sábado, 24 de outubro de 2026



24 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

A guitarra silenciada

Eu confessei, nesta coluna, que não me dou bem com encomendas. O trauma é justificado. Com a minha filha, cometi uma gafe irreparável.

Aos 17 anos, Mariana se mudou de Brasília para Porto Alegre e me confiou uma missão: trazer sua guitarra. Eu iria palestrar na capital federal.

Falei, claro, que contasse comigo. Mesmo sabendo que minha estada seria apertada, de um dia para o outro. Mesmo sabendo que eu não retornaria diretamente para Porto Alegre, ainda faria uma apresentação em Maceió.

Desprovido de experiência com um instrumento, sequer tinha noção se deveria despachar ou não - minha vida de artista no microfone se resume à palavra. Eu jurei que se tratava de uma chance de ganhar alguns pontos na paternidade, no meio da contestação da adolescência. Substituiria o débil discurso pela veemência do gesto.

Para não errar, eu me programei para recuperar o seu tesouro antes do evento. Assim não correria riscos de deixar para a última hora e arcar com imprevistos. Levei a guitarra para o hotel. Ela dormiu ao meu lado. Transportei a guitarra a bordo. Cuidava para que ninguém a danificasse em seu estojo. Eu a embalava nos braços.

Carregava a minha filha novamente no colo - era essa a minha sensação. Nunca me preocupei tanto com um objeto, para não estragá-lo, para não perdê-lo de vista.

Eu me tornei um guardião implacável. Ao extremo de almoçar e jantar no quarto. Ao extremo de conversar com a Fender Stratocaster como se fosse meu cupido: que entoasse depois para Mariana, com suas cordas, com suas canções, o amor que sinto por ela. Que me ajudasse a ser um pai mais próximo, afinado e presente.

Fiquei antissocial na viagem. Só desejava ir para casa e entregar a incumbência sã e salva. Na verdade, ansiava receber um abraço e um beijo de recompensa, talvez um "eu te amo" que a gratidão arranca do mais fundo da palpitação.

Quando pousei em Porto Alegre, finalmente relaxei. Nada mais me tiraria os méritos. Eu me dirigi até o carro. Abri o porta-malas, coloquei minha bagagem e parti para o lar, para rever minha filha com o sacerdócio do resgate cumprido.

Eu ria sozinho, eu cantava as músicas do rádio, eu vibrava com o sucesso da operação. Ao desembarcar na garagem, acabei tomado de um pânico: cadê a guitarra? Minhas malas se encontravam ali, mas a guitarra não.

Tonteei de nervoso. Numa velocidade impressionante de raciocínio, rebobinei os pormenores da minha chegada, quadro a quadro.

Já passaram mais de quinze anos e não sei explicar o que aconteceu. Eu observei Mariana me esperando na janela. Sem comentar coisa alguma, entrei no veículo, engatei a ré e voei de volta para o aeroporto.

Havia esquecido a guitarra no alambrado do estacionamento, perto de uma lixeira. Não a pus no bagageiro. Simplesmente permaneceu de pé, encostada na grade. Não estava mais lá. Alguém pegou. Alguém acreditou num estranho descarte. Nem posso chamar de furto.

Meu coração é que foi roubado. Mariana me perdoou, eu jamais. _

CARPINEJAR

24 de Outubro de 2026
MARCELO RECH

A segunda-feira é decisiva

É manhã de segunda-feira, 26 de outubro de 2026. O vencedor da eleição de domingo entrou pela noite em comemorações. Por isso, o presidente que tomará posse em 5 de janeiro acordou mais tarde, mas já não terá um segundo de descanso. A campanha foi tão disputada, e tão repleta de promessas mirabolantes, que o vencedor será cobrado, questionado e contestado a partir desta segunda-feira.

Sua primeira missão é mais complexa ainda do que arrumar dinheiro para fazer valer a promessalhada de palanque. Sua tarefa prioritária é juntar os cacos da nação. O fosso entre as duas metades - a esquerda e a direita - apenas se aprofundou nos últimos anos. As torcidas de Lula e dos Bolsonaro veem os apoiadores do outro lado como iludidos, na melhor das hipóteses, ou degradados morais, no mais das vezes. Nestes termos, não há entendimento possível se o presidente e suas forças políticas não absorverem as motivações alheias para detestá-los com tanto ardor.

O racha do país em blocos antagônicos vai bem além do problema político. Ele separa famílias, destrói amizades e apaga consensos mínimos em torno de agendas primárias, como a convivência em harmonia e o fato de que a nação deveria estar acima de questões eleitorais transformadas em batalhas de vida ou morte. Se não houver racionalidade, o futuro é sombrio. Seja quem for o vencedor, a partir de 6 de janeiro o governo tem tudo para dar errado do ponto de vista econômico, porque os dois candidatos prometeram o céu enquanto flertavam com o inferno fiscal. Quando essa conta não fecha, impopularidade, frustração popular e crises sociais são apostas certeiras.

Lá fora, embora as campanhas se mantivessem à margem do que ocorre no Exterior, a situação não ajuda. O mundo desenvolvido está atolado em dívidas, o extremismo avança, protestos violentos explodem em razão do desalento dos jovens e as guerras ameaçam se conectar para desembocar em conflito de alcance internacional. O Brasil pode tirar proveito da instabilidade ou ser tragado por ela. Depende de como o vencedor se portar.

Ele precisa agir rápido para desmontar rancores e lidar com os previsíveis desencantos. Terá de construir pontes e não alijar os adversários em um desterro moral sem saída. Para esfriar o ânimo bélico, ajudaria refrescar a memória do país dividido que o inimigo de hoje muitas vezes é o aliado de amanhã, como demonstram as forças que se uniram em torno de Lula e Flávio neste segundo turno. O discurso da vitória, ainda no domingo, será um prenúncio, mas é pelo comportamento do vencedor a partir desta segunda-feira que saberemos o que nos espera ali na frente. 

MARCELO RECH

OPINIÃO RBS

O vencedor e o vencido

O eleitor volta às urnas neste domingo para decidir pela continuidade na Presidência da República, com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ou pela alternância de poder, com Flávio Bolsonaro (PL). Por ser uma escolha que selará o destino do país pelos próximos quatro anos, espera-se que cada voto neste segundo turno resulte de uma profunda ponderação sobre os candidatos, suas propostas conhecidas, contradições e os projetos políticos que representam.

Flávio e Lula personificam duas visões inconciliáveis de país. Tamanhas diferenças, que se expressam em igual medida no tecido social brasileiro, ajudaram a criar o ambiente de uma campanha eleitoral que será lembrada como uma das mais rasteiras e rasas desde a redemocratização. Não apenas pela postura das candidaturas, mas pelo contexto da disputa, em meio ao escândalo do Banco Master e à crise moral do Supremo Tribunal Federal (STF). 

Propostas inverossímeis, abuso do populismo, profusão de acusações para elevar a rejeição do adversário, escassez de debates, uso da desinformação, contestações a ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), arroubos censórios na Corte e suspeitas de interferência de big techs ajudaram a tumultuar e a degradar a qualidade da corrida ao Planalto. De positivo, até aqui, deve-se registrar a ausência de teorias conspiratórias sobre as urnas eletrônicas, que outra vez, no primeiro turno, tiveram desempenho modelar.

Os principais desafios do país, como a situação das finanças públicas, não foram discutidos de forma honesta. Se o festival de bondades prometidas à população for cumprido, o país seguirá com juros sufocantes para as famílias e para as empresas e a inflação permanecerá pressionada. Mas o choque de realidade está próximo. As áreas em que a população mais necessita do poder público, como saúde, educação e segurança, tampouco mereceram a atenção necessária dos candidatos.

Neste domingo, serão conhecidos o vencedor e o vencido. Ambos terão responsabilidades.

O acirramento dos ânimos na reta final da campanha aponta, infelizmente, para a manutenção da divisão profunda da sociedade. Diante desse cenário, seria extremamente salutar se, de certa forma contrariando as expectativas, existissem dos dois lados acenos ao apaziguamento. Ao vitorioso, cabe também saber vencer. No sentido de ter uma postura de incentivo à convivência civilizada entre os cidadãos que pensam diferente, de afirmar que governará para todos e de dar garantias de respeito à Constituição, aos valores democráticos e aos princípios da harmonia e da independência entre os poderes. Dar o exemplo confere maior força à liderança.

Do derrotado, aguarda-se uma postura de grandeza e de aceitação do resultado. Em 2023, o ex-presidente Jair Bolsonaro não passou a faixa a Lula. Há duas eleições presidenciais o perdedor não faz a tradicional ligação telefônica para o vencedor, para reconhecer o desfecho do pleito e cumprimentá-lo. Espera-se que esses gestos da liturgia republicana voltem a ser prática no país.

Os solavancos da democracia brasileira e os momentos tensos desta campanha e dos últimos anos, de qualquer forma, não sobrepujam o principal: haverá a certeza de que o veredito das urnas, seja qual for, será a materialização da vontade soberana da maioria dos eleitores.  


JUSTIÇA ELEITORAL

Ministro decide que canal pró-Lula só pode ser suspenso com aval do plenário

Decisão de Floriano de Azevedo Marques, do TSE, impede o próprio presidente da Corte, Nunes Marques, de tirar o grupo Exército do Lula do ar. Medida chega junto de outras questões envolvendo as campanhas na internet, entre elas, a moderação das big techs sobre conteúdo eleitoral

O ministro Floriano de Azevedo Marques, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), barrou a suspensão do canal Exército do Lula, operado pelo deputado federal André Janones (REDE- MG) no WhatsApp. Na decisão monocrática, tomada na sexta-feira, ele proíbe a Meta, dona da plataforma digital, de retirar o canal do ar mesmo se houver determinação judicial de outras ações que tramitam na Corte.

Também estabeleceu multa de R$ 50 mil diários à companhia em caso de descumprimento. O magistrado ainda impede que qualquer outro membro do TSE, inclusive o presidente, ministro Kassio Nunes Marques, tome decisão em sentido oposto até o fim do mandado de segurança.

A medida atende a pedido da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e, na prática, anula os efeitos de processos abertos por seu adversário, Flávio Bolsonaro (PL), para derrubar o canal. O petista entrou com mandado de segurança contra a iniciativa. A chapa de oposição sustenta que Janones praticaria uso abusivo da ferramenta para difundir informações falsas e passar "missões" a apoiadores do presidente, o que violaria a legislação eleitoral.

Na sexta-feira, Kassio Nunes Marques havia atendido ao pedido feito pela campanha de Flávio e determinou um pente-fino nas publicações do canal, que tem quase cerca de 10 milhões de inscritos. Já Azevedo Marques argumentou na decisão que a intenção de Flávio seria suspender as atividades do canal, embora o pedido não seja expresso na petição em que solicitou o pente-fino.

Para Azevedo Marques, o presidente do TSE não pode determinar a eventual suspensão do canal ao analisar administrativamente se o acordo de integridade do processo eleitoral está sendo cumprido. "Não há espaço interpretativo para que a atuação administrativa de fiscalização do plano de conformidade resulte em sanções diretas a candidatos, partidos e coligação e muito menos a pessoas naturais não participantes do pleito", escreveu.

Reunião com a Meta

Mais cedo, em nota, o TSE negou ter ordenado a retirada do ar de canais no aplicativo de mensagens. O texto foi divulgado após Janones ter alertado sobre a possível suspensão iminente do canal Exército do Lula.

O deputado enviou um vídeo pelo canal alertando ter informações de que o mesmo poderia ser retirado do ar pelo TSE após a Corte receber da Meta um relatório esmiuçando a atividade do Exército do Lula. A suspeita veio à tona após Nunes Marques ter dado 24 horas para a Meta apresentar um relatório técnico sobre o funcionamento do canal.

A nota foi divulgada após a cúpula do TSE ter se reunido, pela manhã, com representantes da Meta, dona também do Facebook e do Instagram, e de redes sociais como TikTok e Kwai. Na reunião, Nunes Marques pediu que as plataformas garantam o tratamento isonômico para as candidaturas. O TSE também requereu que as plataformas reforcem suas equipes na reta final da campanha e assegurem o cumprimento da legislação eleitoral. _

Pedidos mútuos de cassação

As duas campanhas encaminharam ao corregedor-geral da Justiça Eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, pedidos de cassação do registro de candidatura dos respectivos oponentes. A de Lula cita suspeitas no caso do filme Dark Horse, obra biográfica do ex-presidente Jair Bolsonaro. A de Flávio acusa o petista de uso eleitoral da Rádio Nacional.

A campanha de Lula pede a cassação da candidatura do PL por financiamento eleitoral ilícito, com base em informações da investigação sobre o filme. Alega que um aporte de US$ 12 milhões feito pelo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, levanta suspeita sobre uso de recursos ilícitos na campanha eleitoral do oponente.

Já a defesa de Flávio acusa Lula de uso eleitoral da Rádio Nacional e pede que sejam coletadas gravações do programa Alô Alô Brasil, apresentado por Agostinho Luiz Teixeira. O documento lista série de ocasiões em que Teixeira teria replicado na rádio pública discurso similar ao da campanha de Lula. 


Por que o mundo olha para a eleição do Brasil

Maior país da América Latina, sétimo mais populoso do mundo e a décima economia do planeta, o Brasil, que irá às urnas, é observado com lupa pela chamada comunidade internacional. Na mão do eleito, seja Flávio Bolsonaro (PL) ou Lula (PT), estará o poder de desenhar uma política externa que irá impactar as relações políticas e comerciais para lados diferentes.

O Brasil é campo de batalha ideológica e geopolítica. A eventual eleição de Flávio será vista como uma vitória de forças anti-establishment (chamada de direita populista ou extrema direita a depender dos analistas), representada por Donald Trump, nos EUA, com aliados como Benjamin Netanyahu, em Israel, e partidos como Vox, na Espanha, Alternativa para a Alemanha (AfD), da Alemanha, Reunião Nacional, da França, e o Fidesz, da Hungria. São líderes que desqualificam as instituições multilaterais, como a ONU, a OMS e os acordos climáticos.

A eventual reeleição de Lula significará, aos olhos do mundo, a continuidade de uma política externa alinhada aos princípios do sistema multilateral.

Essas diferenças de pontos de vista se manifestam, na prática, em agendas também diversas na forma de abordar conflitos, disputas e questões geopolíticas. 

Principais tópicos

A coluna reúne os pontos que podem sofrer impactos a depender de quem for eleito neste domingo

EUA x China

O Brasil está no centro de uma disputa entre as duas potências que concorrem pela hegemonia da nova ordem global. A China é o maior parceiro comercial brasileiro. Os EUA são o segundo, mas o principal investidor estrangeiro no país. Por isso, o Brasil precisa preservar boas relações com as duas potências, mesmo diante da rivalidade entre Washington e Pequim.

Lula defende uma política externa de diversificação das alianças, com fortalecimento dos Brics e das relações com a China, sem romper com Washington.

Flávio propõe maior alinhamento político com os Estados Unidos de Donald Trump, especialmente em segurança e comércio, mas também reconhece a necessidade de preservar a relação econômica com os chineses.

O problema é que os interesses de Washington e Pequim estão em conflito. Aproximar-se politicamente de um lado pode provocar dificuldades com o outro. Manter a autonomia é desafio tanto para Flávio quanto para Lula.

América Latina

Os vizinhos estão de olho porque quem vencer vai manter um contrapeso de esquerda ou ampliar a maioria de governos de direita. Se a esquerda mantiver a presidência, o Brasil segue como principal governo de esquerda do continente, ao lado do Uruguai de Yamandú Orsi. Se passar para a direita, o Brasil se juntará a Argentina, Chile, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia em uma configuração regional amplamente comandada pela direita. Para Donald Trump, que vê a América Latina como zona de influência, a eleição é fundamental. Uma vitória de Flávio favorece sua agenda, reduzindo a ação da China e da Rússia na América Latina. A vitória de Lula oferece uma resistência.

Relações com o Mercosul

O bloco econômico do Cone Sul sempre foi refém do desalinhamento ideológico entre os presidentes de cada país. A eleição vai influenciar a maneira como o Brasil abre sua economia e negocia acordos comerciais. Um exemplo é o acordo entre Mercosul e União Europeia, cuja parte comercial começou a ser aplicada provisoriamente em 1º de maio de 2026. O próximo governo terá papel importante na implementação das regras e no aproveitamento das oportunidades de exportação. Lula defende o fortalecimento do Mercosul como plataforma de negociação internacional. Flávio propõe maior flexibilidade para o Brasil estabelecer acordos comerciais, inclusive bilaterais.

Mudanças climáticas

O Brasil abriga a maior parte da Floresta Amazônica, fundamental para a biodiversidade e regulação do clima. Também é uma potência agrícola e energética. Isso faz com que decisões sobre desmatamento, combustíveis fósseis, agricultura e transição energética repercutam no mundo. Lula colocou a agenda climática entre as prioridades de sua política externa. Flávio Bolsonaro enfatiza o aproveitamento econômico dos recursos naturais, do agronegócio e critica exigências ambientais consideradas excessivas. O mundo se pergunta se o Brasil continuará exercendo protagonismo nas negociações e como conciliará conservação ambiental e desenvolvimento.

O Brasil na ordem mundial

O Brasil é integrante dos Brics, do G20 e de outras organizações multilaterais. Sua relevância também decorre da capacidade de dialogar com líderes que estão em lados opostos. Lula procura ampliar a influência dos países emergentes, defendendo reformas na governança internacional e o fortalecimento das instituições multilaterais. Flávio Bolsonaro questiona a atual orientação política dos Brics e prefere dar mais ênfase a relações bilaterais, sobretudo com EUA, Israel e Argentina. Com Lula, o Brasil continuará atuando como interlocutor entre diferentes blocos. Com Flávio, haverá preferência por alinhamentos com posições adotadas pelos EUA.

Melhor nível de debate

Graças às regras, o debate da TV Globo, na noite de sexta-feira, obrigou os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) a versarem sobre propostas e os constrangeu a não fazer ataques e se reduzirem à linguagem de 5ª série. O show de horrores visto na Band, no domingo, foi, senão evitado, diminuído em muito. Houve propostas desta vez.

Na apresentação do mediador, o jornalista César Tralli, Flávio foi mais "imagético", postando-se sorrindo tão logo seu nome foi anunciado. Lula estava de cabeça baixa. Em um debate televisivo, tudo importa, principalmente a imagem. Ao contrário do debate da Band, Flávio usou gravata, o que demonstra solenidade. Lula optou por não vestir o acessório, a fim de passar uma imagem próxima do "cidadão comum".

Mas voltemos ao formato: as regras da Globo impediam que o adversário aparecesse atrás do rival no momento de fala do segundo. Foi fundamental. Não só porque isso tira a concentração de quem está falando. A tática usada por Flávio na Band prejudicou, principalmente, quem assistia, Sua Excelência, o Eleitor, quem realmente deveria ser o foco de quem almeja governar o Brasil.

Lula estava mais focado do que no debate anterior, mas a idade pesa e houve problemas de dicção. Flávio estava mais imagético e preocupado com sua postura. Mas foi capacitista ao dizer "nove dedos", logo no primeiro bloco. Quando foi sorteada a Região Sul, o senador errou feio ao fazer referência "a Sarandi", o bairro porto-alegrense, um dos mais atingidos pela enchente de 2024, como se fosse uma cidade. Demonstrou não conhecer Porto Alegre. 

No mais, tentou passar a imagem de que um eventual governo com alinhamento direto com o governador eleito Luciano Zucco seria favorável ao Estado. Lula demonstrou conhecer mais o Brasil, surfou nos detalhes.

Lamentável que ambiente e sustentabilidade tenham aparecido pouco quando o Norte foi sorteado. Flávio ignorou. Lula puxou o assunto tardiamente. O formato e as regras da Globo salvaram o debate e os brasileiros da repetição do circo de horrores de uma semana atrás. _

Pantera Cor-de-Rosa nos protestos em Paris é IA

Desde o início das manifestações em Paris, uma série de imagens circula pela internet. Algumas, em especial, mostram supostamente uma pessoa fantasiada de Pantera Cor-de-Rosa participando dos protestos, vandalizando espaços públicos e até sendo presa.

Contudo, trata-se de imagens geradas por inteligência artificial.

A coluna utilizou três sistemas de identificação para checar se os arquivos de imagem foram criados ou alterados por inteligência artificial.

Segundo as três plataformas, a imagem da Pantera Cor-de- Rosa sendo presa por dois policiais foi gerada por IA. Uma delas identificou até que a peça foi criada pela OpenAI. Já os outros dois sistemas mostraram que a foto contava com índices superiores a 99% de chances de serem geradas pela tecnologia.

A cena do jato de água das forças de segurança também foi confirmada como IA, com índices de 86% e 95% de probabilidade de inteligência artificial. 

INFORME ESPECIAL 

sábado, 17 de outubro de 2026


17 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Viver é se despedir

A partir de vídeo de Nanda Costa. 

Da mamadeira. Do bico. Do colo. Do berço. Do engatinhar. Do apoio nos corredores. Do travesseirinho. Do paninho. Das festas temáticas de aniversário. Dos balões. Dos livros com desenhos. Dos lápis coloridos. Dos presentes com papel infantil. Dos brinquedos. Da merendeira. Do uniforme da creche. Da toalha com capuz.

 Do banquinho para alcançar a pia. Das rodinhas da bicicleta. Do copo de requeijão com personagem. Do beijo de boa-noite antes de apagar a luz. Do dente de leite embrulhado num guardanapo. Do riso banguela. Da autorização com assinatura para a excursão. Do boletim amassado. Da bainha da calça desfeita. Da mão para atravessar a rua.

Do melhor amigo que se transferiu de escola. Da professora que não dava para repetir. Das lições na lousa. Dos materiais escolares. Dos cadernos pautados. Das espirais. Dos amores platônicos. Do nervosismo das provas-surpresa. Do telefone decorado dos responsáveis. Do recreio. Do sinal que mandava retornar para a sala. 

Da carteira com rabiscos e corações. Dos bilhetes escondidos. Da turma que prometeu nunca se separar. Das dedicatórias na camiseta no último dia de aula. Do portão de tantas idas e vindas. Das férias longas que produziam saudade de estudar. Do quarto dividido com os irmãos. Da mesada. Da carona. Do dinheiro contado para o cinema. Das viagens com a mochila nas costas. Dos doces dos avós. Da casa cheia.

Dos cartazes na parede e dos adesivos nas janelas. Do aparelho ortodôntico. Das espinhas. Da transformação do timbre. Dos pais esperando acordados no sofá. Da autoescola. Do cursinho pré-vestibular. Do nome na lista dos aprovados. 

Do trote com farinha no cabelo. Do troco destinado para o xerox. Dos calhamaços emprestados. Da carteirinha de estudante. Do passe no ônibus. Da foto de beca. Do currículo sem experiência. Do crachá pendurado no pescoço. Da roupa lavada no antigo lar. Das visitas demoradas. Do bairro da infância. 

Do colchão no chão. Da geladeira com dois ovos e uma garrafa de água. Do emprego que parecia para sempre. Da primeira vez que você morou com alguém. Do cobertor puxado no meio da madrugada. Da ilusão de romance eterno. Das caixas de mudança. Da marca da aliança no dedo. Do lado da cama vazio. Da volta por cima. Dos garçons que conheciam seu pedido. Das noites inteiras de sono até o meio-dia. Dos bares da sexta-feira. Do tempo de sobra.

Do teste de gravidez. Da mamadeira dele. Do bico dele. Do colo dele. Do berço. Do engatinhar. Do apoio nos corredores. Do travesseirinho. Do paninho. Das festas temáticas de aniversário. Dos balões. Dos livros com desenhos. Dos lápis coloridos. Dos presentes com papel infantil. Dos brinquedos. Da merendeira. 

Do uniforme da creche. Da toalha com capuz. Do banquinho para alcançar a pia. Das rodinhas da bicicleta. Do copo de requeijão com personagem. Do beijo de boa-noite que agora é você quem dá antes de apagar a luz. Do dente de leite embrulhado num guardanapo. Do riso banguela. Da autorização que agora é você quem assina para a excursão. Do boletim amassado. Da bainha da calça desfeita. Da mão solta na hora de atravessar a rua. _

CARPINEJAR

"O teu conhecimento a inteligência artificial nunca vai ter"

Antes de ser uma aclamada escritora, Martha Batalha, 53 anos, era repórter dos principais jornais do Rio de Janeiro. Seu romance de estreia, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (2016), foi adaptado para o cinema em 2019, rendendo prêmio da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes. Autora de outros livros, ela mora em Santa Mônica, na Califórnia, e atua como cronista de O Globo desde 2020. 

Dessa experiência surgiu O Algoritmo Sou Eu, que reúne 58 crônicas sobre temas como feminismo, maternidade, imigração, tecnologia, cotidiano familiar, cultura e política. Na obra, Martha faz um trato com o leitor, garantindo que, enquanto escrever, nenhuma linha de suas crônicas será gerada por inteligência artificial.

Carlos Redel

Como foi o processo de selecionar as 58 crônicas que foram parar no livro? Por que estas foram as escolhidas?

Acho que o principal critério foi escolher crônicas que permanecessem. Procurei ter crônicas que pudessem ser lidas hoje e daqui a 10 anos, que não envelhecessem. Mesmo que falassem de algo pontual - por exemplo, tem umas que falam da pandemia -, que fossem crônicas que pudessem ser lidas como referência a uma época, mas que não parecessem datadas. Penso muito nisso, evito os temas que estão na moda.

O que torna uma crônica interessante no seu ponto de vista?

Gosto muito de falar que crônica é voz. Quando você pensa em voz, você pensa em música, e quando alguém canta ou toca um instrumento, você sabe quando afina e desafina. A crônica é a mesma coisa: você tem que encontrar uma sintonia para poder contar essa história. A crônica vem de você estar aberta para o mundo, estar sempre procurando, tentando descobrir algo a mais. Imagina que você tem a sua visão de frente, mas tem outras coisas que estão acontecendo pelo lado também. 

Então, a crônica está, às vezes, pelo lado. Por exemplo, fui com meu marido a um restaurante romântico, com aquelas comidas todas elaboradinhas e ele não estava conseguindo enxergar o cardápio. Então, pediu meus óculos para ver. Comemos e fomos para casa. Esse é um fato. Só que a crônica tratou sobre a primeira vez que ele pegou meus óculos de vista cansada para ver o menu. E eu entendi que a gente estava envelhecendo juntos.

No material de divulgação de O Algoritmo Sou Eu, consta que você, como cronista, é herdeira de nomes como Luis Fernando Verissimo e Martha Medeiros. Como você enxerga o trabalho destes dois gênios gaúchos e como é ser comparada a eles?

Eu e todos os cronistas sempre tentamos fazer a nossa voz, o nosso texto, em cima do que a gente leu. Eu leio o Verissimo, o Rubem Braga, a Martha e falo: "Quem é agora a Martha Batalha? Qual é a voz que a Martha tem a partir dessas pessoas?". O que eu aprendi com a Martha é essa coisa da lucidez, tem muito afeto também nos textos dela. É uma mistura bastante interessante. 

Algo que aprendi com o Verissimo é que ele falava assim: "Cada crônica tem que ter pelo menos uma piada. Se você tem uma piada na crônica, você já fez o seu trabalho". Não é uma escolha muito consciente, mas quando estou escrevendo, sempre percebo que solto uma pitada de humor. E isso cria um mecanismo de aproximação com o leitor, porque ele está lendo e, em algum momento, vai ter aquela dose de dopamina e vai continuar lendo para ter outra. É uma mistura de consciência e intuição também. Você tem que saber quando você solta, o que você solta.

No primeiro texto do livro, você explica como nascem as crônicas e diz que uma escrita sua jamais vai ter uma linha sequer feita por inteligência artificial. Enquanto isso, a gente vê cada vez mais materiais feitos por IA. Como você enxerga o futuro para autores e qual o papel da criatividade humana?

Acho que é muito importante para nós, escritores, que a gente permaneça fiel ao que sabemos fazer, ao nosso ofício, e que é realmente feito de horas e mais horas em frente ao computador. Às vezes, ficamos todo esse tempo sem saber o que escrever, mas esperando que alguma coisa vá nascer de algum lugar e que, quando nascer, vai ser muito humano. 

A diferença da inteligência artificial para uma pessoa é o seguinte: a IA pensa em termos de probabilidades, é matemática. Os humanos pensam em termos de possibilidades: a gente tem esperança, tem criatividade, tem um passado que vai se associar cada vez de uma forma diferente para você poder criar um texto. O teu conhecimento a inteligência artificial nunca vai ter. Não posso dizer o que vai acontecer, mas tenho muita certeza de que a inteligência artificial nunca vai conseguir fazer um texto bem trabalhado como é um texto de um bom profissional da escrita, porque ela não é feita com um material humano para isso. 

Porque não é só o português perfeito, não são só as associações perfeitas, a lógica perfeita. Tem muitas outras pequenas particularidades do texto que são muito humanas e isso não pode ser reproduzido.

Você fala que os fracassos também são importantes para essa construção de bagagem que leva para os textos. Como você transforma frustrações em combustível?

O escritor tem que estar acostumado a fracassar porque é parte muito grande da nossa rotina. Às vezes, a gente está escrevendo um romance e joga capítulos fora. A gente tem que ter essa resiliência. Acho que a grande sabedoria é poder aprender com os seus erros, olhar um texto que escreveu e falar: "Isso aqui não está bom, eu vou jogar isso fora". É uma bênção você olhar uma coisa que não é boa que você escreveu e saber que não é bom e não se intimidar por isso, mas construir a partir daquele erro, a partir daquele fracasso e continuar tentando.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão está completando uma década. Como você avalia a trajetória do livro?

Me sinto muito feliz. Ele ainda é muito lido e acho que é uma grande dádiva para um escritor fazer um livro que permaneça e que tenha mexido na vida de tantas pessoas. Ainda recebo cartas de pessoas dizendo que se emocionaram com o livro, que se identificam. Então, é muito bonito. O A Vida Invisível começou quando não existia ainda todo esse movimento de vozes feministas e femininas na literatura brasileira. Era uma coisa que estava começando ali, foi um dos primeiros livros dessa nova leva.

Uma década depois do lançamento do livro e mais de 70 anos da história que ele retrata, como você enxerga essa a questão do machismo presente no dia a dia, que transforma, muitas vezes, histórias de mulheres extraordinárias em invisíveis?

Acho que existe, ainda hoje, uma escala de violências contra a mulher dependendo de onde você nasce, do seu status, da sua cor, da sua condição social, da sua condição financeira. Existem mulheres que estão batalhando para ter o mesmo salário que os homens. Existem meninas que, se tiverem sorte, não vão engravidar com 14 anos. Existem mulheres que estão começando a ter voz agora, reivindicando os seus direitos e estão sendo mortas. Então, ainda tem muito para se mudar. São várias lutas dentro de uma escala que atinge mulheres de modos diferentes. 

 


17 de Outubro de 2026
MARCELO RECH

Vestibular para populista

As torcidas de Lula e Flávio Bolsonaro gostam de apresentá-los como antagônicos em tudo. Não são tanto assim. Quando se trata de usar as burras públicas para perguntar quem quer dinheiro, há pouca diferença entre eles.

Desde março, Lula já anunciou cerca de 25 benesses eleitoreiras. É a reciclagem sofisticada da velha prática coronelista em que um candidato prometia um pé de sapato agora e o outro para depois da eleição. Quem não votar nele perderá os benefícios, ameaça Lula. 

Já Flávio não só não desautorizou nenhuma das benesses como foi além: prometeu baixar a prestação do Minha Casa, Minha Vida e outros que tais, como um tesouraço nos impostos. É uma disputa cabeça a cabeça sobre quem gasta mais sem fazer as contas sobre a realidade fiscal do país, com forte cheiro de estelionato eleitoral no ar.

Apesar da epidemia de gastança que contagia as duas candidaturas, o mercado reagiu favoravelmente à vitória de Flávio no primeiro turno. A expectativa de um freio de mão no populismo não reflete os compromissos de Flávio e nem a gestão pregressa do bolsonarismo. Em busca da reeleição, Jair Bolsonaro lançou a PEC Kamikaze e empurrou o pagamento de precatórios e repasses aos Estados para o governo seguinte, a fim de assegurar um superávit de araque no fim de mandato.

Até agora, os afagos eleitorais de Lula já custam cerca de R$ 290 bilhões adicionais aos contribuintes. Os de Flávio, que promete não revogar nada e ir além, sabe-se lá. Quem vai pagar a fatura? Todos nós, seja por meio de mais impostos, mais dívidas, mais juros, mais inflação, menos serviços e menos investimentos públicos ou, como é provável, tudo isso junto. Dinheiro que compra apoio político hoje é dinheiro que vai faltar amanhã para obras, segurança, saúde e ciência.

Na prática, a disputa presidencial virou uma peleja de promessas inexequíveis para um país cuja explosiva e crescente dívida pública já consome 82,9% do PIB. Em nome da vitória a qualquer custo, arquivou-se o debate sobre reformas capazes de fazer uma imensa massa de vulneráveis trocar de patamar de vida. No lugar de mudanças estruturais, estimula-se que grande parte do eleitorado permaneça no curral da dependência do Estado.

Fosse o esbanjamento redirecionado a uma crucial revolução na educação, ainda haveria esperança de transformações estruturais e de não ficarmos eternamente no segundo pelotão, como ocorre na inteligência artificial, para citar um exemplo.

 A IA está virando o planeta de cabeça para baixo, incluindo o mercado de trabalho e a renda. Na campanha, nem chegamos a roçar essa discussão, porque o país se tornou refém de um mero campeonato sobre qual candidato usa mais anabolizantes populistas para estimular seu tônus eleitoral. 

MARCELO RECH

17 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

Supremas obscenidades

O colapso da credibilidade do Supremo Tribunal Federal (STF), obra de parte de seus membros, se agrava com a impassibilidade da instituição diante das revelações da revista Piauí sobre a orgia com garotas de programa do ministro Kassio Nunes Marques, organizada e patrocinada pelo ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro. 

A reportagem publicada na quinta-feira, construída a partir da troca de mensagens de celular entre Vorcaro e interlocutores que ajudaram a organizar a festa e estavam no local, é ilustrativa sobre como o ex-controlador do Banco Master agia para tentar garantir proteção e vantagens de altas figuras da República.

A noitada descrita em detalhes por vezes nauseantes é mais um episódio a fortalecer a sensação de que há togados do STF sem condições morais de permanecer na Corte. No mínimo, o ministro deveria ser formalmente investigado, como qualquer mortal. Não pelo que faz na vida privada, mas pelos indícios de ter recebido o agrado como retribuição por favores judiciais. 

A farra em que Nunes Marques foi a celebridade, em 28 de fevereiro de 2025, ocorreu cinco meses após o ministro desempatar um processo que interessava ao Master, relacionado a precatórios. O conjunto de situações obscuras de pagamentos mal explicados que envolvem o Master e o ministro, seu filho e pessoas próximas, conhecidas como "Turma do KN", exige apuração e esclarecimento.

Na terça-feira, o presidente do STF, Edson Fachin, recebeu o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, para tratar das menções a ministros no celular de Vorcaro. A PF enviará ao Supremo todas as citações e, após manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR), o plenário poderá deliberar sobre investigações.

Não poderá ser acusado de má-vontade quem suspeitar que todo esse protocolo, formalmente correto, não terá desdobramentos práticos. Já surgiram, afinal, elementos suficientes para investigações serem abertas sobre os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, ao menos. Ademais, o diretor-geral da PF e o PGR, Paulo Gonet, também foram envolvidos em situações no mínimo inadequadas com Vorcaro, como a degustação de charutos e uísque em Londres custeada pelo ex-banqueiro. 

Em fevereiro, em um acordo corporativista entre os ministros, Toffoli se afastou da relatoria do caso Master e as suspeitas sobre ele, relacionadas a negócios com o banco, foram varridas para debaixo do tapete. Um mês atrás, no momento mais vexaminoso na história da Corte, a sessão que deveria deliberar sobre instauração de um inquérito para apurar o vínculo de Moraes com Vorcaro terminou com muito bate-boca e nenhuma decisão.

O ideal ainda é que o próprio STF promova o autossaneamento. É a instituição que deve ser preservada. Caso a omissão persista, é provável que o novo Senado, com grande presença de parlamentares pró-impeachment de ministros, parta para uma decisão drástica. 

Outra vez, cumpre ressaltar que o eventual impedimento deve ocorrer por crimes de responsabilidade comprovados, sem seletividade ou motivação de vingança política. E mais: independentemente do resultado da eleição presidencial, as investigações da PF precisam ser conduzidas de forma técnica e imparcial, sem margem para qualquer acordão que leve à impunidade. _

17 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Lula e Flávio fazem promessas que não terão como cumprir

Até o próximo domingo, há tempo para os candidatos que disputam o segundo turno acenarem com cadeiras numeradas no céu, se forem eleitos - se é que isso já não está sendo oferecido em algum templo deste Brasil continental.

Além dos pacotes de bondades lançados nas últimas semanas, o presidente Lula apresentou projeto para a passagem gratuita nos ônibus urbanos, aos sábados e domingos, para que os trabalhadores possam passear com a família aos fins de semana, aproveitando a folga dupla assegurada na Constituição com o fim da escala 6x1. De onde viria o dinheiro? Das emendas parlamentares, essa aberração que consome R$ 60 bilhões do orçamento anual e que os deputados e senadores usam para se perpetuar nos mandatos.

Lula não disse como estender o benefício aos que folgarão durante a semana, porque a emenda só garante dois dias de descanso, que não precisam ser em dias consecutivos. Faltou dizer que para dar esse destino a parte do valor das emendas será preciso a aprovação do Congresso, o que dificilmente os deputados e senadores farão.

Lula foi além. Disse que o sistema de transporte coletivo está falido e que, se for reeleito, vai buscar uma fonte de financiamento para a gratuidade do transporte coletivo em todo o Brasil. São palavras ao vento diante da situação fiscal do Brasil, cuja gravidade Lula insiste em negar. Defende a ampliação dos programas sociais e o aumento do consumo, sem reconhecer que quando se gasta mais do que se arrecada é preciso tomar dinheiro no mercado, e isso provoca inflação e impede a redução do juro.

Flávio Bolsonaro promete "SUS com padrão Einstein", coisa que talvez a maioria dos brasileiros não imagina o que seja, porque só conhece o SUS dos postos de saúde e dos hospitais filantrópicos, que salvam vidas, mas estão a anos-luz de distância do Albert Einstein, um dos hospitais mais renomados do Brasil. 

O Einstein está para São Paulo como Moinhos de Vento para Porto Alegre - só que inacessível a quem não tem dinheiro ou um bom plano de saúde. Como pagar? Flávio não explica. Acha que basta informar ao público que o seu ministro da Saúde será o médico Claudio Lottenberg, presidente do Conselho Deliberativo do Hospital Israelita Albert Einstein.

Flávio faz um discurso contraditório. Fala em tesouraço de R$ 250 bilhões nos gastos e nos impostos, sem qualquer conexão com a realidade fiscal. Promete corrigir as aposentadorias acima da inflação, diz que vai manter e aumentar o Bolsa Família (classificou como "merreca" o reajuste de R$ 90 dado por Lula e considerado eleitoreiro), que o programa Minha Casa, Minha Vida vai continuar. As duas coisas são incompatíveis. Não há como cortar R$ 250 bilhões em despesas sem passar a tesoura em investimentos e gastos sociais.

Esses são alguns dos exemplos do que se vê nos discursos de palanque e na propaganda eleitoral. Seja quem for o vencedor, boa parte das promessas irá para o armário dos esquecimentos, simplesmente porque não cabe no orçamento. 

Como será a atuação da futura primeira-dama do RS

Futura primeira-dama do RS, a advogada Joyce Zucco ainda não sabe se vai se instalar no Centro Administrativo Fernando Ferrari ou no Palácio Piratini, mas já escolheu as causas que vai defender na área social.

Nos primeiros meses, a ideia é trabalhar com uma estrutura enxuta, com o secretário ou secretária da área e com prefeituras, na proteção às mulheres, às crianças e às famílias atípicas.

Aos 43 anos, mãe da Antônia, de nove, Joyce trabalhava no Ministério Público, mas se afastou quando o marido, Luciano Zucco, assumiu a candidatura a governador. Na campanha, percorreu o Estado ao lado do marido. Acompanhou Zucco em entrevistas, debates, comícios e carreatas, sempre esbanjando energia.

Está decidido que Joyce não ocupará secretaria. Ela planeja ajudar na implementação de políticas públicas. Uma de suas maiores preocupações é com os feminicídios. _

Quebra de protocolo para homenagear Paim

Prestes a encerrar a carreira política, depois de três mandatos no Senado, o gaúcho Paulo Paim (PT) recebeu uma merecida homenagem na sessão solene de promulgação da emenda constitucional que acaba com a jornada de 6x1. Ao saudar as autoridades presentes, já com o presidente Lula e o deputado Hugo Motta acomodados a seu lado, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, avisou que quebraria o protocolo para homenagear um homem que está há mais de quatro décadas no Congresso e que muito trabalhou pela aprovação da proposta.

Alcolumbre pediu ao cerimonial que providenciasse uma cadeira extra para que o gaúcho pudesse ocupar um lugar à mesa principal. Paim foi aplaudido de pé. Desde que anunciou sua despedida da vida pública, Paim vem sendo homenageado por colegas que passam por cima das diferenças ideológicas para saudar sua coerência. 

Presidente vem a Porto Alegre

Na segunda-feira, o presidente Lula fará campanha em Porto Alegre. O roteiro foi definido na manhã de sexta-feira, em reunião com a participação de líderes do PT gaúcho.

A concentração se iniciará às 16h no Largo dos Açorianos, entre o Centro Histórico e a Cidade Baixa. Lula deve chegar em um carro de som por volta das 17h, onde fará discursos. Após as falas, seguirá com a militância em caminhada pela Avenida Borges de Medeiros até o Largo Glênio Peres, em frente ao Mercado Público, no Centro Histórico.

A primeira-dama Janja deve acompanhar o presidente.

No primeiro turno, Lula venceu a eleição em Porto Alegre com 377.252 votos (48,57% dos votos válidos), contra 325.139 (41,86%) de Flávio Bolsonaro. _

Impacto da 6x1 para prefeituras

Uma estimativa da Confederação Nacional de Municípios (CNM) prevê um impacto de R$ 6,6 bilhões nos cofres das prefeituras do Brasil com o fim da escala 6x1. A estimativa foi elaborada pela entidade a partir de uma pesquisa feita com prefeitos e gestores locais.

De acordo com os cálculos, R$ 1,49 bilhão terão de ser despendidos com contratações diretas. Mas o maior volume de gasto se dará com os custos com funcionários de empresas terceirizadas que prestam serviços aos municípios, estimado em R$ 5,14 bilhões por ano.

Na avaliação do presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, as administrações municipais terão de gastar mais se quiserem manter o mesmo nível de prestação dos serviços públicos:

- Sem uma previsão orçamentária devida, muitos serviços podem ser afetados, prejudicando a população - avalia, lembrando que o fim da 6x1 é válido também para servidores públicos. _

POLÍTICA E PODER

O agro brasileiro na COP31

Em um cenário internacional marcado por disputas comerciais, guerras e riscos às cadeias de suprimento de alimentos e insumos, o agronegócio brasileiro marcou posição que irá defender durante a COP31, a conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, que ocorrerá na Turquia, em novembro.

O documento foi apresentado na quinta-feira, em Brasília, durante reunião da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O principal desafio, na visão do setor, será transformar metas climáticas em instrumentos que funcionem na prática. Como vem alertando a coluna, o produtor gaúcho em particular é vítima tanto das estiagens quanto do excesso de chuvas, duas consequências aprofundadas pela crise climática. Em tempo de El Niño vitaminado e dívidas, a situação se torna ainda mais preocupante.

Representaram a Federação da Agricultura do Estado do RS (Farsul) em Brasília o diretor-vice-presidente da entidade, Gedeão Pereira, o diretor-vice-presidente Fernando Rechsteiner, a assessora de Desenvolvimento Sustentável, Paula Hofmeister, e o assessor de Relações Internacionais, Renan Santos.

Ex-presidente da Farsul, Gedeão destacou o papel do país como exportador líquido de alimentos para o mundo, a importância do agro brasileiro para garantir a segurança alimentar e a atuação da CNA nas COPs, mostrando ao mundo a sustentabilidade da agricultura brasileira.

O documento organiza o posicionamento em oito eixos: Agenda de Ação e Mapas do Caminho - reconhecer e valorizar quem conserva; Agricultura e segurança alimentar - garantir voz própria ao setor nas negociações; Balanço Global - medir corretamente as emissões da agropecuária; Financiamento climático - fazer o recurso chegar ao campo; Adaptação - preparar o campo para um clima cada vez mais desafiador; Transição justa; Comércio e clima - evitar que regras ambientais se transformem em barreiras; e Mitigação - reconhecer e remunerar resultados obtidos no campo.

Há uma preocupação em manter a relevância brasileira, depois que, em Belém, o agronegócio erigiu a AgriZone, um pavilhão paralelo à Blue Zone e à Green Zone, os dois espaços tradicionais das COPs. A experiência foi um sucesso ao mostrar como a atividade agropecuária é impactada diretamente pelos fatores climáticos e como, paralelamente, compõe soluções eficientes em mitigação e adaptação.

Principais pautas

Um dos pontos que deverão ser acompanhados na Turquia diz respeito à continuidade das negociações internacionais sobre o papel da agricultura no enfrentamento às mudanças climáticas. Durante muito tempo, o setor foi tratado nas COPs principalmente como fonte de emissões de gases de efeito estufa. Aos poucos conquistou espaço nas discussões sobre segurança alimentar, adaptação climática e soluções para a redução das emissões.

Um marco ocorreu em 2017, na COP23, em Bonn, na Alemanha, com a criação do Grupo de Koronivia sobre Agricultura, iniciativa que colocou o setor na agenda oficial dos debates. O fórum passou a discutir temas como conservação dos solos, manejo da água, pecuária, adaptação às mudanças climáticas e segurança alimentar. Cinco anos depois, na COP27, no Egito, a iniciativa deu lugar ao Trabalho Conjunto de Sharm el-Sheikh, que passou a buscar caminhos para transformar compromissos em ações concretas. _

Horas antes de o presidente Lula afirmar na quinta-feira à TV Globo que é favorável à diminuição da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicou nota com posicionamento contrário à medida. Segundo a entidade, "o simples endurecimento das penas não reduz a violência".

Vaticano divulga imagem do Papa após cirurgia

O Vaticano divulgou na sexta-feira a primeira imagem do papa Leão XIV após a cirurgia para a retirada de um tumor da parte inferior do pulmão direito. A foto mostra o Pontífice celebrando uma missa na Clínica Gemelli, em Roma, onde está internado.

Segundo a Santa Sé, Leão XIV celebrou a missa às 12h (no horário de Roma) em uma sala especialmente adaptada para a cerimônia no 10º andar do hospital. Estavam presentes membros das equipes médica e de enfermagem que estavam de folga no momento, além de integrantes da Santa Sé. Em sua homilia, o Papa agradeceu a todos os funcionários do hospital.

Mais cedo, o Vaticano informou, por meio de um boletim médico, que foram realizados exames de sangue e radiografias de tórax, os quais mostraram evolução positiva em sua recuperação. A nota também informa que o Papa segue em fisioterapia respiratória e que seu quadro clínico já permite que ele realize atividades cotidianas de forma autônoma.

Também na sexta-feira, Leão falou ao telefone com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, para discutir a guerra na Ucrânia. Há indicativos de que o Papa fará a Oração do Angelus no domingo. Futurista internacional no RS

O futurista de renome internacional Neil Redding virá, pela primeira vez, ao RS em novembro. Conhecido como "near futurist" ("futurista do agora"), o especialista participará, em Porto Alegre no dia 12 de novembro, do Fórum IEL de Inovação.

Esta será uma das três etapas do Fórum, que é promovido pelo Sistema Fiergs, por meio do Instituto Euvaldo Lodi (IEL-RS). Além da edição da Capital, com a participação de Redding, o evento contará com outras duas edições itinerantes, em Caxias do Sul no dia 18 e em Santa Maria no dia 26. 

17/10/2026 - 04h00min-
Anderson Aires

Mapa: quais cidades do RS têm maior potencial para novos empreendimentos imobiliários

Levantamento do sindicato das imobiliárias considera fatores econômicos e de desenvolvimento social e mostra atratividade distribuída entre várias regiões.

Porthus Junior / Grupo RBS - Caxias do Sul, na Serra, ocupa o topo da lista de atratividade imobiliária.

Porthus Junior / Grupo RBS

Em um cenário em que o mercado imobiliário enfrenta gargalos como juros altos, crédito restrito e endividamento da classe média, estudar o comportamento das economias locais ganha ainda mais peso na tomada de decisão do setor. Levantamento recém-lançado pelo Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis do Rio Grande do Sul (Secovi-RS) aponta que a atratividade imobiliária está espraiada pelo Estado. Entre os destaques estão a Serra, a Região Metropolitana, o Sul e a Região Central.

O estudo mostra que os municípios de Caxias do Sul, Canoas, Pelotas, Santa Maria e Passo Fundo ocupam o top 5 em atratividade imobiliária (veja no mapa). O levantamento do Secovi-RS leva em conta 15 variáveis divididas entre dimensões econômicas, demográficas, educacionais e habitacionais, além do Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese). O raio X, que está em sua sexta edição, passa por 496 dos 497 municípios do Estado — a capital Porto Alegre ficou de fora por ser principal alvo de investimentos em todos os padrões.

O vice-presidente de Comercialização do Secovi-RS, Rafael Padoin Nenê, afirma que as cidades que lideram o ranking se destacam pela captação de recursos, conseguindo absorver ativos de outras regiões e reter profissionais qualificados, superando alguns dos principais gargalos do Estado. Com isso, a economia se torna mais pujante e atrativa para novos empreendimentos, seja voltados para moradia, seja para outros ramos, como shoppings, comércios e indústrias, gerando receita e empregos.

— Quando há uma região que tem uma organização no sentido de ter a iniciativa privada buscando empreender, atraindo investimentos, que tem um PIB mais relevante, onde a infraestrutura e a gestão pública conversam melhor, isso faz com que algumas regiões despontem nessa questão de desenvolvimento econômico. E a construção civil está intrinsecamente ligada nisso. Esse contexto movimenta uma cadeia — explica Padoin Nenê.

O executivo destaca a importância de as cidades terem planos diretores alinhados ao seu “DNA” e à lógica de negócios, em vez de pautas ideológicas, tornando o município mais competitivo, atraente a investimentos e com planejamento urbano equilibrado. Ainda reforça que um dos maiores gargalos atuais da construção civil no Estado é a perda de mão de obra qualificada para outras regiões, destacando mais uma vez que os municípios no topo do ranking têm protagonismo justamente por conseguir manter esses profissionais.

O professor da Faculdade de Arquitetura e da pós-graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Eber Pires Marzulo destaca que a atratividade imobiliária gaúcha é impulsionada por uma rede de infraestrutura, educação e outros serviços públicos essenciais.

Lançamentos de imóveis de médio e alto padrão crescem 18% em Porto Alegre no primeiro semestre; veja bairros que lideram

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Enquanto a Região Metropolitana e os polos regionais concentram a produção para moradia e investimento alavancada, outras regiões sofrem com o déficit de infraestrutura urbana consolidada e a ausência de grandes centros atratores. No caso das cidades com maior protagonismo na atração de empreendimentos, Marzulo cita o aquecimento gerado por redes de saúde e educação superior:

— A questão educacional, em geral, se articula muito com a questão da saúde. E essas grandes universidades, em geral, se articulam e acabam alimentando e melhorando as condições de hospitais ou mesmo criando hospitais para a atividade universitária.

Polos regionais

A análise de Marzulo é corroborada pelo levantamento do Secovi-RS. Santa Maria, por exemplo, que aparece na quarta colocação do ranking de atratividade, se destaca pelo número de domicílios alugados e pela quantidade de pessoas com Ensino Superior completo. A entidade destaca que essas características “ajudam a compreender seu perfil como polo regional de educação e serviços”.

O que explica a liderança dos municípios

O Secovi-RS destaca alguns dos pontos que justificam o top 5 do ranking de atratividade:

Caxias do Sul: no topo do ranking, o município demonstra força econômica, aparecendo em segundo lugar no número de empresas e de empregados formais entre os municípios analisados, e apresenta um dos maiores PIBs do Estado, como destaca o Secovi-RS

Canoas: a cidade da Região Metropolitana apresenta números expressivos, com destaque para o emprego formal, a atividade econômica e a população em idade ativa

Pelotas: tem destaque na estrutura habitacional, ocupando posições importantes tanto no número de domicílios próprios quitados quanto na população em idade ativa, segundo os responsáveis pelo levantamento

Passo Fundo: além da relevância no mercado de trabalho formal e na atividade econômica, tem uma base importante de empresas e domicílios, segundo os pesquisadores

Capacidade por padrão imobiliário

Um segundo indicador exposto na pesquisa do Secovi-RS é a capacidade e potencial dos municípios de receber empreendimentos por padrão construtivo (baixo, médio ou alto). Nessa análise, leva-se em conta o potencial de investimento de cada município, e a dimensão utilizada para essa classificação são as faixas de rendimento. Por exemplo, são classificados com potencial “forte” os municípios que apresentam resultados mais expressivos proporcionalmente nas faixas de rendimento correspondentes a esse padrão.

Nesse recorte, quando olhamos o segmento de alto padrão, o levantamento coloca no mesmo campo grandes cidades e municípios com número menor de habitantes. Por exemplo, estão no grupo de potencial forte para esse segmento cidades como Caxias do Sul, Pelotas e Santa Maria, mas também Nova Ramada e Ipiranga do Sul (veja no mapa).

— O investidor que queira focar em um perfil de imóvel de classe A, de alto padrão, também vai ser mais certeiro quando investir nessas regiões, que é uma coisa que já acontece no âmbito nacional. Então, é a mesma coisa que a gente tem que aplicar no âmbito regional — destaca o vice-presidente de Comercialização do Secovi-RS sobre como esse tipo de dado pode ser usado por empresários da construção civil.

Essa classificação não significa que o município necessariamente receberá imóveis de determinado padrão, mas, sim, que a cidade apresenta características de renda que podem favorecer a existência de público consumidor para esse tipo de imóvel.

O professor da UFRGS Eber Pires Marzulo afirma que, para converter a atratividade urbana em construção de novos empreendimentos, os municípios precisam dispor de uma boa base econômica e de infraestrutura:

— Quando o mercado imobiliário chega, ele não tende a ser ponta de lança no sentido de puxar os outros setores. Ele vai atrás do que já tem: é atraído para onde já existe uma economia mais pujante.

No ramo de baixo e médio padrão, são fundamentais a demanda demográfica e o potencial de geração de empregos, além de serviços básicos bem estabelecidos. Já no alto padrão, o perfil muda:

— O alto padrão é um imóvel basicamente voltado para o investimento. Por isso, depende da existência de estoque de terra, legislação urbana e conexões viárias consolidadas com os grandes centros. 

Na prática, o levantamento pode ajudar a identificar municípios com características favoráveis ao desenvolvimento imobiliário, mas não garante que novos empreendimentos serão viáveis. A conversão desse potencial em obras, segundo especialistas, depende de fatores como demanda, renda, infraestrutura, disponibilidade de terrenos e regras de ocupação urbana. 

Em um cenário de crédito caro e juro básico estacionado em dois dígitos, esses elementos são decisivos para que a atratividade apontada pelos indicadores se converta em investimentos efetivos.

sábado, 10 de outubro de 2026

07/10/2026 - 09h00min
J. J. Camargo

Quando o silêncio é um idioma

O contraste entre a agitação dos vivos e a serenidade de quem parte é um tema desafiador para o médico. "As palavras podem mentir, mas o silêncio guarda a verdade." (Sêneca)

Fui chamado para ver um paciente antigo. Quase não o reconheci, tão emagrecido estava. Ao lado dele, a filha descrevia a irritação do pai com as visitas: parentes bem-intencionados que chegavam munidos de anedotas e barulho, tentando desesperadamente "distraí-lo" da própria finitude. Mal sabiam eles que, para quem encara o fim, a distração é uma ofensa.

Quando lhe perguntei como poderia ser útil, ele não pediu uma nova terapia ou uma renovação de esperança. Pediu para compartilhar a proximidade física como um parceiro que no passado o ajudara num momento de medo e dor. Repartir a presença já lhe bastava: "Tome um chimarrão comigo e não se importe se eu decidir ficar quieto".

Sentamo-nos. O amargo da erva e o calor da cuia serviram de âncora para um tempo que já não tinha pressa. Ali, o silêncio não era ausência de assunto; era a densidade de uma presença. Naquela quietude, ele não estava sozinho; ele estava, talvez pela primeira vez no dia, acompanhado de si mesmo.

Após um longo tempo emudecido, ele revelou a origem de sua maior tristeza: a perda recente de um velho amigo. Não o descreveu pelas conversas que tiveram, mas pela qualidade do vazio que dividiam. 

"Foi a pessoa com quem mais dividi silêncios na vida", disse ele. "Ele ter morrido antes de mim foi meu maior azar, porque fiquei entregue aos barulhentos. São pessoas boas, que querem me animar, mas não entendem que é difícil rir no presente, quando não há do que rir no futuro".

Para quem encara o fim, a distração é uma ofensa.

Essa frase me derrubou, porque em geral acreditamos numa falácia: o diálogo pressupõe o uso de palavras, ignorando que o silêncio pode ser mais eloquente.

Muitas vezes, em condições de avassaladora tristeza seremos lembrados não pelo que dissemos, mas pelo que ouvimos em constrito silêncio. No leito da terminalidade, o silêncio é o oxigênio da alma. É o espaço onde a vida decanta o que valeu a pena e os sentidos encontram lugar e relembram o que foram ou deveriam ter sido.

Nesta situação, aqueles que amam e não suportam o silêncio do outro, na verdade, estão fugindo do próprio vazio. Tentam preencher o quarto com palavras inúteis para não ouvir o que o silêncio do doente grita: a aceitação da iminência da morte.

Aquele paciente me ensinou que a verdadeira amizade — e talvez a medicina mais profunda — se mede pela capacidade de estar junto sem a obrigação de impressionar. O amigo que se fora levara consigo a compreensão de que o silêncio é um idioma.

Terminamos o chimarrão. Saí daquele quarto convencido de que a alma, às vezes, só precisa de alguém que aceite o convite para, simplesmente, não dizer nada. O contraste entre a agitação dos vivos e a serenidade de quem parte é um tema desafiador para o médico que tenha a noção do seu papel na antessala da morte, e precisa ter assimilado esse papel, se quiser ser útil.

Afinal, todos nós precisamos aprender, mais cedo ou mais tarde, que tomar um chimarrão em silêncio pode ser a forma mais eloquente de dizer: "Estou aqui, me alcance a cuia!".

 


02/10/2026 - 14h37min
Martha Medeiros

Quem se acha superior aos demais não passa de um dinossauro 

Nosso saldo bancário ou posição no organograma não deveria fazer diferença. Braquiossauros. Velociraptors. Pterodáctilos. Hierárquicos. Sim, incluiria os hierárquicos nesta turma. Quem se acha superior aos demais e usa o poder para obter vantagens não passa de um dinossauro também.

A sociedade é ordenada por cargos e funções. Pessoas contratam outras para trabalhar com elas ou trabalhar para elas. A despeito da sutil diferença entre as duas preposições, vale a máxima: eu pago, você obedece.

Sempre tive dificuldade com essa concepção de mundo. Era uma pirralha e não entendia nem mesmo a razão de ter que abaixar a cabeça diante de pai e mãe. Muitas vezes, depois de ouvir um sermão, tentei me defender, mas fui interrompida com um “não me responda”. Ou era calada com a frase “Criança não tem querer”. 

Eu achava injusto colocar a situação nesses termos, mas nunca promovi nenhuma rebelião infantil. Ficava quieta. Acho um absurdo que hoje as crianças mandem e os pais obedeçam. Sempre respeitei meus pais, como respeitei meus professores e sigo respeitando a todos, mas não pela hierarquia, que para mim é um conceito obsoleto, e sim como um tributo a quem sabe mais do que eu.

E todos sempre saberão alguma coisa que eu não sei. Um Papa sendo operado por um cardiologista: quem é que merece ter as mãos beijadas na sala de cirurgia? Um milionário cujo carro quebra na estrada: qual o valor do mecânico que veio em seu socorro? Uma celebridade que acaba de dar à luz e tem baixa produção de leite: VIP não seria a mulher que amamentará o bebê em seu lugar?

É a dinâmica da vida. Precisamos uns dos outros, e nosso saldo bancário ou posição no organograma não deveria fazer diferença.

Ninguém é melhor que ninguém, apenas algumas têm mais dinheiro. Que entre logo em extinção aquele que circula de nariz em pé, achando que vale mais que o porteiro que lhe abre a porta ou que o garçom que lhe serve o vinho. Se pudesse observar a si mesmo à distância, desdenhando de quem lhe atende, teria vergonha da própria canastrice. O mundo avançou, se unificou, e é nosso dever acompanhar esse movimento, em vez de fazer carreira como fóssil. 

Falo sobre todos nós e nossas relações sociais, mas, hoje, cabe especificar: tiranos, ditadores, golpistas e todas as vossas majestades que desconhecem o diálogo são os dinossauros do século 21. E nosso voto, o asteroide que pode eliminá-los.

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24 de Outubro de 2026 CARPINEJAR A guitarra silenciada Eu confessei, nesta coluna, que não me dou bem com encomendas. O trauma é justificado...

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