. _

Médicos do IPE Saúde terão reajuste

A partir de 1º de setembro, os honorários médicos pagos pelo IPE Saúde serão reajustados para se aproximar das tabelas dos principais planos de saúde. Consultas médicas para quem se credenciou como pessoa jurídica, por exemplo, passam para R$ 121. Para os médicos cadastrados como pessoas físicas, são R$ 84. Visitas médicas hospitalares a pacientes internados vão para R$ 60. Os valores de coparticipação pagos pelos segurados permanecem os mesmos. _

Vereador terá de remover vídeo

O vereador de Porto Alegre Jessé Sangalli (PL) terá de remover vídeo publicado nas suas redes sociais onde acusa o governo estadual de fazer chantagem eleitoral.

Segundo o parlamentar, Eduardo Leite e Gabriel Souza estariam exigindo apoio à candidatura do emedebista em troca da liberação de recursos para obras de reconstrução. Como não apresentou provas, a Justiça Eleitoral determinou a exclusão do conteúdo. _

POLÍTICA E PODER

12 de Agosto de 2026
EM FOCO

EM FOCO

Participação de votantes entre 16 e 17 anos no processo eleitoral havia batido recorde em 2022, com mais de 80 mil pessoas. No pleito deste ano, só 54,7 mil estão aptos a ir às urnas. Movimento também foi observado no país

Número de eleitores adolescentes cai 30% no Estado

O número de adolescentes aptos a votar no Rio Grande do Sul em outubro caiu cerca de 30% em comparação com as eleições gerais de 2022. Conforme estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), são 54.702 eleitores de 16 e 17 anos no Estado. Em 2022, eram 80.044. Embora a população tenha encolhido nessa faixa etária no período, a queda no número de eleitores é maior.

De acordo com a Secretaria Estadual de Planejamento, Governança e Gestão (SPGG), a projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que o Estado tem 10% menos pessoas de 16 e 17 anos em 2026 do que tinha em 2022. O movimento também foi observado nacionalmente.

Nas eleições gerais passadas, eram cerca de 2,1 milhões de jovens aptos a votar em todo o país, número mais alto da história.

Já na deste ano, serão 1,6 milhão, retração em torno de 22%.

O voto só é obrigatório a partir dos 18 anos. Conforme a professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFRGS Jennifer Azambuja de Morais, que estuda a participação de jovens na política, a falta de interesse desse grupo pela política institucional é histórica.

Entre 2018 e 2022, houve um aumento após uma campanha da Justiça Eleitoral.

Outros fatores incluem a falta de representatividade entre os políticos, que são, em sua maioria, adultos mais velhos, e o desencanto com o sistema político.

Embora não seja nova, essa realidade é reforçada pelas ondas de polarização e pelo processo de informação e comunicação via redes sociais. O que no passado levou a protestos nas ruas, conforme Jennifer, hoje gera apatia.

- O engajamento online é diferente do presencial. O jovem é muito engajado nesses espaços, nas redes sociais, mas isso também é um fator que diminui (a participação nas eleições) - observa Jennifer.

A professora aponta ainda que jovens de famílias com rendas mais elevadas tendem a ter cerca de 10% a 15% mais participação:

- As escolas privadas trazem mais o debate político em sala de aula. E os pais, às vezes, também falam mais, colocam mais a política como algo central para a resolução de problemas. Adolescentes e jovens de classe mais baixa estão vivendo tantos problemas que a política acaba ficando mais afastada deles. _ Gabriela Plentz

Grupo acima dos 60 cresceu

Na direção oposta, o eleitorado acima de 60 anos vem aumentando. De acordo com o TSE, o número de eleitores nessa faixa etária aumentou 13% entre 2022 e 2026 no Estado, percentual ligeiramente superior ao crescimento da população nessa mesma fase da vida (11%).

A tendência é a mesma no plano nacional. Para o cientista político Rodrigo Gonzalez, o fenômeno do envelhecimento serve como elemento de mobilização das pessoas mais velhas, em questões como aposentadorias e saúde, levando a uma maior participação:

- Hoje, uma pessoa com 65 anos ou mais tende a ser muito mais ativa do que há 30 ou 40 anos, até mesmo por aumento do período de trabalho ativo e aposentadoria tardia. Em várias partes, como Reino Unido e Espanha, os mais velhos estão mais presentes em manifestações políticas do que os jovens.

A maior fatia do eleitorado gaúcho está na faixa entre 40 e 49 anos, assim como no nível nacional. As mulheres representam 53% e os homens, 47%.

No total, são 8,5 milhões de pessoas aptas a votar no RS. Ainda segundo o TSE, o Estado tem 21.022 eleitores com cem anos ou mais (veja gráfico). Mas o Censo de 2022 apontou 1.536 pessoas centenárias no RS. 

Em nota, o TSE afirmou que utiliza metodologia distinta do IBGE e que a divergência pode se relacionar a "eventuais inconsistências na data de nascimento registrada no cadastro eleitoral" ou a "situações em que o falecimento da pessoa ainda não tenha sido comunicado oficialmente à Justiça Eleitoral". 

sábado, 8 de agosto de 2026

Um ponto de equilíbrio no máximo de tensão

O que estimula pessoas ditas "normais" a escolher profissões eletrizantes e se tornarem viciadas em adrenalina? "Aprenda com os erros dos outros. Você não consegue viver tempo suficiente para cometer todos por si mesmo." (Eleanor Roosevelt)

Falando aos mais jovens sobre as barreiras que desafiam nosso progresso profissional, foi inevitável falar do medo de errar. Não daquele receio prudente que nos faz olhar para os dois lados antes de atravessar a rua, mas do medo que amordaça o projeto de ambição. Aquele que sussurra ao ouvido que é melhor nem tentar, porque a queda é pública e o julgamento é implacável. 

No entanto, quando olhamos para trás, percebemos que as médias e grandes conquistas que eventualmente acumulamos não representaram a ausência do medo, mas a nossa capacidade de administrá-lo.

Viver, afinal, é um exercício de observação. E claro que identificar o que significa a profilaxia do erro, a partir da experiência de quem só pretendia acertar, é um exercício de inteligência e principalmente de humildade, e há uma sabedoria serena nisso. Olhar o tombo alheio não para julgar, mas para ajustar a própria rota, é o que nos permite avançar sem pesadelos na madrugada.

Ainda assim, não importa a atividade ou a exigência de treinamento para exercê-la com competência, a nuvem negra do erro sempre nos perseguirá. Ela é a nossa sombra mais fiel e uma régua implacável na identificação de perfis humanos.

Há os que erram e, assumindo o erro, se diferenciam; os que não se dão conta que erraram e se candidatam a repetir indefinidamente; e os que anunciam que nunca erraram, e todos entendem a mensagem: eles nunca fizeram nada.

O preço assustador desta sina, evidentemente, se multiplica em atividades de risco. Submete o piloto, o motociclista e o cirurgião a níveis de concentração e estresse que o bibliotecário, o alfaiate ou o jardineiro nem imaginam. Enquanto uns buscam o silêncio das páginas ou a precisão mansa da tesoura, outros precisam domar o caos em frações de segundo. 

O que estimula pessoas ditas "normais" a escolher profissões eletrizantes e se tornarem viciados em adrenalina - o thrill seeking, como lembrou o professor Nardi - ainda carece de entendimento da psicologia e da neurobiologia. Mas a verdade é que os protagonistas desse estilo de vida preferem não polemizar. Para eles, e talvez só para eles, isso - e apenas isso - significa VIVER.

Eles buscam para chamar de felicidade, algum tempo de sossego para calibrar a gana de fazer e juram que pode existir alguma calmaria no olho do furacão. Não se incomodam com aqueles, também considerados normais, que se sentem genuinamente realizados na inércia que abomina sobressaltos. Claro que há espaço no mundo para o lago calmo e o mar revolto.

Entretanto, a grande tragédia pessoal não é escolher a segurança do lago, mas desejar o oceano e deixar-se amordaçar pelo medo de naufragar. O erro não é o oposto do sucesso: é o pedágio inevitável para quem se recusa a passar pela vida como um mero espectador e define a felicidade como um ponto de equilíbrio no máximo de tensão. 

Quem convive com a alta tensão sabe que o erro está espreitando, mas sabe também que a paralisia dói muito mais do que a queda. No final das contas, a audácia não é a falta de medo; é a certeza de que a ambição de se sentir vivo é maior do que o temor de errar, e nesse desassossego saem de casa todos os dias, cedo da manhã, cantarolando. 

J.J. CAMARGO 

 

08 de Agosto de 2026
MARTHA MEDEIROS

Gente grande

Não importa a idade que temos, há sempre um momento em que é preciso chamar um adulto. Publiquei essa frase em alguma crônica do passado, inspirada por uma conversa que tive, há muito tempo, com uma amiga. 

Ela me contou que estava no quarto do hospital onde o pai estava internado. De repente, o quadro dele piorou. Ela tinha cerca de 35 anos, na época. Virou-se para a prima que a acompanhava e disse: "precisamos chamar um adulto". O episódio havia transcorrido meses antes e, ao me descrever a cena, rimos como se fosse um esquete de comédia.

Comédia é coisa séria.

Quando é que nos tornamos um adulto? Convenções etárias determinam a idade em que se pode votar, dirigir um carro, concorrer a um cargo público, mas não há uma idade que indique que ficamos aptos a arcar com as consequências de viver em um mundo onde tudo é impermanente. Hoje você está segura em um casamento, amanhã descobre que seu marido se envolveu com outra. 

Hoje você está planejando uma viagem com as amigas, amanhã cai em um golpe que raspa as suas economias. Hoje você está em Paraty, celebrando a literatura com colegas escritores, na noite seguinte está dentro de uma ambulância acompanhando sua mãe que está sendo levada ao hospital com urgência.

Diante do desespero, dá mesmo vontade de chamar um adulto, que em nossa imaginação é alguém com sangue frio para tomar as decisões certas, aquelas que reverterão o pesadelo. O medo nos devolve a um estado infantil, em que só queremos segurar a mão de alguém que cuidará de tudo.

Etarismo contra nós mesmos: acreditar que não somos capazes de lidar sozinhos com as rasteiras que a vida nos dá. E de rasteira a vida entende.

Quando você chama alguém para dividir um problema, não está sendo fraco, e sim, adulto: não precisamos decidir tudo pela nossa cabeça ou sofrer sem um ombro por perto. Pedir ajuda revela saúde mental. Bem diferente de quando se "chama um adulto" a fim de passar adiante o impasse, declarando-se inábil para assumir a responsabilidade das próprias ações. 

Quando não há maturidade emocional, você pode ter 35, 52, 64, 88: não cresceu. A infantilidade vitalícia é um local confortável e ilusoriamente seguro, onde todos atendem suas necessidades sem que você precise arriscar seu pescoço, mas é uma existência de muletas, que nunca conhecerá o prazer de andar com as próprias pernas e evoluir através de seus erros e acertos.

Nos últimos meses, foram incontáveis as vezes em que eu gostaria de ter chamado um adulto para resolver questões de gente grande. Nas horas mais difíceis, chamei. E, para meu secreto orgulho, veio eu mesma em meu socorro. Que vitória histórica é descobrir que sempre se pode crescer um pouco mais. 

MARTHA MEDEIROS


08 de Agosto de 2026
SARA BODOWSKY

O conteúdo desta coluna reflete a opinião da autora

Nova fase - Um clássico paulistano renasceu

Estive em São Paulo na última semana com um olhar muito atento ao que pudesse interessar a vocês, meus leitores - e também a quem consome meu conteúdo em outras mídias. Vou dividir bastante com vocês aqui na coluna durante o mês de agosto.

Mas já adianto que um dos lugares que visitei foi a Galeria Metrópole (Av. São Luís, 187), no centro da cidade, junto ao icônico Copan (que merece uma página dedicada, inclusive!). Apesar de sofrer ainda com a insegurança típica dos grandes centros, especialmente com o roubo e furto de celulares, a região central de São Paulo está revivendo de maneira muito interessante.

A Galeria Metrópole é um exemplo desse renascimento. Inaugurada nos anos 1960, na Praça Dom José Gaspar, na República, ela já foi um dos endereços mais elegantes da capital paulista: tinha cinema para mais de mil pessoas, boate e bares frequentados por universitários, intelectuais e nomes como Chico Buarque.

O prédio, ícone da arquitetura modernista projetado por Gian Carlo Gasperini e Salvador Candia, abriga hoje lojinhas de design, ateliês, brechós e muito verde no paisagismo interno. Tem comida peruana de verdade no Rinconcito Peruano - provei um ceviche e um arroz chaufa incríveis - e sorvete de sabores nordestinos, na Cangote, além de uma gastronomia super diversa. Aos domingos, uma feirinha com arte, brechó e comidinhas lota os corredores, reunindo de forma democrática vários públicos paulistanos.

No @SaraBodowsky tem um vídeo com o que registrei na Galeria Metrópole. _

SARA BODOWSKY

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