sábado, 2 de fevereiro de 2019



02 DE FEVEREIRO DE 2019
LEANDRO KARNAL

O DESTINO AO NASCER

Li o livro de Lázaro Ramos há quase dois anos: Na Minha Pele (editora Objetiva). Com razão, a obra figura entre as mais vendidas do Brasil. Bem escrita e com uma história pungente, a narrativa biográfica prende do início ao fim. Comentei com ele a dúvida que tive ao final da leitura. Lázaro nasceu pobre na ilha do Paty, na Baía de Todos os Santos. 

O pedaço de terra isolado do continente era destituído de eletricidade, e as memórias giram em torno das quatro famílias, seus roçados, de dona Célia e seu Ivan, pais do artista. Apesar de Lázaro ter descrito passo a passo suas origens, sua luta em Salvador e, depois, em outras cidades, ficou a dúvida: Afinal, se você nasceu pobre e negro, ser hoje um dos mais respeitados atores do país é sinal de que o esforço é o caminho e quem deseja pode vencer? O caminho estaria aberto?. 

A pergunta é vasta e a resposta, complexa. Lázaro Ramos seria a prova de que o Liberalismo Clássico e sua ênfase na meritocracia estariam corretos? Cheguei a sugerir a ele que fizéssemos um livro sobre o tema. O próprio autor tem cuidado ao falar da sua trajetória, evitando dizer que o filho da cozinheira abriu um caminho acessível a qualquer um, bastando trabalho duro. Seria a brilhante exceção do marido de Taís Araújo a prova de que não é possível para todos?

Na contramão do Liberalismo, grande parte do pensamento de esquerda fala de caminhos interditados para a maioria, especialmente negros e negras pobres. Só com o auxílio de políticas públicas (cotas, por exemplo) poderíamos eliminar o fosso intransponível que marca nossa desigualdade econômica.

Lembro-me de uma piada de internet com toque mais à esquerda e menos meritocrática. O patrão apresenta aos funcionários um novo e reluzente carro importado. Diante da admiração dos subordinados, comenta que, se eles se esforçarem muito, se trabalharem duro, se atingirem metas e dobrarem metas, se perseguirem o estipulado como cenoura dourada a açular o esforço, no ano seguinte, ele, patrão... terá outro carro. Com esse final, a piada é de esquerda. Se terminasse dizendo que, se você se esforçar muito e buscar sua alma empreendedora, você terá um igual, daríamos uma guinada em direção a outro pensamento, mais ao estilo do livro/filme À Procura da Felicidade (2006, dirigido por Gabriele Muccino, com Will Smith no papel principal). Piadas e filmes, como tudo, são ideológicos.

Todo o debate gira em torno disso. É possível o sucesso apenas com o preço do esforço? Vamos ampliar o tema. Terminei o texto de Djamila Ribeiro: Quem Tem Medo do Feminismo Negro? (Cia. das Letras). Ela trata a questão de forma muito direta. O mundo brasileiro é racista ao extremo e, com as mulheres negras, é duplamente cruel. As portas estão fechadas e somente o "marco civilizatório" (expressão do livro) do feminismo negro poderia resgatar pessoas da prisão pétrea das estruturas sociais vigentes. Djamila analisa os modelos estéticos dominantes, as ausências de negros, a tolerância passiva com o racismo declarado, a violência cotidiana e a constituição, segundo o conceito de Grada Kilomba, da mulher negra como o "outro do outro", por ser "essa dupla antítese de branquitude e masculinidade".

Acredito no esforço. Acordo todos os dias às quatro da manhã. Trabalho aos sábados e domingos. Estudo e escrevo no meio de feriados. Fiz grandes sacrifícios pessoais para conseguir o que tenho. Porém, reconheci a outra amiga, Alexandra Baldeh Loras, que me considerava um "nascido salvo". Qual o significado de estar salvo ao nascer? Com pai político, professor, advogado e, acima de tudo, branco, a minha maratona da vida começou com 20 quilômetros de vantagem sobre outros competidores. Aos nove anos, tive minha primeira lição de francês e latim com meu pai. Tive família estruturada e proteína abundante na infância, estímulos de viagens e biblioteca em casa. Eu me esforcei? Muito, demais, em níveis quase inimagináveis para a média das pessoas. Mas, reconheço, eu nasci salvo. Nunca um segurança me acompanhou em uma loja com olhar desconfiado. Meus olhos claros gritavam slogans em silêncio. Eu me esforcei e corri muito, mas minha maratona não começou onde as mulheres negras da periferia analisadas por Djamila Ribeiro deram a largada.

Mas volto à questão. Uma mulher negra como a autora, nascida em Santos, fez excelente faculdade, fala línguas, fez mestrado e escreve com maestria. O que a levou até "lá" que estaria vedado a outras em situação similar? Aqui apenas minha percepção do caminho para responder a essa questão: em vez de consultar seu grupo de WhatsApp sobre feminismo negro, leia o livro indicado e forme sua própria opinião. Saia da zona de conforto, ignore o senso comum que permeia nossas conversas e dialogue com uma voz que, bem provavelmente, não está no seu grupo.

Permita-se pensar, mesmo que você não venha a mudar de ideia. As respostas são muito complexas e ajudam muito a buscar novas lentes. Lendo e conversando com Djamila, mudei muitos conceitos. As perguntas complexas são: quanto podemos mudar a partir do ponto de partida do meio de nascimento? A meritocracia é um bom princípio ou um disfarce ideológico para mascarar um jogo de cartas marcadas? Como funciona o racismo no Brasil? O que mudou entre Lima Barreto e Djamila? Permita-se pensar. Não tenho respostas para todas as questões. Tenho vontade de criar pontes de ideias e ações.

É preciso ter esperança.

LEANDRO KARNAL

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas