sábado, 11 de janeiro de 2025

10/01/2025 - 18h32min
Marta Sfredo

Galípolo aponta o dedo para o governo em carta aberta para explicar estouro da inflação

Presidente do BC disse que o câmbio foi um dos três motores da alta de preços, e que "a percepção sobre o cenário fiscal afetou o preço dos ativos"

Sergio LIMA / AFP

Galípolo afirmou que dólar subiu mais por fatores domésticos.

Sergio LIMA / AFP

Como o IPCA, índice oficial de inflação no Brasil, fechou 2024 acima do teto da meta, em 4,83%, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, foi obrigado a escrever uma carta aberta explicando os motivos e se comprometendo com medidas para evitar que volte a ocorrer.

Nas justificativas, Galípolo apontou três principais causas da inflação: o "ritmo forte de crescimento da atividade econômica", a depreciação cambial e fatores climáticos (leia a íntegra clicando aqui). Dois desses fatores têm forte peso das decisões do governo Lula: o aumento de gastos acelerou o crescimento e hesitações em cortes de gastos pressionaram o câmbio.

Na carta, Galípolo afirma que "a significativa depreciação cambial decorreu principalmente de fatores domésticos, complementada pela apreciação global do dólar norte-americano". Esse trecho acentua a responsabilidade do governo Lula sobre o estouro da meta de inflação.

Para não deixar dúvidas, Galípolo coloca o alvo no lugar: "A percepção dos agentes econômicos sobre o cenário fiscal afetou, de forma relevante, os preços de ativos e as expectativas dos agentes, especialmente o prêmio de risco, as expectativas de inflação e a taxa de câmbio".

Nas providências para que a inflação não volte a estourar, o presidente do BC reafirma a intenção de fazer mais duas elevações de um ponto percentual no juro básico. E confirma uma leitura do mercado: "Vários riscos se materializaram, tornando o cenário mais adverso, mas menos incerto, permitindo maior visibilidade para que o Comitê oferecesse uma indicação de como antevia as próximas decisões".

Também reiterando leituras do mercado, Galípolo projeta que "a inflação ficará acima do limite do intervalo de tolerância até o terceiro trimestre de 2025, entrando depois em trajetória de declínio, mas ainda permanecendo acima da meta".

Para esclarecer

A carta de explicações dos presidentes do Banco Central são dirigidas ao presidente do Conselho Monetário Nacional (CMN) porque é esse órgão que define a meta de inflação que o BC deve perseguir. Como quem ocupa esse cargo é o ministro da Fazenda, é o destinatário da carta, mas o documento é concebido como uma explicação à nação. Logo, Galípolo não dá explicações a Haddad, mas à população brasileira, que sofre o efeito da alta de preços.

Para lembrar

O sistema de meta de inflação foi adotado em 1999, depois da fracassada tentativa de controlar o câmbio. A meta de inflação do ano passado era de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo. Se não passasse de 4,5%, ficaria dentro do teto. Mas excedeu esse limite em 0,33 ponto percentual.

Neste ano, entra em vigor um novo formato de acompanhamento da inflação, a chamada "meta contínua", baseada nas melhores práticas internacionais. Em vez de cuidar apenas do fechamento do ano, a inflação em 12 meses é acompanhada a cada mês e avaliada de acordo com a meta e seu intervalo de tolerância.

Por outro lado, não tem prazo fixado para ser alcançada. O Conselho Monetário Nacional (CNM) não precisa mais definir a meta com dois anos de antecedência, como ocorreu até 2022. A mudança já foi adotada na maioria dos países que usam o regime de meta de inflação e o Brasil era considerado "atrasado" nesse avanço.

Estouros sucessivos

Nos últimos seis anos, só dois dentro da meta

2019 | 4,31%

2020 | 4,52%

2021 | 10,06%

2022 | 5,79%

2023 | 4,62%*

2024 | 4,83%

(*) na época, o teto era de 4,75%

Fonte: IBGE

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas