sábado, 26 de setembro de 2026

26 de Setembro de 2026
MARCELO RECH

Cobiça sem fim

É bom ter um pé atrás sempre que se ouve que determinada categoria ou função precisa ser bem remunerada para evitar que o ocupante do cargo se corrompa. O argumento soa como ofensa a quem não desfruta de contracheques rechonchudos - a bem da verdade, a imensa maioria dos brasileiros, que, segundo essa falácia, estaria fadada à corrupção porque ganha mal.

Se há alguma coisa a aprender do escândalo do Master, é que corrupção não distingue contas bancárias. O propinoduto de Daniel Vorcaro foi pródigo em abastecer membros de algumas das categorias de servidores mais bem pagas do Brasil - de políticos a funcionários do Banco Central - e de representantes da elite econômica e social, como gestores financeiros e familiares de ministros do STF.

Vida modesta não é dobradiça para os encantos de um banqueiro armado com Pix sem limites nas cifras e na ética. A cobiça infinita é que é. Alexandre de Moraes, por exemplo, tinha muito mais que qualquer mortal poderia sonhar: um gabinete do tamanho de um apartamento, estabilidade no bom emprego, um séquito de assessores a servir-lhe, prestígio entre os pares, poder que não acaba mais e uma conta bancária já alentada por direitos autorais de livros de direito. De que mais precisava, levando-se em conta que há muito já não viajava em classe econômica e nem se hospedava em hotéis três estrelas?

A cobiça desmesurada atrai favores suspeitos porque ela diz para o servidor que ele sempre pode ter mais. Não basta voar pelo mundo em classe executiva. O sujeito passa a evitar filas em aeroportos e, como Moraes e Flávio Bolsonaro, viajar no jatinho de amigos complicados. Não acaba nunca. Um relógio que mostra as horas não é suficiente. O ministro precisa ostentar um de grife avaliado em R$ 720 mil. Para que e por quê? Uma festa com Wesley Safadão, bancado por uma advogada com interesses no STF, no aniversário da filha de Kassio Nunes Marques não dispara o desconfiômetro?

Quando a fortuna é obtida dentro da lei, bom proveito. O problema é quando um funcionário público quer usufruir de um mundo que não é dele, como ocorreu com tantos seduzidos por Daniel Vorcaro, que torrou biografias públicas com a assustadora facilidade de quem serve um Macallan 25 anos.

Para acabar com a corrupção em larga escala, é preciso prevenção e punição, mas sobretudo consciência individual sobre o certo e o errado. Há incontáveis casos diários de servidores humildes e empreendedores que, mesmo diante de uma oportunidade de ganho fácil, não se deixam levar pelo canto da sereia. Eles colocam a formação familiar, os valores espirituais, a ética e, não menos importante, a paz de dormir sem sobressaltos acima de tudo. E isso não tem Master que pague. _

MARCELO RECH

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