sexta-feira, 31 de julho de 2026

31 de Julho de 2026
CARPINEJAR

Cabeça de porongo

Existe uma expressão muito nossa: "me virei o mate!". É o equivalente ervateiro ao "me caiu os butiás do bolso". Trata-se de raiva, mortificação e espanto.

Não há quem não tenha exclamado a frase diante de uma trapalhada generalizada com a bebida típica. Você está chimarreando na maior tranquilidade e, de repente, tropica na cuia cheia, perturbando o seu momento de paz.

Pode se queimar. Pode emporcalhar seriamente o ambiente.

Quem nunca fez lambança? Quem nunca se desequilibrou? Maculou o sofá, que assumiu uma coloração vintage esverdeada? Entupiu o teclado, espalhou os grãos pelo estofado do carro, sujou o uniforme no meio do serviço sem a possibilidade de trocá-lo imediatamente, transformou cachorros e gatos em miniaturas do Incrível Hulk?

Derrubar um chimarrão é um pequeno luto. Perde-se o rumo da conversa, do trabalho, das ideias. É como interromper um devaneio ou um raciocínio que jamais será recuperado. Nem tanto pelo desperdício do material, ou do tempo de preparo, mas por ferir o orgulho. Você se irrita consigo mesmo, xinga a sua patetice, porque sempre acontece em câmera lenta, parecendo que teria como evitar o acidente. Você termina nocauteando a sua serenidade. É uma apneia que antecede o ronco final.

Difícil explicar o constrangimento para os que não são daqui. Atinge a nossa condição de gaúcho, o nosso sentimento perfeccionista com os rituais.

É mais ofensivo ao nosso espírito do que espatifar um prato de comida recém-servido no chão, do que derramar a xícara de café em cima de documentos, do que quebrar um copo, do que ver o sorvete despencar do cone na primeira lambida, do que fechar a aba de um texto longo sem salvá-lo.

Enquanto a térmica é silenciosa, segura e discreta, o porongo, que depende de um suporte para se firmar na mesa, costuma ser bagunceiro e anárquico. Uma página nas redes sociais, @matesderrubados, administrada por um casal da região metropolitana de Porto Alegre, aproveitou o nosso peculiar pânico e vem obtendo acolhida calorosa com as videocassetadas de seus seguidores.

Os criadores, que preferem manter o anonimato, contam que a iniciativa surgiu com um objetivo simples: rir dos tradicionais desastres domésticos. Inclusive, os vizinhos argentinos e uruguaios se sentiram entusiasmados em participar da gincana.

Eu coleciono livros manchados de erva. Receberam um banho da minha afoiteza.

Além do histórico de vexames na cama, estragos no tapete persa da mãe e no computador, minha grande façanha foi no Grêmio Náutico União. Inventei de dar uns goles no chimarrão na borda da piscina, jurando que era um drinque, mas ele escorregou de minhas mãos absolutamente molhadas, interditando o lugar e acabando com a calmaria etérea dos banhistas. Observou-se uma cena cinematográfica: o mate boiando, aprendendo a nadar.

Talvez seja por isso que ninguém goste de lavar a cuia, retirar o montinho antes de empedrar, cavoucar o recipiente com extrema atenção. Bate o medo de errar a pontaria do lixo e conspurcar a cozinha. Pior não é morrer com a cuia na mão, mas deixar a cuia morta para algum familiar limpar. É o cúmulo do descaramento e do egoísmo. 

CARPINEJAR

31 de Julho de 2026
MARCO MATOS

Não é normal

Numa única semana: tornado, enchentes em vários rios, temporais com granizo. Tudo isso ainda no começo de um El Niño que, segundo as projeções, poderá estar entre os mais intensos já registrados.

Depois de uma sequência de dias assim, o que esperar? E nem estou falando do "futuro", de algo distante, reservado para as próximas gerações. As mudanças climáticas deixaram de ser um alerta para se tornar uma realidade que já provoca transformações profundas e impactos cada vez mais graves no planeta. A questão agora não é mais discutir se elas existem. A questão é como vamos nos adaptar a elas e a essa nova configuração do clima, mais instável, mais imprevisível e mais propensa a eventos extremos.

Logo após a enchente de 2024, um termo muito usado no período pós-pandemia voltou a circular com força: o novo normal. A expressão passou a ser repetida quase como um sinônimo de resignação, como uma forma de dizer que, daqui para a frente, as coisas serão assim mesmo.

Mas é preciso separar algumas coisas.

As mudanças no clima são reais. Seus efeitos já estão entre nós e dificilmente poderão ser revertidos completamente. Também é possível que os próximos meses tragam novos episódios de chuva intensa, vendavais e inundações. Ignorar essa realidade seria um erro.

Outra coisa, porém, é a sensação de insegurança, de despreparo, de desamparo e de impotência que muitos gaúchos ainda carregam desde a tragédia do ano passado. Isso não pode ser tratado como parte inevitável do novo cenário climático. Isso não pode ser o novo normal.

Há alguns dias estive em um colégio do bairro Sarandi, na Zona Norte de Porto Alegre, participando de um painel sobre o pós-enchente promovido por um grupo de pesquisadores. Durante minha participação, fiz uma pergunta ao auditório. Questionei o que fariam se, naquele exato momento, surgisse um alerta informando que o bairro voltaria a inundar. Para onde iriam? Quem procurariam? Onde buscariam abrigo ou ajuda?

O silêncio foi a resposta.

Ninguém soube dizer exatamente o que faria.

As obras estruturais de proteção são complexas, exigem recursos, planejamento e tempo. Todos conhecemos o ritmo estranho da burocracia e sabemos que soluções desse porte não aparecem da noite para o dia. Mas os planos de contingência, aqueles que orientam a população sobre como agir diante de uma emergência, já deveriam ser amplamente conhecidos pelas comunidades mais vulneráveis.

Não temos controle sobre a chuva, sobre os rios ou sobre a intensidade do próximo temporal. Mas temos responsabilidade sobre a forma como nos preparamos para eles. Se os eventos extremos tendem a fazer parte da rotina, a falta de informação e a ausência de respostas não podem fazer. Talvez o novo normal seja conviver com um clima mais difícil. O que não pode ser normal é ainda não saber o que fazer quando o próximo alerta tocar. _

O conteúdo desta coluna reflete a opinião do autor

MARCO MATOS

31 de Julho de 2026
OPINIÃO RBS

Ajuste fiscal é tema incontornável

Com a dívida pública do país no maior nível dos últimos cinco anos e subindo, é inadiável implementar um ajuste fiscal robusto a partir de 2027 para conter a trajetória insustentável dos gastos. Será inescapável para o futuro governo, seja ele de Luiz Inácio Lula da Silva, em um novo mandato, seja de qualquer outro nome da oposição.

Causa preocupação que o tema, até agora, tenha sido abordado somente de forma superficial, mesmo pelos candidatos que querem desalojar o petista do Planalto. Aguarda-se que, nas próximas semanas, com o início oficial da campanha, as propostas para o controle das contas surjam e sejam consistentes e críveis. Caso contrário, as empresas e as famílias brasileiras continuarão a padecer com um juro sufocante que só produz endividamento e inadimplência. O Banco Central (BC) acabará forçado a manter a Selic em patamar elevado para segurar a inflação.

Os números atestam a situação delicada. Em junho, a dívida pública federal cresceu 2,6% ante maio, em torno de R$ 240 bilhões, e chegou a R$ 9,27 trilhões. O indicador demonstra o endividamento do Tesouro para financiar o déficit do governo. Em maio, conforme o BC, a dívida bruta do governo geral - que também inclui Estados e municípios - avançou para 81,1% do PIB, nível elevado para um emergente e avanço de 0,9 ponto percentual sobre o mês anterior. Em janeiro, estava em 78,7%. O Tesouro projeta que a trajetória de alta seguirá até 2029, quando atingiria 87,9%.

O arcabouço fiscal adotado pelo governo Lula carece de credibilidade. Para respeitá-lo formalmente, o Planalto optou por excluir uma série de gastos do cálculo. Um autoengano. Na vida real, os gastos seguem em alta. Apenas o pacote de bondades eleitorais prevê R$ 190 bilhões. Desse total, R$ 118 bilhões ficaram fora do teto da regra, conforme cálculos do economista Marcos Mendes, um dos maiores especialistas em contas públicas do país.

Noticia-se que o ministro da Fazenda, Dario Durigan, procurou interlocutores de grandes bancos para sinalizar que, em um eventual novo governo, o limite de crescimento dos gastos da inflação não seria mais de 2,5%, mas entre 1,5% e 2%. É insuficiente para o tamanho do desafio, potencializado pelo crescimento das despesas obrigatórias, como benefícios previdenciários e programas sociais, indexados ao aumento do salário mínimo, e em meio a um orçamento cada ano mais engessado. E nem sequer é um compromisso de campanha.

Na oposição, o candidato mais bem posicionado nas pesquisas, Flávio Bolsonaro, fala em "tesouraço" nos gastos, mas até aqui é bastante genérico em suas ideias. A economista Daniella Marques, coordenadora de propostas do senador do PL para a área, cita redução de despesas e controle da dívida, porém tampouco exibe detalhes. Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) também vão na linha da responsabilidade fiscal, mas têm propostas ainda abstratas ou politicamente de difícil implementação.

Não se espera que, pela pouca popularidade do tema, os candidatos propagandeiem como cortarão gastos, em especial os sociais. Mas a sustentabilidade das contas públicas é um tema incontornável e os postulantes à Presidência têm o dever de ser transparentes com os eleitores. _

Opinião do leitor

leitor@zerohora.com.br - Instagram e X @gzhdigital - facebook.com/gzhdigital - Opiniões, fotos ou histórias de leitores devem ser endereçadas à seção Leitor com nome, profissão, endereço e telefone. Os textos devem ter, no máximo, 700 caracteres. ZH reserva-se o direito de selecioná-los e resumi-los para publicação.

Almanaque Gaúcho

Com "Memórias do Renner" (ZH, 28/7), voltei ao passado. E como amei fazer parte desta emoção. Trabalhar no Renner foi muito gratificante. O Sr. A. J. Renner foi uma pessoa boníssima. Grêmio Esportivo Renner, foi sensacional acompanhar tudo de perto. Muito obrigada, Leandro Staudt, por esta lembrança encantadora. _

Maria Lurdes Derenji - Aposentada - Imbé

Alagamentos

Li a matéria do dia 28/7 em GZH em que o diretor-presidente do Dmae diz que os alagamentos em Porto Alegre serão resolvidos até 2031. Sr. diretor, estamos em 2026. É uma vergonha ver esse prazo. Estamos na era da maior tecnologia até então vivida. Aos moradores de Porto Alegre e visitantes, sugiro comprar botas novas, pois serão muito necessárias. _

Luiz Anselmo Colling - Consultor de empresas - Porto Alegre

Erros em série

A trama de Eduardo contra o Brasil nos EUA: primeiro tarifaço sobre nossas exportações. O encontro do pré-candidato Flávio com Trump na Casa Branca: segundo tarifaço. A "Carta aos brasileiros", escrita por Jair e divulgada nas redes sociais: Flávio alvo de investigação por propaganda antecipada. O dinheiro sujo tomado por Flávio de Daniel Vorcaro (Master): R$ 61 milhões, supostamente para financiar o filme sobre a vida do ex-presidente. O "fogo amigo" de Michelle. As suspeitas levantadas por Flávio (a exemplo do pai, declarado inelegível), em fala a embaixadores estrangeiros, sobre o processo eleitoral. A série de erros e tiros no pé dos Bolsonaro só facilita a reeleição de Lula! _

Clovis José Formolo - Aposentado - Porto Alegre

Fundo do poço

Quando o advogado de uma agremiação usa áudio falso (conversa de site que faz paródia entre a comunicação do árbitro e a equipe do VAR) para defesa de um jogador, como fez o advogado do Internacional no caso do jogador Victor Gabriel, não é só no campo que as coisas estão ruins. Fora do campo está pior ainda. _

Vital Romaneli Penha - Aposentado - Jacareí (SP)

Feminicídios

A imprensa divulga que o Rio Grande do Sul tem 46 feminicídios neste ano até agora. A Lei Maria da Penha parecia ser uma luz no fim do túnel, mas até o momento o que se vê é a complacência de alguns delegados e juízes, que ainda não compreenderam a gravidade desses crimes. As vidas das mulheres parecem valer pouco. Muito triste isso. _

Lauro Becker

Empresário - Porto Alegre

OPINIÃO RBS

31 de Julho de 2026
NOTÍCIAS

Pesquisa para o governo do RS mostra Juliana com 24% e Zucco com 22%

Eleições 2026

Novo levantamento da Quaest reforça um cenário de indefinição no Estado. Além do equilíbrio entre os dois primeiros colocados na consulta estimulada, a versão espontânea revela que 83% dos entrevistados ainda não citaram um nome. O índice sugere que a disputa permanece amplamente aberta

Pesquisa Quaest divulgada ontem mostra Juliana Brizola (PDT) e Luciano Zucco (PL) tecnicamente empatados na disputa pelo governo do Rio Grande do Sul nas eleições de outubro, já que a margem de erro é de três pontos percentuais.

Esta é a segunda pesquisa da Quaest com os postulantes ao Palácio Piratini em 2026. O levantamento anterior foi divulgado em abril e também apontava para empate técnico.

Na sondagem estimulada, Juliana Brizola aparece com 24%, seguida de Luciano Zucco, com 22%. Mais atrás estão Gabriel Souza (MDB), com 6%, Marcelo Maranata (PSDB), com 3%, e Cesar Pontes (PCO) e Rejane Oliveira (PSTU), ambos com 1%. Afirmam estar indecisas 31% das pessoas ouvidas, enquanto 12% dizem que vão votar em branco ou nulo ou não votar.

Já na pesquisa espontânea, quando os nomes dos pré-candidatos não são apresentados aos entrevistados, Zucco está à frente, seguido de Juliana Brizola e Gabriel Souza. A grande maioria (83%) revelou estar indecisa.

Mudança

Quando questionados se a escolha de voto para governador é definitiva, 34% dos entrevistados afirmaram que sim, enquanto 62% disseram que podem mudar a escolha caso algo aconteça. Outros 4% não souberam ou não responderam.

Também foram realizadas três simulações de segundo turno. Em duas, Juliana Brizola vence Zucco e Gabriel Souza, enquanto em outra, Zucco derrota Gabriel Souza.

Presidência

A pesquisa também mostra como está a disputa para presidente entre os gaúchos. Flávio Bolsonaro (PL) aparece com 32%, contra 30% de Lula (PT) - ambos tecnicamente empatados, na margem de erro de três pontos percentuais.

A pesquisa foi encomendada pela Genial Investimentos e ouviu 1.104 pessoas, com 16 anos ou mais, entre os dias 24 e 28 de julho. O nível de confiança é de 95%. O registro da pesquisa no TSE é RS-04790/2026. _

Segundo turno para o Piratini

A Quaest fez também três simulações da segunda etapa do pleito para o governo do Estado.

Cenário 1

Juliana x Zucco

Juliana Brizola: 35%

Luciano Zucco: 31%

Indecisos: 21%

Branco/nulo/não vai votar: 13%

Cenário 2

Juliana x Gabriel

Juliana Brizola: 35%

Gabriel Souza: 20%

Indecisos: 26%

Branco/nulo/não vai votar: 19%

Cenário 3

Zucco x Gabriel

Luciano Zucco: 32%

Gabriel Souza: 20%

Indecisos: 28%

Branco/nulo/não vai votar: 20%

Segundo turno para o Planalto

Quatro simulações feitas entre os eleitores gaúchos

Cenário 1

Lula x Flávio

Flávio Bolsonaro (PL): 40%

Lula (PT): 35%

Indecisos: 11%

Branco/nulo/não vai votar: 14%

Cenário 2

Lula x Caiado

Lula (PT): 33%

Ronaldo Caiado (PSD): 32%

Indecisos: 13%

Branco/nulo/não vai votar: 22%

Cenário 3

Lula x Renan

Lula (PT): 34%

Renan Santos (Missão): 25%

Indecisos: 14%

Branco/nulo/não vai votar: 27%

Cenário 4

Lula x Zema

Lula (PT): 35%

Romeu Zema (Novo): 29%

Indecisos: 13%

Branco/nulo/não vai votar: 23%

31 de Julho de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Juliana e Zucco arrancam em vantagem na campanha

Os números da pesquisa Quaest divulgada ontem trazem boas e más notícias para os candidatos Juliana Brizola (PDT) e Luciano Zucco (PL), que estão à frente, tecnicamente empatados, com 24% e 22%, respectivamente, no primeiro turno. No segundo, Juliana tem 35% e Zucco, 31%. Essas são as boas notícias. As más: os dois são também os mais rejeitados e 62% dos entrevistados dizem que sua opção não é definitiva.

Candidato do governo, Gabriel Souza (MDB) tem somente 6% das intenções de voto e está tecnicamente empatado com Marcelo Maranata (PSDB), que tem 3%. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos.

Uma das tabelas que os candidatos precisam prestar atenção é a que mostra conhecimento, potencial de voto e rejeição. Na resposta a essa pergunta, 33% disseram que conhecem Juliana e votariam nela, 34% não conhecem e 33% a rejeitam. Em relação a Zucco, 25% responderam que conhecem e votariam ele, 55% não conhecem e 20% o rejeitam.

O que mais impressiona é que 73% disseram não conhecer Gabriel Souza, mesmo ele sendo vice-governador desde 2023. Por ser menos conhecido, sua rejeição também é menor - apenas 15% disseram que conhecem Gabriel e não votariam nele. Maranata é desconhecido de 86% dos eleitores e rejeitado por 10%.

Além do baixo índice de intenção de voto, Gabriel tem outro problema: 51% acham que Eduardo Leite não merece eleger o sucessor, contra 38% que responderam sim. A favor do vice-governador há outro número que é o da aprovação do governo Leite, que é de 48%, o que poderá favorecê-lo se Leite se engajar na campanha e deixar claro que ele é o candidato que representa o governo. Os que reprovam o governo Leite somam 42%.

A pesquisa foi encomendada pela Genial Investimentos e ouviu 1.104 pessoas, com 16 anos ou mais, entre os dias 24 e 28 de julho. O nível de confiança é de 95%. O registro da pesquisa no TSE é RS-04790/2026. _

Cenário de disputa acirrada no Senado

Com duas cadeiras em disputa, a eleição para o Senado é sempre um desafio para os institutos de pesquisa. Na pesquisa da Genial/Quaest divulgada ontem, Manuela D?Ávila (PSOL) mantém o primeiro lugar do levantamento anterior, liderando tanto no primeiro quanto no segundo voto. Manuela é a primeira opção de 15% dos eleitores e a segunda de 9%. Se dividir por dois para chegar a 100%, a candidata do PSOL tem 12%, mas esse número não é o mais relevante.

O ex-governador Germano Rigotto (MDB) e o deputado federal Paulo Pimenta (PT) têm números semelhantes entre si. Rigotto é o primeiro de 11% dos eleitores e o segundo de 7%. Pimenta é o primeiro de 10% e o segundo de 7%. Marcel van Hattem (Novo) tem 12% na primeira opção, mas só 3% na segunda. Por isso, numericamente, está atrás dos demais concorrentes. Seu companheiro de chapa, Ubiratan Sanderson (PL), tem 6% na primeira opção e 7% na segunda. Os demais ficam entre zero e 1%.

O que torna o cenário para o Senado ainda mais incerto é o fato de que 62% dos entrevistados responderam que sua opção não é definitiva. Van Hattem e Sanderson têm um eleitorado mais firme: 64% disseram que sua opção é definitiva. O terceiro com voto mais consolidado é Pimenta, com 56% dos seus eleitores dizendo que sua opção é definitiva. Depois, Manuela, com 47%, e Rigotto, com 35%. _

Conhecidos (ou não)

rosane.oliveira@zerohora.com.br

No quesito conhecimento, potencial de voto e rejeição, vários dados chamam a atenção.

Manuela é a primeira em tudo: líder no quesito "conhece e votaria" (28%), menor índice de desconhecimento (28%), mas também a maior rejeição (42%).

Mesmo tendo sido governador de 2003 a 2006, Rigotto é desconhecido de 39% dos eleitores e rejeitado por 35%.

Deputado federal e ex-ministro, Pimenta é desconhecido de 41% e rejeitado por 38%.

Também deputado federal, Van Hattem é desconhecido de 67% e rejeitado por 14%.

Ainda mais desconhecido é Sanderson (71%).

Rigotto e Frederico definem suplentes

Às vésperas das convenções, Germano Rigotto (MDB) definiu que o ex-vice-governador José Paulo Cairoli e o jornalista Antonio Hohlfeldt, ex-presidente da Fundação Theatro São Pedro, serão seus suplentes na disputa pelo Senado.

Frederico Antunes (PSD) também definiu sua primeira suplente, a ex-vice-prefeita de Caxias do Sul, Paula Ioris. _

Agenda adocicada de Zucco e Gabriel na Fenadoce

Foi uma tarde adocicada para Gabriel Souza (MDB) e Luciano Zucco (PL), adversários na disputa pelo Palácio Piratini. Os dois estiveram em Pelotas ontem para prestigiar os últimos dias da Fenadoce, cuja programação encerra no domingo.

Pela manhã, Gabriel palestrou em reunião-almoço promovida pela Câmara de Comércio de Rio Grande. Aos empresários, o vice-governador falou sobre o presente e o futuro do Estado, e apresentou ações para desenvolver a Metade Sul, com destaque para matriz energética, ensino técnico e soluções para enfrentar a crise climática.

No caminho de volta à Capital, aproveitou para uma parada em Pelotas, onde visitou os estandes da Fenadoce, acompanhado de Frederico Antunes e Paula Mascarenhas. Fã de quindim, Gabriel não resistiu a um desafio feito pela dupla e provou três unidades do doce que é símbolo da feira.

Zucco foi mais cedo à feira, e por isso os adversários não se encontraram no centro de eventos. Acompanhado da vice, Silvana Covatti (PP), da esposa Joyce e políticos aliados, o candidato a governador do PL visitou os expositores e conversou com a população. Após receber relatos de abandono da Metade Sul, Zucco defendeu a criação do fundo constitucional para os Estados do Sul para ampliar os investimentos na região. Além disso, colocou entre suas prioridades garantir a conclusão das duplicações da BR-116 e da BR-392.

Nos estandes, Zucco provou um picolé de butiá e acompanhou o processo de fermentação para preparação de figo cristalizado. Aproveitou também para comprar doces para a filha Antônia, de oito anos. _

Valdemar intervém para apagar incêndio no PL

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, entrou em cena para tentar acalmar os ânimos nos bastidores da direita gaúcha e frear o racha que estava sendo ensaiado. Em carta endereçada ao diretório estadual, Valdemar comunica que os candidatos do partido estão "autorizados a realizar dobradas com candidatos dos partidos aliados".

Nos últimos dias, aviso do presidente estadual, Giovani Cherini, em tom de ameaça aos filiados do PL e candidatos que fizerem campanha para concorrentes de outros partidos não foi bem recebido por aliados de outras legendas. O alerta de Cherini aos filiados segue uma resolução do PL, de abril de 2026, assinada pelo próprio Valdemar. No documento, o presidente nacional proíbe a participação do partido em coligações com partidos de esquerda nas eleições deste ano.

Luciano Zucco, candidato do PL a governador, fez questão de espalhar o documento de Valdemar, em razão do temor de que os atritos poderiam impactar sua campanha. 

POLÍTICA E PODER

31 de Julho de 2026
INFORME ESPECIAL - Vitor Netto

Guia para enfrentar o El Niño

Com o Brasil e o mundo à beira de enfrentar mais um fenômeno climático, a Associação Brasileira de Municípios (ABM) lançou o Guia Prático para Enfrentamento ao Super El Niño e Eventos Climáticos Extremos. A publicação reúne orientações para que prefeituras, secretarias e equipes técnicas organizem a prevenção, a resposta emergencial e a recuperação dos territórios atingidos.

Elaborado pela entidade, o guia apresenta procedimentos para diferentes setores da administração pública e ações que devem ser coordenadas pelos órgãos públicos em casos de episódios climáticos.

- O objetivo é preparar os municípios para a gestão dos desastres, colaborando com sugestões como o papel do gabinete de crise, da procuradoria do município, os marcos legais que precisam ser formulados, recomendações de saúde diante de desastres, assistência social, política de educação, mobilidade urbana, meio ambiente e sustentabilidade - explicou o vice-presidente de Cidades Resilientes da ABM e prefeito de São Lourenço do Sul, Zelmute Marten.

O guia organiza a atuação municipal em todas as etapas de um evento extremo: prevenção e preparação, enfrentamento e pós-desastre.

A primeira etapa - de prevenção - envolve atividades antecipadas para evitar danos, como diretrizes de adaptação, mitigação climática, elaboração de planos de contingência e realização de diagnóstico situacional das áreas e populações vulneráveis.

O enfrentamento foca na resposta emergencial imediata (primeiras 24h a 72h). Inclui a ativação do Gabinete de Crise, declaração de calamidade pública, resgates e fornecimento de assistência humanitária para proteger vidas.

A última etapa é o pós-desastre, que contempla medidas emergenciais e de longo prazo para restabelecer a normalidade. Abrange a avaliação de danos, solicitação de recursos financeiros, limpeza urbana e a reconstrução de infraestruturas de forma mais segura e resiliente.

- São checklists de iniciativas práticas que estamos sugerindo aos prefeitos a ponto de não retorno da crise climática, para que possam desenhar estratégias com as suas comunidades e gestão diante do El Niño e de outros eventos - ressaltou Marten. _

Migração em massa e a nado

Entre os fatores apontados para a alta do fluxo está a postura do governo da Espanha, liderado pelo primeiro-ministro Pedro Sánchez, vista como favorável à imigração. No início deste ano, o executivo lançou um programa para conceder status legal a cerca de 500 mil imigrantes sem documentos, o que gerou um aumento na procura e nas expectativas de regularização.

Além disso, uma decisão recente do Supremo Tribunal da Espanha proibiu a devolução sumária de migrantes interceptados no mar enquanto tentavam nadar até as cidades autônomas de Ceuta e Melilla. Dados locais apontam que, na última semana, mais de 1,5 mil imigrantes já haviam chegado a Ceuta.

Cidade autônoma da Espanha, Ceuta fica situada no continente africano, na margem sul do Estreito de Gibraltar. Juntamente com Melilla, representa a única fronteira terrestre da União Europeia com a África. _

Retorno às origens

Após mais de 30 anos vivendo no Brasil, o ativista social Januário Gonçalves se prepara para reencontrar suas raízes. Radicado na Capital, o angolano foi presenteado com uma viagem ao seu país de origem, promovida pela agência gaúcha TripTravel.

A relação entre o líder comunitário e a empresa começou em 2020, durante a pandemia de coronavírus. Na época, o CEO da TripTravel, Beto Conte, e um grupo de parceiros atuavam no apoio a imigrantes haitianos e angolanos em Porto Alegre.

Com um dos destinos da agência definido para a África, a equipe decidiu presentear o ativista com a experiência. No dia 5 de agosto, Gonçalves embarca ao lado de Conte e de um grupo de passageiros para o Grand Tour Angola.

A viagem permitirá o reencontro de Gonçalves com a mãe, de 84 anos, que vive em Luanda:

- Hoje me considero um "angoúcho". Sobre a expectativa de voltar para Angola, estou sem palavras. A principal emoção é reencontrar minha mãe depois de tanto tempo - afirma. _

Entrevista

Gustavo Feliciano

Ministro do Turismo

"O RS já possui atividade consolidada. O desafio é tornar competitiva"

O ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, esteve no Vale do Taquari nesta semana para coordenar uma ação de atendimento técnico sobre o Fundo Geral de Turismo (Fungetur) e o Cadastro de Prestadores de Serviços Turísticos (Cadastur). Confira trechos da entrevista.

O turismo brasileiro vive recordes. Como o RS pode aproveitar esse cenário?

Em 2025, o Brasil alcançou o patamar de 9,2 milhões de turistas estrangeiros, o maior da história. De janeiro a junho deste ano, o país já recebeu 5,2 milhões. E o RS tem todas as condições de ampliar sua participação nesse cenário. O Estado reúne uma oferta turística diversificada. O Ministério do Turismo publicou recentemente um edital para contratação de empresa especializada na elaboração de diagnósticos e planos de ação voltados ao turismo em regiões de fronteira, e o RS foi um dos contemplados.

Vila Flores, na Serra, está entre os destinos brasileiros finalistas da edição 2026 do prêmio "Melhores Vilas Turísticas", da ONU Turismo. Qual é a importância desse reconhecimento?

Extremamente importante. Primeiro, porque coloca Vila Flores entre os sete destinos brasileiros selecionados pelo Ministério para representar o país nesta iniciativa da ONU Turismo. Agora, o município concorre com 261 localidades de todo o mundo, mostrando que o turismo brasileiro vai muito além dos grandes centros.

No RS, o Fungetur destinou mais de R$ 737 milhões. Quanto e para quais regiões esse recurso foi destinado?

