sexta-feira, 9 de outubro de 2026

09 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

A profissionalização do furto de fios

O furto de fios e cabos de cobre foi por muito tempo associado especialmente à ação de dependentes químicos, que arrancavam pequenas quantias da rede aérea e as revendiam no mercado clandestino local para sustentar o vício. 

Mas é crescente a percepção de que quadrilhas especializadas, com conhecimento técnico e equipamentos sofisticados, atuam cada vez mais nesse ramo do crime. A interrupção no fornecimento de energia elétrica que o delito acarreta traz transtornos à população, afeta o trânsito e impõe prejuízos a empresários, concessionárias e ao poder público.

Reportagem de Pâmela Rubin Matge, publicada ontem em Zero Hora, mostra essa transformação. Grupos com caminhões, guinchos, ferramentas profissionais e perfuradores de solo passaram a furtar cabos de energia e de telecomunicações nas redes subterrâneas. Para não chamarem atenção, usam uniformes e crachás falsos, como se fossem funcionários de concessionárias e de empresas terceirizadas da área. Também cresceu o número de ex-colaboradores dessas companhias detidos por esse crime.

Essa encenação cinematográfica e a maior organização da cadeia de furtos e de receptação exigem que as autoridades busquem novas formas de fechar o cerco a essa infração penal. Ao que parece, cresceu o volume de material levado para fora do Rio Grande do Sul, o que indica ganho de escala e ação interestadual. Um dos grandes desafios é elaborar estratégias para inibir essa ação dissimulada nas ruas e fazer com que sejam percebidas a tempo de serem flagradas.

O cobre passa por um momento de valorização no mercado internacional, com cotações recordes. É um dos chamados metais críticos. Tem demanda crescente pela transição energética, rumo à maior eletrificação, e também por ser indispensável para a infraestrutura da inteligência artificial (IA). A lucratividade crescente atiça a cobiça de criminosos, inclusive traficantes de drogas. Investigações já apontam o envolvimento das facções.

Como se trata de uma preocupação nacional, o Congresso aumentou, no ano passado, as penas para o furto e a receptação de fios. No caso da receptação, quando a fiação levada causar interrupção de serviços essenciais, pode chegar a 16 anos. Mas as maiores sanções parecem não ter sido suficientes. Na iluminação pública da Capital, a extensão de fios levados de janeiro a agosto foi 25% superior à registrada no mesmo período de 2025.

Uma pesquisa divulgada em maio pelo Sindilojas POA indica que 80% dos associados tiveram os negócios afetados pelo furto de fiação. As operações do poder público, com participação de forças policiais, são constantes. Uma CPI na Câmara de Vereadores da Capital apontou crescimento de 820% nas ocorrências entre 2021 e 2025 e sugeriu uma série de aperfeiçoamentos legislativos. 

Em julho, a prefeitura de Porto Alegre instituiu o Comitê Intersetorial de Combate ao Furto de Fios e Cabos. Composto por 30 órgãos públicos e entidades privadas, o colegiado deve traçar formas de prevenção e combate a esse crime. A iniciativa, que se espera consiga produzir resultados, mostra que, apesar dos múltiplos esforços, não foi encontrada ainda uma estratégia efetiva para o enfrentamento dessa verdadeira praga urbana. 

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