sábado, 31 de maio de 2025


31 de Maio de 2025
OPINIÃO RBS

Para evitar a ruína no campo

Diante do quadro dramático do endividamento dos agricultores gaúchos, surge como um pequeno alívio a confirmação de que as parcelas de financiamentos tomados para custeio e investimentos em operações do Plano Safra pelos produtores do Estado terão os vencimentos prorrogados. A decisão foi aprovada em reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN) na quinta-feira. Trata-se de uma medida necessária em virtude de mais uma colheita frustrada no Rio Grande do Sul por estiagem, o que novamente impôs dificuldades para o pagamento dos compromissos financeiros.

Mas, ainda que seja uma providência bem-vinda, tem efeitos limitados, por englobar apenas os financiamentos subsidiados que contam com a equalização do Tesouro. Ou seja, não contempla o crédito contratado a juros livres junto a bancos, cooperativas cerealistas e fornecedores de insumos, por exemplo. Ao cabo, é um paliativo que não chega perto de ser a saída estrutural indispensável para solucionar o grande endividamento acumulado ao longo de uma sequência de vários anos com quebra de produção por falta de chuva.

Deve ser compreendido que o ciclo 2024/2025 no Estado foi o quinto, em um intervalo de seis anos, afetado por déficits hídricos de diferentes magnitudes. Ao longo desse período, portanto, a renda com a produção ficou bastante abaixo da projetada, enquanto as contas continuaram a bater na porta. Inexiste negócio que, submetido a tamanho malogro no faturamento esperado, permaneça incólume sem afundar em uma enorme crise e não tenha sua sobrevivência posta em risco. Segundo a Federação da Agricultura do Estado (Farsul), a soma das dívidas dos produtores gaúchos chega a extraordinários R$ 72,8 bilhões.

Diante de uma conjuntura excepcional, medidas ordinárias não bastam. Permanece incontornável encontrar uma fórmula que leve à repactuação de todo o passivo acumulado nos últimos anos, em condições que signifiquem fôlego para os produtores continuarem com capacidade de produzir para, ao longo de um prazo razoável, quitarem seus compromissos. A pauta da securitização, que consiste na unificação dos diversos débitos das pessoas físicas e jurídicas em uma só dívida, a ser paga em um prazo estimado de 20 anos, ainda precisa avançar.

A primeira proposta, apresentada pelo senador Luis Carlos Heinze e em tramitação, é considerada inviável por implicar em um custo de cerca de R$ 60 bilhões para o Tesouro, em um momento de degradação do quadro fiscal do país. Mas há outras alternativas à mesa, como a elaborada pela Farsul, que prevê o uso do dinheiro do Fundo Social do Pré-Sal, alimentado por royalties do petróleo, como fonte de recursos para proporcionar a renegociação. 

A verba seria devolvida ao longo desses 20 anos. Em entrevista à Rádio Gaúcha, na sexta-feira, o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, mostrou-se favorável à ideia. Citou também a possibilidade do uso do Fundo Clima, gerido pelo BNDES. Ainda que pareça, portanto, existir agora boa vontade federal para encontrar uma solução estrutural, é preciso que lideranças do Estado, o que inclui a bancada gaúcha no Congresso, mantenham a mobilização para viabilizá-la. Um impasse pode levar à eclosão de uma grave crise social no campo, com a ruína de produtores de todos os portes. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas