sábado, 3 de janeiro de 2026


03 de Janeiro de 2026
MARTHA MEDEIROS

Tão simples e fácil: a paz

Foi numa dessas tardes escaldantes do último dezembro, quando o asfalto parecia soltar fumaça e a cabeça dos motoristas também. Os carros se amontoavam na larga avenida de três pistas conduzindo pessoas atrasadas para uma consulta, ou furiosas por ter gastado uma fortuna em presentes, ou angustiadas pela ausência de uma resposta. 

Eu, que também estava ao volante, seguia o fluxo, quando vi uma pequena van de uma empresa de serviços fazer uma manobra perigosa. Trocou de pista de uma hora pra outra, sem sinalizar, numa guinada tão violenta que fez o veículo rebolar: por um triz não colheu um motoqueiro, e antes que alguém pense "ah, só podia ter moto nesta história", aviso que o moço vinha devagar, na dele, sem costurar entre os carros - um milagre em extinção.

Assisti de camarote ao quase homicídio doloso. Minha mãe, que estava ao meu lado, no banco do carona, também viu tudo, e demos início a uma instantânea sessão de tribunal: que motorista estúpido, como é que deram carteira para esse animal, quase matou o motoboy, e depois de mais duas ou três frases acusatórias, decidimos que o réu deveria ir para a cadeira elétrica.

Pois bem.

Enquanto o carro infrator seguia em frente, o motoqueiro, atrás dele, ergueu um dos braços como quem diz "qual é?", na esperança de ser avistado pelo retrovisor. O motorista o avistou. E freou, diminuindo bruscamente a velocidade. Eu, dirigindo atrás de ambos, me preparei para a rajada de balas. Todos os outros carros em volta passaram zunindo e desapareceram, restou o carro infrator rodando devagar na pista da direita, o motoqueiro atrás dele, devagar também, e eu e minha mãe atrás de ambos, mudas de medo, mas sem perder um segundo da cena.

Então o motorista da van abriu a janela e colocou o braço para fora. Não fez nenhum gesto agressivo, não socou o ar, apenas espalmou a mão para cima, como se tivesse sido rendido. E aí fez sinal para o motoqueiro alinhar com ele. Eu já estava em lágrimas, minha mãe ainda achava que podia ser blefe. Mas aconteceu: ambos, lado a lado, a 20km por hora, trocaram palavras, e eu não pude fazer a leitura labial, claro, mas entendi tudo. O gran finale: ainda em movimento, cada um em seu veículo, os dois se deram as mãos, em um cumprimento de brothers, e bem poderiam ter causado um acidente ali, mas foi rápido o suficiente para selar a paz e a vida seguir seu curso.

Não teve dedo médio apontado para cima, ninguém mandou ninguém para lugar nenhum, e se alguém estava armado, era de juízo e boa vontade. Um simples pedido de desculpas e as desculpas aceitas, e o trânsito voltou a fluir, minhas pernas pararam de tremer e a humanidade, que eu já dava como morta, também foi salva por um triz. 

MARTHA MEDEIROS

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