Quando 2027 chegar
Seja quem for o próximo inquilino do Palácio do Planalto, a várzea a que se assistiu na sessão de terça-feira passada no STF terá sido apenas o prólogo de uma crise institucional que já está contratada para 2027. Não importa quem envergue a faixa presidencial, o próximo presidente terá de lidar com um choque de poderes ou com o desencadeamento de uma onda de protestos nas ruas, caso a vassoura do STF siga varrendo para debaixo do tapete favores que tisnam alguns de seus membros.
Na hipótese de Lula ser reeleito, é pouco provável que atue pela depuração da Corte, que deveria começar por Alexandre de Moraes, o mais encalacrado no escândalo do Master. Como se viu na terça-feira, Flávio Dino, ex-ministro da Justiça de Lula, é o líder do bloco da marmelada suprema, em jogral com Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula, e o hoje convertido antilavajatista Gilmar Mendes.
Com as blindagens na Corte, as atenções se voltarão para o Senado, o único com poder constitucional de destituir um membro do STF. Mas, para não deixar dúvidas sobre o acordão, o presidente Davi Alcolumbre, em nome da própria sobrevivência, acertou uma trégua com Lula em inacreditável jantar patrocinado por ninguém menos que Alexandre de Moraes.
Se Alcolumbre for reconduzido em 1º de fevereiro, quando tomarão posse os senadores eleitos em outubro, os pedidos de impeachment de ministros do STF seguirão engavetados. Aí, como ocorreu nos afastamentos de Collor e Dilma, não será surpresa se eclodir nas ruas a indignação represada pela turma do abafa. É crise garantida.
Na hipótese de Flávio Bolsonaro ser eleito, diante de sua defesa do impeachment de Alexandre de Moraes, o choque deve começar antes mesmo da posse. Agarrado à tese da conspiração política - a única que lhe resta depois do flagra promíscuo com Daniel Vorcaro -, Moraes precisa seguir togado para não correr o risco de fazer companhia a quem mandou para a cadeia.
Se continuar no cargo, Alexandre de Moraes deverá ser o próximo presidente do STF, com posse em setembro de 2027. Aí teríamos na Presidência da República um Flávio Bolsonaro, hoje investigado pelo apoio de Vorcaro ao filme Dark Horse, e na presidência do STF um ministro que se recusa a ser investigado, o que é uma contradição para quem jura inocência. A pororoca entre poderes e a crise são garantidas.
Há duas formas de o país ser pacificado, e o próximo presidente - seja quem for, mesmo uma improvável terceira via - poder governar com razoável tranquilidade. Seria a renúncia ou o afastamento pelo STF de pelo menos um ministro atrapalhado com o Master. Mas essa hipótese foi soterrada na terça-feira, quando metade da Corte decidiu arrastar o país para a crise de 2027.

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