sábado, 9 de janeiro de 2016



10 de janeiro de 2016 | N° 18410 
MARTHA MEDEIROS

Câmbio manual


Ler é bom, simplesmente. Não precisa servir para nada

No último livro que li em 2015, o personagem Pablo tomava as principais decisões da sua vida enquanto mudava as marchas do carro. Um detalhe, apenas um detalhe. A história do livro é outra e nada tem a ver com isso. Mas a competência do autor me fez enxergar nitidamente aquele Pablo que passava de primeira para segunda quando se animava com uma ideia delirante, e de segunda para terceira quando se sentia confiante de que aquele era mesmo o caminho que deveria seguir, e que voltava para a segunda marcha quando de repente uma dúvida reduzia seu entusiasmo.

Uma vida, quando bem vivida e bem pensada, nos obriga a essas alterações de força do motor. Uma ideia puxa outra ideia, encontra a estrada livre em frente, acelera, aí surgem os obstáculos, freamos, nos adequamos à baixa velocidade novamente, até que uma fresta se abre, decidimos avançar por ela, e engatamos a segunda, a terceira, a quarta, a quinta, sentindo o êxtase da conquista: o deslizar merecido depois de uma escolha que foi feita em um único segundo, administrando racionalização e audácia. Até que se chega a algum ponto morto, e tudo começa novamente.

Isso quando não somos forçados a dar ré. A gente se desencoraja, às vezes.

Eu, como muitos, dirijo um carro com câmbio automático e acho bem prático. Acomodo o câmbio no D de Drive e é só ir. Pouco esforço. O motor se adapta às circunstâncias, o carro decide qual a potência exigida, não precisa de mim.

Emoção nenhuma. Como um pensamento sem mudanças.

Para que serve ler? Aproveitando a deixa, poderia responder que é para lembrar que usar a cabeça é um exercício estimulante, que terceirizar nossas escolhas é preguiça, que estar no comando exige responsabilidade, que é preciso saber quando avançar e quando recuar, enfim, essas coisas que fazem da troca de marchas uma bela metáfora pra vida, mas não: ler é bom, simplesmente. Não precisa servir para nada.

O livro que citei na abertura dessa coluna, o último que li em 2015, foi o genial Aventuras Provisórias, de Cristóvão Tezza. E entrei em 2016 lendo Trapo, também de Cristóvão Tezza. E oxalá Cristóvão Tezza continue comigo nessa longa jornada pela frente, me inspirando, entretendo, ensinando, divertindo, comovendo ou, se for o caso, não servindo pra nada. 

A não ser, talvez, para me fazer sentir a plenitude de engatar a primeira e assumir os riscos desta viagem – um ano que começa é sempre uma nova estrada que se pega, e quero avaliar eu mesma de quanta força vou precisar e de quais emoções não pretendo abrir mão.

Meu carro é automático. Eu, não.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas