sexta-feira, 9 de outubro de 2026

09 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Problemão

Visitei minha mãe. No corredor do seu edifício, encontrei um morador. - Ah, você é filho da Maria Carpi, a poeta? - Sim - respondi.

Eu já estava pronto para ouvir elogios e lustrar o brilhante orgulho pela minha mãe. Mas ele estava um pouco assustado. - Você pode falar com ela? Ela está causando um problemão.

Fiquei matutando: o que uma senhora de 87 anos, feliz da vida, é capaz gerar de incômodo na vizinhança? Música alta? Não escuta. Visitas tarde da noite? Acho que não vem fazendo festas. Infiltração? Tampouco fui informado de algum vazamento em seu banheiro.

Perguntei: - O que houve?  Ele coçou a cabeça como que procurando as melhores palavras. A coceira, de fato, ajuda a pensar. - Você precisa controlá-la. É que ela não para de plantar no jardim. Converteu a entrada do prédio numa floresta.

Eu ri. Pedi desculpas pela risada involuntária, que foi inevitável. - Isso não é bom? - questionei. - É - ele concordou. - Mas não sei onde vai parar. Eu disse que ele tinha razão.

- Realmente, tudo o que minha mãe toca jamais sei onde vai parar. Eu recebi um diagnóstico de retardo mental quando pequeno, ela me alfabetizou e me tornei escritor. Ela ultrapassa os limites do bom senso. Ele começou a rir comigo e comentou: - Então, vamos ver onde esse seu novo poema vai acabar!

É que Dona Maria, egressa da tradição de morar em casa, sem espaço no apartamento para as suas plantações costumeiras, apropriou-se do espaço comum do condomínio.

Com seus passinhos miúdos, sua pazinha, seu jeitinho de vovozinha, cheia de melenas grisalhas, como quem não quer nada, cultivou duas oliveiras e um limoeiro-siciliano. Afora um canteiro comunitário de temperos. Afora roseiras, orquídeas, manacás-da-serra e folhagens.

Baixou o paisagista Roberto Burle Marx nela. Investe sua aposentadoria em sementes e mudas em floriculturas. Aquele gramado básico se transformou numa mata com cores suntuosas e matizes fortes. Ela incentivou, inclusive, uma migração dos pássaros do bairro, com o frete dos seus ninhos de outros endereços para o local. Há uma orquestra de aves no alvorecer, como não existia antes.

O cheiro do lugar está diferente, absolutamente doce, com um difusor de aromas naturais infinito, dispensando os frascos com varetas. Não tem quem não se detenha na calçada para admirar. Cachorros puxam as coleiras, crianças se agarram às grades, pais perdem a noção do tempo, casais de namorados suspiram. É atração turística da rua Lageado.

Eu imagino o seu plano. Que as árvores cresçam até chegar às suas janelas. Assim ela voltará a ser menina e usará uma passagem secreta: descerá pelos galhos, naquilo que ela chamava na sua infância de "elevador de Deus". 

CARPINEJAR

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