sábado, 25 de setembro de 2021


25 DE SETEMBRO DE 2021
MARCELO RECH

No controle da aeronave

Você está em um avião que passa súbita e violentamente por uma turbulência. Os passageiros se olham, alguns pensam coisas horríveis, até que se ouve a orientação da tripulação: “Apertem os cintos porque estamos atravessando uma área de turbulência”. Se tem alguém dando instruções, então há comando e controle.

Finalmente, ouve-se a voz do piloto informando que “acabamos de atravessar uma área de turbulência”. Para alívio de muitos passageiros, o comandante pode até discorrer sobre a segurança do avião nessas circunstâncias. O que a tripulação faz nessas horas é transmitir informações baseadas em técnica e equilíbrio, não muito diferente da prática do jornalismo em momentos de sobressaltos, como o que vivemos no início da semana, com a crise do mamute chinês Evergrande.

Tais momentos de inquietação, como se assiste também durante a pandemia, levantam uma questão: e se não houvesse jornalismo, se não houvesse repórteres, editores e comentaristas que, baseados em técnica, apuração da verdade e experiência não iluminassem as dobras das crises para orientar a população a navegar nesses mares revoltos? Ou para vigiar os poderes e levantar questões incômodas? Ou ainda para denunciar malfeitos e identificar e disseminar bons exemplos e boas causas? Muita gente pode não ter se dado conta, mas em todo o mundo esse jornalismo independente que divulga informações e orientações abalizadas baseadas no interesse comum está ameaçado pela gradual erosão de receitas.

Numa tendência global, mais de metade das verbas publicitárias digitais já é capturada por Google e Facebook, em uma concentração de poder jamais vista e que preocupa muitos países. No Brasil, segundo o Atlas da Notícia,16% da população já não conta com um meio de comunicação na própria cidade – ou seja, fica à mercê de boatos e rumores espalhados por aventureiros ou ingênuos. Em alguns casos, políticos e empresários locais são submetidos até mesmo a extorsões por bandoleiros digitais que se aproveitam de vácuos nasleis ou do medo e paralisia nas reações.

Em escala mundial, se não houver uma reversão da tendência, a desintegração do jornalismo independente e de qualidade vai produzir, em uma ou duas gerações, um caos informativo, no qual as versões dosfatosserão controladas por governos ou estarão a serviço da especulação, do fanatismo ou do ativismo puro e simples. Sem as barreiras de contenção do jornalismo profissional, crises financeiras sistêmicas – reais ou forjadas – criarão ondas de pânico e se tornarão um cataclismo de dimensões inimagináveis. Étambém por isso que muitos países, da Europa à Austrália, começam a aprovar legislações que obrigam as megaempresas digitais a negociar em bases simétricas a devida remuneração pelo uso de conteúdos jornalísticos nas suas plataformas. Antes que seja tarde demais, as tripulações estão reassumindo o comando das aeronaves.

MARCELO RECH

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas