sábado, 1 de abril de 2017



01 de abril de 2017 | N° 18808 
CARPINEJAR

Porção para um ou para dois?

Um dos enigmas de minha vida é se o prato é para um ou para dois. Por mais que tenha amadurecido e frequentado restaurantes, ainda não desembaracei a questão e sou um eterno novato na caligrafia do cardápio. Sempre que conheço um lugar, erro a medida. Eu me apoio nas fotografias do menu, viro um analfabeto apenas lendo imagens e não chego a nenhuma conclusão.

Quando o garçom diz que é para um, sobra. Quando o garçom diz que é para dois, falta. Jamais acerto a quantidade de comida no prato. Ou me apresento avarento ou me descubro perdulário. Arranho a minha imagem diante da minha família.

No fim, qualquer que seja o resultado, a mulher me humilha com o seu sermão. Já aguardo o comentário com o cafezinho e a conta: – Podíamos ter pedido um só. (E sinto que não estou ajudando para combater o desperdício do mundo.)

Devíamos ter pedido mais. (E parece que sou um pão-duro.)

Certamente ela ensaiou a maldade com o garçom. Ou eu solicito demais ou solicito de menos, influenciado pela frase ambígua do atendente: é bem servido. Bem servido para quem? Para um rei momo ou para uma porta-bandeira?

Tento adivinhar como que o garçom me enxerga para enxergá-lo melhor, se devo aceitar a sua recomendação ou confiar em meu instinto, se ele acha que como muito ou pouco.

Pedir comida é jogar poker. E não há como desvendar se o garçom está blefando. Não sei qual a orientação que recebe. Não sei se ele me inspira à abastança para encorpar seu dez por cento ou que realmente pensa que a melhor propaganda é a honestidade. Procuro decodificar as suas sobrancelhas para verificar a veracidade do discurso, se é leal ou uma vontade de agradar ao seu chefe.

Porção para um ou para dois? Que trauma infindável, ser ou não ser Shakespeare.

Pior que o amor é igual. Quando começamos uma relação, no início mesmo, tateando às cegas, nunca definimos se a pessoa ama por um ou por dois, se está para o banquete ou para o lanchinho, se ela pretende construir um lar ou busca se divertir e manter a sua vida de solteira, se somos projeto sério ou distração, se somos candidato a moldura ou um rostinho colecionável do Tinder, se é caminho para a rodoviária ou conexão de aeroporto.

As confissões são controladas para não assustar nem decepcionar. Não dá para falar no primeiro encontro que deseja casar e ter filho, senão sobra comida. Assim como não dá para censurar os sonhos por completo, reduzindo o encontro ao sexo, senão falta comida. A generosidade com os desejos é malvista, assim como a mesquinhez.

Eu vou morrer sem entender se a porção é para um ou para dois, se o amor é para um ou para dois e como alguém acha bonita uma gravata-borboleta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas