Canetas emagrecedoras e a eficácia da pílula
Injeções se tornaram populares para tratamento da obesidade, mas trazem efeitos colaterais
Camila Bengo
O anúncio da gravidez da ex-BBB Laís Caldas, na semana passada, acendeu um alerta entre mulheres que fazem uso de canetas emagrecedoras. Ao contar que engravidou enquanto realizava tratamento com Mounjaro, mesmo tomando anticoncepcional oral, a influenciadora trouxe à tona uma possível interação medicamentosa que vem gerando preocupação entre usuárias: a redução do efeito dos anticoncepcionais causada pelas injeções emagrecedoras.
A ginecologista Ana Selma Picoloto, professora da Faculdade de Medicina da UFRGS, explica que a interferência é real. Contudo, segundo ela, o impacto clinicamente mais relevante é observado com a tirzepatida, substância encontrada no Mounjaro.
- Embora não existam estudos que mostrem estatisticamente um aumento nas taxas de gestação, uma vez que o medicamento é novo, há evidências de que o Mounjaro reduz a absorção da pílula - afirma a médica.
De acordo com a ginecologista, os estudos disponíveis mostram que outros agonistas do hormônio GLP-1, a exemplo da semaglutida presente no Ozempic, no Wegovy e no Rybelsus, não interferem da mesma forma que o Mounjaro nos anticoncepcionais orais. Embora também retardem o esvaziamento gástrico, o impacto na absorção dos contraceptivos é menor.
Em nota, o laboratório Novo Nordisk, responsável pelo Ozempic, o Wegovy e o Rybelsus, afirmou que a semaglutida, substância base dos medicamentos, "conta com mais de uma década de pesquisa e dados de mais de 50 mil pacientes acompanhados, o que reforça seu robusto perfil de eficácia e segurança". Conforme o laboratório, mulheres em tratamento com semaglutida podem manter o uso de contraceptivos hormonais orais.
Prevenção
Entretanto, a Dra. Ana Selma Picoloto alerta que o contraceptivo oral deve ser sempre acompanhado por um método de barreira, como a camisinha. Isso porque as canetas emagrecedoras, mesmo aquelas que têm a semaglutida como princípio, costumam causar efeitos adversos como vômitos e diarreia, que podem levar à eliminação da pílula antes de sua completa absorção.
A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) orienta que mulheres em uso de Mounjaro não confiem apenas no anticoncepcional oral.
A recomendação preferencial é trocar o contraceptivo por um método que não dependa da absorção pelo estômago. Caso a substituição não seja possível, a pílula deve ser mantida com uso perfeito - todos os dias, no mesmo horário - e o uso de camisinha passa a ser obrigatório.
Entre as alternativas de contracepção consideradas mais seguras para quem utiliza Mounjaro estão: dispositivo intrauterino (DIU) hormonal ou de cobre, implante subdérmico (Implanon), anticoncepcionais injetáveis e adesivos ou anel vaginal.
- Esses métodos não passam pelo trato gastrointestinal, então, não sofrem interferência da medicação - explica a ginecologista Ana Selma.
A médica salienta que, para quem optar por métodos de longa duração, como o DIU e o Implanon, o preservativo deixa de ser necessário para evitar a gravidez, mas continua indispensável para a prevenção de infecções sexualmente transmissíveis.
"Bebês Mounjaro"
As canetas devem ser suspensas quando há intenção de engravidar, segundo orienta a ginecologista. É preciso interromper o tratamento pelo menos dois meses antes de iniciar o processo de tentativas, para que haja eliminação completa do medicamento. A recomendação vale tanto para a tirzepatida quanto para a semaglutida.
Quando ocorre uma gravidez durante o tratamento com as injeções, a recomendação é de suspensão imediata. As gestações associadas ao uso das canetas emagrecedoras, que ficaram conhecidas como "bebês Moun- jaro", ainda estão envoltas em dúvidas, uma vez que dados sobre possíveis riscos dos emagrecedores ao feto ainda são limitados.
- Não temos estudos conclusivos sobre segurança fetal. Por isso, a recomendação é que essas medicações jamais sejam usadas por gestantes, lactantes ou mulheres que estejam tentando engravidar - alerta Ana Selma, frisando a importância de o tratamento com as canetas ser realizado com acompanhamento especializado.
- É fundamental o trabalho conjunto entre o endocrinologista, que vai avaliar a necessidade da caneta e prescrevê-la quando for preciso, e do ginecologista, que orientará sobre o método contraceptivo mais adequado para cada paciente. Não é somente sobre emagrecimento, mas sobre planejamento reprodutivo e segurança - conclui. _
Entendendo o impacto
O medicamento retarda o esvaziamento gástrico, fazendo com que os alimentos ingeridos permaneçam mais tempo no estômago e demorem a chegar ao intestino - o que prolonga a saciedade e leva à diminuição da ingestão calórica, promovendo o emagrecimento.
Ocorre que, além da comida, medicamentos ingeridos por via oral também acabam retidos por mais tempo no estômago. Assim, os hormônios da pílula demoram mais para chegar ao intestino e podem não ser totalmente absorvidos, o que diminui o efeito do contraceptivo.
- Essa redução na absorção do anticoncepcional pode tornar a quantidade de hormônio insuficiente para garantir a contracepção desejada, podendo ocorrer uma gestação - explica a ginecologista Ana Selma Picoloto.
Em linhas gerais, é como se o percentual clássico de eficácia dos anticoncepcionais orais, de cerca de 99,7% com uso perfeito, fosse reduzido para uma proporção menor. Conforme a médica, a questão não está relacionada à composição da pílula escolhida, mas ao modo como ela é administrada, por via oral.
- Como o mecanismo do Mounjaro é o retardo do esvaziamento do estômago, qualquer medicamento tomado por via oral pode ter sua eficácia comprometida - diz.
Segundo a médica, o alerta é especialmente importante em dois momentos: nas primeiras quatro semanas de uso da caneta emagrecedora, quando a ação tende a ser maior; e na semana que sucede cada aumento de dose, o que também intensifica o efeito da injeção.