domingo, 20 de setembro de 2026

19/09/2026 - 05h30min
Fabrício Carpinejar

Cair sete vezes, levantar oito: o ouro que pode reconstruir o Sakae's

Aquele endereço acompanhou quase toda a minha vida; agora, quero vê-lo renascer das cinzas pelas mãos de quem também guarda essa história. É rápido e você não perde nada importante. O restaurante era um ano mais novo do que eu – o restaurante japonês mais antigo de Porto Alegre, um dos mais antigos do país.

Aquele endereço – número 690 da rua Castro Alves – acompanhou diferentes fases da minha vida, de menino a adolescente, de adolescente a homem feito. Fui filho, fui marido, fui pai em suas mesas. Decorei degrau por degrau da escada para o segundo piso. As cortinas, as janelas coloridas, o vaivém dos garçons.

A proprietária Sakae Suzuki, hoje com 87 anos, a idade da minha mãe, abriu o Restaurante Sakae’s em 1973, quando ninguém tinha o hábito de comer sushi na capital. Seu pioneirismo nos ensinou a usar o hashi.

Tratava-se de um negócio familiar, mas, pela sua longevidade, transformou-se em um patrimônio da nossa cultura gastronômica.

Na tarde de terça-feira (15), por causas ainda desconhecidas, o Sakae’s acabou destruído por um incêndio. O incidente não deixou feridos, porém acarretou danos materiais que reduziram a cinzas o sonho de várias gerações.

“Vamos reerguer esse cantinho do Japão em Porto Alegre”: família do Sakae’s busca reconstruir restaurante após incêndio; veja como ficou  “Vamos reerguer esse cantinho do Japão em Porto Alegre”: família do Sakae’s busca reconstruir restaurante após incêndio; veja como ficou

O expediente não havia iniciado. Os funcionários se preparavam para o atendimento no turno da noite, previsto para as 19h.

Como o imóvel possuía boa parte de sua estrutura em madeira, o fogo se alastrou com voracidade, impedindo que os bombeiros controlassem as chamas em tempo hábil. Não arderam apenas o telhado, o interior e os móveis. Ardeu o legado irrecuperável de um lar. Todo objeto trazia uma história desprovida de cópias.

Praticamente tudo o que se encontrava dentro foi perdido. Salvaram-se algumas relíquias, recolhidas no desespero. Desapareceram os únicos registros do avô, as fotos nas paredes, as louças raras e a prataria.

O ponto exibia o status de uma embaixada japonesa informal. Fazia dueto, simbolicamente, com o Recanto Oriental do Parque da Redenção, caracterizado por pontes de pedra, bancos de jardim, um pequeno lago e uma estátua de Buda.

Sakae Suzuki veio ao Brasil ao lado do marido, com o qual teve três filhos. Sem falar português, ela se comunicava pelos sabores, pelas suas receitas ancestrais.

O comércio não contava com seguro. Diante da dimensão da avaria, a família criou uma vaquinha online para arrecadar recursos e tentar reconstruir o estabelecimento. A soma almejada é de R$ 800 mil. Até o momento, angariou-se 10% do valor.

Resta-nos buscar inspiração no kintsugi, a arte japonesa de reparar a cerâmica quebrada sem esconder suas cicatrizes, realçando-as com ouro. Cada contribuição será um pouco dessa liga: o ouro da empatia.

Existe um provérbio japonês sobre a resiliência: “nana korobi ya oki” – “cair sete vezes, levantar-se oito”. Perto dos noventa anos, Sakae Suzuki terá de recomeçar pela oitava vez. Mas algo mudou: ela também se tornou gaúcha.

Não está mais sozinha. Muitas mãos agradecidas irão reerguê-la.

19 de Setembro de 2026
COMPORTAMENTO - COMPORTAMENTO

Rotina de acordo com o ciclo menstrual

O "cycle syncing" viralizou nas redes sociais, mas especialistas alertam para evidências científicas sólidas

Uma tendência vem ganhando força nas redes sociais: mulheres recomendando a organização de vida de acordo com as fases do ciclo menstrual. A ideia de "não planejar o mês como um homem" é uma das bases do cycle syncing (sincronização do ciclo), prática que promete maior produtividade e bem-estar a partir de adaptações no dia a dia - desde o trabalho até o treino físico - conforme as etapas do ciclo menstrual.

A tendência tem adeptas em várias partes do mundo. No TikTok, por exemplo, são mais de 112 milhões de publicações fazendo menção à hashtag #cyclesyncing. A prática parte da premissa biológica de que as alterações hormonais ao longo do ciclo podem influenciar diferentes aspectos da vida. No entanto, de acordo com a ginecologista Maria Celeste Osório Wender, existe pouca evidência científica sobre cycle syncing, o que impossibilita a indicação profissional desta técnica.

A especialista também ressalta que as variações entre ciclos não são percebidas da mesma forma por todas as mulheres. Além disso, a mesma paciente pode apresentar flutuações entre ciclos, dificultando regras fixas.

Segundo Maria Celeste, estudos mostram que o tempo médio de diferença nas atividades entre as fases do ciclo é de apenas 12 minutos por dia, um impacto que pode ser influenciado por outros fatores como estresse, falta de sono e cuidado com os filhos.

Pesquisas indicam que a fase lútea tardia, nos dias que antecedem a menstruação, é a que mais aparece associada a maior cansaço e menor disposição, enquanto a fase folicular próxima à ovulação pode coincidir com maior disposição física. Também há sinais de pequenas variações na força e na capacidade aeróbica ao longo do ciclo.

No entanto, os efeitos variam de acordo com cada pessoa - e podem alternar em diferentes ciclos da mesma paciente -, o que impede a formulação de uma rotina padrão de como trabalhar ou qual exercício fazer em cada fase do ciclo menstrual, como é propagado pelo cycle syncing.

- Essas recomendações populares funcionam como sugestões úteis para algumas mulheres que percebem um padrão cíclico claro, mas não devem ser prescritas universalmente - ressalta a ginecologista. 

Fases do ciclo menstrual

Para pessoas que menstruam e que não usam contraceptivos hormonais, o ciclo envolve as etapas folicular, lútea e de ovulação, que podem variar em duração e efeitos em cada pessoa.

Fase folicular inicial (menstruação): começa com o sangramento menstrual, provocado pela queda de estrogênio e progesterona. A queda estimula a produção do hormônio folículo-estimulante (FSH), que estimula o crescimento de novos folículos nos ovários para o próximo ciclo

Fase folicular tardia: nesta etapa, um folículo se torna dominante e passa a secretar estrogênio. O pico deste hormônio prepara o corpo para a ovulação

Ovulação: é o momento da liberação do óvulo maduro, acompanhado por picos dos hormônios estradiol, LH e FSH

Fase lútea: após a ovulação, o que restou do folículo se transforma no chamado "corpo lúteo", que passa a produzir progesterona e um novo pico de estrogênio

Fase lútea tardia (pré-menstrual): caso não ocorra fecundação, o corpo lúteo regride e os níveis de estrogênio e progesterona caem, o que vai desencadear a menstruação e o novo ciclo

Autoconhecimento ou mais uma cobrança?

Para Cibele Cheron, professora de Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é preciso cautela para que esse método não se torne uma cobrança adicional na rotina das mulheres.

Existe um risco real de que o autocuidado vire uma quarta jornada. A mulher já trabalha fora, trabalha em casa, cuida de todo mundo, e agora precisa gerenciar o próprio ciclo como uma planilha de metas. Se o resultado da prática é a mulher extraindo mais de si mesma para caber no mesmo calendário, houve intensificação do trabalho - analisa a professora.

Ela também ressalta que a possibilidade de adaptar a rotina não está disponível para todas as mulheres. Uma profissional com autonomia sobre os próprios horários, por exemplo, pode reorganizar compromissos de acordo com sintomas. Já quem trabalha em uma rotina rígida, com horários e tarefas determinados por terceiros, dificilmente terá a mesma liberdade.

Por isso, para Cibele, a discussão sobre o ciclo também deve servir para questionar as próprias condições de trabalho, em vez de buscar mais eficiência dentro delas.

Funciona?

Acompanhar o próprio ciclo pode ser útil para identificar padrões individuais e desenvolver autoconhecimento. O que não tem respaldo científico é transformar essas observações em um protocolo universal, determinando como se deve trabalhar, comer, treinar ou socializar em cada fase do ciclo.

A recomendação, portanto, é a individualização para evitar frustração com resultados ou sobrecarga. O ideal é observar o que acontece com o próprio corpo e não seguir uma tabela pronta encontrada nas redes sociais.

Segundo a cientista política Cibele Cheron, a ideia também pode inspirar discussões sobre a organização da sociedade e o lugar da mulher nela.

- O calendário que organiza escolas, empresas e órgãos públicos foi construído para um corpo universal, suposto sem variação interna, sem gestação e sem interrupção. A formulação mais precisa da sociedade seria: todo mundo planeja o tempo a partir do corpo, das crianças, do sono, da saúde. O que existe é uma hierarquia sobre quais corpos podem aparecer no planejamento coletivo, e o corpo que menstrua está entre os que foram obrigados ao silêncio e à invisibilidade - afirma.

Monitoramento saudável

Quem deseja acompanhar o próprio ciclo menstrual para identificar padrões individuais e desenvolver autoconhecimento, sem se prender em regras fixas, a ginecologista Maria Celeste recomenda acompanhar o ciclo por pelo menos dois ou três meses antes de tirar conclusões. Nesse período, anotar informações como humor, energia, dor, sono e data da menstruação. A partir desses registros, identificar padrões e fazer pequenas adaptações na rotina, conforme indicação médica.

A especialista ressalta, porém, que sintomas intensos ou incapacitantes não devem ser considerados parte normal do ciclo: cólicas fortes, alterações acentuadas de humor, sangramento anormal ou sintomas que prejudicam a qualidade de vida devem ser avaliados por um profissional de saúde. 

19 de Setembro de 2026
COM A PALAVRA - Mariana Enríquez

Escritora argentina

"O terror que me interessa fazer está relacionado com o social"

A escritora argentina Mariana Enríquez, 52 anos, se notabilizou por sua produção relacionada ao terror. Neste ano, dois títulos dela chegaram ao Brasil pela Editora Intrínseca. Alguém Caminha Sobre o Seu Túmulo, obra de não ficção, traz ensaios sobre cemitérios ao redor do mundo. Já Um Lugar Ensolarado Para Gente Sombria é uma coletânea de contos de terror que flertam com o realismo.

William Mansque

Em Um Lugar Ensolarado Para Gente Sombria, os personagens (humanos ou fantasmas) convivem com problemas muito concretos como pobreza, violência, desigualdade, medo e exclusão. O terror funciona para você como uma forma de falar daquilo que uma sociedade prefere não olhar?

Esses contos em particular são de gênero ou terror, mas o que uso é um material realista. O gênero como tal deve ser traduzido da mesma maneira que qualquer outro. Suponhamos o policial. Se pensar no romance policial nórdico, é um modelo que não podemos transferir como escritores para a América Latina porque seria absurdo. 

Sei que é terrível o que vou dizer, mas nós estamos acostumados a chacinas, a crimes políticos, ao crime do narcotráfico e a muita violência institucional. Esse modelo tão analítico e psicológico do crime não funciona para nós. O nosso crime é necessariamente político. Com o terror é um pouco igual. O terror sempre, de alguma maneira, falou dos medos da sociedade onde o escritor estava. No meu caso, me interessa o terror relacionado com as fobias de uma sociedade.

E aqueles que são pessoais?

Também. Em Um Lugar Ensolarado Para Gente Sombria, tem um conto de body horror (terror corporal) sobre uma mulher que faz uma operação ginecológica (Metamorfose). Se certas questões relacionadas ao corpo da mulher e ao envelhecimento da mulher não nos dessem tanto medo ou repúdio, se não fossem naturais como deveriam ser, esse medo de envelhecer seria talvez mais pessoal, não somente algo social. 

Então, o terror é o meu gênero. E o terror que me interessa fazer está relacionado com o social, com o real e com um diálogo com os medos que temos como sociedade. Se quisesse escrever realismo, eu o faria. Mas quero escrever no gênero, e o material para isso como escritora latino-americana, com os traumas da sociedade e a minha maneira de perceber a realidade, é este.

No conto Metamorfose, a protagonista começa a olhar para o seu corpo de outra maneira porque também muda a forma como o mundo a enxerga. Quanto da identidade, especialmente para as mulheres, é determinada pelo olhar dos outros?

Muito. É uma fraqueza terrível. Todas as mulheres passam por isso. Quanto mais rápido pudermos falar sinceramente a respeito, melhor. O que acontece com a mulher na menopausa e para além disso? Pensando nos nossos corpos no capitalismo, somos as mulheres que mais podem comprar cosméticos, tratamentos e roupas. 

Só que quase nada de roupas ou de cosméticos são feitos para nós. Parece uma futilidade, mas é uma questão muito reveladora, pois te aponta o que você não é o tempo todo. Quanto mais velha eu fico, mais vontade tenho de me ver melhor. Não importa se isso é uma insegurança ou uma futilidade social, é um fato. Existe uma ideia totalmente perversa de envelhecer com elegância, como se isso fosse algo que se pudesse se fazer no meio de hormônios, doenças, depressão, de montões de coisas.

Em Alguém Caminha Sobre o Seu Túmulo, você visita tumbas que revelam tragédias de povos originários e presos políticos. Você sente que os cemitérios funcionam como o arquivo de postergados e esquecidos pela história oficial?

Os cemitérios funcionam como um arquivo histórico material, mas acho que os esquecidos e os marginalizados da sociedade, de alguma maneira, também ocupam o lugar de esquecidos e marginalizados nos cemitérios. 

O túmulo do empresário e latifundiário José Menéndez (localizado no histórico Cemitério Municipal Sara Braun, em Punta Arenas), responsável por muitas chacinas na Patagônia, é um castelo. Há protestos, em muitas ocasiões, militantes entram e jogam tinta vermelha e tal, mas é um jazigo que simboliza um lembrete: uma família que ainda é poderosa. 

Nos cemitérios, as classes sociais e as condições de centralidade se mantêm. Inclusive, em qualquer cemitério grande, vemos na entrada os majestosos túmulos aristocráticos e, depois, isso se reduz. De alguma maneira, sim, é um arquivo e é uma reprodução quase da ordem.

Voltando ao Um Lugar Ensolarado para Gente Sombria. No conto Meus Mortos Tristes, que inspirou uma minissérie da Netflix, há uma tensão entre vizinhos que exigem segurança, mas, ao mesmo tempo, há a violência que eles mesmos estão dispostos a aplicar. Havia interesse em mostrar como uma sociedade pode se transformar naquilo que diz combater?

Acho que um dos grandes temas (do conto) é como nos relacionamos. O tema da segurança urbana é muito complexo. Muito mais do que quando escrevi aquele conto, pois ali se cruzam muitíssimas narrativas. O medo do outro, do pobre e do diferente. Enxergá-lo sempre como um criminoso por sua cor, por sua origem, etc. 

A ideia de que é sempre uma ameaça. E nesse âmbito, digamos, especialmente as classes médias se tornam muito conservadoras e se aproximam de atitudes fascistas. Só que, ao mesmo tempo, essas classes médias também estão sendo corroídas pela falta de trabalho, pela brutalidade do neoliberalismo que já não lhes permite uma sensação de segurança. Rapidamente, passam a ver insegurança em toda parte. 

Há casos que é legítimo o medo de muita gente. Produz-se ali um momento muito tenso em que se enfrentam o ideológico, o narrativo e o político, onde os vulneráveis sempre ficam como alvo de acusações. Às vezes a gente sente que as pessoas se esquecem de que temos que viver todos juntos.

Quanto da Mariana escritora nasceu da cultura da música e do fanatismo?

Estudei jornalismo porque queria ser jornalista de rock. Eu lia muito jornalismo de rock naquela época, e era o que queria fazer: entrevistar bandas, fazer parte daquele mundo. Foi nessa fase que escrevi meu primeiro livro nos anos 1990, que é Bajar Es Lo Peor. Com o tempo, a literatura foi superando em muito o jornalismo. Esse lado obsessivo e fanático (com música) é muito importante na minha vida. É uma fonte de inspiração, é onde me sinto mais confortável. Gosto tanto quanto a literatura. 

O fenômeno do ídolo e da obsessão do fã são elementos que aparecem na minha escrita porque me interessa e vejo um certo paganismo ali. É uma coisa que se cruza um pouco com a minha ideia do sobrenatural, ou seja, vejo essa devoção como uma nova forma do panteão contemporâneo. 

 

Quando 2027 chegar

Seja quem for o próximo inquilino do Palácio do Planalto, a várzea a que se assistiu na sessão de terça-feira passada no STF terá sido apenas o prólogo de uma crise institucional que já está contratada para 2027. Não importa quem envergue a faixa presidencial, o próximo presidente terá de lidar com um choque de poderes ou com o desencadeamento de uma onda de protestos nas ruas, caso a vassoura do STF siga varrendo para debaixo do tapete favores que tisnam alguns de seus membros.

Na hipótese de Lula ser reeleito, é pouco provável que atue pela depuração da Corte, que deveria começar por Alexandre de Moraes, o mais encalacrado no escândalo do Master. Como se viu na terça-feira, Flávio Dino, ex-ministro da Justiça de Lula, é o líder do bloco da marmelada suprema, em jogral com Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula, e o hoje convertido antilavajatista Gilmar Mendes.

Com as blindagens na Corte, as atenções se voltarão para o Senado, o único com poder constitucional de destituir um membro do STF. Mas, para não deixar dúvidas sobre o acordão, o presidente Davi Alcolumbre, em nome da própria sobrevivência, acertou uma trégua com Lula em inacreditável jantar patrocinado por ninguém menos que Alexandre de Moraes. 

Se Alcolumbre for reconduzido em 1º de fevereiro, quando tomarão posse os senadores eleitos em outubro, os pedidos de impeachment de ministros do STF seguirão engavetados. Aí, como ocorreu nos afastamentos de Collor e Dilma, não será surpresa se eclodir nas ruas a indignação represada pela turma do abafa. É crise garantida.

Na hipótese de Flávio Bolsonaro ser eleito, diante de sua defesa do impeachment de Alexandre de Moraes, o choque deve começar antes mesmo da posse. Agarrado à tese da conspiração política - a única que lhe resta depois do flagra promíscuo com Daniel Vorcaro -, Moraes precisa seguir togado para não correr o risco de fazer companhia a quem mandou para a cadeia. 

Se continuar no cargo, Alexandre de Moraes deverá ser o próximo presidente do STF, com posse em setembro de 2027. Aí teríamos na Presidência da República um Flávio Bolsonaro, hoje investigado pelo apoio de Vorcaro ao filme Dark Horse, e na presidência do STF um ministro que se recusa a ser investigado, o que é uma contradição para quem jura inocência. A pororoca entre poderes e a crise são garantidas.

Há duas formas de o país ser pacificado, e o próximo presidente - seja quem for, mesmo uma improvável terceira via - poder governar com razoável tranquilidade. Seria a renúncia ou o afastamento pelo STF de pelo menos um ministro atrapalhado com o Master. Mas essa hipótese foi soterrada na terça-feira, quando metade da Corte decidiu arrastar o país para a crise de 2027. 

MARCELO RECH

Ministros, filhinhos de papai e esposas

A crise no Supremo Tribunal Federal subverteu o conceito de esposa-troféu, aquela mulher cuja principal função no relacionamento é servir como símbolo de status e atratividade física para o marido, geralmente mais velho e bem-sucedido financeiramente. Esposa-troféu de ministro do Supremo - ouro, prata e bronze - é advogada que consegue bons contratos por ser quem é. Viviane Barci de Moraes, até aqui troféu ouro, tinha um contrato de R$ 131 milhões com o Banco Master, valor que chocou advogados renomados pelo valor exorbitante - eram R$ 3,6 milhões por mês para atuar em órgãos de interesse de Daniel Vorcaro. Ninguém acredita que tenha sido seu notório saber jurídico a motivação de Vorcaro para contratar a esposa do ministro Alexandre de Moraes.

Roberta Rangel, agora ex-esposa de Dias Toffoli, também advogou para Vorcaro quando era associada ao escritório Warde Advogados. Relatório da Polícia Federal diz que a relação profissional remonta a dezembro de 2020. Roberta foi casada com Toffoli por 12 anos, mas o casal se desfez em 2025. Hoje separada do ministro Gilmar Mendes, a advogada Guiomar Feitosa foi procurada por Daniel Vorcaro em 2025. 

O banqueiro foi pessoalmente ao escritório Sérgio Bermudes, em Brasília, tentando contratar os serviços da banca da qual ela é sócia-dirigente, sem mencionar um processo específico. Guiomar desconfiou que ele só queria usá-la para se aproximar de Gilmar e a negociação não avançou. Parentes deveriam ser impedidos de advogar nos tribunais em que pais, mães, maridos ou esposas são juízes. Parece simples, mas quando a restrição foi discutida, não emplacou.

Herdeiros

No Judiciário, Vorcaro não investiu apenas nas esposas advogadas e nos maridos ministros, oferecendo mimos como noitadas de festa, bebida cara e charutos. Com seu faro de corruptor-geral da República, tratou de cortejar os "filhinhos de papai" - herdeiros de escritórios e de sobrenomes como Fux, Nunes Marques e Moraes. Os relatórios da Polícia Federal são reveladores desse método de cooptação, com contratos indiretos e tentativas de aproximação.

Aos 26 anos, recém-formado, Kevin Nunes Marques, filho do ministro Nunes Marques, virou um prodígio da advocacia, faturando mais do que muitos advogados de larga experiência. Essas relações familiares que abrem caminho explicam por que a ministra Cármen Lúcia se definiu como "uma velha avulsa". Sem marido e sem filhos, passou incólume pela lábia de Vorcaro, com quem dificilmente teria assunto em uma conversa de bar. Ou alguém consegue imaginar o banqueiro falando de Guimarães Rosa, Affonso Romano de Sant?Anna ou João Cabral de Melo Neto com a ministra? _

aliás

O ministro Gilmar Mendes se enquadra na definição do poeta José Hernádez, em La vuelta de Martín Fierro: "El diablo sabe por diablo, Pero más sabe por viejo". O decano recebeu Daniel Vorcaro a pedido de um ex-cunhado contratado pelo banqueiro e identificou nele um picareta engomadinho, tentando cooptá-lo para votar a favor dos seus interesses em uma ação milionária no STF. Gilmar disse que Vorcaro parecia mais um bicheiro do que um banqueiro.

Manuela convoca militância em meio à crise no Supremo

A candidata ao Senado pelo PSOL, Manuela D?Ávila, convocou uma manifestação contra a extrema direita e reuniu dezenas de militantes no Largo Zumbi dos Palmares, em Porto Alegre, na sexta-feira. Manuela estava acompanhada do ex-governador Olívio Dutra, de Henrique Fontana, seu suplente, e de Tamyres Filgueira, suplente de Paulo Pimenta (PT), que também concorre ao Senado. A mobilização ocorre dias depois de o Supremo Tribunal Federal protagonizar um dos piores episódios da crise que enfrenta. A preocupação da candidata recai principalmente sobre a decisão das eleições para o Legislativo.

- Não existe eleição ganha. Construiremos a nossa vitória - afirmou Manuela. _

Marchezan tentou derrubar emendas parlamentares

Quando a Câmara de Porto Alegre inventou as emendas impositivas ao orçamento, em agosto de 2019, o então prefeito Nelson Marchezan estrilou. A tentação rimava com corrupção. A emenda à Lei Orgânica, de autoria do então vereador Cássio Trogildo (do antigo PTB) foi aprovada e promulgada pela própria Câmara. Marchezan ainda tentou o caminho da Justiça, mas perdeu.

Com a prisão do vereador Giovane Byl e de outras três pessoas, o ex-prefeito relembra os alertas que fez à época. Agora uma pergunta que precisa ser respondida pela prefeitura: como é feita a fiscalização da aplicação do dinheiro das emendas? A mesma pergunta vale para o governo estadual. As emendas foram instituídas na Assembleia pelo governador Eduardo Leite e não há, até aqui, denúncias de corrupção. Mas, diante da operação do Ministério Público que constatou desvio de quase R$ 2 milhões na Câmara, será preciso redobrar a atenção com o destino do dinheiro. _

Juliana esconde Lula na campanha e incomoda PT

Em público, a relação entre Juliana Brizola e seus parceiros do PT vai de vento em popa. Nos bastidores, há um desconforto crescente com a invisibilidade do presidente Lula na campanha de Juliana e mesmo dos candidatos do PDT. O mais recente motivo de incômodo é a não utilização das imagens do comício em Porto Alegre, realizado há uma semana, com a presença de Lula.

As imagens têm sido exploradas apenas pelos candidatos da coligação ao Senado, Manuela D?Ávila (PSOL) e Paulo Pimenta (PT). Juliana passou toda a campanha dizendo que a aliança com o PT é a prova da sua capacidade de dialogar, mas sempre ressalta que, se for eleita, a condução do governo será dela. Em painéis e encontros com setores que têm divergências históricas com o PT, Juliana faz questão de dizer que a aliança é estratégica.

O PT também resistiu, porque boa parte dos seus filiados preferia ter Edegar Pretto como candidato. Por pressão de Lula, que queria um palanque único no Rio Grande do Sul, Pretto aceitou ser vice, mas líderes petistas reclamam que ele está sendo deixado de lado e, na propaganda eleitoral apareceu em apenas dois programas até aqui.

Durante o comício, entretanto, Edegar acabou sendo escanteado em determinados momentos até por Lula, que tratou de exaltar Manuela, Pimenta e Juliana.

Outra fonte de reclamação tem a ver com os candidatos a deputado estadual e federal do PDT que não associam seus nomes a Lula nem a Pimenta e Manuela, numa tentativa de conquistar votos de eleitores de Flávio Bolsonaro e dos candidatos da direita ao Senado. _

Leite confirma pagamento de 14o salário a professores

O contracheque dos professores e servidores de escolas que atingiram as metas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) virá mais gordo no dia 30 de setembro. O governador Eduardo Leite confirmou que vai pagar na próxima folha o bônus do Programa de Reconhecimento da Educação Gaúcha, o 14o salário, para professores e servidores de todas as escolas que atingiram as metas.

A medida contempla mais de 65 mil professores e servidores da rede estadual de ensino, com um montante total de aproximadamente R$ 235 milhões. _

POLÍTICA E PODER 

19 de Setembro de 2026
EM FOCO - Leticia Mendes -  Andressa Xavier - Rosane de Oliveira

EM FOCO

Operação do MP investiga fraude de R$ 2 milhões em projetos financiados por emendas parlamentares na área da saúde. Além do parlamentar da Câmara de Porto Alegre Giovane Byl, do Podemos, outras três pessoas foram presas

Vereador é preso sob suspeita de desvio de verba

Além dele, foram detidos o assessor da bancada do Podemos Evaristo Mutti e dois ex-dirigentes de uma entidade investigada, Lissauer Ferreira Dias e Alan Silva da Costa, que é advogado. Foram cumpridos também nove mandados de busca e apreensão na Capital e em Imbé, no Litoral Norte.

O grupo formado pelos investigados teria esquema para desviar recursos que deveriam ser destinados para executar projetos financiados por nove emendas impositivas na área da saúde. Conforme a apuração, o valor soma R$ 2 milhões.

No esquema, segundo o MP, a entidade identificada como Instituto de Estudos e Incentivo a Novas Tecnologias da Saúde, Políticas Sociais e Soluções Ambientais e Digitais (Inovatech RS) receberia os valores. As quantias eram inicialmente depositadas pelo Fundo Municipal de Saúde nas contas bancárias específicas de cada parceria.

Em seguida, os recursos seriam retirados dessas contas e transferidos para outra, de livre movimentação, do Inovatech RS. Conforme o MP, por não estar vinculada a um termo de fomento específico, essa conta bancária não era submetida ao mesmo controle. A investigação apontou que, a partir dessa conta central do Inovatech RS, os recursos seriam distribuídos a pessoas físicas e jurídicas relacionadas aos investigados.

O MP destaca que o Inovatech RS mudou de direção em maio, está atuando de forma regular e colabora com a investigação. Segundo o MP, quando foram solicitados extratos bancários das contas, o grupo teria feito empréstimos em nome da entidade para que parte dos recursos retornasse às contas fiscalizadas. O objetivo seria aparentar a aplicação regular das verbas públicas.

A operação é coordenada pela promotora de Justiça Roberta Brenner de Moraes, da 8ª Promotoria de Defesa do Patrimônio Público de Porto Alegre, com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e da Brigada Militar. Por envolver um advogado, a Ordem dos Advogados do Brasil acompanhou a operação.

O Podemos afirmou que "respeita a atuação das autoridades responsáveis pela investigação", mas disse entender "ser fundamental preservar o devido processo legal, o direito à ampla defesa e a presunção de inocência, não cabendo conclusões sobre responsabilidades enquanto a investigação estiver em andamento". A assessoria de Byl informou que ele "é inocente das acusações atribuídas". _

Atuação discreta no parlamento e influência na prefeitura

Fábio Schaffner

O vereador Giovane Byl (Podemos) é uma das principais apostas do partido para deputado estadual. Atualmente no segundo mandato, Giovane Luiz de Lima Junior foi o sexto mais votado para a Câmara de Vereadores em 2024, com 12.115 votos.

Com forte atuação em comunidades da periferia, ele praticamente quadruplicou a votação, já que em 2020 havia conquistado 3.440 votos pelo então PTB. Sua estreia na política ocorreu em 2016, quando concorreu a vereador pelo Solidariedade. Na ocasião, ficou de segundo suplente e chegou a assumir o mandato em curtos períodos.

Aos 37 anos, casado e com dois filhos, Byl nasceu no bairro Bom Jesus, na zona leste da Capital, e cresceu no bairro Mario Quintana, na Zona Norte, suas maiores bases eleitorais.

A infância em bairros violentos marcou sua trajetória. Skatista, Byl investiu no esporte como plataforma de inclusão social, à frente da ONG Seja Livre Skate. Cantor e compositor, também é ligado ao movimento hip hop. Giovane não possui formação de Ensino Superior, apenas concluiu o Ensino Médio. Influente na prefeitura, Byl controla a subprefeitura do bairro Bom Jesus, onde coordenou pessoalmente ações durante a pandemia e na enchente de 2024.

Na Câmara, é considerado um parlamentar discreto. Não participa dos debates mais intensos e raramente usa a tribuna. Entre os 54 projetos de lei propostos nos dois mandatos, a maioria dá nome a ruas e logradouros.

Alinhado à cúpula do Podemos, Byl é considerado herdeiro político do secretário de Governança de Porto Alegre, Cássio Trogildo. O gabinete de Byl, onde o Ministério Público cumpriu mandado de busca e apreensão nesta sexta-feira, pertencia anteriormente a Trogildo, de quem ele também herdou os cabos eleitorais e a estrutura partidária. Na atual campanha, recebeu até agora R$ 226 mil do Podemos para o financiamento da candidatura. 

19 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Vitor Netto

A ofensiva de Donald Trump para renomear territórios

Fumaça de churrasco é vista de longe

Em novembro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, completará dois anos à frente da Casa Branca. Neste ínterim, o republicano já rebatizou, com o próprio nome, diversos órgãos, departamentos, prédios e programas governamentais. Outro alvo do americano tem sido renomear espaços geográficos - o movimento mais recente envolve a proposta de trocar o nome do Estado do Novo México para "Nova América".

A medida, contudo, não é nova. Em janeiro de 2025, Trump assinou uma ordem executiva para que o governo dos EUA passasse a chamar o Golfo do México de "Golfo da América". Na justificativa, alegou razões de justiça, afirmando que o novo nome seria mais "bonito".

A mudança teve efeito prático apenas em território americano, sem adesão obrigatória de outros países. Aplicativos de navegação e GPS, como Google Maps e Apple Maps, passaram a exibir a nova denominação para usuários nos EUA.

Mais recentemente, em agosto de 2026, em meio a uma crise diplomática e tarifária com o Canadá, Trump assinou outro decreto estabelecendo que o Lago Ontário passe a se chamar "Lago América" nos EUA. A medida seguiu a mesma lógica restrita ao público interno: nos mapas e aplicativos americanos, o nome mudou; no Brasil, por exemplo, o local continuou aparecendo com a grafia dupla ou original.

Em setembro, Trump sugeriu renomear o Estreito de Ormuz para "Estreito de Trump". A declaração ocorreu no contexto do conflito entre Washington e Teerã, no qual os dois países disputam a navegação e a segurança da passagem estratégica pelo Oriente Médio.

Além do estreito, o presidente voltou a defender a alteração do Estado do Novo México para "Nova América" durante discurso no feriado do Dia do Trabalho (Labor Day), associando a ideia às tensões nas negociações comerciais com o México. Na ocasião, ele ainda sinalizou que pode mirar oceanos:

- Se você parar para pensar, já temos um golfo e temos um lago. Agora, tudo de que precisamos é de um oceano. Talvez tenhamos de mudar o nome do Atlântico e do Pacífico. Talvez nós os mudemos - declarou a jornalistas. _

Uma das tradições do gaúcho é o churrasco, e em setembro não seria diferente. Agora, pense nos 236 piquetes instalados no Acampamento Farroupilha em Porto Alegre: é natural que toda essa quantidade de carne sendo assada e consumida gerasse uma "nuvem" de fumaça que poderia ser vista ao longe.

Na imagem acima, vista de um edifício da Cidade Baixa, é possível observar a névoa formada em cima do evento. O odor de carne assada também pode ser sentido nas zonas centrais da cidade.

Mas você já parou para pensar em quanto churrasco é assado durante o mês no Acampamento Farroupilha, em Porto Alegre?

De acordo com a GAM3 Parks, responsável pela administração da concessão do Parque Harmonia, no Mercado Farroupilha - estabelecimento dentro do acampamento -, durante a semana (segunda a quinta-feira), são vendidos cerca de 700 quilos de costela por dia.

Aos fins de semana (sexta-feira, sábado e domingo), o número aumenta para 1,1 tonelada. O índice não considera outros cortes de carne bovina nem o que é levado de fora para o parque.

Somando outros itens de churrasco, como salsichão, linguiça, pão de alho e outros cortes de carne, o número durante a semana aumenta para 1,2 tonelada e, aos fins de semana, para 1,6 tonelada. Cacetinhos? O número varia de 2,5 mil a 3 mil por dia. _

Republicano já rebatizou, com o próprio nome, diversos órgãos, departamentos, prédios e programas

Centro integrado no Mario Quintana

PUCRS recebe líderes de 19 países

O espaço vai integrar três frentes hoje inexistentes ou insuficientes na região: saúde; um Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, com oficinas continuadas para crianças e adolescentes de seis a 17 anos; e um estudo científico que acompanhará por até 15 anos os indicadores de qualidade de vida e desenvolvimento socioeconômico da comunidade.

Serão 300 vagas distribuídas em 12 oficinas e workshops, entre elas contação de histórias, robótica e programação, judô, teatro, dança clássica, hip-hop, orientação vocacional e preparação para o mundo do trabalho, cidadania e direitos humanos.

A programação inclui ainda rodas de conversa sobre saúde mental, nutrição, sexualidade e cuidados parentais, com participação das famílias nas atividades de fortalecimento de vínculos. _

A PUCRS recebeu, nos últimos 10 dias, 64 lideranças maristas de 19 países. O evento, que se encerrou na sexta-feira, foi a etapa presencial da terceira edição do Programa de Formação de Liderança Servidora e Profética.

Realizada pelo Instituto Marista em parceria com a universidade, a formação reúne gestores de diferentes frentes de missão em duas semanas de atividades presenciais, após uma etapa online com 11 disciplinas.

Durante a imersão, que se iniciou no dia 8 de setembro, os participantes aprofundam os conhecimentos e conhecem diferentes realidades de atuação da Rede Marista nas áreas de educação, saúde e assistência social, além de participarem de atividades sobre gestão, espiritualidade e missão. 

INFORME ESPECIAL

terça-feira, 15 de setembro de 2026

 

Bolinhas pula-pula

Os pais criam obsessões com os filhos, e depois não sabem mais como parar. Pode ser com Kinder Ovo, figurinhas, bonecos de pelúcia, brindes do McDonald?s.

É uma coleção que surge de um agrado circunstancial e vira um vínculo permanente de afeto. Eu consumia parte do meu salário com bolinhas pula-pula para contentar os meus dois filhos.

Elas quicavam - cada uma de modo diferente - e saltavam para longe. Lembravam ginastas de roupas coloridas, com saltos ornamentais bem ousados. Chegavam ao telhado com um impulso forte.

Jogadas contra o chão, disparavam imprevisivelmente. Tanto que eu não permitia seu uso na rua, só em casa, para evitar que causassem acidentes, ou que fossem para o meio dos carros, ou que atingissem pessoas na calçada.

Minhas crianças gostavam do efeito, curiosas para descobrir o ponto mais alto que a bolinha alcançaria. Ela batia na parede, no teto, nas quinas das mesas.

Quanto menor e mais elástica, maior a impressão de que contava com vontade própria. Caçar o paradeiro de uma bolinha era a graça, pois ela desaparecia no fliperama dos móveis. As máquinas costumavam ficar na porta de padarias, lojas de conveniência, armazéns, supermercados, lanchonetes, farmácias.

Apresentavam uma vitrine abarrotada de bolinhas de borracha: lisas, transparentes, rajadas, multicoloridas, com desenhos geométricos, manchas e espirais. Algumas se assemelhavam a olhos, outras a bolas de vôlei, futebol, basquete.

Você enxergava todas e, naturalmente, queria uma específica. O problema é que não havia como escolher. Tudo dependia da sorte. Colocava-se a moeda na abertura e girava-se uma manopla metálica.

Ouvia-se o barulho seco das engrenagens e uma bolinha descia para a portinhola. Você enfiava a mão para retirar o presente aleatório. Os gastos começavam por esse impasse. Nunca vinha a bolinha desejada, cobiçada, naquele amor à primeira vista com um dos itens da redoma de vidro. E se repetia o processo para obtê-la.

Os pequenos namoravam logo a mais difícil, a mais vistosa, no topo do montinho, algo como uma circunferência marmorizada, que parecia conter uma galáxia por dentro, mas a geringonça disponibilizava a que estava no fundo, soterrada, anônima e secreta.

Minha niqueleira se esvaziava rapidamente. Eu jamais me detinha nos 50 centavos. Dediquei uma módica fortuna para a nossa vã insistência. Os irmãozinhos perdiam horas comparando as bolinhas, trocando, elegendo a preferida. Antes de dormir, guardavam os brinquedos num pote no quarto e sonhavam com peripécias dos seus planetas saltitantes.

Iniciei os meus filhos numa loteria infantil. Talvez sejam até hoje viciados no acaso, no suspense do incerto, na adrenalina do desconhecido, sem antever o prêmio, atentos para o que a vida oferece, gulosos por novidades.

No fim, quem colecionou a infância deles fui eu. 

CARPINEJAR

 

15 de Setembro de 2026
NÍLSON SOUZA

Visualização única

Zap para aquele ET que está chegando agora: o Corruptor-Geral da República está na cadeia e, desde a semana passada, o Brasil vem sendo passado a limpo com a exposição pública de mazelas praticadas por integrantes dos altos poderes da Nação e por outros agentes públicos e privados. 

Olhando-se para o copo meio vazio, pode-se dizer que nunca se viu tanta ganância, roubalheira e corrupção. Mas, com o copo meio cheio, pode-se fazer um brinde à transparência.

O aspecto animador dessa verdadeira orgia de imoralidades é que talvez não seja preciso destruir Sodoma e Gomorra para o país sair melhor desse lamaçal. Embora ainda estejamos no olho do furacão e muitas outras tempestades paralelas possam se formar, já se pode vislumbrar com alguma nitidez quem mente, quem tenta se esconder atrás de biombos erguidos em causa própria e quem não teme mostrar a cara.

Os malfeitores da República acabaram fazendo um bem para o país: sem querer, obviamente, reativaram um princípio Constitucional frequentemente negligenciado, pelo qual fica estabelecido que a regra é a publicidade; o sigilo, a exceção. Não sei quanto tempo vai durar isso, nem mesmo se o que ficou combinado na semana passada continua valendo nesta terça, dia D para a sessão de exorcismo do Supremo Tribunal Federal. 

Mas fiquei um pouco aliviado com a revelação dos mandos e desmandos apurados nas investigações da Polícia Federal. São subsídios valiosos para os cidadãos bem informados tomarem posição na hora de escolher seus representantes. E também para o país reavaliar sua governança e buscar novos mecanismos que limitem o excesso de poder.

Talvez essa exposição de feridas seja apenas um flash de visualização única, como as tais mensagens digitais que desaparecem depois de lidas, utilizadas prioritariamente por quem tem alguma coisa a esconder. 

Mas, pelo menos, possibilita que os brasileiros vejam os poderes e os poderosos sem o véu da hipocrisia com que costumam se apresentar, recurso, aliás, ainda utilizado fartamente nas atuais propagandas eleitorais em que os próprios partidos políticos usam voz acelerada para esconder sua identidade e, por consequência, seus verdadeiros propósitos. 

NÍLSON SOUZA

Fachin deve se manter firme

A sessão plenária extraordinária desta terça-feira do Supremo Tribunal Federal (STF) está destinada a marcar época. Os ministros da Corte decidirão como o 15 de setembro de 2026 será lembrado no futuro. Poderá ser a data guardada na memória como um ponto de inflexão, o início da reversão do processo de perda acelerada da confiança pública na instituição. Ou então o dia da maior desmoralização dos 135 anos de existência do Supremo, com consequências inimagináveis para a democracia do país.

Na bifurcação à frente do STF, o caminho da decência exige que o objetivo da sessão seja alcançado e que os ministros analisem o relatório da Polícia Federal (PF) sobre a troca de mensagens entre Alexandre de Moraes e o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. Esse exame deve levar à abertura de uma investigação formal para elucidar a natureza da relação de Moraes com o protagonista do maior escândalo financeiro já visto no Brasil. A trilha da infâmia é a que vem sendo traçada pelo próprio ministro e colegas que o apoiam, para avacalhar o julgamento com uma série de artimanhas regimentais que protelem uma decisão ou então varram as suspeitas graves para debaixo do tapete.

Diante deste momento de singular gravidade, os brasileiros cansados de imoralidades e desvios de comportamento impunes contam que o presidente do STF, Edson Fachin, se manterá firme no propósito de conduzir o plenário a uma decisão. Será preciso vencer a saraivada de manobras anunciadas para frustrar a sessão e torná-la fechada, sem transmissão ao público. Aguarda-se que a maioria dos ministros cerre fileiras na defesa da instituição, postura incompatível com o espírito de corpo. Há indícios mais do que suficientes para um inquérito que investigue Moraes, o que não significa condenação prévia. Isso demonstraria tão somente que a lei deve valer para todos. Parece pouco, mas hoje é muito.

A despeito de vacilações iniciais, Fachin mostrou compreender que a ocasião, pelo caráter histórico, requer determinação. Rechaçou a pressão para que a sessão fosse jogada para as calendas. Negou o exame da conduta do ministro André Mendonça no caso nesta terça-feira, evitando maior tumulto processual. Os atos de Mendonça serão devidamente escrutinados na próxima semana. Fachin assumiu a relatoria das investigações relacionadas ao Master e ao escândalo do INSS para minimizar o risco de uso político das apurações, retirou Moraes da condução do exorbitante inquérito das fake news e determinou o fim de uma série de sigilos.

Moraes se nega a dar satisfações sobre a proximidade com Vorcaro e sobre as suspeitas de que agia como conselheiro de um banqueiro investigado pela PF por fraudes e compra de apoio político. Se não explica, é elementar supor que a razão do vínculo nada tem de republicana. O contrato de R$ 131 milhões do Master com o escritório de advocacia de sua esposa fala por si.

A sessão de hoje tende a ser de máxima tensão. Vários ardis são cogitados pelos aliados de Moraes, como um pedido de vista que adie o resultado. Deveriam lembrar que o julgamento do tribunal da História é implacável.

Em meio à luta cruenta entre alas do STF, Fachin age com isenção e coragem. Tem recebido apoios de peso na sociedade brasileira para ir adiante neste início de processo de saneamento da Corte. A recuperação da credibilidade do Supremo passa pelo seu êxito nesta terça-feira. _

OPINIÃO RBS

15 de Setembro de 2026
Gabriel Jacobsen

REPORTAGEM

Série aborda os principais gargalos que o Rio Grande do Sul precisa enfrentar para avançar em diferentes áreas. Nesta terceira reportagem das oito previstas, especialistas apontam cinco pontos que merecem a atenção do eleitor em gestão fiscal e as soluções para fazer crescer a economia

Nova fase das contas estaduais amplia desafios para os próximos anos

O próximo governador ou governadora do Rio Grande do Sul, ao assumir o Palácio Piratini em janeiro de 2027, terá de lidar com um orçamento pressionado por compromissos obrigatórios e novos desafios fiscais.

Na lista, estão a previsão de contas no vermelho para 2027, a volta do pagamento da dívida bilionária com a União, o fim do dinheiro extra que foi obtido com as privatizações e um provável aumento nos gastos previdenciários.

O cenário dos próximos anos surge após um período de contas públicas no azul. Entre 2021 e 2025, foram cinco anos seguidos de superávits orçamentários - situação diferente da registrada entre 2015 e 2020, quando houve cinco resultados negativos em seis anos.

De outro lado, o Estado teve a seu favor medidas extraordinárias, como a ajuda bilionária do governo federal, recursos expressivos pela venda de estatais e a suspensão por longos períodos no pagamento da dívida com a União.

Esta é a terceira de uma série de oito reportagens do Grupo RBS sobre os principais desafios que o Estado precisa enfrentar para avançar nos próximos anos. Zero Hora selecionou, a partir de ouvidorias realizadas pelo Conselho Editorial da RBS e da consulta a fontes independentes, questões que merecem a atenção dos representantes do eleitor na área da gestão fiscal.

A reportagem apresenta um panorama atual e reúne soluções e caminhos apontados por especialistas. _

1| Renegociação da dívida

A realidade começará a mudar em maio, quando o Estado voltará a pagar a parcela mensal da dívida com a União - o que, no melhor cenário, custará R$ 2,1 bilhões no primeiro ano - entre pagamentos diretos, depósitos exigidos para um fundo federativo e a retomada da quitação de financiamentos relacionados.

Essa projeção considera, primeiro, que o Rio Grande do Sul deixe para trás o regime de recuperação fiscal (RRF), que se tornou um mau negócio logo depois de ser assinado, em 2021, pelo fato de ter vinculado a dívida gaúcha à taxa Selic - índice que subiu de 2% ao ano em 2021 para 10,75% ao ano em 2022.

A projeção de custo de R$ 2,1 bilhões na retomada do pagamento da dívida considera também que o Estado consiga aderir ao melhor dos oito pacotes do novo refinanciamento de dívidas oferecido pela União: o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag).

Entrada

Esse "pacote premium" do Propag, se conquistado pelo Estado, garantirá 0% de juros reais sobre a dívida gaúcha. Nesse cenário, a migração do RRF para o Propag tem potencial de fazer o Rio Grande do Sul economizar R$ 42 bilhões até o fim do pagamento da dívida, em 2057.

Para conseguir a adesão ao melhor pacote do Propag, o Estado terá de dar entrada (chamada de amortização) de R$ 21 bilhões. Como não tem esse dinheiro em caixa, o Piratini propôs entregar à União o direito a receitas futuras, ou seja, dinheiro que o Estado não tem, mas que deve receber nos próximos anos. Se não conseguir, o Estado precisará aderir a outro pacote do Propag, com mais custos até 2057.

Segundo especialistas, convencer a União a aceitar a proposta inicial e incluir o Estado no "pacote premium" exigirá habilidade política do futuro governador ou governadora.

- Tem de ser bem negociado agora. É uma dívida que teoricamente não deveria existir, talvez já tenha sido paga, mas não há como fugir: o Propag é algo absolutamente necessário para o governo do Estado - destaca Paulo Caliendo, professor de Direito Tributário da PUCRS. _

2| Déficit sem recursos extras

O cenário desafiador para 2027 está desenhado na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). O documento indica déficit orçamentário de R$ 4 bilhões, já considerando as obrigações associadas à adesão ao Propag.

Conforme analistas, se por um lado a previsão de falta de dinheiro não deve ser suficiente para que o Estado volte a atrasar os salários dos servidores, por outro, limitará a margem para investimentos.

- Um ponto positivo é que o Estado não tem mais o problema de não ter dinheiro para pagar a folha salarial, problema de ter de parcelar. Embora, às vezes, o governo tenha de contingenciar. E onde acontece o contingenciamento? Nos investimentos, principalmente nas obras - afirma o professor Diego Carlin, do Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais da UFRGS.

Na prática, quando o caixa aperta, o governo costuma cortar dos investimentos não obrigatórios, área em que a lei permite passar a tesoura - visto que em outros setores, como saúde e educação, há regras mais rígidas.

Carlin ressalta que o déficit estimado de R$ 4 bilhões é uma projeção, mas o resultado final também dependerá do comportamento da arrecadação.

- Tem um pressuposto de que o Estado só pode gastar o que arrecada. Então, dentro desse déficit, se a arrecadação não chegar no previsto, o Estado vai ter de contingenciar outras despesas - acrescenta Carlin.

Venda das estatais

O ciclo de venda de estatais nos últimos governos injetou cerca de R$ 8,7 bilhões extras no caixa do Estado, especialmente entre 2021 e 2023, dos quais ainda restam cerca de R$ 37 milhões (0,4%). Isso significa que esses recursos, que garantiram respiro nos últimos anos, já foram praticamente consumidos e não estarão disponíveis para quem assumir o Piratini em 2027.

A venda da Corsan, concluída em 2023, injetou R$ 4,1 bilhões no caixa, enquanto a venda das três operações da CEEE, concluída em 2022, rendeu em torno de R$ 3,7 bilhões de forma direta ao RS - além de o Estado ter se livrado de outros R$ 3,5 bilhões em passivos da empresa. Já a venda da Sulgás, em 2021, garantiu mais R$ 0,9 bilhão.

Esses recursos extraordinários vêm sendo usados desde então para, segundo a Secretaria Estadual da Fazenda (Sefaz), bancar principalmente investimentos em rodovias, no sistema prisional, em desenvolvimento urbano e na segurança pública. _

3| Redução da capacidade de investimento

Os últimos quatro anos no Estado tiveram índices de investimento muito acima da média dos anos anteriores. Com o fim dos recursos extras e diante dos novos desafios fiscais, a tendência é de queda da capacidade de execução de obras estruturais.

Entre 2022 e 2025, a taxa de investimento do Estado oscilou entre 4,4% e 10,7%. Esses percentuais recentes são superiores ao período entre 2015 e 2021 - com investimentos entre 2,3% e 4,6% ao ano. Esse indicador considera quanto da receita corrente líquida foi destinado para investimentos, a cada ano.

O próximo governo ainda terá a possibilidade de levar adiante o processo, hoje em fase inicial, de venda da Companhia Riograndense de Mineração (CRM). Outra possibilidade seria reativar o debate acerca da privatização do Banrisul. Contudo, até aqui, o dinheiro que o banco injeta anualmente, somado ao seu papel social, tem afastado a discussão da pauta. Somente no ano passado, foram cerca de R$ 324 milhões em aportes de juros sobre capital próprio e dividendos, de acordo com a Sefaz. 

4| Aumento do custo previdenciário

A reforma da aposentadoria dos servidores estaduais, aprovada em 2019, vem freando o crescimento do déficit previdenciário. Dados oficiais do governo mostram que o déficit chegou a R$ 12,5 bilhões em 2019 e, em 2025, caiu para R$ 10,1 bilhões. Significa que a reforma reduziu em mais de R$ 2 bilhões o rombo previdenciário do Estado.

Discussão no STF

Uma parte da reforma, contudo, pode ser invalidada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nos próximos meses. O tema foi questionado por servidores junto ao STF, que já formou maioria para considerar inconstitucional a contribuição extra daqueles que são aposentados na faixa acima de um salário mínimo.

Caso se confirme, ainda resta saber se a decisão valerá apenas para o futuro ou se vai retroagir - ou seja, se o Estado ainda terá de devolver a milhares de servidores os valores descontados nos últimos anos. Caso valha apenas para o futuro, aumentará o custo previdenciário. Se valer também para o passado, pode gerar uma nova dívida milionária, ampliando os precatórios. _

5| Precatórios e investimentos em saúde e educação

Os precatórios são dívidas consolidadas do Estado em decorrência de decisões judiciais. Desde 2019, o Estado pagou R$ 10,2 bilhões em precatórios. Somente nos últimos dois anos, foram desembolsados R$ 4,5 bilhões.

Desde 2023, esses pagamentos atingiram um patamar recorde, o que foi possível graças a empréstimos contraídos pelo Estado especificamente para este fim e a acordos com credores. Ainda assim, o total dessa dívida fechou 2025 na casa dos R$ 16,6 bilhões.

Uma proposta de emenda à Constituição aprovada em 2025 aliviou a pressão ao acabar com o cronograma de quitação total dos precatórios até 2029. Essa mesma PEC estabeleceu, contudo, um desembolso mínimo anual que Estados e municípios precisam fazer para quitar os débitos. Pelos critérios, o RS precisa destinar ao menos 1,5% da sua receita líquida para este fim.

Acordo com o MP

A legislação também exige investimentos mínimos em educação (25%) e saúde (12%). Após anos sem cumprir esses percentuais, o governo do Estado firmou, em 2025, um acordo com o Ministério Público, prevendo a ampliação gradual dos gastos nas áreas na próxima década. Até 2030, o governo estima, por exemplo, que terá de ser aplicado aporte extra de R$ 6,7 bilhões em saúde, com correção.

A principal fonte de dinheiro do governo gaúcho para sustentar os serviços diários, pagar os salários dos servidores e quitar em dia as suas dívidas é o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). A arrecadação desse imposto, contudo, tem sofrido baques nos últimos anos, seja por decisões estaduais e federais de redução, seja por fatores externos, como as enchentes e a pandemia.

"A evolução das receitas no tempo tem sido inferior a essa demanda de despesas, o que se refletiu nos últimos anos na baixa capacidade de investimentos pelo setor público em diferentes gestões", diz a Secretaria Estadual da Fazenda, em material técnico sobre a situação das contas no RS, solicitado por ZH.

Em 2026, a Assembleia Legislativa também decidiu acabar com a taxa de licenciamento de veículos, decisão que vai retirar dos cofres públicos gaúchos cerca de R$ 750 milhões por ano, a partir de 2027. _

Soluções incluem atrair empresas e articular por fundo constitucional

O melhor caminho diante do cenário desafiador, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem, passa especialmente pela diversificação e crescimento da economia gaúcha.

- Nós vamos ter de pensar o Estado olhando para o século 21, que exige muita inteligência, inclusive artificial, robotização e automatização, exige conhecimento e capital que o Rio Grande do Sul possui. Um ponto fundamental é a existência de uma rede de universidades, de capital intelectual, que faz frente praticamente a todos os Estados do Brasil - diz Paulo Caliendo, da PUCRS.

Os especialistas indicam que esse processo busca ampliar a capacidade de agregar valor ao que já se produz no Estado, ao mesmo tempo em que se desenvolvem novos setores econômicos. A vantagem, neste caso, não está apenas em atrair empresas, mas em transformar o conhecimento produzido no Estado em produtividade e novas atividades.

Adaptação à reforma

O próximo governador ou governadora também terá o desafio de adaptar a economia do Estado à reforma tributária - que começa a valer em 2027, em fase de transição, até ser totalmente implementada em 2033. Uma das mudanças impacta uma das formas mais tradicionais utilizadas pelos Estados para disputar empresas: a guerra fiscal, já que a cobrança passará do Estado de origem para o de destino.

Com isso, os Estados terão de competir por investimentos apresentando às empresas mão de obra qualificada, estrutura propícia para negócios, boa infraestrutura, segurança jurídica, oferta de energia, ambiente social e político favorável, entre outras qualidades.

Outra proposta que exigirá capacidade de negociação em Brasília é a criação do Fundo Constitucional das Regiões Sul e Sudeste, uma estratégia para atrair recursos extras ao Estado.

Pauta de diversos setores econômicos do Estado, a criação do fundo encontra eco em grupos que analisam as contas públicas gaúchas, como o Sindicato dos Auditores de Controle Externo do TCE (Ceape/Sindicato).

- Os Estados da federação que hoje mais crescem são amparados por um fundo constitucional que lhes apoia - diz Francisco Barcelos, diretor do Ceape. 

15 de Setembro de 2026
EM FOCO

EM FOCO

Em meio ao seu maior desafio institucional, o Supremo terá uma sessão extraordinária e inédita para avaliar a relação de Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, do Banco Master, que poderá resultar em autorização de abertura de investigação contra o ministro ou em nulidade do relatório da Polícia Federal sobre mensagens entre os dois. Pode haver pedido de vista

Crise no STF - Um julgamento sob pressão e incerto

Mathias Boni

Em meio a uma crise institucional sem precedentes, o Supremo Tribunal Federal (STF) terá, hoje, uma sessão extraordinária para analisar a relação do ministro Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro. A deliberação, no plenário, para decidir se o tribunal autoriza abertura de investigação contra um de seus ministros será um ato inédito na história da mais alta Corte do país.

No sábado, o presidente do STF, Edson Fachin, assumiu a relatoria da ação que apura detalhes das relações entre Moraes e Vorcaro. Fachin se tornou relator no lugar do ministro André Mendonça, também envolvido em apurações relacionadas ao Master e Vorcaro e que também será objeto de sessão extraordinária do STF para analisar sua conduta, no dia 23.

- O Supremo já passou por outras crises, teve ministros cassados durante a ditadura, por exemplo, mas nunca passou por um momento de crise institucional tão aguda, com um conflito tão direto entre ministros, como agora. E o tribunal, nunca antes em sua história, se reuniu para decidir se autoriza ou não a abertura de investigação de um dos membros da própria Corte - afirma o jurista Marcelo Schenk Duque, professor de Direito Constitucional da UFRGS.

Na sessão de hoje, explica Duque, os ministros irão deliberar a respeito do relatório da Polícia Federal (PF) sobre as supostas mensagens trocadas entre Moraes e Vorcaro. Os magistrados deverão decidir se aceitam o pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), que pede a nulidade do relatório, e também terão que determinar se autorizam ou não o início de investigação contra Moraes ou se arquivam o caso.

Mensagens

O relatório da PF expõe mensagens que sugerem que Moraes discutia com o banqueiro a possibilidade de a PF deflagrar a primeira fase da Operação Compliance Zero e como Vorcaro poderia frustrar o mandado de prisão preventiva, além de outras possíveis conexões do magistrado com o banqueiro, como o envolvimento do escritório Barci de Moraes, de Viviane Barci de Moraes, esposa de Moraes, com Vorcaro. O documento foi produzido a partir de uma investigação requisitada por Mendonça.

- Se o relatório for aceito, e se a investigação for mesmo autorizada, dependendo do que for aparecendo no curso dos trabalhos, é possível que algum ministro faça um pedido de afastamento de Moraes de suas atividades como ministro, mas, nesse momento, não acredito que ocorra. No STJ (Superior Tribunal de Justiça), tivemos recente perda de cargo, com a condenação do ministro Marco Buzzi por assédio e importunação sexual, mas no STF é situação completamente inédita - destaca a professora de Direito Constitucional da UFRJ Carolina Cyrillo.

Dessa forma, mesmo que a investigação seja autorizada, não significa que Moraes sofrerá punição imediata. Além disso, seriam necessárias outras etapas dentro de um rito previsto para se chegar a uma decisão definitiva.

- Se decidirem pela nulidade do relatório ou se arquivarem o caso, a investigação nem começa. Se decidirem pelo início da investigação, o que precisa de maioria simples, ainda teriam muitas etapas depois disso. Seria instaurado um inquérito policial, e, ao final do inquérito, a PGR teria de decidir se o conteúdo da investigação justificaria a abertura de ação penal contra Moraes, e só aí o ministro se tornaria réu. Caso se chegue até lá, no final dessa ação, é que o plenário do STF decidiria ou não pela condenação do ministro - ressalta Duque.

Rito

O STF anunciou ontem o rito da sessão. O início será às 10h, com transmissão ao vivo. Após a abertura protocolar dos trabalhos, será feita a leitura e a aprovação da ata da sessão anterior, seguida da saudação aos ministros.

Na sequência, será realizado o pregão do processo. Fachin fará a leitura do relatório e a delimitação do objeto do julgamento. Depois, a PGR se manifestará. Encerradas as manifestações, o relator apresentará seu voto. Em seguida, votarão os demais ministros, na ordem regimental.

Um pedido de vista dos autos poderá ser feito. Nesse caso, as deliberações seriam interrompidas e poderiam ficar suspensas por até 90 dias, segundo o regimento interno do STF. Logo, empurraria a discussão para após as eleições. _

Desde o fim de semana, uma série de pedidos dos ministros do STF foi feita com intuito de influenciar o julgamento de hoje

Sábado - Julgamento só de Moraes

Presidente da Corte, Edson Fachin decidiu que a sessão de hoje julgará apenas o caso de Alexandre de Moraes.

Na mesma decisão, Fachin determinou o envio à Presidência do Supremo de processos relacionados a duas das mais relevantes investigações atualmente em andamento no STF: os casos do Banco Master e das fraudes envolvendo descontos de aposentados e pensionistas do INSS.

A medida contrariou o pedido feito por Alexandre de Moraes, na sexta-feira, para que os dois assuntos fossem analisados conjuntamente.

Segundo Moraes, a separação poderia prejudicar a apreciação do conjunto dos fatos.

Sábado - Cópia dos dados do celular de Vorcaro

Fachin deu 24 horas para que a Polícia Federal (PF) prestasse informações sobre a custódia e o estado em que se encontra o material extraído do celular do banqueiro Daniel Vorcaro.

A decisão foi tomada após os ministros Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes solicitarem acesso à cópia integral dos dados extraídos do aparelho.

Sábado - Reforço da Procuradoria-GEral

A Procuradoria-Geral da República (PGR) reiterou o pedido para que todos os ministros do Supremo tenham acesso à íntegra dos dados extraídos do celular de Vorcaro antes da sessão marcada para hoje.

No documento, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirmou que o conhecimento prévio do material é necessário para que os ministros possam consolidar seu entendimento sobre o caso.

Sábado - Acesso integral a dados

Gilmar Mendes endossou pedido de Zanin para que todos os integrantes que participarão do julgamento envolvendo o Master tenham acesso ao conteúdo do celular de Vorcaro. Gilmar afirmou que uma cópia integral da mídia extraída do aparelho de Vorcaro foi fornecida ao gabinete de Mendonça, mas não aos demais ministros.

Domingo - Cobrança de Zanin

Zanin ordenou que a PF entregasse o conteúdo integral do celular de Vorcaro ao seu gabinete até as 23h.

Na determinação, Zanin argumenta que deseja "formar a sua convicção para estar apto" para o julgamento de hoje, o que só ocorreria, segundo ele, com o conhecimento do material que originou o relatório requisitado por Mendonça.

A PF entregou uma cópia na manhã de ontem.

Domingo - Reação de Mendonça

Mendonça afirmou que a inclusão, às vésperas da sessão da Corte que vai analisar a conduta de Moraes, de informações que ainda não constam dos autos, entre elas o conteúdo integral do celular de Vorcaro, pode "tumultuar o julgamento" e colocar em risco o andamento das investigações.

No despacho, sustenta que todo o material necessário para o julgamento já está disponível aos ministros que participarão da sessão.

Segundo Mendonça, a inclusão de novos elementos neste momento poderia provocar questionamentos e desviar o julgamento de seu objeto.

Domingo - Novo pedido de Moraes

Moraes solicitou a liberação de sigilo de mais um procedimento antes do julgamento. Desta vez, Moraes pediu a Fachin a derrubada do sigilo da Petição 15.645, distribuída a Mendonça, e a disponibilização do conteúdo a todos os ministros que participarão do julgamento.

Essa petição trataria sobre a rede de pagamentos do Master.

Domingo - Cobrança de Gilmar Mendes

Gilmar Mendes solicitou ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, que enviasse cópia dos dados do celular de Vorcaro à Corte. O magistrado reiterou pedido feito por Zanin. A PF enviou os dados ontem.

Segunda-feira - Procedimento invisível

A PGR se manifestou a favor da retirada do sigilo de mais um procedimento relacionado ao julgamento.

O vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateaubriand Filho, informou que a PGR nem sequer tinha conhecimento da existência da Petição 15.645, porque o procedimento não aparecia visível para o órgão no sistema do Supremo.

Segunda-feira - Retirada de sigilo

Fachin atendeu ao pedido de Moraes e determinou o levantamento do sigilo da Petição 15.645. Em seguida, Mendonça derrubou o sigilo dessa petição que trataria da rede de pagamentos do Master.

Fim de sigilo sobre rede de pagamento

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, endossou ontem o pedido de Alexandre de Moraes e determinou o fim do sigilo da investigação sobre a rede de pagamentos do Banco Master, contrariando a posição do ministro André Mendonça, que alega risco às investigações. Logo após a decisão, o processo ficou público no sistema do STF. Mais cedo, a Procuradoria-Geral da República (PGR) também se manifestou favorável à publicidade desse trecho da apuração, que envolve o banqueiro Daniel Vorcaro.

Em ofício enviado no domingo, Moraes afirmou que o acesso ao processo que envolve a rede de pagamentos do Master é fundamental para o julgamento. O vice-procurador- geral da República, Hindenburgo Chateaubriand Filho, reforçou em parecer divulgado ontem que o levantamento do sigilo é necessário para que os ministros tenham acesso a todos os elementos relevantes para o julgamento. 

Postagem em destaque

19/09/2026 - 05h30min Fabrício Carpinejar Cair sete vezes, levantar oito: o ouro que pode reconstruir o Sakae's Aquele endereço acompanh...

Postagens mais visitadas