sábado, 17 de fevereiro de 2024


17 DE FEVEREIRO DE 2024
EUGÊNIO ESBER

AJUDANTE GERAL

Em 1981, um ano depois de fundar um partido que eu e muitos brasileiros esperávamos que fosse, como o nome prometia, "dos Trabalhadores", Lula expressou sua desafeição pela mais elementar atividade intelectual. Respondia ele a um simpatizante, Flávio Rangel, homem de teatro, tradutor, jornalista. "Você não está estudando nada? Você sente necessidade de estudar?" 

Com um tom de soberba e autossuficiência a emoldurar a voz rascante, Lula falou do que mais gosta - de si mesmo: "Primeiro, eu acho que eu sou muito preguiçoso. Até pra ler eu sou preguiçoso. Eu não gosto de ler, eu tenho preguiça de ler. Pelo hábito, isso é questão de hábito. Tem companheiro que passa um dia lendo um livro. Eu não consigo". Quase quatro décadas depois, eleito e reeleito presidente da República, Lula nada fez para alterar esta biografia. Ao contrário, fez uso da sua aversão a livros para espicaçar, na figura de FHC, "intelectuais e doutores" que segundo ele nada faziam pelo país.

Em 2018, porém, o PT procurou fazer uma transformação radical na imagem do seu fundador enquanto ele cumpria pena de prisão de 12 anos e um mês por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Em seu website, o partido informou que nos dois primeiros meses de cárcere - dos 580 dias em que ficaria preso - Lula teria lido 21 livros. Muitos duvidaram da média de uma obra devorada a cada três dias, mas a ser verdade a afirmação do PT ter-se-ia a impressionante história de um sedentário que, da noite para o dia, converteu-se em imbatível maratonista das letras.

A nova página de Lula como um líder ilustrado veio a público poucos dias atrás. Em discurso, o presidente da República saiu-se com esta: "(...) A gente sabe que a gente tem que ter uma profissão. Se a gente não tiver profissão, a gente vai ser ajudante geral. E ajudante geral não ganha nada! Nenhuma mulher quer namorar com um cara que mostra a carteira profissional... Qual é a tua profissão? "Ajudante geral." A mulher fala "Pô, cara? Nem uma profissão você tem? Pra levar o feijão, o arroz, pra casa, no final do mês? E as crianças que vão nascer? Como é que a gente vai cuidar?". Então, tem que estudar!

Um conselho correto, mas servido com arrogância e desprezo aos mais humildes, gerou reações como a de um brasileiro que se filmou diante de uma betoneira: "Eu sou ajudante geral, sou casado, tenho cinco filhos e uma esposa maravilhosa. Ela nunca foi me visitar na cadeia porque eu nunca fui preso". Pelo impropério que o ajudante geral dirige depois ao presidente, talvez o pobre tenha que procurar um advogado, mas a legítima defesa de sua dignidade, e a de muitos milhões de brasileiros, é o que lhe pode acudir, se ainda houver justiça neste país. 

Quanto à intenção de encorajar o brasileiro a estudar, faria melhor Lula se engavetasse o "Documento de Referência" do Plano Nacional de Educação 2024-2034, abordado nesta coluna ("Rota do desastre"). É uma peça política que passa longe da preocupação de preparar os brasileirinhos para uma vida digna e produtiva. Colocar ênfase no Ensino Básico e Fundamental, historicamente relegado a segundo plano em prol do Ensino Superior, e substituir o panfletarismo ideológico pela aposta em disciplinas como português, matemática e língua estrangeira, seria uma ótima notícia para todos - a começar pelos ajudantes gerais.

EUGÊNIO ESBER

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas