sábado, 8 de setembro de 2018



08 DE SETEMBRO DE 2018
JJ CAMARGO

VIVER É ENCHER O CALENDÁRIO DE ANIVERSÁRIOS

Nossa vida deveria ser avaliada pelo número de vezes em que geramos fatos inesquecíveis. E nem importa se foram coisas maravilhosas de que lembramos com encanto ou essas que esqueceríamos se pudéssemos. Viver, de verdade, é encher o calendário de aniversários.

Cinco de setembro de 1971 era um domingo. Aproveitei uma folga na residência médica e fui passar o fim de semana em Vacaria. Naquele dia, estava programado o desfile antecipado, comemorativo aos 149 anos da Independência do Brasil. Numa cidade pequena, a parada do 7 de Setembro sempre foi um acontecimento. Os colegiais desfilando orgulhosos com o uniforme colorido de suas escolas e as bandas enchendo as ruas dessa alegria esfuziante que o tempo, displicente e preguiçoso, só tem feito dissipar.

O desfile passava pela avenida principal que fazia esquina com a rua da casa do meu avô. Fui até lá com a certeza de que o encontraria, o que, pra mim, era uma dessas festas em que o afago dispensava a banda.

Com a família empenhada em buscar o melhor ângulo para assistir ao desfile que já rufava ao longe, descobri, frustrado, que meu vozinho não estava. Com a alegação de uma indisposição, ficara em casa. Decidi que a festa do ano seguinte, sesquicentenário e tal, deveria ser ainda mais bonita, de modo que perder a daquele ano para afofar meu avô justificava a minha saída sorrateira. Desci a rua e encontrei-o na poltrona preferida, com olhos recém chorados. Assustado, lembrei que, um dia, ao comentar, debochado, que ele era um chorão que chorava por qualquer coisa, ele me repreendeu, dizendo: "Nada disso, eu só choro por coisas importantes e não sou culpado da quantidade de coisas importantes que têm ocorrido na minha vida!"

Com cuidado, quis saber, então, o que tinha acontecido daquela vez.

"O Brasilino era um ano mais velho e o meu irmão mais querido. Não lembro de que tenhamos discutido uma única vez na vida. Foi meu melhor parceiro e compartilhamos muitas coisas. Foi assim que, juntos, compramos a primeira terra, ali no Passo do Carro e, quando nos preparávamos para cercá-la, decidimos que cada um começaria numa extremidade depois que percebemos que, se trabalhássemos no mesmo ritmo, nos encontraríamos no meio da colina, que seria o ponto ideal para se colocar a porteira de entrada da fazendola. Num 5 de setembro, como hoje, há 50 anos, a cerca tinha ficado pronta e termináramos de instalar o portão que marcava o meio do caminho e o fim do nosso desafio. Quando passei a tranca, vi o Brasilino de braços abertos, nos abraçamos e choramos o choro de que mais gosto de lembrar dos muitos que chorei antes e depois daquele dia. Agora, meio século passou, o Brás já não está mais aqui, eu sinto muito a falta dele e acabei recapitulando aquele choro. Achei que Dom Pedro perdoaria a minha ausência na avenida se soubesse dessa história."

Ficamos um longo tempo de mãos dadas, em silêncio, até que a família voltou para casa trazendo o alarido do fim de festa. Desde então, o 5 de setembro passou a integrar o meu calendário de afeto, quando homenageio meu avô e a sua saudade de um choro tão bom que ainda continuava vivo, 50 anos depois de ter sido chorado.

JJ CAMARGO

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas