terça-feira, 29 de novembro de 2022


OBRAS PRIORITÁRIAS

A alternância no poder é prosaica nas democracias. Assim, é obrigação de todo novo governo priorizar obras paradas e atrasadas. Abandoná-las significa desperdício das escassas verbas públicas empregadas nestes empreendimentos e um desrespeito à sociedade da qual são extraídos esses recursos na forma de carga tributária. É salutar, portanto, que a futura gestão no governo federal privilegie o que está em andamento, na busca por finalizá-lo e fazer com que seus benefícios prometidos possam ser usufruídos pelos cidadãos.

A equipe de transição do futuro governo Lula planeja uma nova versão, mesmo que bem mais modesta, do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e no Rio Grande do Sul a precedência seria por entregar as duplicações das BRs 116, entre Guaíba e Pelotas, mais próxima do final, e da 290, entre Eldorado do Sul e Caçapava do Sul, em fase bem incipiente.

Diante das dificuldades orçamentárias, o ideal seria prioridade total para entregar a obra na BR-116. Trata-se, afinal, de uma construção iniciada há 10 anos. Deveria estar pronta em 2014, mas se arrasta até hoje pela carência de recursos e outros entraves. Como falta cerca de um terço do percurso para ser duplicado, a lógica indica que deveria ter a primazia na destinação de verbas. É preciso lembrar que a mais recente previsão indica conclusão em 2026. O adequado seria acelerar este cronograma.

A equipe de transição condiciona a ambição do novo PAC ao espaço fiscal a ser obtido na chamada PEC da Transição, explica reportagem de Fábio Schaffner publicada ontem em Zero Hora. Seja qual for essa folga para investimentos, uma grande incógnita até agora, o racional é concentrar os recursos em poucos projetos, que tenham a certeza de início e fim. As demandas, por certo, são muitas e em todo o país. Uma pulverização, ao contrário, amplia o risco de tornar ainda maior o cemitério de obras paradas ou que andam a passos de quelônios, como foi observado, por exemplo, sob o guarda-chuva do PAC, nos anos finais da última gestão do PT no Planalto.

Foi noticiado, na semana passada, que o núcleo de infraestrutura da transição pretende rediscutir os planos de concessões de rodovias federais no Rio Grande do Sul. Um dos projetos em análise seria exatamente o da BR-290. Não há nenhum problema na reavaliação em si, mas é preciso trabalhar em bases realistas se existir a intenção de tocar essa duplicação com recursos públicos. Não é possível esquecer que a ordem de serviço para o trecho em questão foi assinada em 2014, e desde então quase nada andou de fato por falta de dinheiro. Outro exemplo mais recente é a nova ponte sobre o Guaíba, que não conta com todas as alças de acesso prontas por escassez de verbas federais.

A infraestrutura deficiente é um dos gargalos da competitividade do país e do Estado. É preciso qualificá-la, o que também faz a economia girar. Mas deve-se ter cuidado com o voluntarismo. Mesmo os valores destinados à conservação das rodovias federais vêm caindo nos últimos anos. Pouco adianta se aventurar em novos projetos, mesmo que necessários, se a malha existente se deteriorar ainda mais. O cobertor orçamentário é e continuará curto. 

É inescapável encarar essa realidade. O sensato, portanto, é executar obras públicas com projetos consistentes e bom planejamento, evitando desperdícios e atrasos, e continuar a ter nas concessões outra frente relevante para melhorar a logística, em todos os modais. O novo governo federal deve considerar a iniciativa privada - detentora dos recursos indispensáveis para realizar os investimentos de que o Brasil precisa para ter uma infraestrutura à altura dos desafios do país - parceira nessa empreitada. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas