segunda-feira, 31 de agosto de 2026

31 DE AGOSTO DE 2026
EM NOVA PETRÓPOLIS

EM NOVA PETRÓPOLIS

Rebeca e Anna se conheceram na adolescência, em Belém (PA), e transformaram a paixão pelos livros em projeto na Serra. A iniciativa reúne cenários inspirados em magia e romance. Além de local para ir comprar um livro, a ideia é ser um ponto de encontro para os leitores

A mais de 3 mil quilômetros do local onde se tornaram amigas há cerca de 16 anos, as duas se reencontraram na Serra como se as histórias tivessem sido escritas justamente para esse destino. Anna Júlia, natural do Rio de Janeiro, morava no estado fluminense e veio a Gramado passar a lua de mel em 2020. Na viagem, passou por Nova Petrópolis e, num ato definido como "loucura", comprou uma casa e se mudou com o esposo, Luiz Guilherme Prado. Rebeca morava em Antônio Prado com o marido, que passou em uma prova de residência médica em Nova Petrópolis.

No reencontro das amigas, mesmo estando há anos sem contato pessoalmente, os livros foram assunto. E a ideia de tornar o sonho de adolescentes em realidade ganhou força. Assim, nasceu o projeto da Livraria Romântica, em maio de 2026. O estabelecimento abriu as portas em julho e já tem conquistado o público leitor nas redes sociais pelos ambientes temáticos.

A livraria encanta pela riqueza de detalhes, todos pensados por fãs de livros para fãs de livros. São dois ambientes temáticos: o da fantasia e o de romance. As escolhas dos temas são, justamente, em função do gosto das donas.

- A gente sempre brincava que nós duas somos leitoras, mas parece que a gente nunca leu a mesma coisa. E isso é perfeito, porque tem coisas que eu nunca leria se não fosse a Rebeca para me indicar. Até para os clientes, porque, às vezes, chega uma pessoa que gosta mais de fantasia, e a Rebeca vai lá, ou então romance de época, aí é com a Anna Júlia - explica Anna.

Imersão no universo fantástico

A imersão se estende ao teto do ambiente. Forrado com um material que simula nuvens, a iluminação obedece ao comando de voz e da varinha mágica. Para acender, é preciso apontar a varinha e dizer o nome do feitiço Lumos. Para desligar a luz, o comando é Nox.

- Essa ideia veio dos nossos corações de leitoras. A gente queria que as pessoas se sentissem dentro de um livro. Temos easter eggs (mensagem secreta escondida de propósito) como os livros voando, a Nimbus 2000, o teto de velas... - conta Rebeca.

Logo ao lado, no ambiente dedicado ao romance, os tons de rosa tomam conta, com detalhes como uma mesa de chá, com bule e pãezinhos decorativos. Para instigar a nostalgia, há o setor dos romances de banca, livros curtos de capa mole e baixo custo, vendidos em bancas de jornal e famosos no Brasil nos anos 1960.

- A gente quer que a pessoa se sinta acolhida, num ambiente lúdico. Que chegasse aqui e ficasse com aquela sensação de quentinho no coração, de sentir que está na regência (universo onde se passa a história de Bridgerton), ou dentro de um livro da Jane Austen - orgulha-se Rebeca.

Além da ludicidade, a proposta das sócias é tornar o ambiente um local de acolhimento para a comunidade leitora. Conforme as sócias, é comum que mulheres adultas sejam julgadas pelos tipos de livros que leem, como histórias de fantasia.

- A gente quer propor um espaço que seja bem acolhedor e seguro. A gente quer que a pessoa seja uma adolescente de novo e se sinta respeitada - afirma Anna.

Cenário bucólico

- A gente mora aqui há seis anos e pensava "Nova Petrópolis é uma cidade tão linda, tão histórica", mas acaba sendo uma cidade de passagem, porque as pessoas querem ir só pra Gramado. Então, ver a evolução da livraria e as pessoas parando, todo mundo ganha, né? - observa Anna.

Mas para quem vai em busca de livros, os que mais têm saído são as edições de colecionador de sagas como O Senhor dos Anéis, Harry Potter e As Crônicas de Nárnia. Esse último universo, inclusive, é que vai ser tema de um novo espaço que está sendo montado na sala ao lado.

- Achávamos que os livros mais baratos sairiam mais. O que realmente mais sai são as edições de luxo. A gente percebe que a pessoa vem aqui e é como se ela quisesse viver uma experiência completa. Vim num lugar lúdico, então eu vou levar algo de recordação - explica Rebeca. _

Como chegar

A Livraria Romântica fica no centro de Nova Petrópolis, no Parque Aldeia do Imigrante. Para ter acesso ao espaço, é necessário comprar ingressos (R$ 38) - moradores de Nova Petrópolis não pagam ingresso.

Endereço: Avenida 15 de Novembro, 1.966 - Centro, Nova Petrópolis

Horário: de quarta-feira a domingo, das 10h às 17h

GABRIELA ALVES

31 de Agosto de 2026
OPINIÃO RBS

Compra Assistida, controle necessário

Uma reportagem publicada em GZH sob o selo do Grupo de Investigação (GDI) da RBS revela preocupantes suspeitas de irregularidades envolvendo a aquisição de imóveis para quem foi afetado pela enchente em Porto Alegre por meio do programa Compra Assistida. A apuração dos jornalistas Humberto Trezzi e Guilherme Milman descobriu que pairam desconfianças sobre um em cada 14 beneficiários do projeto destinado a garantir um novo teto a quem foi atingido pela intempérie.

Embora os 308 contratos com indícios de ilegalidade representem uma fatia minoritária em comparação aos 4,4 mil favorecidos, conforme indica a matéria veiculada na quarta-feira em GZH e na edição de Zero Hora do fim de semana, sinalizam a urgência de reforços nos mecanismos de controle de diferentes esferas de governo e a necessidade de melhorar o desenho e a integração das políticas públicas diante de futuras catástrofes.

Criado pelo governo federal em junho de 2024, na esteira do pior desastre climático do Estado, o programa prevê o repasse de imóveis avaliados em até R$ 200 mil. Pode ser beneficiado quem se enquadra nas faixas 1 ou 2 do Minha Casa Minha Vida (com renda de até R$ 4,7 mil mensais), teve a residência danificada pela cheia e mora em área de risco. Em contrapartida, os contemplados têm de deixar o antigo endereço e não podem vender ou alugar a nova casa.

Há evidências de que parte dos atendidos não seguiu alguma dessas normas, seja por falsear o cadastro ou usufruir de maneira imprópria do bem comprado com dinheiro público. Vale ressaltar que, em situações emergenciais, é fundamental que os governos atuem de forma ágil para amenizar o sofrimento da população. Essa presteza não pode ser confundida com o afrouxamento da fiscalização. O pior cenário é quando o atendimento aos necessitados é feito de forma morosa e, ainda assim, suscetível aos espertalhões que veem no infortúnio coletivo uma brecha para a conquista de vantagens individuais indevidas.

A prefeitura da Capital argumenta que a Caixa Econômica Federal demorou meses para liberar a lista de endereços de quem adquiriu imóvel por meio do programa. Ou seja, o município sabia quem havia sido contemplado, mas desconhecia o local escolhido para residir. Conforme a reportagem, isso dificultou o trabalho de verificar se as pessoas estavam de fato morando no imóvel destinado a elas ou haviam cedido, alugado ou vendido a residência.

Diante dessa situação, é crucial que os órgãos públicos sigam fiscalizando a execução do projeto, que os casos suspeitos sejam devidamente apurados - e os eventuais responsáveis, punidos - e, acima de tudo, que o episódio sirva de lição para o aprimoramento da aplicação de políticas sociais de moradia. Uma vez que os fenômenos climáticos severos tendem a ser cada vez mais frequentes, será preciso contar com projetos de realocação populacional céleres e confiáveis. A melhor forma de prevenir o mau uso de recursos públicos é integrar órgãos e níveis de governo e aprimorar o cruzamento de informações antes mesmo da concessão do benefício. 

31 de Agosto de 2026
CAMPO E LAVOURA - Carolina Pastl

A oportunidade para a safra de inverno

A transição energética ganha espaço entre os debates do terceiro dia da 49ª Expointer, hoje, no parque Assis Brasil, em Esteio, com iniciativas que aproximam o agronegócio (mais especificamente, a produção de inverno) do mercado de biocombustíveis. Enquanto o setor da canola vai discutir o uso do grão como matéria-prima para a produção de energia, a Be8 vai apresentar o seu investimento em Passo Fundo, superior a R$ 1,5 bilhão, para a produção etanol de cereais e demais produtos a partir do trigo.

No caso da canola, a discussão, que ganhou força durante o 4º Rally da Canola, em diferentes regiões do RS e do Paraná na última semana, será assunto do primeiro Campo em Debate da Casa RBS na feira, a partir das 10h, com mediação de Gisele Loeblein. A ideia será debater caminhos para a expansão da área cultivada, que já cresce, e mercados futuros.

Neste ano, a canola ocupa de 395 mil hectares no RS, segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Canola (Abrascanola). Mas um levantamento da Rede Técnica de Cooperativas (RTC), da CCGL, estima que o potencial é de que se possa chegar a 1,4 milhão de hectares. Atualmente, conforme a Abrascanola, o mercado de alimentos absorve o equivalente a 100 mil hectares de canola. Parte da produção restante pode ser destinada à fabricação de biocombustíveis ou à exportação.

A ideia, no caso da Be8, será fomentar o cultivo do trigo no Estado. A possibilidade de ampliar esses dois mercados, vale lembrar, também tem a ver com calendário agrícola do RS. Dos cerca de 9 milhões de hectares ocupados por culturas de verão, como a soja, menos de 2 milhões são utilizados no inverno, segundo a Abrascanola, com culturas como trigo e canola. _

Vitrine da carne

A carne de cordeiro ainda carrega uma fama que o setor considera coisa do passado: a de ter cheiro e sabor fortes. Para ajudar a mudar essa percepção, a proteína é uma das que está exposta na Vitrine da Carne Gaúcha até sábado, no parque Assis Brasil, em Esteio, durante a 49ª Expointer.

A apresentação, acompanhada por 40 pessoas, foi conduzida pelo chef Bruno Ivanoff em parceria com a Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), Farsul, Celebra Gourmet e Escola de Gastronomia do Senac. _

Quando o campo encontra o mar

- Chegou o momento de surfar na onda (do brangus e da pecuária). Os próximos anos serão de mar bom. Não baixem a régua.

A frase do produtor, leiloeiro e surfista Pedro Bastos deu o tom de uma conversa diferente na 49ª Expointer. Ontem, durante o Dia do Brangus, pecuária e surfe dividiram o mesmo palco para discutir o futuro da carne e da própria raça, que tem, nesta edição, o maior número entre os bovinos de argola. O painel "Pecuária, carne e o Brangus na visão de agro-surfistas", promovido pela Associação Brasileira de Brangus, reuniu Eduardo Linhares da Silva, Ignácio Tellechea, Ignácio Weiller, Pedro Bastos e Rafael Linhares da Silva, com mediação de Roberto Grecellé, executivo-chefe da entidade.

Para Bastos, o produtor brasileiro deve aproveitar o momento:

- Os EUA estão com o menor rebanho da história, e a China retirou a cota. 

120 anos de angus no Brasil

Assim como a devon, a raça angus, originária da Escócia, completou 120 anos de história no Brasil. Foi em 1906, em Bagé, na Campanha, onde chegou ao país o primeiro touro angus de que se tem registro, Menelik, trazido do Uruguai pelo criador Leonardo Collares Sobrinho. De lá para cá, a raça ajudou a transformar a pecuária de corte brasileira e se tornou sinônimo de carne de qualidade. Na Expointer, uma homenagem marcou a data: a inauguração de uma placa comemorativa na casa da Associação Brasileira de Angus. _

O gaúcho Patric Luderitz foi eleito vice-presidente da Confederação Brasileira de Apicultura (CBA). Ele está como presidente em exercício da Federação Apícola e de Meliponicultura do Rio Grande do Sul (Fargs).

CAMPO E LAVOURA

31 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL

Rafael Valim

Advogado brasileiro que integra a equipe de defesa da ex-presidente

"No caso Cristina, houve uma campanha difamatória"

A ex-presidente da Argentina Cristina Kirchner contratou o brasileiro Rafael Valim para a sua equipe de advogados. Ele vai liderar a defesa em cortes internacionais. Cristina foi condenada no "Caso Vialidad".

Como você passou a integrar a equipe de defesa da ex-presidente Cristina Kirchner?

O núcleo próximo da Cristina me procurou e eu quis examinar o caso. Eu tinha, obviamente, uma impressão do que era, mas não conhecia tecnicamente. Fiquei convencido de que era uma causa boa a ser defendida.

A ONU pode alterar a decisão da Justiça argentina?

Essa é a grande incompreensão, não só na Argentina, mas como foi no Brasil na época do caso Lula. A primeira coisa que as pessoas estão questionando é que levar à ONU é uma ingerência no Poder Judiciário da Argentina. Agora, como que temos de entender isso? O sistema internacional de proteção dos Direitos Humanos integra as ordens internas por deliberação dos próprios Estados nacionais. 

No caso da Argentina, como resultado do processo de redemocratização, houve uma abertura muito grande do sistema constitucional aos Direitos Humanos. E esses tratados na Argentina têm status constitucional. A constituição estabelece que o pacto internacional de direitos civis e políticos e o protocolo facultativo são o que permite o acesso dos cidadãos à ONU. É o próprio sistema constitucional argentino que habilita esse questionamento, caso se configurem violações às garantias fundamentais.

Você trabalha a tese de lawfare. O que é isso?

É uma junção da palavra "law", direito, e "warfare", que é guerra. E essa é a concepção do Direito ser instrumentalizado como uma arma para destruir inimigos. Como sabemos, o Direito nasce na ideia de ser um instrumento de pacificação social. E ele pode ser desvirtuado para ser usado como uma arma de destruição. Eu digo que no lawfare é uma guerra muito mais perversa, porque ela é camuflada. Eu conceituo como o uso estratégico do Direito para fins de deslegitimar o inimigo.

Quais exemplos podemos citar de casos de lawfare?

Talvez um exemplo de (sala de) aula foi o caso Lula. Porque nós temos três dimensões na teoria: da geografia, do armamento e das externalidades. Da geografia é a escolha do órgão aplicador do Direito. Eu falo disso há alguns anos, que o Sergio Moro era um juiz incompetente. Depois tem o armamento, que é o uso, no caso aqui do lawfare, das normas e das leis que lhe são favoráveis. 

Ou, quando você não tem uma lei que é favorável, você cria estados de exceção, que foi também o que aconteceu no caso Lula. E depois nós temos as externalidades, que é o papel dos meios de comunicação, das redes sociais, para gerar e criar um ambiente de culpabilidade. Que torna mais fácil o ataque.

Quais pontos que vocês levarão à ONU para classificar o caso Cristina como lawfare?

Violação à imparcialidade. Nós demonstramos que não houve um tribunal independente que julgou Cristina. Houve manobras para escolher juízes. Houve violação à presunção de inocência. Como semelhança do caso Lula, no caso Cristina também houve uma maciça campanha difamatória e a criação de um ambiente de culpabilidade. Arguímos que de oito a 10 artigos do Pacto Internacional de Direitos Políticos foram violados. _

Colaborou Maria Clara Centeno

Maduro aparece em fotos na prisão

Os perfis de Nicolás Maduro no Telegram e no X publicaram fotos do ex-presidente da Venezuela na prisão. As imagens são datadas de 25 de junho.

"Envio estas fotos como um pequeno presente a todos os meus netos e netas, às crianças, e a toda a gente nobre que nos ama. Quero que saibam que estamos firmes", disse um trecho da mensagem divulgada. 

resiliência

A Granpal realizará, no dia 8, um seminário internacional para debater o crescimento econômico, governança metropolitana, atração de investimentos, competitividade, inovação e resiliência. O evento contará com a participação do Instituto Deltares, da Holanda, que realiza pesquisas sobre água, subsolo e infraestrutura.

INFORME ESPECIAL

sábado, 22 de agosto de 2026

22 de Agosto de 2026
CARPINEJAR

Anjos de asas cortadas

Foi só um tapa, e crianças aparecem espancadas. Foi só um empurrão, e crianças são arremessadas nas paredes e nos móveis. Foi só uma queda de uma brincadeira, e crianças entram em coma. 

O inferno deve estar vazio, porque as tragédias estão enchendo as nossas ruas. Em Porto Alegre, no domingo passado, presenciamos mais um episódio de inexplicável e sombrio assassinato na infância.

Samylle, de 4 anos, sob a tutela dos tios, apesar de a guarda judicial pertencer à mãe, não resistiu aos ferimentos advindos de um castigo. O responsável de 22 anos afirma que aplicou apenas palmadas em sua bunda, e numa única vez, porém Samylle morreu de politraumatismo.

A Justiça decretou a prisão preventiva do réu. A Polícia Civil trata o caso como homicídio doloso, por ele ter assumido o risco de causar a morte.

O casal de tios com o qual Samylle morou nos últimos meses, com o aval do Conselho Tutelar, buscou atendimento na UPA Bom Jesus porque a menina havia convulsionado, e alegou que os hematomas seriam decorrentes de um tombo numa recreação.

Não é correção, nunca será correção, mas brutalidade a um ser frágil. Não é que perdeu a medida, mas promoveu um ato de violência gratuita e insana. Não é que educava, mas intimidava. Não é que pretendia dar uma lição provisória, mas investia suas forças para calar uma inocência para sempre. Não é que pretendia que ela deixasse de fazer algo errado, mas que deixasse de viver e perturbar.

A boçalidade nunca tem freios. Nem a vulnerabilidade inibe o ataque. A raiva não pede licença nem motivos. Não era a criança que vinha precisando de limites, era o adulto que carecia de limites.

Novamente aquele que cuidava matou. Novamente o berço se tornou cemitério. Novamente ouvimos versões inverossímeis a partir dos depoimentos para as autoridades. A criação nas mãos erradas gera destruição.

A razão assassina, de acordo com testemunha, resumiu-se ao fato de a pequena ter feito necessidades na calça. É de se supor o quanto ela já vivia sob o jugo de ultimatos e pressão psicológica. Seu corpo se mostrava desregulado de tanto medo. Clamava por ajuda. Gritava por socorro.

Samylle não pôde se defender, não pôde dizer o que sofria, não pôde ser resgatada por um colo redentor.

Desejava ser amparada, traduzida, apoiada, orientada. Desejava que alguém preparasse as suas tranças, colocasse os enfeites coloridos nos seus cabelos, a incentivasse a rir, demonstrasse paciência para responder à sua curiosidade sobre o mundo. Embora tenha trocado de lar após denúncias que correm em sigilo, não encontrou o carinho de que precisava, e sim manchas roxas na cabeça, nas pernas e nas nádegas.

Como se sentiria protegida, migrando de casa em casa, de crise em crise, sem jamais encontrar uma rede realmente segura? Não vai passar. Dói monstruosamente, e não vai passar. Cortam-se as asas dos anjos. Não há escada para o céu. 

CARPINEJAR

22 de Agosto de 2026
OPINIÃO RBS

Sinais de baixa renovação na Câmara

Na contramão da insatisfação da sociedade com o desempenho da Câmara dos Deputados, diferentes prognósticos, de instituições e cientistas políticos, elevam as apostas em um baixíssimo índice de renovação na Casa na eleição deste ano. É possível que os números conhecidos no próximo dia 4 de outubro mostrem a menor oxigenação desde a redemocratização do país. Por certo há parlamentares com bons serviços prestados que merecem a recondução, mas a chegada de novos rostos e ideias é saudável para qualidade da representação política. Diante do empoderamento do Congresso e dos altos volumes de recursos administrados pela cúpula dos partidos, fica difícil vislumbrar uma reversão significativa desse cenário.

Uma recente análise do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), a partir do histórico das eleições anteriores e dos novos fatores que dão mais força aos candidatos em busca de reeleição, projeta que a renovação neste ano ficará entre 14% e 44%. Assim, teria grandes chances de acabar abaixo da menor taxa de eleição de novos deputados federais, de 43%, em 1988.

Vários aspectos sustentam as previsões de um inédito número de reeleições. Entre elas, o alto índice de recandidaturas. Dos 513 deputados em exercício, 438, ou 85,38% do total, vão tentar permanecer na Câmara. São oito a menos do que em 2022, mas isso porque 42 deputados - o dobro de quatro anos atrás - vão buscar colocação no Senado, que neste pleito terá dois terços das vagas em disputa. Apenas 14 deputados não vão se candidatar a nada.

Salta aos olhos a grande assimetria de condições de competitividade entre os deputados com mandato e novos postulantes à Câmara. Apenas em emendas individuais, cada membro da Casa teve este ano em média R$ 40 milhões para distribuir às suas bases, na busca de fidelizar eleitores e assegurar o apoio de prefeitos. Sem falar nas demais verbas que custeiam viagens, material, combustível e assessores.

As minirreformas eleitorais de 2015 e 2017 e o advento das federações, bem-vindos em muitos aspectos, também acabam contribuindo com essa tendência. As alterações legislativas tiveram o propósito de dificultar a criação de novas siglas e de estimular fusões, incorporações e associações, com o objetivo de diminuir a grande fragmentação partidária e, de certa forma, facilitar a governabilidade no contexto do presidencialismo de coalizão. Um dos principais mecanismos é a limitação do acesso ao dinheiro do fundo partidário, pelas cláusulas de desempenho. São regras que começaram a ser implementadas em 2018 e seguirão se tornando mais restritivas até 2030. Também foi reduzido o número de candidatos que cada legenda ou federação pode lançar.

O resultado é que, neste ano, a quantidade de postulantes à Câmara é de 7,6 mil, 28% abaixo dos 10,6 mil em 2022. A relação candidatos/vaga caiu de 21 para 15. Há menos gente na disputa e a preferência dos partidos passou a ser privilegiar ainda mais quem já detém o cargo, a partir da própria competitividade conferida pela atividade parlamentar. Diante do espírito de corpo reinante, trata-se de uma realidade que tende a ser mais difícil de ser modificada, continuando a dificultar uma saudável renovação na Câmara. São circunstâncias que reforçam a importância de o eleitor dar maior atenção à escolha do candidato ao cargo que merecerá seu voto daqui a seis semanas. 

22 de Agosto de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Datafolha mostra cenário estável na eleição

Como se houvesse uma camada de Teflon a proteger o presidente Lula (PT) e o candidato do PL, Flávio Bolsonaro (PL), nada se move para além da margem de erro no cenário eleitoral. A pesquisa do Datafolha, a primeira realizada após o início oficial da campanha, traz números idênticos ao levantamento anterior e aos de outros institutos. Na simulação de segundo turno entre os dois, Lula tem 47% das intenções de voto e Flávio, 43%. Em 24 de julho, Lula tinha 48% e Flávio, 43%. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

No primeiro turno, Lula segue à frente, com 39%, seguido de Flávio, com 33%. Abaixo deles, Ronaldo Caiado (PSD) tem 5%, Renan Santos (Missão), 4%, Romeu Zema (Novo), 3%, Augusto Cury (Avante), 2%, Samara Martins (UP), 1%, Rui Costa Pimenta (PCO), 1%, Wilson Grassi (Democrata), 1% e Edmilson Costa (PCB), 1%. Clariana Barão (DC) e Hertz Dias (PSTU) não pontuaram. Branco, nulo ou nenhum somam 6% e indecisos, 4%. Em um segundo cenário, o Datafolha incluiu Pablo Marçal (PRTB), que está inelegível mas registrou a candidatura. O índice dele foi de 2%.

Flávio e Lula empatam na rejeição

Mais uma vez, registra-se empate técnico no quesito rejeição entre Lula e Flávio. Questionados pelo Datafolha sobre os candidatos em que não votariam de jeito nenhum, 46% responderam Flávio e 45%, Lula. Também ocorre empate técnico no segundo pelotão entre Zema (16%), Renan (14%) e Caiado (14%).

Três dados atestam que há margem para alteração do cenário com a propaganda de rádio e TV: 27% dos entrevistados disseram que ainda podem mudar seu voto, os indecisos, brancos e nulos somam 11% na estimulada. E na espontânea, indecisos, brancos e nulos chegam a 38%.

A pesquisa foi encomendada pela TV Globo e está registrada no TSE com o número BR-04496/2026. O Datafolha ouviu 2.058 pessoas de 16 anos ou mais entre os dias 18 e 20 de agosto. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. _

Pelas pesquisas do Datafolha divulgadas na sexta-feira, três candidatos estariam eleitos no primeiro turno: Tarcísio Freitas (Republicanos) em São Paulo, Eduardo Paes (PSD) no Rio, e Raquel Lyra (PSD) em Pernambuco.

Como será dividido o tempo na TV

No dia 28, terá início o horário eleitoral em rádio e televisão. A divisão do tempo e a ordem de aparições dos candidatos foram anunciadas nesta sexta-feira pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RS).

Na estreia, Luciano Zucco (PL) será o primeiro a aparecer na propaganda eleitoral, e terá também o maior tempo: 4 minutos e 24 segundos. Juliana Brizola (PDT) virá na sequência, com 2 minutos e 21 segundos.

Marcelo Maranata (PSDB) é o terceiro, com 30 segundos. Gabriel Souza (MDB) fecha o bloco dos candidatos a governador, com 1 minuto e 44 segundos. Nos demais dias, a apresentação segue o sistema de rodízio. 

aliás

Os oito candidatos ao Senado terão de dividir sete minutos diários. Marcel van Hattem e Sanderson terão o maior tempo (3 minutos e 25 segundos para dividirem), seguidos de Manuela d?Ávila e Paulo Pimenta, com 1 minuto e 49 segundos. Germano Rigotto e Frederico Antunes terão 1 minuto e 20 segundos.

Candidato do PL faz incursão de três dias por nove cidades da Serra

Candidato a governador pelo PL, Luciano Zucco escolheu um terreno fértil para encerrar a primeira semana de campanha nas ruas. Nos últimos três dias, Zucco fez uma incursão por nove cidades da Serra.

Em 2022, a maior parte dos votos foi para os candidatos do PL: Onyx Lorenzoni, na disputa pelo Palácio Piratini, e Jair Bolsonaro, na corrida presidencial.

A agenda terminou na sexta-feira em Caxias do Sul, com caminhadas pelas ruas da região central e visitas a comitês de candidatos aliados.

Antes de Caxias, o candidato do PL passou por Vacaria, Lagoa Vermelha, Guaporé, Bento Gonçalves, Nova Prata e Veranópolis, Garibaldi e Farroupilha. _

Grendene doa R$ 2,5 milhões para campanha de Zucco

Menos de uma semana depois do início da campanha, apenas dois candidatos a governador apresentaram relatório parcial sobre recursos recebidos na campanha. O primeiro é Luciano Zucco (PL), que ganhou, de uma só vez, R$ 2,5 milhões do empresário Alexandre Grendene.

Pela legislação eleitoral, empresas não podem fazer contribuições para campanhas, mas seus donos podem doar como pessoas físicas.

A única outra campanha que registrou entrada de recursos é a de Rejane Oliveira (PSTU) - R$ 500 doados por Marcela Azevedo. _

Van Hattem no topo das doações

Entre os candidatos ao Senado, a maior entrada de recursos foi registrada por Marcel van Hattem (Novo). O deputado recebeu um total de R$ 651 mil nestes primeiros dias, sendo R$ 500 mil do diretório estadual do partido e o restante de doações de pessoas físicas: R$ 50 mil de Marcos Ribeiro Simon, R$ 30 mil de Valdomiro Remussi, R$ 20 mil de Antonio Augusto Bastos Filho e R$ 15 mil de Marina Helena Santos.

A assessoria de Marcel informa que esse dinheiro repassado pelo partido é de doações privadas e não do fundão eleitoral. A lista das pessoas que doaram para a sigla pode ser conferida no site DivulgaCand, do TSE.

Ainda sem incluir na campanha, Van Hattem também arrecadou mais de R$ 726 mil em vaquinha online. Em segundo lugar, vem Ubiratan Sanderson (PL), que recebeu R$ 100 mil do empresário Celso Rigo.

Paulo Pimenta declarou duas doações de pessoas físicas, no valor total de R$ 50 mil, sendo R$ 30 mil de recursos próprios e R$ 20 mil da esposa Cláudia Pereira Dutra.

Os demais não apresentaram relatório parcial de receita ou despesa. _

POLÍTICA E PODER

22 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Mudança na Lei Seca é vitória do bom senso

Quem dirige sob efeito do álcool põe outras pessoas em risco. Logo, é fundamental que a mão forte do Estado atue sobre quem assume a possibilidade de matar. Havia, no entanto, uma lacuna sobre outras drogas, que são tão graves quanto a cerveja, o vinho e os destilados ao serem combinadas com a direção. Drogas psicoativas, como o próprio nome diz, também modificam o comportamento.

Por isso, é muito positiva a mudança na chamada Lei Seca, que passa a exigir, nas abordagens, o uso de equipamentos que também detectem o consumo de outras drogas. Cabe, agora, aos Estados, fazer sua parte e comprar os aparelhos, que, por enquanto, ainda são limitados quanto ao índice de presença no sangue para o caso das substâncias psicotrópicas. Detectar presença é uma coisa, a quantidade, outra. Com álcool também se evoluiu assim.

Sobre a adoção de uma triagem e um segundo olhar sobre o fenômeno do álcool residual, há uma vitória do bom senso. Primeiro, porque o pré-teste não é punitivo. Tem foco na orientação. Segundo porque a realização de uma fase de seleção, antes do teste do etilômetro, pode acelerar o processo da blitz. Nem todo mundo faz "bafômetro", nome popular do equipamento, processo que, muitas vezes, é demorado.

Sobre o álcool residual, também vitória do bom senso: uma pessoa que come um bombom de liquor ou faz uso do enxaguante bucal não pode ser tratada da mesma forma de quem ingere álcool e assume a direção de um veículo. A oportunidade de fazer o segundo teste já é de praxe nas blitze, mas, agora, passa a ser regulamentada. _

Arroz de Canoas para a Colômbia

Um avião com 19 toneladas de arroz saiu de Canoas, na Região Metropolitana, para a Colômbia. A carga é uma resposta ao pedido de assistência formulado pelas autoridades colombianas após o terremoto que atingiu o país no último dia 10 de agosto.

As doações partiram na quinta-feira, com a estimativa de chegar a Pereira, uma das cidades mais afetadas, nesta sexta-feira.

A doação segue a bordo da aeronave cargueira KC-390, da Força Aérea Brasileira (FAB). O arroz é proveniente dos estoques públicos do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), administrados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Segundo a Secretaria de Comunicação da Presidência da República, a quantidade de material doado não compromete o abastecimento nacional.

O epicentro do terremoto que atingiu a Colômbia há cerca de dez dias foi em San José del Palmar. O episódio teve magnitude 7,4, deixando 319 mortos e 4,5 mil feridos. _

Parceria entre TJRS e Corte internacional

O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) e a Corte Interamericana de Direitos Humanos assinaram um acordo de cooperação para fortalecer o diálogo entre o Judiciário gaúcho e o Sistema Interamericano de Direitos Humanos. Com a assinatura, o TJRS é o primeiro tribunal do Sul e o primeiro de grande porte no país a firmar essa parceria.

O acordo visa ao intercâmbio de experiências e boas práticas na proteção dos direitos humanos e à melhoria da prestação jurisdicional, além de ampliar a difusão da jurisprudência interamericana. Estão previstas pesquisas, eventos acadêmicos conjuntos e a oportunidade de estágios. _

Entrevista - Lilia Frankenthal
Advogada criminalista e presidente da Aviva18

"Posso ser sionista e ser contra a política do governo de Netanyahu"

Advogada criminalista e presidente da Aviva18, Lilia Frankenthal está lançando o livro O Antissionismo Impossível - História, Direito e Crime na Negação da Autodeterminação Judaica. Na obra, ela reúne história, direito penal e análise da linguagem, explorando significados e consequências da negação da existência do povo judeu.

Por que o antissionismo é impossível, como a senhora afirma no título do livro?

Sionismo é o direito ao judeu de ter a sua autodeterminação. Até 1948, o antissionismo podia existir. Porque o sionismo era a meta de um projeto: Israel. Depois que Israel foi reconhecido e existe, o antissionismo não é mais possível. Porque aquele projeto, que era uma teoria, foi concretizado. Ser contra assentamentos, políticas de governo, guerras, é crítica legítima. Só que não é sionismo. O sionismo já conseguiu o que queria. Então, como você vai ser antissionista? Não existe mais, não é mais uma ideologia, não é mais uma coisa acadêmica.

Ações antissionistas não são recentes. O livro lembra episódios que já mostravam esse teor antes da fundação de Israel.

Para entender o conceito preciso voltar lá atrás porque as pessoas costumam dizer: "Claro, vocês foram expulsos de não sei quantos países". Mas o antissemitismo começou lá atrás. A primeira manifestação foi quando queriam que os judeus se assimilassem e adorassem os deuses que na época existiam, e eles se recusaram. Ali, começou. Não tem nada a ver com política, com sionismo, não tem nada a ver, inclusive, com Israel. O antissemitismo é algo anterior. Como durante milênios isso foi sendo repetido de diferentes formas, a desumanização do povo judeu vem existindo e culminou na Shoah (Holocausto). E continua, porque a primeira coisa que você precisa para ser racista é desumanizar o outro. Como os judeus vêm sendo desumanizados há muito tempo se tornam um alvo fácil de narrativas. O antissemitismo vem mudando de roupa.

Como explicar às pessoas que é possível criticar o governo de Israel sem negar a existência do Estado de Israel ou mesmo o direito de um povo de existir?

Sabe quem mais critica o governo de Israel? Os israelenses. Politicamente falando. Eu, se formos sentar para fazer crítica legítima, eu também tenho mil. Claro que Israel está mais dentro do meu coração e tem mais a ver comigo. Mas a crítica legítima faz parte da democracia. "Não concordo com o que o governo está fazendo, condeno a guerra, os assentamentos". Tudo isso é crítica legítima. Agora, quando colocam todos os sionistas, judeus, em um grupo monolítico, você está desumanizando aqueles indivíduos. Quando você desumaniza, você adota com uma narrativa falsa, como "os sionistas são todos genocidas". Posso ser sionista e ser contra a guerra. Eu posso ser sionista e ser contra a política do governo de Netanyahu. E não há nenhum problema nisso. Há uma diferença muito grande em você fazer a crítica legítima e a crítica a um grupo. 

INFORME ESPECIAL

sábado, 15 de agosto de 2026

15 de Agosto de 2026
EUGÊNIO ESBER

Aconteceu em Santa Rosa

"Sem pressa, foi cada um pro seu lado pensando numa mulher, ou num time."

Na terra em que nasceu e viveu, ninguém noticiou sua partida, na última segunda-feira. Nem a longa melancolia que foi devorando, aos poucos, a sua vontade de viver. E assim, sob um silêncio de amém, como cantou João Bosco em De Frente pro Crime, Seu Ronaldo Edison Richard morreu do coração, como se costuma dizer na sua Santa Rosa. 

E de desgosto, por certo, ante a indiferença dos circunstantes. Perseguido por crimes que não cometeu, viu-se, aos 63 anos, indefeso diante da brutalidade de um aparato judicial tirânico.

Em janeiro de 2024, a Polícia Federal esteve na casa de Seu Ronaldo, em Santa Rosa. Recolheu e vasculhou seu telefone. Ele não tinha estado em Brasília nos atos de janeiro de 2023, mas era preciso achar algo, qualquer coisa, para alimentar a sanha dos inquéritos de Alexandre de Moraes. A diligência encontrou mensagens em que o idoso ajudava a reunir pessoas para a locação de um ônibus com destino à capital federal, e custeou a passagem de um manifestante. Isso era tudo. 

Na verdade, era nada. Mas a Procuradoria-Geral da República, que até hoje não viu razão para abertura de inquérito contra Moraes pelas ligações milionárias com o liquidado Banco Master, foi implacável com Seu Ronaldo. Enquadrou o idoso como "financiador" de sabe-se-lá-o-quê e o denunciou por cinco crimes: associação criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito, golpe de Estado, dano qualificado ao patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.

Moraes, o carrasco da liberdade de imprensa e de tantas outras garantias constitucionais, estava pronto para sentenciar Seu Ronaldo, que já estava com seus bens bloqueados. A morte abreviou a excruciante espera por uma pena descabida. "O Brasil ainda vive as conseqüências de um 8 de janeiro que parece não ter acabado", disse Ana Maria Cemin, a jornalista gaúcha que se tornou voz essencial na denunciação do arbítrio e da perversidade da juristocracia brasileira. 

"Três anos e meio depois, já são 11 mortos. Vidas atravessadas por medidas extremas, processos longos, restrições severas e uma máquina estatal que não recuou - nem diante da fragilidade humana."

A propósito: a lei da dosimetria de penas, tímida correção dos abusos praticados pelo STF, foi promulgada pelo Congresso Nacional há 98 dias. Um único homem, Alexandre de Moraes, engavetou a lei, sob o silêncio cúmplice ou indiferente de quem tem o poder institucional para detê-lo. Mas... instituições? Que instituições? Como escreveu a jornalista norte-americana Mary Anastasia O?Grady no Wall Street Journal, houve, sim, um golpe de Estado no Brasil. Mas quem o promoveu foi a própria Suprema Corte brasileira. _

EUGÊNIO ESBER

 

15 de Agosto de 2026
PAULO GERMANO

A rebeldia dos covardes

Depois de anos de abandono, tapumes e obras, um dos monumentos mais extraordinários de Porto Alegre finalmente ensaia uma ressurreição. O icônico viaduto da Borges foi restaurado e agora recebe os primeiros lojistas de um projeto que pretende devolver cultura, gastronomia e gente às suas arcadas. Pois nesta semana, quando a cidade começava a reaver esse pedaço de si, alguém surgiu com a velha lata de spray para esculhambar. E lá foi a prefeitura, pela 11ª vez desde a entrega da reforma, há quatro meses, gastar tempo e dinheiro para apagar os garranchos.

Acho curioso que, no meio cultural e acadêmico, há sempre algum pudor em criticar essa modalidade de vandalismo. Como se reprovar a pichação fosse elitista ou insensível. Como se cada rabisco carregasse a voz dos excluídos - e calar essa linguagem seria oprimi-los ainda mais. Só que é difícil chamar de linguagem o que não comunica nada. São códigos que, no máximo, conversam entre si: funcionam como uma bolha grafada em concreto, indiferente ao resto do mundo, justamente num território concebido para ser de todos - o espaço público.

Houve uma época, de fato, em que pichar não só era justificável como era necessário. Na ditadura militar, por exemplo, pintavam-se as paredes para alertar a sociedade sobre o regime tirânico. Porque, claro, só tinham sobrado as paredes: a imprensa fora censurada, a oposição fora cassada, toda divergência fora calada. Não havia formas de se expressar, não havia redes sociais, então a pichação tornou-se uma rara via de contato entre a população e o outro lado.

Passado esse período de trevas, permaneceu uma aura romântica em torno de uma contravenção que, atualmente, só serve para alimentar vaidade. As pichações não têm indicativo político, não incitam reflexão, não defendem mudanças, não denunciam coisa nenhuma: são apenas sinais ou nomes cifrados que, se por um lado exigem ser vistos, por outro negam o direito de alguém responder.

Aliás, o que mais me incomoda não é a rabisqueira, é a covardia. Quer pichar o Palácio Piratini? Vá lá - ao menos haveria alguma contestação ao poder. Mas a escolha recai sempre sobre o alvo mais frágil: a vendinha da esquina, a escola pública, o prédio histórico, a pracinha do bairro. O spray castiga quem mal consegue pagar uma demão de tinta, mas recua diante da mansão com segurança na porta. Que diabo de rebeldia é essa?

Arquitetos e engenheiros gastaram anos projetando cada detalhe do viaduto da Borges. Não existe arrogância maior do que alguém decidir, sozinho, que a própria marca deva se sobrepor a um patrimônio coletivo de quase cem anos. É aí que desaba a retórica de que a pichação seria um ato de apropriação do espaço público: ora, o espaço é público justamente porque ninguém tem o direito de tomá-lo para si. 

PAULO GERMANO

Suco de atraso

No pódio dos sufixos ismo que conspiram contra um Brasil moderno, o patrimonialismo disputa a medalha de ouro. A palavra define a prática de encarar o ente público e as leis como propriedades das quais a autoridade pode usufruir a bel-prazer tão logo chegue a uma posição de poder.

As esdrúxulas quebras de sigilo de um jornalista do Maranhão e de sua fonte devido a reportagens envolvendo o ministro do STF Flávio Dino são um caso explícito de patrimônio coletivo - a Constituição de 1988 - confiscado por interesses pessoais. 

Nossa lei maior diz taxativamente em seu artigo 5º, inciso XIV, que é "resguardado o sigilo da fonte, quando necessário para o exercício profissional". Não há outra leitura, mas ainda assim o ministro Alexandre de Moraes autorizou a quebra de sigilo de um jornalista para chegar a sua fonte, um ex-secretário de Estado do Maranhão, e também violar seu sigilo. Patrimonialismo com corporativismo dá nisso.

Pois ambos os ismos se agarraram com tanta força ao Supremo que ministros chegam a comandar casos que envolvam a si, como o fez Dias Toffoli no mega Master escândalo antes de o STF ficar ruborizado, ou não veem nada de mal nas intenções de Daniel Vorcaro, rei do trânsito nas sombras em Brasília, ao fechar contrato de R$ 129 milhões com o escritório da esposa e filhos, como Alexandre de Moraes. 

O suco de patrimonialismo só é espremido porque os donos do poder convidam a rede de contenção para o festerê. É assim que a vanguarda do atraso toma conta do Congresso e avança sobre os topos das carreiras públicas por meio de benesses inalcançáveis por outros mortais.

Muitos se transformam em beneficiários do modelo patrimonialista porque assim o é desde os tempos coloniais. Em um belo dia, o sujeito busca um lugar para sua maleta no bagageiro sobre o assento 23C no voo para Brasília. No outro, está chamando jatinho como quem pede carro de aplicativo. Em um dia, ele está indo de táxi para o trabalho. 

No outro, o motorista o aguarda em um carrão preto e, prestativo, carrega sua pasta. Bastam algumas semanas para que essa autoridade esqueça o funcionamento das maçanetas, porque sempre haverá um bedel a lhe abrir as portas à frente. Para torcer as leis a seu favor, é só mais um passo na trilha de regalias.

Já houve um tempo em que ministros do STF faziam fila em aeroportos, tomavam táxis e conviviam com um país que não promove convescotes em Lisboa. Eram celebrados como guardiões do Estado democrático de direito. Agora, o tratamento conferido a uma rusga maranhense rompe mais um elo entre um STF já dilacerado em alas e o necessário distanciamento para fazer valer a Constituição. Convenhamos: o patrimonialismo não é a melhor forma de a Suprema Corte recuperar a credibilidade e a confiança dos cidadãos. 

MARCELO RECH 

 

15 de Agosto de 2026
OPINIÃO RBS

Largada para a eleição

Começa oficialmente neste domingo a campanha às eleições de outubro que definirão o próximo presidente do país, os governadores de 27 unidades federativas e representantes legislativos para Senado, Câmara dos Deputados e Assembleias Legislativas. De acordo com o calendário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os candidatos e partidos estarão liberados para ir às ruas e ocupar as plataformas digitais com o propósito de apresentar seus nomes e seus projetos aos 155 milhões de eleitores aptos a votar. É, portanto, um momento importante da democracia brasileira, caracterizado principalmente pela ampla e irrestrita liberdade dos eleitores para escolherem seus governantes e representantes políticos.

O Brasil ainda vive um clima de polarização no âmbito federal, comprovado por diversas pesquisas eleitorais que apontam empate técnico entre os candidatos mais cotados e altos índices de rejeição para ambos. Mas essa dicotomia também faz parte do jogo democrático, desde que não derive para a radicalização, o ódio e a violência. Essa, certamente, deve ser a principal preocupação da Justiça Eleitoral, dos órgãos de segurança pública e das lideranças políticas no momento em que os militantes partidários estão autorizados a propagar mensagens e a empunhar bandeiras e cartazes.

Nesse contexto, cabe ao eleitor o papel mais importante, que é o de identificar entre múltiplos pretendentes aos cargos em disputa quais as propostas mais responsáveis, factíveis e que melhor atendem às demandas coletivas da população. Informação, portanto, é a palavra-chave deste verdadeiro vestibular de democracia a que o país está novamente submetido. Mais do que nunca, numa época em que a tecnologia digital avança velozmente e a inteligência artificial mascara a realidade, o eleitor brasileiro precisa se manter atento para não ser ludibriado e para buscar informações verdadeiras que lhe permitam fazer as melhores escolhas políticas.

Para tanto, o caminho mais sensato é manter permanente ceticismo em relação às mensagens de ódio, às notícias pouco fundamentadas e aos ataques pessoais divulgados principalmente pela internet e pelas redes sociais - e, ao mesmo tempo, buscar a comprovação no jornalismo profissional e nos veículos de comunicação reconhecidos como responsáveis, com endereço e CPF, cumpridores da técnica da verificação e dos princípios éticos do ofício de comunicar.

Também é imprescindível que os potenciais eleitores evitem repassar mensagens falsas e se mantenham vigilantes em relação a manipulações, condicionamentos e ao assédio eleitoral, pois o exercício consciente da cidadania - mais do que intenções e ações dos ocupantes de cargos públicos - é o que leva um país a se desenvolver e um povo a realizar os seus ideais de liberdade, prosperidade e justiça. 


15 de Agosto de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Pesquisa indica que esta será a eleição do medo

Divulgada às vésperas do início da campanha eleitoral, a pesquisa Quaest que mostra o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) tecnicamente empatados na simulação de segundo turno indica que esta será também uma disputa de rejeições e uma eleição entre dois medos.

No segundo turno, Lula tem 43% das intenções de voto e Flávio, 40%. Respeitada a margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos, esse placar é quase o mesmo do medo dos eleitores. De acordo com a Quaest, 45% dos eleitores temem a volta da família Bolsonaro ao poder e 41% têm medo da permanência de Lula no Palácio do Planalto.

Os números são compatíveis com a rejeição dos dois candidatos. Neste quesito, Lula e Flávio também estão empatados: 54% responderam que conhecem Flávio e não votariam nele e 52% disseram o mesmo sobre Lula.

Nas intenções de voto, a novidade na Quaest em relação a ela mesma é que Flávio vem recuperando terreno e hoje a vantagem de Lula no primeiro turno é de sete pontos percentuais, fenômeno já detectado por outros institutos. Lula tem 38% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio, 31%. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais, significa que Lula pode ter entre 36% e 40% e Flávio entre 29% e 33%.

Como já se viu em outras pesquisas, o pelotão de baixo não consegue sair do chão. Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) têm 4%, Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante), 2%. Samara Martins (UP) tem 1% e os demais, zero. São eles: Edmilson Costa (PCB), Clariana Barão (DC), Hertz Dias (PSTU), Leonardo Avalanche (PRTB), Rui Costa Pimenta (PCO) e Wilson Grassi (Democrata). Brancos, nulos e eleitores que não pretendem votar somam 8% e os indecisos, 10%.

Um dado que o cidadão precisa prestar atenção é o da pesquisa espontânea. É aquela em que se pergunta ao eleitor em quem ele pretende votar, sem apresentar uma cartela com o nome dos candidatos. Nessa pergunta, que é das primeiras feitas ao eleitor, 51% responderam que não sabem. O que isso significa? Que a eleição ainda não está na cabeça do eleitor. Sem ver a lista com o nome dos candidatos, 25% citaram Lula e Flávio, 19%.

A pesquisa foi encomendada pela TV Globo em parceria com o jornal O Globo. A Quaest ouviu 2.004 pessoas entre 10 e 13 de agosto. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O número de registro da pesquisa é BR-06773/2026. _

Erechim fica em 1º no Ideb entre as 20 maiores cidades do Estado

Das 20 maiores cidades do Rio Grande do Sul, Erechim, no Alto Uruguai, conquistou o primeiro lugar no Ideb nos anos iniciais e nos finais do Ensino Fundamental. Nos iniciais, a média foi de 6,9. Nos finais, 5,8. A título de comparação, Porto Alegre ficou em último nesse ranking. A Capital aparece em 18º lugar na tabela porque há empates no 14º dos anos iniciais e no 16º dos finais entre São Leopoldo e Rio Grande. Qual o segredo de Erechim para um resultado tão expressivo? O prefeito Paulo Polis (MDB) tem a resposta na ponta da língua:

- Educação não é uma corrida de cem metros. É uma maratona. Exige continuidade. Em 2021, quando voltei à prefeitura, depois de quatro anos, retomamos projetos que tinham sido interrompidos. Aprovamos um plano de carreira que estimula a qualificação dos professores, adotamos os mesmos métodos dos colégios maristas e temos capacitação permanente pela Universidade Federal da Fronteira Sul. A merenda escolar é comprada de produtores da região e temos cinco nutricionistas para preparar o cardápio a ser servido para as crianças. _

O que leva Alcolumbre a destravar a pauta de projetos caros ao governo

Um dia depois de o presidente do PSD, Gilberto Kassab, vice de Ronaldo Caiado, ter dito que o centrão está com o presidente Lula e que Flávio Bolsonaro não tem chance na eleição, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, aceitou destravar pautas caras ao governo, como o fim da jornada 6x1. O que uma coisa tem a ver com a outra? Alcolumbre é um dos próceres do centrão e estava rompido com Lula.

Ambos reataram a relação. O senador sabe que votando ou não, Lula vai usar o trabalho do governo pelo fim da escala 6x1 na campanha. Então, melhor faturar dividendos eleitorais com tema que tem ampla aprovação dos trabalhadores. E Alcolumbre e Hugo Motta sonham com mais um mandato na presidência das respectivas Casas. Ficar bem com o líder das pesquisas é meio caminho andado para se cacifar. _

Manuela conquista título de doutora

Depois de anos dormindo tarde e acordando cedo para conciliar os estudos com as atividades políticas (mesmo sem mandato e sem disputar eleição desde 2018), a ex-deputada Manuela D?Ávila conquistou o título de doutora. Candidata ao Senado pelo PSOL, Manuela fez mestrado e doutorado em Políticas Públicas na UFRGS e defendeu tese sobre moderação de conteúdo na internet e a conformação de agenda no Brasil nas últimas duas décadas.

- Isso ninguém me tira - disse.

Nesse período, passou uma temporada nos EUA com a família, estudando, e criou o instituto E se Fosse Você?, destinado a estudar a violência na internet e a apoiar vítimas do ódio digital. Graduada em Jornalismo, escreveu cinco livros nos últimos anos, abordando violência de gênero, feminismo e maternidade. 

De R$ 1 mil a quase R$ 1 milhão declarados

Tem candidato que declarou ter exatos R$ 1 mil, enquanto outro informou quase R$ 1 milhão em bens. Estes são os patrimônios dos postulantes a governador(a) do Rio Grande do Sul, que aparecem nos registros das candidaturas na Justiça Eleitoral.

Na declaração, os concorrentes devem informar os elementos que constituem o patrimônio, como imóveis, veículos, aplicações financeiras, ações, participações em empresas e dinheiro em espécie.

O processo é feito pelo próprio candidato, que fica sujeito à análise da Justiça Eleitoral em caso de indícios de irregularidades. _

Total do patrimônio informado

Gabriel Souza (MDB) R$ 935.461,08

Juliana Brizola (PDT) R$ 376.137,78

Luciano Zucco (PL) R$ 709.304,00

Marcelo Maranata (PSDB) R$ 249.805,00

Priscila Voigt (UP) R$ 1.000,00

Rejane de Oliveira (PSTU) R$ 498.000,00

POLÍTICA E PODER

15 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Invasão terrestre é atacar PCC e CV?

Diante da fala do secretário de Guerra Pete Hegseth de que o governo dos EUA pretende realizar operações terrestres contra organizações do narcotráfico na América Latina, é tentador pensar em invasões em larga escala, como as de Granada e do Panamá, ou nas guerras do pós-11 de Setembro, no Afeganistão e no Iraque. Não seria assim.

O modelo estaria mais próximo de ações como a de 2026, que capturou Nicolás Maduro; a que capturou Manuel Noriega, em 1990; ou a incursão que matou Osama bin Laden, em 2011.

Mas, aqui, ideias são tão importantes quanto as possíveis operações. Hegseth anuncia a importação para a América Latina da lógica da Guerra ao Terror: grupos criminosos deixam de ser tratados como problema policial e passam a ser inimigos militares passíveis de localização e eliminação. A novidade é a possibilidade de os EUA participarem diretamente da execução dos alvos.

A partir disso, é possível imaginar uma ação americana contra o PCC e o Comando Vermelho. Isso não significa que Trump já esteja autorizado a bombardear o Brasil. A designação terrorista e o uso da força militar são diferentes.

"Ataques em terra" não significam necessariamente soldados avançando pelo território. Podem incluir bombardeios aéreos, drones ou mísseis contra alvos terrestres.

Outra medida plausível seria ampliar o bloqueio financeiro: congelamento de bens, sanções contra pessoas e empresas, bloqueio de transações e punições a bancos ou intermediários.

Também poderiam ocorrer ataques cibernéticos. Outra frente seria a vigilância de comunicações, do rastreamento de recursos, do compartilhamento de dados e imagens de satélite e da identificação de integrantes das facções.

Lideranças ou representantes do PCC e do CV que circulem por Paraguai, Bolívia, Colômbia, Equador ou outros países aliados poderiam ser alvos de operações conjuntas. Essa é uma possibilidade real, porque não dependeria da autorização brasileira.

Um laboratório, uma pista clandestina, poderia ser atacada no Equador ou na Colômbia, desde que o governo local autorizasse. O grupo seria brasileiro, mas a operação não ocorreria no Brasil.

Outra possibilidade seria a interceptação de lanchas ou cargas atribuídas às organizações em águas internacionais ou em territórios de países parceiros.

Incursão no Brasil seria o cenário mais extremo e, hoje, na minha avaliação, o menos provável. Sem autorização do Planalto, seria uma violação da soberania e abriria uma crise diplomática extrema, o que poderia levar ao rompimento das relações diplomáticas, o mais alto grau de degradação dos contatos entre países. 

Dom Jaime recebe honraria

O arcebispo de Porto Alegre e presidente da CNBB, cardeal dom Jaime Spengler, recebeu nesta semana a Ordem do Mérito do Trabalho. A honraria, entregue pelo Tribunal Superior do Trabalho, homenageia instituições e personalidades que se destacam pelas atividades ou serviços prestados à sociedade e à Justiça do Trabalho.

Entrevista - Edmundo de Carvalho Pinheiro

Presidente do Conselho Diretor da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU)

"Sem transporte público como espinha dorsal, cidades travam"

Edmundo de Carvalho Pinheiro, presidente do Conselho Diretor da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, defende uma política nacional de financiamento do transporte público como forma de ampliar os investimentos necessários para melhorar a qualidade do serviço. Durante a feira Lat.Bus 2026, em São Paulo, ele concedeu uma entrevista à coluna.

O passageiro deixou de estar no centro das discussões sobre transporte público?

Um dos grandes problemas que o setor apresenta nesse momento é a queda da demanda de passageiros por modos coletivos. Na pandemia, sofremos uma forte redução de demanda, mas essa demanda até hoje não foi recuperada. Estamos com 77,5% da demanda que existia de passageiros nas cidades brasileiras antes da pandemia. Esse fenômeno já vem acontecendo nos últimos 10 anos. 

A participação dos modos coletivos na matriz de mobilidade nos últimos 10 anos caiu de 45% para 30%. Entre os modos individuais, chama atenção as motocicletas, que saltaram de 1% para mais de 10% nesse período, trazendo uma série de consequências, por exemplo o aumento de acidentes.

Por que na Europa usam muito o transporte público e aqui é visto como algo inferior?

Tem uma frase do Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, que ficou famosa em todo o mundo: país rico é aquele no qual até o rico anda de transporte público, não que o pobre anda de automóvel. Tive a oportunidade, no mês passado, de coordenar uma comitiva em uma visita técnica a Barcelona, que é muito parecida com a minha cidade natal, Goiânia. 

São cidades que têm a mesma população, a mesma frota, mas há uma diferença. Barcelona, apesar de ser muito mais rica, tem mais pessoas andando de ônibus. Por que isso? Lá o transporte tem maior qualidade. Por que tem maior qualidade? Esse é o debate que estamos fazendo.

Em Porto Alegre, existe a polêmica sobre o uso de ar-condicionado. Quais os atributos para melhorar o transporte coletivo?

Há uma série. Conforto, com certeza, é um dos atributos importantes quando fazemos pesquisas de avaliação. O tempo também é algo fundamental para as pessoas. Segurança é um problema que, cada vez mais, tem sido apresentado. Hoje, as pessoas, especialmente as mulheres, têm insegurança para ir a um ponto (de ônibus) na madrugada. Também a confiabilidade, a regularidade, isso é muito importante. 

É um conjunto de atributos. A grande questão é que, para que você possa melhorar a qualidade, isso custa mais. E o transporte, como ele é para todos, você não pode aumentar o preço. Você precisa de um transporte de qualidade, que atenda até o rico, mas que seja acessível a qualquer cidadão.

O comportamento das pessoas mudou com a pandemia, principalmente com o teletrabalho. Ainda impacta?

A questão tecnológica contribuiu para a redução. Mas mesmo com o home office, continuamos vendo problemas graves de engarrafamento, de sinistralidade, com problemas ambientais, com os automóveis tomando espaços públicos, tomando praças. Exatamente essa é a questão: mesmo que mude o hábito das pessoas, se não tivermos um transporte público como espinha dorsal da mobilidade das cidades, elas vão travar. Eu diria que vão até colapsar. 

Temos de seguir o exemplo daquelas cidades que estão conseguindo reduzir a quantidade de carros nas ruas, aumentando as áreas verdes e de convívio. Aquilo que alguns urbanistas estão defendendo: cidade para pessoas, que vai contra o modelo que temos no Brasil, no qual grande parte do custo da sociedade está indo para financiar indiretamente o automóvel. Na medida que você tem que colocar recurso público para fazer um viaduto, você está destinando recursos de toda a sociedade para atender a uma parcela. Isso deveria ser para todo o transporte público. _

INFORME ESPECIAL

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