sábado, 31 de outubro de 2015


01 de novembro de 2015 | N° 18342 
MOISÉS MENDES

A normalidade brasileira


Luís Cláudio Lula da Silva sai da festa de 70 anos do pai, na quarta-feira, em São Paulo, e vai para o apartamento onde mora. Logo depois, por volta das 23h, emissários da Polícia Federal batem na porta e o intimam a depor por suspeita de envolvimento em ações de lobistas do setor automobilístico junto ao governo. Os agentes da lei foram brindados por uma casualidade – o aniversário de Lula e a intimidação de um filho dele, pouco antes da meia-noite. 

Mais uma hora e a coincidência estaria desperdiçada. Se Luís Cláudio escapar, Lula já avisou: tem mais três filhos e sete netos que ainda não foram investigados. Um deles será pego. Homens da lei devem saber o que fazem com suas ações noturnas. A normalidade dispensa o sol e a claridade.

Eduardo Cunha manobra, à direita e à esquerda, para sobreviver. Não se ouve, vindo da universidade, o mais tênue jogral de vozes contra Cunha, seus cúmplices golpistas e o que ele representa para a degradação do parlamento, da política e da democracia. Nem vozes desafinadas são ouvidas. As vozes fortes, legalistas, que enfrentaram golpistas, sob todos os riscos, nos anos 60 e 70, calaram-se na academia no Brasil. Não têm força nem para enfrentar um Eduardo Cunha. A universidade descobriu o conforto da abstinência de posições. Não incomodem a universidade brasileira, não tentem tirá-la da normalidade.

O Congresso exerce com crueldade seu poder de destruição, com a pauta-bomba comandada por Eduardo Cunha, Caiado, Aécio e Zé ?Agripino. E o empresariado brasileiro faz seminários para debater novos mercados na Indonésia. A oposição pulveriza o ajuste, cria despesas e faz força para quebrar o país ainda neste ano. E o empresariado faz eventos sobre como vencer na crise que não é dele, é dos outros. 

Em um encontro recente de dirigentes de empresas de ponta do país, alguns fizeram apelos para que a elite econômica reaja. Bradaram em discursos: vamos nos unir, pressionar o Congresso e parar de nos queixar. Foi na semana passada. Nada aconteceu. O ministro Joaquim Levy é o aliado largado na sarjeta. Assim caminha a resignada normalidade da elite empresarial do país.

Manchetes de quinta-feira: Bradesco fecha o terceiro trimestre com lucro líquido contábil de R$ 4,1 bilhões, 6,1% acima da cifra do mesmo período de 2014. Nos primeiros nove meses do ano, o lucro líquido chegou a R$ 13,3 bilhões, 18,6% acima do mesmo período do ano passado. Não se sabe qual foi o lucro gasoso. Mas o Bradesco e outros bancos estão preocupados com a inadimplência. Um executivo admitiu que o lucro sobe, enquanto cresce o atraso nos pagamentos, porque o mercado passa por “uma breve situação de estresse”. 

O Nobel de Economia Joseph Stiglitz já afirmou que o Brasil é um país tão estranho, que o setor produtivo se apaixona pelos bancos, a ponto de achar que os ganhos absurdos deles também acabam sendo seus. Os lucros dos bancos no Brasil explodem enquanto a economia encolhe porque são uma das mais antigas normalidades do nosso capitalismo.

Carlos Alberto Brilhante Ustra, o mais famoso torturador da ditadura, recebe homenagens póstumas de colegas militares. Nem a tortura impõe limites à nossa normalidade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas