domingo, 5 de setembro de 2021


04 DE SETEMBRO DE 2021
ELIANE MARQUES

MITOLOGIAS CONTEMPORÂNEAS

Semana passada vi pai e filho de mãos dadas numa esquina da cidade. Na mão liberta da segurança paterna, a criança levava um enorme martelo Mjolnir. Sabemos que o artefato, também referido machado ou porrete, pertence a Thor, filho de Odin, pai de todxs. Thor é associado aos trovões e às tempestades nas mitologias germânicas, especialmente da era viquingue. Num surto alucinatório, troquei o martelo de Thor da mão pequena e desprotegida pelo Opáxoró (cajado), de Obatalá; depois pelo Oxé (machado), de Xangô; a seguir pelo Abebé (leque com espelho), de Oxum e, definitivamente, pelo Ogó (porrete), de Exu. Creio que a alucinação não adveio do desejo de impor à infância certo tipo de brinquedo, de modo a alterar apenas o conteúdo do discurso por outro igualmente autoritário. Creio que a alucinação adveio do desejo de inventar outra mitologia contemporânea.

Seria uma visão insuportável essa, a de uma criança com o Ogó de Exu como brinquedo tendo ao seu lado direito o pai protetor sem qualquer ruga de preocupação no rosto translúcido? Eu seria processada e condenada pela gente de bem de "nosso" Brasil por corromper crianças, por incitar à juventude ao culto dos ídolos que não as celebridades do momento?

Quem me acompanha nesta coluna sabe que volta e meia me abrigo em algum mito. Assim como língua e fala se distinguem por um critério temporal de reversibilidade e irreversibilidade, respectivamente, pois o já falado não retorna para dentro da boca, o mito também se define por um sistema temporal que combina as características da língua e da fala. Um mito sempre se refere a eventos passados; contudo, o passado não o domina na medida em que sua narrativa decorre de uma estrutura permanente, que, ao mesmo tempo, é antes, hoje e amanhã. O mito, então, possui caráter histórico e não histórico, o que faz com que pertença ao âmbito da fala e da língua.

Para Lévi-Strauss, nada se parece mais ao mito do que a ideologia política. Nas sociedades contemporâneas, talvez elas o tenham substituído, disse o antropologo, citando como exemplo a Revolução Francesa - "uma série de eventos longínquos cujas longínquas consequências certamente ainda se fazem sentir, através de uma série não reversível de eventos intermediários", instrumentalizada pelos políticos para interpretar a estrutura social da França e seus antagonismos.

Que seja "normal" uma criança levar o Mjolnir e assustador que brinque com o Ogó também faz parte de nossas mitologias contemporâneas.

ELIANE MARQUES

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas