Paraguai atrai empresas brasileiras com menos impostos, energia barata e menor burocracia

Gabriel MargonarEnquanto o Brasil discute formas de reduzir o custo de produção e tornar sua indústria mais competitiva, um número crescente de empresas brasileiras tem encontrado essas condições do outro lado da fronteira. Desde 2007, mais de 200 companhias nacionais transferiram parte de suas operações para o Paraguai, atraídas principalmente por menor carga tributária, energia elétrica mais barata, ambiente regulatório simplificado e incentivos à exportação.
Há algumas semanas, como exemplo dessa tendência, a CMPC alertou que poderá transferir para o país vizinho o projeto da nova planta de celulose prevista para Barra do Ribeiro caso o impasse legal envolvendo o empreendimento não seja solucionado até o fim deste ano. O investimento total na iniciativa é de cerca de R$ 27 bilhões, o maior aporte privado da história do Rio Grande do Sul.
O principal instrumento desse movimento é a Lei de Maquila. Em vigor desde os anos 2000, a legislação permite que empresas estrangeiras instalem operações no Paraguai ou contratem companhias locais para produzir com foco no mercado externo, pagando menos impostos. O modelo possibilita a importação de matérias-primas, máquinas e insumos com suspensão de determinados tributos, desde que os produtos sejam posteriormente exportados com valor agregado.
Segundo dados do Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai, 69% das indústrias com programas de maquila em vigor no país são brasileiras. Ao todo, o país vizinho reúne 320 companhias maquiladoras, responsáveis por US$ 1,2 bilhão em exportações.
Para a presidente da Câmara de Empresários Brasileiros no Paraguai (Cebras-PY), Karina Ferreira, o avanço da presença empresarial brasileira no país vizinho deixou de ser um movimento pontual e passou a fazer parte do planejamento estratégico de companhias de diferentes portes. Segundo ela, a entidade atende, em média, entre 20 e 30 empresários brasileiros por semana interessados em investir, expandir operações ou instalar unidades produtivas no Paraguai.
"Os empresários buscam informações sobre procedimentos legais, documentos necessários, incentivos disponíveis, regiões mais atrativas e formas de estruturar a operação com segurança", diz.
A busca por competitividade é apontada como o principal fator por trás desse movimento. Além da carga tributária menor, o Paraguai oferece custos operacionais reduzidos, energia elétrica abundante e mais barata, mão de obra disponível e localização estratégica no Mercosul. A proximidade com o Brasil também facilita a logística para empresas que mantêm o mercado brasileiro como destino relevante de sua produção.
“O empresário busca previsibilidade, redução de custos, agilidade operacional e proximidade com seu mercado consumidor. E o Paraguai reúne essas características”, resume Karina.
Os setores mais representativos entre as empresas brasileiras instaladas no país são indústria têxtil, confecções, calçados, autopeças, metalurgia, metalmecânica, plásticos, embalagens, alimentos e logística. Mais recentemente, também ganharam espaço negócios ligados à construção civil, agronegócio, tecnologia, serviços empresariais e desenvolvimento imobiliário.
RS é um dos líderes da expansão
A presença é especialmente forte entre empresários do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo. O Paraná aparece com destaque pela proximidade geográfica e pela integração econômica com o Paraguai. Já Santa Catarina e Rio Grande do Sul, segundo a Cebras-PY, levam ao país vizinho empresas com base industrial consolidada que buscam ampliar a competitividade.
Um exemplo gaúcho é a Be8, empresa do setor de biocombustíveis que mantém operação em La Paloma, no Paraguai. No local, a companhia atua com processamento de soja, produção de farelo e fabricação de biodiesel. De acordo com o vice-presidente de Operações da Be8, Leandro Zat, a decisão de investir no país foi motivada por um conjunto de fatores ligados ao ambiente de negócios.
“O ambiente de negócio do Paraguai foi algo que nos chamou a atenção. Além da carga tributária muito distinta em comparação com o Brasil, o custo de energia elétrica também é um fator bem importante, porque dá uma dimensão sobre a competitividade”, afirma.
Segundo Zat, o custo do megawatt no Brasil fica próximo de US$ 35, enquanto no Paraguai está abaixo de US$ 20. A disponibilidade de energia de base hídrica, a menor burocracia e a agilidade nos processos também pesaram na decisão. Outro ponto citado pelo executivo é a mão de obra jovem: conforme ele, cerca de 60% da força de trabalho paraguaia tem menos de 30 anos.
A operação da Be8 no Paraguai emprega cerca de 90 pessoas. Para Zat, a experiência é positiva. “Nós avaliamos como positivo, por isso acreditamos e temos trabalhado também para fazer novos investimentos no Paraguai”, diz.
Apesar das vantagens, a instalação no país vizinho exige adaptação. O executivo cita como desafios o entendimento da cultura local, da legislação, do sistema tributário e até da língua, já que o Guarani também é idioma oficial no Paraguai.
Karina Ferreira, da Cebras-PY, reforça que muitos empresários chegam imaginando que basta replicar o modelo brasileiro, quando o processo exige planejamento e compreensão do ambiente local. “O principal desafio é compreender que o Paraguai possui sua própria legislação, cultura empresarial e dinâmica de negócios”, afirma.
Para o professor da Escola de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), Gustavo de Moraes, o movimento de empresas brasileiras em direção ao Paraguai deve ser entendido dentro de uma tendência global de deslocamento produtivo em busca de menores custos. Ele cita como exemplos a migração de operações dos Estados Unidos para o México após o Nafta e, mais recentemente, a transferência de empresas da China para países como Vietnã, Indonésia e Bangladesh.
No caso brasileiro, segundo Moraes, o Paraguai se tornou atrativo principalmente pela simplicidade tributária, menor carga fiscal, energia barata, mão de obra de custo mais baixo e maior facilidade regulatória. “O Paraguai não precisou fazer grandes esforços para atrair essas empresas. Em muitos casos, o que ocorre é que o Brasil se tornou mais caro e mais complexo do ponto de vista tributário, regulatório e trabalhista”, avalia.
Conforme o professor, o fenômeno não significa necessariamente o desaparecimento da indústria brasileira, mas um deslocamento de parte da produção. "Em muitos casos, as decisões estratégicas, financeiras e comerciais permanecem no Brasil, enquanto etapas produtivas passam a ser realizadas no Paraguai. O mercado consumidor brasileiro continua sendo central para boa parte dessas companhias", pondera.
Ainda assim, o avanço paraguaio acende um alerta para a competitividade brasileira. "A tendência é de continuidade desse deslocamento se o Brasil não simplificar processos, reduzir burocracias e enfrentar seus custos de conformidade legal e tributária", conclui o professor.


Nenhum comentário:
Postar um comentário