sábado, 31 de outubro de 2026

30/10/2026 - 13h19min
Martha Medeiros

Mãe é uma casa cheia, inclusive no sentido metafórico

Conexão se mantém através de conversas silenciosas, às vezes divertidas

Algumas pessoas me perguntam como estou, solidárias pela dor que imaginam que eu esteja sentindo. Quase me envergonho ao responder que venho lidando bem com a ausência da minha mãe, que faleceu há três meses, aos 88 anos. Na ocasião, fui alertada de que a saudade me corroeria para sempre. Ninguém me preparou para a suavidade. Fomos a melhor amiga uma da outra, almoçávamos juntas quase todos os dias, as confidências eram habituais e as gargalhadas, mais ainda. 

Estivemos grudadas em seus últimos meses de vida, nada ficou por dizer ou escutar, nenhum fio solto, nenhuma mágoa represada. Não vou inventar uma dor que não sinto diante de um ciclo concluído de forma tão amorosa.

Atualmente, meu irmão e eu temos ido ao apartamento onde ela morava, pois há muito a fazer – e desfazer. Nossa mãe era do tipo que guardava tudo. Nossos cartões do jardim de infância, carnês de lojas que nem existem mais, maquiagens e cremes vencidos, caixas de biscoito de Natais passados, bolsas que usou no verão de 1972. Semana passada doei os seus livros, que não eram poucos, e encontrei dentro de um deles uma pequena quantia guardada em um envelope se esfacelando – com data de 1924! Deve ter pertencido ao meu avô. Alô, numismáticos. Interessa uma nota de 500 réis em bom estado?

Pendurados nos cabides, reconheço o belo vestido verde que usou em alguns casamentos e uma camisa de couro que herdei e que ainda traz o seu cheiro. Na parte de cima do armário, encontramos uma dezena de gravuras antigas que nunca foram emolduradas.

Atrás das portas, desenhos infantis colados com durex e recortes de colunas de jornal. No banheiro, estoque de lenços umedecidos e remédios que nem chegaram a ser abertos. E fotos da família por todos os aposentos: porta-retratos nas cabeceiras, cômodas, mesinhas, além de uma coleção desafiadora de álbuns.

Minha mãe era isso: uma casa cheia. Inclusive no sentido metafórico. Uma mulher plenamente habitada por si mesma.

Dezenove dias depois que ela faleceu, fiz aniversário. Fui sozinha a seu apartamento apenas para me sentar em seu sofá e sentir sua presença. Rezei, enxuguei as lágrimas e saí de lá usando o anel que ela não tirava do dedo – meu presente. Hoje, as sessões de desapego não invocam comoções, dramas, abalos. A conexão se mantém através de conversas silenciosas, às vezes divertidas: “Mãe, não acredito que tu guardaste o santinho da minha primeira comunhão”. Em algum lugar, ela me mostra a língua

Prometi às minhas filhas que farei um detox aqui em casa para que não tenham que, um dia, passar pelas mesmas escavações arqueológicas. Elas observam minhas estantes e gavetas atulhadas, se entreolham e fazem de conta que acreditam. Até parece que alguma mãe se esvazia.

 Zaffari inicia estudo do projeto com torre de 130 metros onde era a FDRH em Porto Alegre

Terreno foi obtido em permuta com o governo do Estado com a construção de um presídio como contrapartida

Terreno do Grupo Zaffari fica atrás do Shopping Praia de Belas.

Isadora Terra / Grupo RBS
No espaço, planeja-se erguer cinco prédios.

Isadora Terra / Grupo RBS

No local, funcionava a antiga Fundação para o Desenvolvimento de Recursos Humanos (FDRH), extinta em 2018.
Isadora Terra / Grupo RBS
O Grupo Zaffari conseguiu o terreno em permuta com o Estado do Rio Grande do Sul.
Isadora Terra / Grupo RBS
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A pequena movimentação no antigo terreno da Fundação para o Desenvolvimento de Recursos Humanos (FDRH), em Porto Alegre, já chamou a atenção de leitor da coluna. O espaço fica na Avenida Borges de Medeiros, atrás do Praia de Belas Shopping, e gera expectativa há anos sobre algum empreendimento do Zaffari, dono da área. Questionado pela coluna, o grupo informou, por nota, estar realizando estudos para "desenvolvimento do projeto que será implementado no local". 

O plano é construir cinco prédios, entre eles uma torre de 130 metros de altura, que se tornaria a mais alta de Porto Alegre. Outras duas edificações teriam 100 metros, enquanto as demais alcançariam 85 e 61 metros. E, claro, está previsto um supermercado. 

O projeto arquitetônico já foi aprovado pela prefeitura, mas ainda não passou pelo processo de licenciamento que autoriza o início da obra, informou a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus).

Torre mais alta do projeto terá 130 metros.

Já o estudo de Viabilidade Urbanística (EVU) foi aprovado pelo Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (CMDUA) em 2024. Na época, o Plano Diretor limitava em 52 metros a altura na região. Agora, novas regras urbanísticas passaram a permitir construções de até 130 metros em áreas do Centro Histórico, do 4º Distrito e em partes dos bairros Cristal e Praia de Belas.

Em tempo, o terreno foi obtido pelo Zaffari em permuta com o governo do Estado. Em contrapartida, a rede construiu a Penitenciária Estadual de Porto Alegre, entregue em 2018, com investimento de R$ 24 milhões.

Confira as principais notícias de empresas dos últimos dias. Assista ao programa Pílulas de Negócios, da coluna Acerto de Contas. Episódio desta semana: licenças da CMPC, indústria se afasta do rio, safra cheia e R$ 60 milhões para inovar

Coluna Giane Guerra (giane.guerra@rdgaucha.com.br)

Com Isadora Terra (isadora.terra@zerohora.com.br) e João Pedro Cecchini (joao.cecchini@zerohora.com.br)

 Peço desculpas aos meus vizinhos

Toda casa dos sonhos cobra um pedágio antes de ficar habitável

Júlio Cordeiro / Agencia RBS
Não há como protestar contra as marteladas cedo da manhã ou tarde da noite.

Eu peço desculpas aos meus vizinhos pelo transtorno da minha reforma, que já passa de um ano e não acaba. Posso dizer que sei exatamente o que estão sofrendo, porque moro embaixo do apartamento que comprei.

Escuto a britadeira, a quebra das paredes, a troca do piso, e é um inferno. Não tem como trabalhar de home office, ou receber visitas, ou sequer existir.

Devo ser o raro condômino que é o algoz e a vítima de maneira simultânea. Diferentemente de outras construções que enfrentei na vizinhança e que me atormentaram, que tiraram o meu sossego, não posso interfonar para o porteiro e suplicar para que se pare o barulho. Sou o responsável. Não há como protestar contra as marteladas cedo da manhã ou tarde da noite. Venho vivendo em contagem regressiva. 


Vou enlouquecer com a transformação, porque estou no meu próprio subsolo. Atingi a dupla personalidade de reclamar de mim nas reuniões mensais do prédio. Quase redigi um abaixo-assinado para me desalojar dali.

Só lhe dou um conselho: ao adquirir um imóvel, que ele esteja pronto. Não caia na tentação de juntar ambientes e modificar a planta radicalmente. Pague mais para se incomodar menos. Pague mais para pagar menos no futuro.

O prazo da reforma, mesmo a mais prudente, mesmo a mais ajuizada, mesmo a mais planejada, é uma ficção. Se o arquiteto prevê seis meses, triplique a duração. Aplique o raciocínio no orçamento.

A execução não acontece conforme o esperado, pois a residência é um organismo autônomo. É comum encontrar infiltrações, fiações comprometidas ou cupins que não estavam no traçado original. A marcenaria e as pedras, por exemplo, apresentam uma gestação particular, e a entrega frequentemente atrasa por questões de logística, retardando as demais etapas.

Você parte com a intenção de adaptar uma mínima fachada, ajustar um detalhe, e no fim é convencido a derrubar tudo e recomeçar do zero.

Quanto mais gasta, mais aumentam as expectativas para que fique bom, e mais você recusa gambiarras. Diante do esforço empenhado, não vai querer algo de qualquer jeito, sem capricho, pela metade.

É um jogo de compensações um tanto inconsequente. Você não admite que a sua falência familiar não resulte na casa da sua vida.

Não há dia em que eu não faça um Pix para os mais estapafúrdios CNPJs. Minha conta atira para todos os lados. Nem consigo memorizar os destinatários. 


Você se vê obrigado a escolher o que jamais pensou ser relevante, o que apenas usava de modo involuntário: a torneira, a dobradiça, o ralo, as tomadas, os spots de iluminação, com tantas possibilidades que você entontece. São cinquenta tons de cinza que anulam a sua libido.

Nunca reparou num puxador. Agora necessita decidir em qual deles irá pegar pelos próximos vinte anos. Suportará o vexame de sentar num mostruário de privada numa loja, para definir aquela que se adequa ao seu traseiro e sua altura.

Reforma não é para amadores. Poucos casamentos resistem. E, para não terminar, você descobrirá que, com as inúmeras alterações no desenho inicial, os móveis de sua antiga habitação não combinam em nada com o novo espaço.

Como ocupá-lo economizando? É uma segunda reforma que virá, uma reforma dentro da reforma.

A Mega-Sena de 324,8 milhões saiu para um apostador de Mato Grosso. Não foi dessa vez.

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