Esse crédito chegou a diferentes regiões do Estado e aos mais diversos segmentos do turismo. Foram destinados a restaurantes, cafeterias, bares e similares, com R$ 151,6 milhões, seguido de meios de hospedagem, com R$ 135,6 milhões. Outro dado importante é que o crédito chegou principalmente às empresas que movimentam economias locais. A maior parte foi para pequenas e médias empresas. Cerca de 80% desse valor foi destinado para capital de giro, dando fôlego financeiro aos empreendedores.

Atualmente, o ministério mantém 156 obras ativas no RS. Quais os principais gargalos?

O RS já possui uma atividade turística muito consolidada. O desafio agora é tornar essa estrutura cada vez mais competitiva, melhorando a infraestrutura, qualificando os destinos e ampliando a permanência dos visitantes. Esses investimentos contemplam obras de urbanização, revitalização de espaços públicos, parques, orlas, centros de eventos, acessibilidade, sinalização turística e equipamentos de apoio aos visitantes.

Como o ministério pode atuar na assistência aos afetados pelas novas chuvas no RS?

O governo federal acompanha a situação. Equipes da Defesa Civil Nacional permanecem mobilizadas, monitorando as condições meteorológicas e hidrológicas, analisando os pedidos de reconhecimento federal de situação de emergência e apoiando os municípios na elaboração dos planos de trabalho para solicitar recursos da União. 

INFORME ESPECIAL

sábado, 25 de julho de 2026

25 de Julho de 2026
CARPINEJAR

O sagrado resto

Adorava quando meus pais voltavam da feira com aquelas redinhas coloridas que acondicionavam limões, laranjas, melões, tangerinas, batatas. Recolhia teias para confeccionar a fantasia de Homem-Aranha.

Com restos de pano, minha irmã costurava um enxoval para suas bonecas. Com sacos de Pastelina, estourávamos bolhas de ar, assustando os que se mostravam distraídos. Com os papéis das balas, assoviávamos longe.

Com o embrulho do pão, criávamos rabiolas para pipas. Preparávamos telefone sem fio com copos de iogurte. Simulávamos a montaria de cavalo com cabos de vassoura.

Construíamos pontes em maquetes com palitos de picolé. Dobrávamos jornais velhos para formar chapéus e cantar: "Marcha soldado, cabeça de papel".

Empregávamos latas de Nescau como casinhas no jogo de taco. Rolos de papel higiênico viravam binóculos ou lunetas. Tampinhas de garrafa originavam peças de dama. Espigas de milho secas se transformavam em pequenos espantalhos.

Lençóis esgarçados, presos entre cadeiras, erguiam cabanas no meio da sala. Pregadores de roupa assumiam olhos e boca. Carretéis de linha cumpriam a função de rodas em carrinhos improvisados. Caixinhas de remédio e de pasta de dente constituíam prédios e arranha-céus nas cidades em miniatura.

Embalagens de ovos se convertiam em paletas de tinta nas aulas de artes. Os trastes, os refugos da civilização, os materiais abandonados nos davam conforto e ideias.

Quem da minha geração não patenteou uma televisão com caixa de papelão? Recortava-se nela uma janela, como se fosse a tela, que logo ganhava uma folha de papel celofane (azul, vermelho, amarelo ou verde). Entre dois rolinhos, passava uma tira de figuras destacadas de revistas. Bastava girá-los pelas laterais para dar a impressão de um filme ou noticiário. Intimávamos a família a acompanhar a programação caseira, em sessão particular com venda de ingressos.

A engenharia das inutilidades, a fábrica do faz de conta, alcançava ainda mais visibilidade com o programa de Daniel Azulay, que permaneceu à frente da TV Criança e da Turma do Lambe-Lambe. Ele nos ensinava a desenhar, a observar a simetria por trás do traço, a realizar trabalhos manuais com argila, a elaborar origamis perfeitos, a descobrir diversão com sucata.

Produzíamos pioneira reciclagem com a nossa poderosa imaginação. A criatividade começava quando a serventia do objeto terminava. Os adultos nos concediam, sem perceber, farta matéria-prima de graça.

Só entendi o quanto fui feliz - inventando a minha felicidade, e não a recebendo pronta - ao ler Manoel de Barros: "As coisas jogadas fora têm grande importância".

Assim não joguei fora a minha infância. 

CARPINEJAR

25 de Julho de 2026
PAULO GERMANO

O futuro, normalmente, é o território dos sonhos, certo? Digo sonhos no sentido de projetos: o crescimento dos filhos, a casa quitada, as férias de verão, uma velhice tranquila. Aqui não. Para o gaúcho, o futuro virou o lugar da próxima enchente. O futuro é uma ameaça, o futuro dá medo, o futuro é o El Niño chegando em setembro.

O que ocorreu nesta semana, nos vales do Caí e do Taquari, com famílias novamente empacotando a dignidade em sacos de lixo, não teve o gigantismo apocalíptico de 2024. Mas teve algo igualmente insuportável - não só para os desabrigados, mas para qualquer cidadão do Rio Grande do Sul: a sensação de ver tudo outra vez. Parece um fantasma que entrou debaixo da nossa cama e se recusa a ir embora.

E os números mostram esse pavor. Dois em cada três gaúchos, segundo uma pesquisa do IBGE divulgada no início do mês, admitem estar mentalmente abalados, até hoje, por conta das enchentes de dois anos atrás. E como não estariam? O psicanalista Donald Winnicott dizia que a sanidade depende, antes de tudo, de um ambiente minimamente confiável. Ele chamava isso de holding - a capacidade que o mundo à nossa volta tem de nos sustentar, de oferecer alguma segurança para a gente poder existir.

Por exemplo: você dorme porque acredita que a sua casa vai protegê-lo; sai para trabalhar porque supõe que conseguirá voltar; compra um sofá grande porque nunca vai precisar içá-lo até o telhado. É essa confiança banal, quase invisível, que nos permite gastar energia vivendo, e não pensando o tempo todo em estratégias para escapar do horror. Foi essa confiança que a água levou. Centenas de milhares de gaúchos passaram a experimentar uma modalidade perversa de tortura psicológica: sofrer por um luto que ainda não aconteceu, mas que parece inevitável.

A pessoa olha para os móveis que recém comprou e imagina a lama. Olha para o carro e pensa onde poderá deixá-lo. Olha para o cachorro e calcula como vai retirá-lo. Olha para o pai idoso e teme não conseguir carregá-lo. A vida virou um ensaio para catástrofe, um plano permanente de evacuação. Não há quem aguente uma existência assim.

Por isso, é quase um insulto continuar chamando essa gente de "guerreira" ou "resiliente". Ninguém quer esse troféu da resistência eterna. Ninguém quer a obrigação de reconstruir indefinidamente. O que as pessoas querem é o direito de baixar a guarda - e só vão tê-lo quando o ambiente se provar confiável na prática. Quando o sistema de contenção segurar a enxurrada. Quando a casa de bombas funcionar na inundação. Quando o alerta chegar a tempo e o cidadão sentir, com segurança, que não está jogado à própria sorte.

Só então o futuro voltará a ser um lugar onde vale a pena morar. _

Paulo Germano

25 de Julho de 2026
MARCELO RECH

Por sua história, não se pode dizer que Lula já tenha ameaçado a democracia. Nunca planejou golpe, não questionou a lisura das urnas eletrônicas e não foi alcoviteiro de quartéis. Reconhecida sua trajetória, é de espantar a omissão de Lula quanto aos ímpetos antidemocráticos de movimentos de esquerda em países latino-americanos que buscam solapar eleições legítimas de candidatos da direita.

A última onda de silêncio começou pela Bolívia, onde partidários de Evo Morales bloquearam estradas e estrangularam a economia boliviana para exigir a deposição do centro-direitista Rodrigo Paz Pereira, assim como tentaram fazer no Brasil caminhoneiros inconformados com a eleição de Lula. Em um gesto humanitário, Lula despachou para a Bolívia um avião da FAB com alimentos, mas do brasileiro não se ouviu condenação veemente à tentativa de destituição de um governante eleito democraticamente.

A tradição brasileira é de não interferência, justificarão fiéis soldados de Lula. É, pode ser. Mas em junho de 2024 Lula foi às redes sociais para se solidarizar com o esquerdista Luís Roberto Arce (herdeiro político de Evo Morales, com quem romperia durante o governo), ameaçado de derrubada por militares. "A posição do Brasil é clara. Sou um amante da democracia e quero que ela prevaleça em toda a América Latina. Condenamos qualquer forma de golpe de Estado na Bolívia", proclamou Lula.

Seria bom que a posição também fosse clara quando esquerdistas inconformados com a vitória da direita, seja na Bolívia, na Colômbia ou no Peru, se recusam a aceitar a vitória dos adversários. Pode ser que a voz de Lula não tenha lá tanto eco no Oriente Médio, na África ou na Ásia. Mas nos trópicos latino-americanos a postura do presidente do Brasil ajudaria a fazer a diferença entre legitimar ou não tentações antidemocráticas.

Num gesto de descortesia à la Javier Milei, Lula não dará o ar da graça nas posses de Keiko Fujimori, no Peru, e Abelardo de la Espriella, na Colômbia, assim como já tinha se ausentado na do também direitista José Antonio Kast, no Chile. A seletividade política de suas relações contribui para a estratégia da Casa Branca de isolar ainda mais o governo de Lula - e, consequentemente, o Brasil - na América do Sul. Ao agir conforme a cartilha trumpista de dividir o mundo entre amigos e inimigos, Lula cai numa armadilha ideológica que só empurra ainda mais os vizinhos à direita para os braços dos EUA. Quem sai perdendo com essa postura? 

Marcelo Rech

Não há brasileiro com posse de um telefone celular que não perceba, talvez diariamente, tentativas de golpes de toda ordem. Chegam por ligações de números desconhecidos, mensagens em aplicativos de conversas, SMS e redes sociais. Os estelionatos, impulsionados pela digitalização financeira e das atividades cotidianas, tornaram-se uma praga. Seguem a crescer, mesmo com a maior conscientização da população. O país tarda em encontrar estratégias mais eficientes de contenção desse delito, que se tornou o principal crime patrimonial no Brasil. Mesmo sem violência física, também deixa traumas e grandes perdas materiais.

As informações compiladas no 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado na quinta-feira, demonstram a gravidade da situação. Não apenas pelas estatísticas. As conclusões demonstram a maior organização dos golpistas. Os registros de estelionatos cresceram 429,8% de 2018 a 2025. No ano passado, foram 2.261.055 queixas formalizadas, alta de 3% sobre 2024. É o equivalente a 258 casos por hora. Mas o próprio Anuário, de responsabilidade do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSB), atesta uma brutal subnotificação.

O crescimento dos golpes ocorre em sentido inverso de outros crimes, como furtos e roubos, em queda. A tendência segue a mudança de hábitos da população. Os delinquentes adaptaram-se rapidamente. Preocupa ainda mais a constatação de que a epidemia de fraudes não é fruto de ações de criminosos dispersos. O FBSP mostra evidências de organizações que se estruturam de forma sofisticada, com divisões de tarefas, metas de faturamento e uso de infraestrutura tecnológica que permite dar escala às tentativas de golpe.

O quadro se agrava com a constatação de que as grandes facções cada vez mais investem neste segmento criminoso, que garante arrecadação alta, sem o perigo de se envolverem em confronto com a polícia enquanto agem, ao contrário do que ocorre com roubos e tráfico. A relação entre o risco e o benefício torna os golpes atraentes. Enquanto mais de 2,2 milhões de casos foram registrados no país no ano passado, os Ministérios Públicos estaduais instauraram apenas 63,7 mil ações penais e só 4,8 mil pessoas foram presas.

Trata-se de um crime que não se resolve com polícia nas ruas ou aquisição de viaturas e armas. O combate passa por aperfeiçoamentos legislativos e por uma maior capacidade investigativa, o que depende de instrumentos tecnológicos e capacitação.

Há experiências internacionais com resultados promissores. O Brasil poderia olhar para esses exemplos. Segundo o FBSP, Singapura foi o primeiro país a encontrar uma fórmula que levou à queda de casos. Foi criado um centro operacional onde atuam policiais e representantes de bancos e de plataformas digitais, que agem com rapidez a cada denúncia, bloqueando a consumação do golpe. A parte que falha é responsabilizada. A Austrália é outro modelo. Além de uma estrutura integrada, concebeu um marco legal que elevou os deveres das redes sociais e buscadores. A mensagem é clara. É preciso responsabilizar quem se omite e permite ser meio para os golpes chegarem até as potenciais vítimas. _

OPINIÃO RBS

25 de Julho de 2026
EM FOCO - Marcelo Gonzatto

Prevenção

O que falhou e o que pode ser melhorado na previsão de cheias

Horas após avaliações indicarem cenário sem maiores riscos nos rios gaúchos depois de chuva intensa, cidades viram a água avançar. O episódio levou especialistas a discutir ajustes e formas de comunicar incertezas à população

Na última terça-feira, ainda traumatizados pela enchente de 2024, os gaúchos respiraram mais aliviados quando o governo gaúcho divulgou que, até aquele momento, não havia previsão de os rios subirem, apesar da chuva registrada desde o final da semana anterior. O cenário mudou rapidamente nas horas seguintes, e a água de cursos como o Taquari ultrapassou a cota de inundação em diferentes municípios.

A dificuldade de antever as cheias foi provocada por uma combinação entre incertezas na previsão do tempo ampliadas pelo El Niño, limitações do sistema utilizado pelos órgãos oficiais para projetar a subida dos rios e deficiências no modo de informar a população sobre os possíveis cenários.

O episódio deixa lições que deverão ser incorporadas por entidades como a Defesa Civil estadual e o Serviço Geológico do Brasil (SGB), de âmbito federal.

Zero Hora conversou com oito servidores da Defesa Civil, dois do SGB, um do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para avaliar as imperfeições da estrutura de alerta e o que deve ser melhorado para o futuro.

O monitoramento e a previsão da Defesa Civil se baseiam no chamado Modelo de Grandes Bacias (MGB), que processa três variáveis fundamentais: previsão de chuva para um horizonte de até 15 dias, chuva já observada e vazão atual dos rios obtida por meio de estações de medição.

Esses dados são integrados para gerar tendências de vazão que, para 60 municípios prioritários, alimentam um modelo hidrodinâmico capaz de desenhar as prováveis manchas de inundação e permitir a visualização de quais áreas serão atingidas.

Previsão regional

- Isso deverá ser incorporado em breve. É que a plataforma da Defesa Civil foi inicialmente implantada com o objetivo de ter um horizonte de previsão mais longo, de 15 dias, dos modelos globais, enquanto o regional tem um horizonte de 72 horas. Mas, realmente, precisaremos colocar a previsão regional - diz a hidróloga do Centro de Monitoramento da Defesa Civil Vanderleia Schmitz.

Sistema recente Diretora do Departamento de Gestão de Riscos da Defesa Civil, a tenente-coronel Ana Maria Hermes argumenta que esse sistema ainda é recente, tendo começado a operar no início deste ano, e garante que a experiência dos últimos dias será utilizada para aprimoramentos.

- Esse foi o primeiro evento (severo) que a gente enfrentou com esse sistema. Tudo na área de desastre vai estar em permanente melhoria, em permanente qualificação - afirma Ana Maria.

Nem todas as possíveis melhorias no sistema da Defesa Civil poderão ser executadas em pouco tempo. O governo gaúcho está concluindo a implantação da última de 130 novas estações que monitoram bacias hidrográficas e fornecem dados que subsidiam previsões. Porém, essa rede robusta ainda não é utilizada para alimentar os prognósticos.

- Contratamos 130 estações que hoje nos permitem o nowcasting (previsão de curtíssimo prazo) hidrológico. Só que essas estações ainda não conseguem alimentar esses modelos, e elas ficam em locais-chave. Para serem incluídas, precisamos ter uma série de dados histórica, e isso só pode ser obtido com tempo - argumenta a hidróloga Vanderleia.

Responsável pela operação do MGB, Stefano Boeira afirma que serão necessários cerca de quatro anos para formar esses bancos de dados e incorporar a nova rede de estações aos cálculos de resposta das bacias. _

Efeito de deslizamentos de terra será analisado

Há uma avaliação interna na Defesa Civil gaúcha de que os milhares de deslizamentos em morros de locais como o Vale do Taquari durante a tragédia de 2024 podem ter alterado a dinâmica dos rios. Estudos indicam que as "cicatrizes" deixadas no solo pela derrubada da vegetação e pela movimentação da terra podem atuar como "córregos" que concentram a água da chuva e a escoam para os rios vizinhos em velocidade superior à de um terreno preservado.

- Um levantamento da UFRGS mapeou cerca de 17 mil movimentos de massa no Estado. Só na bacia do Taquari-Antas temos 8,9 mil, e cerca de 50% dessas cicatrizes estão conectadas a corpos hídricos. Isso pode alterar a dinâmica da bacia, podendo diminuir o tempo de resposta dos rios (à chuva) e aumentar a velocidade com que a água chega até eles - afirma o geólogo da Defesa Civil Marcelo Ávila.

Na prática, isso pode fazer com que os rios subam mais rapidamente. Deverá ser realizado um estudo para verificar se essas alterações na geografia regional modificaram o comportamento dos mananciais em períodos de tempo severo. _

SGB deve rever terminologia de boletim

Como o SGB não faz previsão de tempo, utiliza as análises de órgãos internacionais e nacionais, a exemplo do Inmet. Essa é uma inovação implantada após a cheia de 2024. Até então, a entidade federal lançava apenas avisos de mais curto prazo, com menos tempo para prevenção, mas mais certeiros.

- Acredito que o termo "previsão" utilizado nesse tipo de boletim, que é mais de cenário, deverá ser trocado por outro daqui para frente. É um boletim inicial que apresenta possíveis cenários, mas ainda traz muita incerteza. O problema é quando isso é tomado como uma situação definitiva - argumenta a chefe do Departamento de Hidrologia do SGB, Andréa Germano.

À meia-noite, o órgão emitiu novo comunicado - já com caráter de alerta - prevendo que às 6h o Taquari já teria ultrapassado a cota de inundação (o que ocorreu). Esse segundo aviso já considerava a precipitação registrada de fato nas cabeceiras.

- Conseguimos fazer prognóstico, de fato, com no máximo 12 horas de antecedência para as partes mais baixas do Taquari, e de quatro a seis horas nas mais altas, porque é um rio de resposta rápida. Na bacia do Amazonas, boletins são divulgados com até 75 dias de antecedência - compara o chefe da Divisão de Hidrologia Aplicada do SGB, Emanuel Duarte.

Prudência nos prognósticos Procurado por ZH, o Inmet argumenta que emitiu 18 "avisos de tempo severo relacionados à chuva" entre os dias 17 e 21. Esses alertas previam possibilidade de precipitação "acima de cem milímetros ao dia" e possível "transbordamento de rios". Conforme o SGB, porém, houve pontos muito localizados onde a chuva oscilou ao redor de 200mm ao longo de um dia.

Em bacias de resposta rápida, pequenas diferenças na localização ou no volume da chuva sobre as cabeceiras podem alterar significativamente a projeção do nível dos rios poucas horas depois.

Para o professor do IPH Rodrigo Paiva, o episódio também deve servir de lição sobre como interpretar e divulgar as informações sobre possíveis cheias:

- Acho que uma das principais dificuldades foi fazer uma previsão dando a entender que existia uma certa certeza de que não aconteceria inundação antes de esperar o evento de chuva terminar. Nesses casos de bacias que respondem mais rapidamente, deve-se fazer uma interpretação mais prudente dos dados ou esperar mais. _

Sábado tem sol, mas temporais voltam ao longo da semana

Mas o fim de semana começa com um sábado ainda agradável, de sol entre nuvens na maior parte do Estado. As temperaturas mínimas variam entre 7°C e 14°C, e as máximas oscilam entre 16°C e 25°C.

Na Região Metropolitana, nos Vales e no Litoral, o tempo permanece estável e sem expectativa de chuva significativa. No entanto, o avanço gradual de instabilidades pelo Oeste, Missões, Noroeste e trechos do Sul provocará aumento da nebulosidade, com alguma precipitação ocasional entre a tarde e a noite. Apesar do tempo seco na Capital e na Região Metropolitana no sábado, a água que escoa das bacias do Interior - Taquari, Caí e Jacuí - continua chegando ao Guaíba.

Avanço nas Ilhas

A elevação, que começou de forma gradual na sexta-feira, já provocou avanços na Região das Ilhas. A projeção do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH/UFRGS) indica que o nível do Guaíba na medição do Cais Mauá deve atingir 2m70cm até este sábado. Com isso, supera a cota de alerta (2m50cm) e se aproxima da cota de inundação (3m).

Prefeitura da Capital constrói dique provisório na Zona Sul

Leonardo Martins

O Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) construiu, nesta sexta-feira, dique provisório na orla do Guaíba, no bairro Guarujá, na zona sul de Porto Alegre. Com retroescavadeiras, a prefeitura ergueu barreira de terra em frente ao rio para conter eventual cheia.

A obra dá sequência a uma medida iniciada na última quinta-feira, na vizinha Praça Zeno Simon. No local, o Dmae instalou sacos de areia para bloquear o canal que liga a Rua Jacipuia ao Guaíba e posicionou uma bomba móvel, que retira a água da chuva acumulada e a devolve ao rio. O objetivo é impedir que o Guaíba avance pelo sistema de drenagem e provoque alagamentos nas ruas do entorno.

O Guarujá é um dos bairros da Zona Sul que ainda não conta com sistema de proteção contra cheias. Sem diques e comportas, a drenagem da chuva depende da diferença de nível entre a rede pluvial e o Guaíba. Quando o rio sobe, a água pode fazer o caminho inverso, voltar pelos canos e provocar alagamentos.

Alerta até segunda

O trabalho de sexta-feira dá continuidade à ação da véspera. À tarde, as equipes atuaram na construção de um pequeno dique para proteger o canal, de modo a manter o nível da água mais baixo do que o do Guaíba. As estruturas devem permanecer no local ao menos enquanto durar o alerta de cheia para as regiões ribeirinhas das Ilhas, do Guarujá e do extremo sul da Capital. O aviso da Defesa Civil vale até segunda-feira.

A projeção do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS) indica que a cota de alerta na região, de 2m50cm (nível a partir do qual o monitoramento se intensifica), deve ser superada, com o Guaíba chegando a 2m70cm até sábado.

Na madrugada de sexta-feira, o rio subiu de forma gradual e começou a avançar na Região das Ilhas. A elevação ocorre por causa do escoamento das águas das bacias dos rios Taquari, Caí e Jacuí, que deságuam no Guaíba.

Solução definitiva

A alternativa definitiva para proteger o Guarujá ainda está em fase de estudos. Entre as opções analisadas pelo Dmae estão a construção de um muro de proteção, a elevação da Avenida Guaíba ou da própria Praça Zeno Simon. Os estudos de viabilidade técnica devem ficar prontos até o fim do ano, e a estimativa é de que a obra custe cerca de R$ 300 milhões. O projeto ainda exigiria o reassentamento de famílias, além de desapropriações e indenizações. 

25 de Julho de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Falhas na rede do Inmet continuam

Os problemas na rede de estações do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) no Rio Grande do Sul não se limitam aos dias mais críticos que antecederam as tempestades desta semana no Estado. As discrepâncias continuam, segundo aponta o meteorologista Gabriel Cassol, um dos autores do estudo que demonstrou falhas nos equipamentos entre os dias 17 e 21 de julho, período crítico das tempestades recentes no Estado. O Inmet é um órgão do governo federal.

Nesta sexta-feira, por exemplo, a estação de Uruguaiana trazia dados irreais de temperatura, falha de dados e não apresentava estatísticas sobre medição de chuva. Enquanto todos os sensores mostravam temperatura que variava entre 16°C e 16,5°C, a estação do Inmet registrava 22,9°C, uma diferença de pelo menos 6,9°C. A estação de Lavras do Sul não tinha dados sobre umidade e ponto de orvalho. Também registrava dados irreais de temperatura, com uma discrepância de pelo menos 8°C.

A estação de São Lourenço do Sul mostrava a velocidade do vento de 80,3 km/h, enquanto equipamentos na região indicavam entre 43,5 km/h e 45,9 km/h. A estação de Palmeira das Missões também continua registrando valores absurdos de rajadas de vento. O equipamento registrou 88,9 km/h sendo que não havia nenhuma tempestade ou algum sistema meteorológico atuando no Rio Grande do Sul capaz de produzir essas rajadas. Outros equipamentos na área indicavam ao meio-dia rajadas de 25,7 km/h.

Em Porto Alegre, a principal estação da Capital, localizada no Jardim Botânico, seguia apresentando três problemas: nenhum registro de ventos (velocidade, rajadas e direção), em vários horários ela não apresentava dados e sensores registrando temperaturas fora do normal.

- Isso é problema de equipamento de baixa qualidade, a única solução para corrigir esse problema é fazer a troca dos equipamentos e colocar sensores de qualidade - avalia o meteorologista.

Conforme o Ministério da Agricultura e Pecuária, responsável pelo Inmet, as estações meteorológicas "estão passando por manutenção preventiva e corretiva, que inclui a atualização do programa utilizado em sua operação". O órgão diz ainda: "os serviços são executados periodicamente e a previsão de conclusão, para o RS, é no mês de agosto". _

Conforme a Defesa Civil do RS, as 129 estações de monitoramento hidrometeorológico compradas pelo governo do Estado operam normalmente. O órgão pondera que, apesar de todas as unidades funcionarem, os sensores ainda estão no processo de calibragem, etapa que serve para garantir a qualidade da informação.

Entrevista - Gabriel Cassol
Meteorologista

"Ocorre uma degradação da previsão do tempo"

O meteorologista Gabriel Cassol assina, junto com o professor da Unisinos Artur Jacobus, o levantamento que mostrou que apenas 16 das 98 estações meteorológicas do Inmet estavam plenamente funcionando entre 17 e 21 de julho, dias críticos para os temporais no Estado. Mestre pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), o especialista está radicado em Santa Catarina, onde é proprietário da Sigma Meteorologia. Ele conversou com a coluna.

Em que momento vocês se deram conta de que havia discrepâncias?

Logo após a instalação das estações, entre março e abril, começamos, aos poucos, a observar esses problemas. Inclusive, a estação do Jardim Botânico, em Porto Alegre, já apresentava, nas primeiras semanas, algumas falhas, principalmente na medição do vento. Posteriormente, esses detalhes foram sendo corrigidos e ajustados, mas, à medida que as estações foram instaladas nas demais regiões do Estado, elas também começaram a apresentar problemas.

Quais são os erros mais comuns?

Há estações com problemas na medição do vento. Elas estão registrando, por várias horas consecutivas, rajadas muito fortes, o que não se justifica, porque não há nenhum sistema meteorológico capaz de provocar essas rajadas de vento por tantas horas seguidas. É um erro de medição do equipamento que não acontece somente em uma estação, mas em várias outras pelo Estado. Além disso, também observamos erros na medição da temperatura. 

Em algumas estações, já identificamos picos de temperatura muito altos entre uma hora e outra de medição. Poucas semanas atrás, tivemos uma tarde bastante gelada em toda a Campanha, com temperaturas em torno de 10°C. Na hora seguinte, a estação do Inmet de Santana do Livramento registrou uma temperatura de 40°C. Isso não faz o menor sentido. Na hora seguinte, a estação voltou a registrar 10°C. Observamos esse mesmo comportamento em outras estações.

Qual é o impacto desses erros?

Os países têm Centros Nacionais de Meteorologia. No caso do Brasil, esse órgão é o Inmet. Os dados gerados pelo instituto são oficiais, têm certificação e uma numeração da OMM. Esses dados são enviados diariamente para centros meteorológicos do mundo inteiro, a fim de inicializar os modelos de previsão do tempo. O modelo americano, por exemplo, é inicializado e mantido pela NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration). Já o modelo europeu é mantido pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, o ECMWF. 

Todos os dias, o próprio Inmet envia esses dados para esses centros, para que as informações abasteçam os modelos de previsão do tempo. A partir delas, é possível prever o comportamento da atmosfera para os próximos dias. A partir do momento em que se tem uma informação errada ou faltante no modelo, ocorre uma degradação da previsão. Esse impacto geralmente é maior nas primeiras 12 a 24 horas, podendo chegar, no máximo, a 36 horas. Depois disso, vai se reduzindo aos poucos. 

Se tivéssemos dados mais precisos do Inmet, poderíamos ter previsões mais assertivas, inclusive para o último evento ocorrido no Rio Grande do Sul. Houve erros nos modelos naquele primeiro cenário, em que se projetava muita chuva para a região de Santa Maria. A previsão acabou não se confirmando, e a chuva ficou mais deslocada para a região norte do Estado. A partir do momento em que se informa uma condição errada da atmosfera, esse erro vai se propagando nas horas seguintes de previsão dos modelos.

Há outros impactos?

O Rio Grande do Sul é a porta de entrada dessas frentes frias. Se já temos dados errados aqui, à medida que essas frentes avançam para as demais regiões do país, o erro também vai se propagando. Sempre prezamos pela excelente qualidade desses dados, principalmente porque são informações oficiais e alimentam os modelos de previsão. 

INFORME ESPECIAL

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