sábado, 16 de maio de 2026

Região das Missões recebe R$ 50 milhões para transformar o turismo

A aposta é nos 400 anos para ampliar visitações e movimentar economia regional

A aposta é nos 400 anos para ampliar visitações e movimentar economia regional

LÍVIA ARAUJO/ESPECIAL/JC

Carmen Carlet
Especial para o JC
Os 400 anos das Missões, comemorados neste ano, chegaram precedidos por um pacote de investimentos que pretende mudar o panorama local. São mais de R$ 50 milhões - R$ 46,7 milhões do Estado e R$ 3,7 milhões de contrapartida dos municípios -  direcionados para obras de infraestrutura, qualificação de espaços históricos e criação de novos pontos de visitação. A região que reúne 26 municípios no Noroeste do Estado, com ligação com Argentina e Paraguai, está distante 480 quilômetros de Porto Alegre e deve entrar, agora, no circuito turístico do Rio Grande do Sul.
Os recursos estão concentrados em 16 projetos, com ações que incluem centros de interpretação histórica, parques temáticos, requalificação das áreas urbanas e obras viárias. Entre elas, estão a pavimentação no entorno do Sítio Arqueológico de São Miguel das Missões, a melhoria das vias que conectam outros sítios missioneiros e intervenções no aeroporto regional de Santo Ângelo. Também está prevista a criação de novas áreas de visitação e da implantação de um espaço produtivo na aldeia Guarani, voltado ao artesanato.
O Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo segue como principal ponto de visitação, com fluxo anual entre 60 mil e 80 mil visitantes. Considerando outros municípios, o número se aproxima de 100 mil por ano. Mesmo com toda a carga de concentração histórica, o visitante ainda permanece pouco tempo. Ele chega, percorre os principais pontos e sai.
A diferença aparece nos feriados e em eventos, quando os hotéis operam no limite, restaurantes ampliam atendimento e o comércio vende mais. Fora dessas datas, o ritmo desacelera. A permanência média de dois dias reduz a circulação entre os municípios e limita o impacto. Diante dessa realidade, a estrutura não está preparada para uma grande demanda.
O número de leitos é restrito, os serviços seguem concentrados e a expansão depende da iniciativa privada, que avança devagar. Com o foco no quadricentenário, a expectativa é de incremento no número de visitantes, o que vai levar a maior pressão sobre a capacidade instalada. Como resposta, a curto prazo, os recursos direcionados podem colocar a região em outro patamar de operação capaz de sustentar o movimento ao longo do ano.

Aumento de visitantes desafia cidades missioneiras

Os dados da Secretaria de Turismo de São Miguel das Missões mostram um aumento no fluxo de visitantes em 2026, impulsionado pela programação dos 400 anos. Em 2024, o Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo registrou 64,2 mil visitantes. No primeiro trimestre deste ano, o crescimento chega a cerca de 20%, com reflexo direto na presença de público na cidade.
A variação fica mais evidente nos eventos de maior porte. O Festival Internacional de Balonismo reuniu mais de 32 mil pessoas em quatro dias. No Réveillon, o público passou de nove mil para mais de 15 mil participantes. A encenação da Paixão de Cristo levou cerca de seis mil pessoas em uma única noite. Em períodos como esses, a cidade opera no limite da sua capacidade.
 
Mais turistas elevam demanda por hotéis, gastronomia e mobilidade nos municípios missioneiros | Lauro Alves/Arquivo Palácio Piratini/JC
Mais turistas elevam demanda por hotéis, gastronomia e mobilidade nos municípios missioneirosLauro Alves/Arquivo Palácio Piratini/JC
O número de leitos formais chega a 347, conforme levantamento da Secretaria de Turismo, sem incluir hospedagens informais. A diferença entre o volume de visitantes e a capacidade instalada se torna mais visível nos momentos de maior demanda. "A ampliação da capacidade depende do avanço da iniciativa privada, especialmente em hotelaria e serviços", afirma a secretária de Turismo, Rozana Fassini.
No setor produtivo, o impacto aparece de forma imediata. Para o presidente da Associação Comercial, Industrial, Cultural e de Empreendedorismo das Missões (Aci Missões), Mário Oliveira da Silva, os períodos de maior movimento já alteraram o ritmo da economia local. "Com a programação dos 400 anos, muita gente voltou a visitar a região e trouxe novos visitantes. Em eventos, a ocupação é total e toda a cadeia acaba sendo impactada", afirma. O efeito se estende para além da hospedagem e alcança comércio, alimentação e serviços.
Esculturas centenárias das Missões seguem como símbolo do patrimônio histórico | LÍVIA ARAUJO/ESPECIAL/JC
Esculturas centenárias das Missões seguem como símbolo do patrimônio históricoLÍVIA ARAUJO/ESPECIAL/JC
Como essa intensidade não se mantém fora das datas de maior atração, da Silva explica que os momentos de menor atividade limitam a continuidade do consumo e dificultam a organização de ofertas mais estáveis e atrativas ao longo do ano. De acordo com o empreendedor, o segundo semestre, com excursões escolares, e o período de verão com a presença de famílias, levam a maior procura por viagens e permanência na região.
Nos demais meses, a atividade depende da realização de eventos. "Hoje, em eventos maiores, toda a capacidade de hospedagem se esgota", afirma. Ele destaca também que os investimentos seguem concentrados no setor público com a entrada de novos empreendimentos ocorrendo de forma mais lenta. "A expansão da rede de serviços permanece restrita, mesmo diante do aumento da procura", finaliza.

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