sábado, 10 de fevereiro de 2018


10 DE FEVEREIRO DE 2018
CARPINEJAR

A prova dos nove do Carnaval



O Carnaval é uma síntese das nossas contradições. Há a obrigação de ser feliz que deixará muita gente triste. Há o escândalo da euforia que pode gerar a ressaca da melancolia. Há a cidade emprestada aos turistas, as ruas interditadas, os caminhos sem volta. Não tem como seguir com a rotina, e ser normal. As farmácias viram supermercados, os supermercados viram farmácias.

Nem adianta procurar a posteridade - ela morre durante o período. É o efêmero que manda, é o provisório que dá as ordens.

Não tente em vão se casar. Os amores foliões desaparecerão nos dias úteis. É preciso entender que as pessoas se apaixonam pelo anonimato, não desejam relações sérias. As paixões também são fantasias.

Não vigorará herança de qualquer entrega, alguma recompensa, prêmio ao final. O Facebook se transformará num cemitério de acenos. Seu WhatsApp terá números sem nomes. Não receberá nenhum e-mail na semana, a não ser spams.

Existe uma descontinuidade entre o que acontece antes e depois. Pois a seriedade morre.

Há uma única forma de comunicação: o riso, a gargalhada, o grito - pensar e conversar se convertem em operações incomunicáveis. Ou você se mistura ao esquecimento dos refrões, ao abre-alas dos apressados, ou se reduzirá a um chato da realidade. Ou você deixa as contas de lado que vencerão dia 14 e gasta sem piedade do futuro ou cada lata de cerveja doerá para descer pela garganta. Ninguém economiza no carnaval, ninguém se economiza no carnaval, é um atentado à solidão e ao bom senso. Os adoradores de música clássica dançarão funk, os funkeiros dançarão marchinhas.

Você faz amigos e não irá mais reconhecê-los. Você empreende loucuras e não saberá como contar o seu cotidiano em ordem cronológica. Você é capaz de ser um pato no chafariz da praça, ou um Pokémon na janela de um museu.

Conhecerá a igualdade do remorso, a democracia da irreverência. Liberará as suas censuras e ficará envergonhado dos excessos. Se uma foto vazar, perderá o emprego. Rezará para que não tenha sido filmado e identificado. Mas, ao mesmo tempo, gostaria de ser lembrado pelos disfarces.

Nada acontece conforme deseja. O bloco certo que será um sucesso será um fracasso. O que acha que será um fracasso será um sucesso.

Testará a sua capacidade de improviso: levará horas para se arrumar e de repente choverá e todos se assemelharão molhados. Perderá a chance de chamar atenção. A maquiagem terminará borrada e a produção desmanchada pelo barro. Restará reencontrar no fundo de si o contentamento de infância do banho de chuva e não se incomodar com a possibilidade de gripe e resfriado do mundo adulto.

Buscará a multidão para não se sentir sozinho, mas reclamará quando não conseguir nem espaço para sambar.

Tudo o que é planejado não perdura, o acaso se arma de serpentina, confetes e espuma para pichar a sua fachada controlada.

O Carnaval é para os fortes. Uma amostra de como a vida não nos pertence.

/fabriciocarpinejar - CARPINEJAR

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas