domingo, 3 de janeiro de 2021


02 DE JANEIRO DE 2021
LYA LUFT

Novo Ano-Novo

Primeiro, eu entendia que Ano-Novo era Mano Novo, e ficava feliz com mais um bebê em casa, eu desde sempre louca por crianças e bebês. Até hoje seguidamente sonho que tenho um ou vários no colo. Depois fui entendendo que não era Mano, e sim Ano, e também compreendi, vagamente, essa questão dos números com que demarcamos nossa vida - em geral para nos atormentarmos um pouco mais.

O Ano-Novo espia na esquina como um garoto arteiro, cheio de novidades malucas para nos surpreender.

O Ano-Novo espreita nos espelhos como uma velha bruxa de longas unhas roxas para nos arranhar enquanto dá suas risadinhas sinistras.

O Ano-Novo espera na porta da frente para a gente abrir, abraçar, aceitar, e achar que vai ser feliz todos os trezentos e tantos dias; algumas vezes, em muitos dias, e semanas, ou meses, a gente é feliz mesmo, ou pensa que é, porque nem sabemos direito o que isso significa.

O Ano-Novo é uma estrela que nos contempla lá do céu, como diziam, em tempos tão antigos: meu irmãozinho morto antes de eu nascer tinha virado estrela e cuidava de mim. (Me inquietava um pouco que também visse meus pecadinhos, que eram palavras feias, mentiras e botar a língua para os adultos pelas costas deles.)

O Ano-Novo vale porque, apesar de tudo, a gente celebra: quase uma continuação do Natal, só que geralmente com mais festa, e dança, e espumante, promessas para os seres amados e promessas para nós mesmos - mais cobrança do que promessa, aquela lista velha e chata como o mundo: fazer exercício, não beber, não comer, não ir demais às baladas, não fumar, não se matar com nenhuma droga aliás, ser melhor filho, irmão, pai, mãe, colega, amigo, chefe, qualquer coisa dessas em que tantas vezes agimos como feitor de escravos ou carrasco.

Só que, neste ano de sombra e algum medo, vamos botar isso tudo em tempo passado: seremos muito mais discretos, sem dança, sem bebedeira, sem multidão, todo mundo fazendo a coisa mais essencial: cuidar-se.

E assim, dia a dia, o novo ano nos espera, e nós aguardamos por ele, sempre com esperança. Mas esperança de repente me parece uma palavra fraca. Esperança não basta: precisamos de ciência, inteligência, atenção, cuidado, cuidado, e sorte de novo.

Que Deus, os deuses nos deem um aninho manso, porque esse que passou foi difícil, esquisito, cheio de preocupações. Que seja mais colorido, bondosinho, gentil, para nós, pobres humanos sempre tentando escapar dos males, neste mundo atualmente tão doente, bagunçado, violento, chato, onde nem as notícias de mortandades, desgraças, tufões, inundações e corrupções (e tolerância com os corruptos) já não nos impressionam muito. Que ao menos a Peste que nos assola a gente leve muito a sério.

Enfim, que seja um tempo bem suportável para a maioria. Para alguns - os escolhidos -, que seja glorioso: o pessoal merece. Um bom ano a todos nós, saudáveis e atentos, porque o resto a gente corre atrás.

LYA LUFT

02 DE JANEIRO DE 2021
MARTHA MEDEIROS

Deixando de seguir

Outro dia fiz uma postagem no meu Instagram reverenciando a live de Natal feita por Caetano Veloso, que foi das coisas mais sofisticadas e comoventes a que já assisti. Para dar ênfase ao que me pareceu divino, maravilhoso, cometi a audácia de escrever na legenda que todo brasileiro deveria se ajoelhar diante de Caetano por ele ter nos presenteado com quase duas horas de puro encantamento ao final de um ano tão duro. Ai, Jesus. Pra quê?

Alguns não me perdoaram por usar o verbo "ajoelhar". Como eu ousava pronunciar tamanha blasfêmia? Pensei em debater com eles sobre a importância de flexibilizar os ritos sacros, mas nem deu tempo. Três ou quatro já haviam proferido o solene "deixando de te seguir", que suponho ser o castigo supremo aos pecadores das redes sociais.

Também já deixei de seguir alguns perfis a fim de dar uma limpada no meu feed e por não estar mais interessada no conteúdo oferecido, mas nunca tive a insolência de avisar que estava de partida, até porque sou apenas um número e ninguém vai dar por minha falta. Se eu decidi seguir Fulano, foi porque quis, ninguém me obrigou. Então, se desisti dele, saio à francesa, sem cair no ridículo de achar que minha ausência fará alguma diferença na vida da criatura. Percebe-se que ainda não entendi que a graça de cancelar alguém é justamente fazer um pequeno terrorismo antes.

Não levo muito jeito, mas caso fosse terrorista, alertaria que estou deixando de seguir quem só posta baboseiras, quem não tem senso de humor, quem exala ódio, quem não consegue colocar o passado no passado, quem só valoriza anjos e santos, quem não sabe a diferença entre ter opinião e ultrapassar limites éticos, quem não consegue sair do jardim de infância.

Deixando de seguir o chato de plantão, a dona da verdade, o campeão do mau gosto, a tia carola, a crente que abafa, o rei dos babacas, o gênio incompreendido, o perito em asneiras, o pobre de espírito, o doutor sabe-tudo, o cowboy sem noção, a miss juventude eterna.

Se bem que nunca perdi meu tempo com eles. Importa é quem vou continuar seguindo. Os amigos antenados, atualizados, que se mantêm em movimento em vez de inertes, esperando a morte. Aqueles que têm senso estético, faro para novidades, que dão dicas de livros, compartilham bons textos, postam fotos incríveis, arrancam risadas, abraçam causas justas, têm classe e inteligência. Sigo jornalistas, músicos, poetas, psicanalistas, filósofos, comediantes, escritores, fotógrafos, cozinheiros, cinéfilos, artistas, viajantes, além de alguns destrambelhados charmosos e malucos beleza. Sigo quem me faz bem, quem acrescenta, ilumina, diverte, espanta a mesmice. Todos eles, e mais Caetano Veloso, de joelhos.

MARTHA MEDEIROS

02 DE JANEIRO DE 2021
LEANDRO KARNAL

Mario Quintana garantia que ela habitava o 12º andar do ano. E que se trata de uma mulher completamente ensandecida. No fim, ao ouvir os gritos de Ano-Novo, ela se atira daquela altura distante e cai... feliz. Nenhum dano. A esperança está incólume na calçada. Milagre! É uma menina de novo! O lindo poema encerra com a curiosidade despertada pelo fato ímpar: E em torno dela indagará o povo: Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes? E ela lhes dirá (É preciso dizer-lhes tudo de novo!). Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam: O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA... (Nova Antologia Poética, 1998). O mesmo autor gaúcho garantia que sim, há problemas na vida. Há gente que atravanca o caminho. Eles passarão. Eu passarinho. É quase um haicai de esperança e de otimismo.

Gonzaguinha tinha um texto musical que sempre convém cantar no fim do ano. "Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita: é bonita, é bonita e é bonita!". Impossível ler esses versos sem cantarolar mentalmente a mensagem. A vida é bonita, claro, com momentos oscilantes. Vale o conjunto da obra.

Acusam as mensagens de esperança de serem analgésicos, opiáceos para a dor da vida. Viver é sofrer e nada teria sentido. As mensagens otimistas, como a de Quintana ou a de Gonzaguinha, seriam apenas medicamentos.

Não duvido da presença universal da dor. Não importa o que eu faça; em alguma esquina, dorme o cão raivoso da doença, da crise e da morte. É um Cérbero de três cabeças que, sempre, inexoravelmente, conseguirá me pegar pelo calcanhar e machucar. Ele é sorrateiro. Eu sei disso. Já levei dentadas do bicho. Porém, um médico equilibrado sabe que o analgésico tem efeito, diminui a dor e permite seguir o tratamento. Se esperança pode ser aspirina leve ou morfina pesada, serve para enfrentar os cachorros hidrófobos dos becos sombrios. Seria estranho ler mensagens pessimistas diante do desafio de enfrentar o real, como se eu quisesse ficar batendo na carne que sangra para que ela possa, ainda mais, derramar meus fluidos.

A vida encontra sentido nela mesma. Sorrir ou ler mensagens positivas nunca evitará que ocorram coisas difíceis. Porém, a esperança contida é sempre uma maneira de encarar com humor e leveza, dar perspectiva, ver com menos peso. O pessimismo tem um defeito: reforça a dor. A esperança pode torná-la mais graciosa, mesmo que saibamos ser inevitável. Sempre aposto na aspirina, nunca no prego quente que ajuda a perfurar ainda mais a parte atingida. Tem gente que acha que a dor é sinal de maturidade e que a alegria seria infantilidade. Eu diria que a fixação no sofrimento é algo estranho. Não precisamos abusar de analgésicos, apenas usá-los quando algo incomoda, para ter clareza e resolver o problema. Quando a dor nos domina, ficamos desnorteados. O analgésico diminui a dor, não resolve a doença, entretanto cria um caminho seguro para eu buscar a cura. A dor alucina; a esperança acalma.

Existe algo ruim em fingir felicidade que se espalhou nas redes sociais nos últimos anos. Existe um sentimento mais antigo, com raízes religiosas e filosóficas, de centralizar o sentido na dor e na tragédia. As duas posturas parecem ver um polo de alegria ou de dor como o caminho válido. São falsas, ambas. O sentido da nossa biografia não é gargalhar ou chorar o tempo todo. A existência não nasce dos dentes expostos ou do desespero. A vida vale por ela mesma.

Tarcísio Padilha escreveu que "o pessimismo cessa tão logo começamos a agir, a pensar, a amar e a esperar". Existe, claro, uma exceção a tudo que eu já disse e direi: a depressão é uma doença e assim deve ser encarada e tratada. O pessimismo crônico, se não for fruto da depressão, é um disfarce engenhoso para a não ação.

Explico-me. Se nada pode ser feito, se tudo dará com os burros n?água, não preciso agir. Assim, no rastro da ideia de Padilha, a ação estabelece uma reação ao pessimismo e tende a desfigurá-lo. Esperançar, esperar com ação e determinação, é decorrência disso. Meu amigo Cortella enfatiza a bela ideia de esperançar. Esperança não reside na espera apenas, inerte, porém na ação efetiva. O grande londrinense vai além: é preciso transbordar esperança, ir além da borda, ampliar o mundo. Dando voz direta a Cortella de novo: "Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo".

Acredito no otimismo solar de Mario Sergio Cortella e nas boas indicações de poetas e filósofos. Acredito que, se a dor é inevitável, o sofrimento pode ser diminuído pela esperança. Vamos esperançar muito em 2021. Repare: ela está lá no alto, do 12º andar com cara de dezembro. Falta pouco para o salto maravilhoso e a metamorfose em nova criança, sempre verde, fértil e vicejante. Um ano novo muito esperançado com ações e otimismo.

Voltando a Gonzaguinha, esta é a beleza "de ser um eterno aprendiz". E renascer sempre, como a esperança que vai saltar a qualquer momento para ficar junto aos que passam pelo burburinho abaixo. Feliz Ano novo, repleto de esperança. Esperançar é um lindo hábito brasileiro.

LEANDRO KARNAL

02 DE JANEIRO DE 2021
CRISTINA BONORINO

PARA OS ANOS QUE VIRÃO

A capa da Immunity, revista referência para os imunologistas, trouxe neste último mês uma imagem que me emocionou. Pessoas e crianças brincam na neve, numa paisagem típica de fim de ano do Hemisfério Norte. Isso é observado através de uma vidraça por um(a) cientista, visto(a) de costas, tranquilamente sorvendo um cafezinho. Em primeiro plano, um daqueles globos de vidro que se compram em loja de turista; só que, em vez de neve, contém o vírus. A imagem fala: tarefa cumprida; vírus sob controle; podemos relaxar. Problema que surge, problema que se analisa e que se resolve. Esse é o mundo em que eu vivo; não é, infelizmente, o mundo em que estou.

No mundo em que eu vivo, 2020 fecha com quatro vacinas comprovando eficácia contra o novo coronavirus, desenvolvidas e testadas em tempo recorde. Para aqueles que invejam a proteção maior de 90% das vacinas de mRNA, eu digo: isso é resultado de investimentos sólidos de mais de século em tecnologia. País soberano é país que domina tecnologia. Mas ciência é tão confiável, que, veja só: mesmo no Brasil, com déficit histórico de investimento em ciência, realizamos testes de vacinas - que funcionam. A vacina testada pela Fiocruz tem no mínimo 60% de eficácia; a testada pelo Butantã provavelmente tenha isso também. O que, acreditem, é muito bom: muitas das vacinas que controlam doenças no mundo todo, como gripe e BCG, são assim.

Claro, queremos vacinas como a do sarampo, que protege mais de 90% da doença; ou a da pólio, que protege completamente da infecção. O Programa Nacional de Vacinação do Brasil é exemplo no mundo todo, e tem a logística para distribuir todas essas vacinas. O Brasil é o único país da América Latina que poderia ter desenhado, testado, produzido e distribuído sua própria vacina. Mas, no mundo em que estou, não existem pedidos de registro de vacinas junto à Anvisa. O único, feito pela Pfizer, foi negado pela agência, que, hoje, infelizmente, perde gradativamente sua credibilidade por associação a um governo federal que desde o início nega a pandemia, as vacinas e sua própria incompetência frente à realidade.

Conselhos regionais de medicina não punem profissionais que espalham mentiras sobre tratamentos que colocam a saúde das pessoas em risco. Assistimos, cansados, ao desfile de fiascos, que deixam de ser vergonhosos: tornam-se criminosos. Será que dá para mudar isso? Será que queremos mudar? Ciência é, mais do que uma disciplina, uma forma de pensar. Questione tudo; analise todas as evidências; decida baseado em fatos. No ano que passou, a ciência nunca foi tão violentamente atacada - sem se deixar abalar ou distrair de um objetivo central: vamos controlar a pandemia. No mundo em que eu vivo, tarefa cumprida. No mundo em que estou, que isso nos ensine e nos inspire - são os meus votos para 2021 e para todos os anos que virão.

CRISTINA BONORINO

02 DE JANEIRO DE 2021
FRANCISCO MARSHALL

AMBROSIA

Há algo divino no que nos alimenta o espírito e a esperança. Por que nos animamos para pensar e viver a vida, criar, semear, construir, renovar esperanças? Em meio à pavorosa peste, e face à morbidez do Monstro que ora brande o gadanho da Morte, ainda assim olhamos para outros olhos e, neles e com eles, olhamos para nós mesmos, e para a mirada dos Grandes Índios e Índias que juntaram as pedras de nossa morada, e vemos, nesses olhares, a força que nos anima e inspira, e avançamos. O horror e as trevas não nos arrasam, só dão contraste à luz, e renascemos, falamos, realizamos. És ambrosia, a parte divina de um mundo que pode ser iluminado de destinos que podem ser sagrados.

Brotós, em grego, é o homem mortal, ainda vivo, oposto ao morto, nekrós, e aos deuses, imortais - athánatoi. A(m)brotós é imortal, como deuses e deusas gregos, que quase morreram, mas foram recolhidos por poetas e artistas e assim reanimaram o mundo, desde a Renascença. Nos veros mitos, entes sagrados deleitam-nos com fantasias repletas de engenho e símbolos, que alimentam a sensibilidade e o pensar. As deidades do Olimpo, ao saciarem-se com néctar e ambrosia, erguem braços níveos e compartilham o que lhes confere a imortalidade. São como os poemas e as músicas, o amor e os pensamentos, as belas imagens e os saberes lúcidos, que recebemos de ancestrais e convivas generosos, e que nos nutrem para que possamos sonhar, sendo mortais, com a centelha imortal que há em cada gesto puro, no singelo e no grandioso, no pão e no vinho.

A imortalidade divina é, nessa trama, demasiado humana. Mesmo céticos ou materialistas, podemos nos olhar e renascer em amor, fé e esperança, sem embarcar nas balelas das religiões-empresas, mas assegurados no que importa, a dignidade, a liberdade e as verdades da vida. E não são também divinos os genes, que, em turbilhão, nos compelem a pensar e desejar, e estender as mãos, com fome e empatia? A parte imortal contrasta com a finitude, e a parte mortal torna humano o que há de imperecível. O fio de Ariadne é um pensamento que revela a natureza histórica dos fenômenos do mundo e da cultura, incluindo-se esses seres imaginados há muito, e referidos com nomes de deuses e deusas. São parte de um cosmos que criamos e queremos perenizar, com o encanto de uma palavra divina.

Se há algo divino e humano nas artes e na ambrosia que compartilhamos, deve haver, por outro lado, algo medonho na água que bebem os zumbis e muares de Trintaporcentolândia, com seu furor suicida, e com o credo letal que querem nos impor. Mas o pacto eleitoral que deu cetro ao pastor daquele rebanho não incluiu poder de vida e morte sobre todos. Eis porque deve-se recusar esse cálice nada sagrado, que impõe o sacrifício imerecido de milhares de vidas. E que os bananas do pseudo-Olimpo larguem do cafezinho morno e do uísque torpe e cessem de prevaricar; já chegou a hora de provar-se a mortalidade de quem se supõe divino, sem nada saber de néctar ou de ambrosia.

Mas nós sabemos. E seguiremos com essa palavra perfumada, fármaco bom, dom de Dioniso, em festa, ambrosia.

FRANCISCO MARSHALL

02 DE JANEIRO DE 2021
DRAUZIO VARELLA

COVID EM JOVENS

Menosprezar o perigo é um equívoco frequente na adolescência. É provável que esse fenômeno aconteça porque os circuitos de neurônios das áreas cerebrais responsáveis pelo controle das emoções, organizam a arquitetura de suas sinapses anos antes do que o fazem os do lobo frontal, região que coordena o planejamento racional e a tomada de decisões. Como consequência, o adolescente experimenta emoções de adulto, enquanto mantém reações imaturas diante de ameaças à própria vida e à dos outros.

No caso da atual epidemia, esse descompasso neuro-anatômico se manifesta com clareza. A crença na imortalidade e no risco mais baixo de apresentar sintomas graves talvez expliquem a irracionalidade de adolescentes e adultos jovens que se aglomeram em bares e nas festas, alheios à realidade de que esse comportamento os coloca em risco, expõe seus familiares, a comunidade e dissemina a epidemia.

Apesar da maior gravidade nas pessoas mais velhas, a covid-19 pode ser devastadora em quem não chegou aos 30 anos, haja vista as sequelas deixadas pela infecção e as mortes ocasionais nessa faixa etária.

Em setembro, um grupo do Brigham and Women?s Hospital, de Boston, publicou o estudo "Evolução Clínica de Jovens com Covid-19, nos Estados Unidos", na revista JAMA Internal Medicine. Nele, foram avaliados o perfil clínico e a evolução de 3.222 mulheres e homens de 18 a 34 anos internados em hospitais americanos, por causa da doença. As gestantes foram excluídas.

Os participantes tinham em média 28,3 anos; 57,6% eram homens; 57,0% eram pretos ou latino-americanos. As prevalências das principais comorbidades que afetam a evolução foram: obesidade 36,8% (IMC acima de 30), diabetes 18,2% e hipertensão arterial 16,1%.

No decorrer da internação, 694 pacientes (21%) foram transferidos para unidades de terapia intensiva e 331 (10%) necessitaram de intubação e ventilação mecânica. A média de permanência na UTI foi de quatro dias.

Entre os 3.222 participantes, 88 faleceram. Esse índice de mortalidade (2,7%) é o dobro daquele provocado por infarto do miocárdio em jovens da mesma faixa etária.

O risco de morte ou de precisar de ventilação mecânica foi 50% mais alto entre os homens; 2,3 vezes maior entre os obesos graves (IMC 40 ou mais); 2,36 vezes maior entre os hipertensos e 1,4 vezes nos casos de diabetes.

Naqueles com mais de uma das três condições citadas (obesidade, hipertensão, diabetes) o risco foi comparável ao observado em adultos mais velhos, sem nenhuma delas. Obesidade grave esteve presente em 41% dos pacientes que faleceram ou precisaram de intubação e ventilação mecânica.

O estudo não permite calcular quantos adultos infectados entre os 18 e os 34 anos apresentam sintomatologia que justifique hospitalização, mas é perturbador saber que, dos internados, 21% vão parar na UTI, 10% dependerão de intubação e ventiladores para sobreviver e 2,7% irão a óbito, apesar da idade.

Estamos num momento em que, cansada de ficar em casa, a população brasileira decretou por conta própria o fim da pandemia. As imagens de jovens aglomerados nãos bares e as multidões nas ruas em que se concentra o comércio popular, as festas e o verão que se aproxima prenunciam um ano novo sinistro.

Crer que a vacina resolverá nossos problemas nos próximos meses é sonhar acordado. Primeiro, porque o descaso, a incompetência e a demagogia irresponsável do governo federal nos colocou em desvantagem para adquiri-la no mercado internacional. Depois, porque fica difícil acreditar que o atual Ministério da Saúde esteja preparado para coordenar o esforço exigido para adquirir vacinas suficientes para imunizar dezenas de milhões de pessoas pelo Brasil inteiro, em tempo hábil para reduzir as mortes, já no início do ano.

Neste momento, tínhamos que nos concentrar na obtenção imediata de vacinas, em convencer os brasileiros da segurança e da necessidade delas e, sobretudo, da importância de usar máscara, lavar as mãos e guardar distância dos outros, medidas exatamente opostas às defendidas pelo presidente da República e muitos de seus seguidores, desde o início da tragédia que se abateu sobre nós.

Feliz 2021, caríssimos leitores. Tomem cuidado.

DRAUZIO VARELLA

02 DE JANEIRO DE 2021
MONJA COEN

ESCREVA HOJE SEU POEMA PARA O NOVO ANO

Hoje é dia de escrever poesia. Dia de escrever, de refletir, de pensar e de transgredir.

Não faça nada muito certinho, deixe algo sem dizer. Escreva com letras tortas - algumas.

Se puder escrever à mão com uma boa caneta em um limpo pedaço de papel, faça.

Qual o seu pensamento neste início de ano? No horóscopo chinês, é o ano do Touro de Ferro. Touro, boi, vaca, bezerro - gado, manada, peão, sela, laço, chimarrão, botas e tudo mais, incluindo galpões crioulos.

Ano de refazer os pastos e as paisagens. Ano de vacinar o gado e as pessoas. Ano de cuidar com respeito e dignidade de cada criatura. Ano de arar a terra e plantar a querência. Ano de colher inclusão, respeito e menos violências.

Chegou 2021, ano Buda 2587. No dia 1º, oramos pela paz mundial. No dia 2, oramos e escrevemos poesia, prosa.

Sem ficar proseando muito, mas numa boa roda de chimarrão, podemos apreciar os silêncios e as palavras. Lembrando que ainda não se pode compartilhar a cuia. Cada um com a sua.

Vamos receber uma picada no braço, de alguma vacina aprovada e que chegue até nós. Ninguém vai virar E.T. nem vai ter um chip de controle genético. Vamos criar anticorpos para não sermos derrubados pelo coronavírus. Ele já está em mutação. Como tudo que existe, como nós.

Foi um ano danado de difícil. Todos sabemos. Todos passamos pelas mesmas fases. Alguns negacionistas continuam negando o poder da pandemia e agora fazem campanha contra as vacinas. Há de tudo neste mundo.

Eu cá vou esperando a vacina chegar com certa alegria, que não gosto de picada. Mas o que se há de fazer? Que venha a agulha - de preferência, ponta fina.

Vamos adiante. Sobrevivemos. A grande maioria dos habitantes da Terra sobreviveu. Muitos foram contaminados e curados, com certas sequelas que talvez não sejam permanentes.

Vamos adiante.

Sem chicote e sem esporas, cavalgando o Touro de Ferro, manso como Ferdinando. Que nos leve a todos nesta travessia estranha a chegar na Terra Pura, onde seres humanos são capazes de amar, de cuidar, de cooperar e compartilhar os bens naturais e produzidos.

Estamos construindo um mundo novo: sem guerras, sem ódios, sem rancores. Um mundo sem feminicídios, assassinatos, crimes raivosos descontrolados. É possível. Creia em você, creia na vida.

Escreva hoje o seu poema para o novo ano. Coloque na parede, não se esqueça.

Intimamente, procure o mistério da existência e se comprometa a esperançar, que é diferente de esperar. Esperançar é fazer, é construir, realizar, transformar o devir.

Vamos juntos encarar o que está por vir, com firmeza, alegria, sabedoria e ternura. Quero! Quero! Posso, podemos, façamos, sejamos querência, de querer bem e de proteger sem se esconder ou faltar. Coragem!

Feliz 2021!

Mãos em prece

MONJA COEN

02 DE JANEIRO DE 2021
J.J. CAMARGO

O QUE O NATAL FAZ COM A GENTE

O Natal não faz ninguém mais doce, mas quem for derrete.

Geraldo Ari é um médico carioca que se notabilizou por uma rotina de 30 anos: na véspera de Natal, fantasiado de Papai Noel, subia os morros carentes do Rio com uma sacola de brinquedos. Confidenciara aos amigos que nada o encantava mais do que a alegria de crianças pobres, recebendo presentes.

Naquela tarde, já velho e cada vez mais parecido com Papai Noel, com sobrepeso e fôlego curto, subiu o morro do Complexo do Alemão com dificuldade e fez várias paradas para respirar. A roupa de seda, o gorro e a barba postiça, ao sol escaldante, não ajudavam. Mas, no topo, a canseira se dissipou pela euforia da molecada, surpreendida pela descoberta de que Papai Noel existia sim, contrariando o realismo decepcionante dos pais.

Distribuídos os presentes com festejos intermitentes, ele começou a retornar. O trajeto da volta em declive facilitava a marcha, mas o nosso herói anônimo já suava muito, quando foi interrompido pela voz estridente de um menino: "Papai Noel, Papai Noel!". Quando o chamado se repetiu, ele parou, e sem disfarçar a irritação, perguntou:

- O que você quer, menino? Eu não tenho mais presentes!

E então teve de ouvir: - Eu só queria mandar lembranças pra Deus!

Ele completou a descida misturando suor e lágrimas.

Durante uns 50 anos, Milton Meier colocou a doçura do seu coração a serviço da correção de coraçõezinhos defeituosos, no Rio de Janeiro. Por este caminho, chegou às suas mãos talentosas o André, um garoto com uma cardiopatia congênita que não lhe permitia crescer. A cirurgia transcorreu sem sobressaltos, e os pais ouviram, aliviados, que ele estaria em casa no Natal, a tempo de comemorar seu aniversário.

Na manhã seguinte, quando os efeitos da anestesia já deveriam ter passado, o André não acordou. A despeito de todos os exames normais, ele continuava dormindo, respirava preguiçosamente e necessitava de aparelhos. Eram outros tempos aqueles, e, após operações cardíacas, as lesões neurológicas não eram raras. Três ou quatro dias se passaram, chegou a noite de Natal e o André continuava na UTI, necessitando de cuidados. Desolado, o Milton decidiu ficar com ele:

- Estávamos sós, o dorminhoco, uma enfermeira e eu. Pouco depois da meia-noite, me aproximei da cama e comentei com a enfermeira: sabes quantos anos ele vai fazer? O André mexeu-se, abriu os olhos, levantou o braço e mostrou: quatro dedinhos. Quarenta anos se passaram e a emoção daquele Natal me acompanhou em todos os que vieram depois!

Relendo o Livro dos Abraços, do Eduardo Galeano. encontrei esta pérola:

"...Fernando Silva dirige um hospital infantil em Manágua. Na véspera de Natal, ficou trabalhando até muito tarde. Já estavam soltando foguetes e começavam os fogos artificiais a iluminar o céu, quando Fernando decidiu ir embora. Em sua casa, o esperavam para festejar. Fez então uma última visita às enfermarias, vendo se tudo estava em ordem, quando sentiu que alguns passos o seguiam. Uns passos de algodão: voltou-se e descobriu que uma das crianças andava atrás dele. Na penumbra, o reconheceu. Era um menino que estava só. Fernando reconheceu seu rosto já marcado pela morte e aqueles olhos que pediam desculpa ou, talvez, pedissem permissão... Fernando se aproximou e o menino o tocou com a mão:

- Diga a... - sussurrou o menino. - Diga a alguém que estou aqui."

No desespero, não há consolo maior do que saber que, em algum lugar, há alguém. Por nós.

J.J. CAMARGO

02 DE JANEIRO DE 2021
DANIEL SCOLA

Caminho para superar o conflito do nosso século

A jornalista e historiadora americana Anne Applebaum dedicou parte da sua carreira para pesquisar e escrever sobre os horrores do comunismo na União Soviética, os expurgos, as mortes e a fome que o regime produziu ao longo de décadas. Gulag, Uma História, de 2004, que ganhou o prêmio Pulitzer, é um minucioso exame histórico dos campos de concentração na Rússia. Anne foi editora e articulista da revista Spectator, um ícone do pensamento conservador britânico, defende os avanços reformistas do governo de Margaret Thatcher (1979-1990) e tem afinidade com figuras tradicionais do Partido Republicano dos Estados Unidos. No espectro ideológico, ela mesma se posiciona como "centro-direita", defensora de um sistema de democracia liberal.

Em 2020, ela deixou de lado o passado para escrever sobre o presente, com atenção especial para dois temas atuais e preocupantes: o autoritarismo e o populismo. No livro Twilight of Democracy, The Seductive Lure of Authoritarianism (O Crepúsculo da Democracia - A Atração Sedutora pelo Autoritarismo, ainda não lançado em português no Brasil) traça um quadro interessante sobre grupos políticos que, ao chegar ao poder, minam instituições, desafiam a democracia, interferem nas liberdades e promovem uma cisão da sociedade baseados em ideias nacionalistas. Seja na Polônia, governada pelo Lei e Justiça, partido de extrema direita; na Hungria, por Viktor Orbán e o seu partido, o Fidesz: na Venezuela chavista ou na América de Trump, ela consegue ver semelhanças nos métodos, seja à esquerda ou à direita. É um livro interessante, bem-escrito, aclamado pela crítica e atacado pelos radicais.

Me detive em um aspecto de comportamento que parece ter transformado a sociedade em 2020: a polarização. Não é um fenômeno recente. Ainda assim, nesse ano de pandemia, os polos ficaram mais distantes. O ponto de partido do livro é uma história pessoal da escritora, que é americana e há mais de 20 anos vive na Polônia. Na noite do Réveillon do milênio, ela e a família decidiram fazer uma festa para dezenas de amigos e familiares. Numa casa de campo, no interior do país, a virada para o ano de 2000 reuniu políticos, empresários, diplomatas e jornalistas que festejaram até o dia seguinte. Passados 20 anos, amizades se desfizeram por conta da política e aqueles que celebraram abraçados um novo milênio cheio de esperanças já não conseguem dividir o mesmo espaço e conviver em harmonia. A razão, ela sustenta, é a divisão estimulada, sobretudo, pelo partido que está no poder e transformou a Polônia numa das sociedades mais polarizadas do mundo. O retrato atual do país é realmente assustador, com a promoção aberta de ideias autoritárias, bandeiras xenófobas e teses paranoicas estimuladas por quem está no poder. Fico me perguntando o que ganhamos com isso? Por que, no lugar de debater, brigamos? Por que o consenso virou algo utópico, inalcançável? Ou, por que não podemos simplesmente discordar sem pensar na destruição de alguém? E mais: para onde todo esse ódio vai nos levar?

Ao expor o crescimento do populismo que semeia o ódio, Anne foi tachada de "inimiga do povo polonês", "espiã" alinhada com o comunismo. Logo ela, que construiu uma sólida carreira eviscerando o regime soviético. Aqui tem outro fenômeno comum nestes tempos, que são as teses baseadas em inverdades. Mentiras e ideias infundadas, sem comprovação, que muitas vezes são propagadas por agentes públicos ou órgãos oficiais. É outra praga do nosso tempo, que estimula a polarização.

Vimos isso em profusão nos últimos quatro anos nos Estados Unidos. Amanda Carpenter, estrategista política de políticos republicanos, identificou cinco passos das mentiras sustentadas por Donald Trump. O primeiro deles é "aposte em uma ideia" seja qual for, por mais absurda que possa parecer. Depois, propague a ideia, mas sem se responsabilizar pela autoria usando argumentos como "Alguém deveria verificar isso...". Na fase seguinte, cria-se suspense prometendo evidências sobre algo que nunca se confirma. O quarto passo é o ataque ao oponente, desqualificando qualquer um que criticar a sua ideia. Por último, anuncie a vitória no debate, mesmo sem ter razão. Soa familiar? O método Trump de promover o debate vingou por quatro anos. Em 2020, os Estados Unidos deram uma demonstração de que o modelo que promove a divisão entre "eles e nós" tem apelo, mas não é duradouro. Trump foi um dos poucos presidentes na história recente americana a não conseguir a reeleição.

Aqui no Brasil, o mais recente exemplo da nossa divisão é a tentativa de desacreditar as vacinas e questionar a capacidade da medicina e da ciência de encontrar uma saída para a pandemia do novo coronavírus. É um debate nacional, estimulado pelo presidente da República, que encontra eco numa faixa da sociedade já contaminada por notícias falsas. Ainda em Twilight of Democracy, Anne Applebaum oferece ao leitor uma explicação interessante. A ciência é o moderno, representa o progresso e é universal, e isso vai contra os princípios de quem quer dividir, os nostálgicos de um tempo passado, obscuro e retrógrado. A história mostra que conflitos assim são cíclicos. Um deles é caso Dreyfus, na França, em que um oficial do exército foi acusado injustamente de espionar para os alemães. Quando se provou que ele era inocente, já era tarde. Condenado com base em provas forjadas, o capitão Alfred Dreyfus foi considerado um pária e humilhado pelos franceses. Mais tarde, quando se descobriu a verdade, Dreyfus já era sinônimo de antipatriotismo e mesmo com provas de sua inocência, muitos franceses continuarem estimulando o conflito social sobre o traidor da nação. O caso Dreyfus serviu até mesmo como pretexto para justificar o antissemitismo dos franceses um pouco antes da Segunda Guerra Mundial.

Ideias autoritárias dividem, polarizam e isolam as pessoas em campos diferentes cercados de arame farpado. Então, como reduzir a potência disso? Qual é a vacina? Anne Applebaum sugere que só o surgimento de novas "coalizões" que sejam mais plurais e representem melhor as comunidades em que vivemos poderá superar a polarização atual. Para ela, "juntos podemos fazer com que antigas e mal compreendidas palavras como ''liberalismo'' voltem a ter algum significado; juntos poderemos combater mentiras e mentirosos; juntos poderemos pensar em como deve ser a democracia na era digital". Que seja assim para reduzir a polarização que corrói as nossas relações.

INTERINO

02 DE JANEIRO DE 2021
ARTIGOS

DE MÃOS DADAS, FOCADOS NA COMPETITIVIDADE

Acredito que, em momento algum da nossa história, a competitividade se fez tão vital para o RS voltar a crescer quanto agora. Sem uma gestão pública amparada nos pilares da eficiência da máquina pública, da desburocratização e do apoio da iniciativa privada, será praticamente impossível enfrentar o atual contexto econômico.

A competitividade é a capacidade de uma organização cumprir sua missão de forma mais ágil e eficiente do que outras organizações competidoras. Com competitividade, a iniciativa privada busca estar à frente da concorrência, sem o que seria impossível sobreviver no atual cenário econômico global. Neste sentido, o Lide RS sugeriu ao Legislativo que colocasse a pauta competitividade como um dos temas prioritários da ALRS, o que foi transformado em bandeira da gestão do presidente Ernani Polo durante 2020.

Com a interlocução mais efetiva dos empresários com os poderes Executivo e Legislativo, é possível afirmar que, de fato, conseguimos um bom diálogo entre o setor privado e o setor público, algo que já vinha sendo visto desde o governo anterior. O reflexo positivo disto é o entendimento por parte dos gestores de que, para o Rio Grande do Sul crescer, é necessário oferecer aos empresários um ambiente saudável para a prosperidade de seus negócios

Boa parte dos empresários reconhece o esforço que o governo gaúcho vem fazendo no sentido de colocar o Estado novamente nos trilhos. Exemplo disto é o programa Reforma RS, que trata da modernização da gestão pública, do equilíbrio fiscal, das privatizações e concessões.

Em janeiro, novos gestores estarão a postos para comandar os destinos de suas cidades. Continuaremos promovendo a interlocução entre o setor privado e agentes públicos para que possamos conjuntamente pensar em estratégias com ganhos competitivos para o nosso desenvolvimento.

Queremos ver os novos prefeitos atuando estrategicamente, estimulando parcerias inovadoras em busca de bons resultados, executando projetos prioritários, com custos mais baixos, com uso intenso de novas tecnologias e ferramentas inovadoras de gestão. Mas, fundamentalmente, pensando no todo, no quanto estarão impactando a vida das pessoas, no quanto estarão criando um ambiente favorável para quem quer empreender e transformar a realidades das cidades, de suas comunidades, de suas regiões.

Combinando forças entre o público e o privado, certamente poderemos melhorar nossos níveis de competitividade em relação aos outros Estados, obtendo o protagonismo que todos desejamos no cenário econômico e social do país para o nosso Rio Grande do Sul! 

EDUARDO FERNANDEZ

02 DE JANEIRO DE 2021
ARTIGOS

DE MÃOS DADAS, FOCADOS NA COMPETITIVIDADE

Acredito que, em momento algum da nossa história, a competitividade se fez tão vital para o RS voltar a crescer quanto agora. Sem uma gestão pública amparada nos pilares da eficiência da máquina pública, da desburocratização e do apoio da iniciativa privada, será praticamente impossível enfrentar o atual contexto econômico.

A competitividade é a capacidade de uma organização cumprir sua missão de forma mais ágil e eficiente do que outras organizações competidoras. Com competitividade, a iniciativa privada busca estar à frente da concorrência, sem o que seria impossível sobreviver no atual cenário econômico global. Neste sentido, o Lide RS sugeriu ao Legislativo que colocasse a pauta competitividade como um dos temas prioritários da ALRS, o que foi transformado em bandeira da gestão do presidente Ernani Polo durante 2020.

Com a interlocução mais efetiva dos empresários com os poderes Executivo e Legislativo, é possível afirmar que, de fato, conseguimos um bom diálogo entre o setor privado e o setor público, algo que já vinha sendo visto desde o governo anterior. O reflexo positivo disto é o entendimento por parte dos gestores de que, para o Rio Grande do Sul crescer, é necessário oferecer aos empresários um ambiente saudável para a prosperidade de seus negócios

Boa parte dos empresários reconhece o esforço que o governo gaúcho vem fazendo no sentido de colocar o Estado novamente nos trilhos. Exemplo disto é o programa Reforma RS, que trata da modernização da gestão pública, do equilíbrio fiscal, das privatizações e concessões.

Em janeiro, novos gestores estarão a postos para comandar os destinos de suas cidades. Continuaremos promovendo a interlocução entre o setor privado e agentes públicos para que possamos conjuntamente pensar em estratégias com ganhos competitivos para o nosso desenvolvimento.

Queremos ver os novos prefeitos atuando estrategicamente, estimulando parcerias inovadoras em busca de bons resultados, executando projetos prioritários, com custos mais baixos, com uso intenso de novas tecnologias e ferramentas inovadoras de gestão. Mas, fundamentalmente, pensando no todo, no quanto estarão impactando a vida das pessoas, no quanto estarão criando um ambiente favorável para quem quer empreender e transformar a realidades das cidades, de suas comunidades, de suas regiões.

Combinando forças entre o público e o privado, certamente poderemos melhorar nossos níveis de competitividade em relação aos outros Estados, obtendo o protagonismo que todos desejamos no cenário econômico e social do país para o nosso Rio Grande do Sul!

EDUARDO FERNANDEZ


02 DE JANEIRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

DEMORA INJUSTIFICÁVEL

É frustrante constatar que, enquanto ao menos 50 países já começaram o processo de vacinação contra o novo coronavírus, no Brasil, onde há o segundo maior número de mortes no mundo, não existe sequer projeção segura sobre quando se inicia a imunização. A todo momento surgem novas estimativas para deflagrar a aplicação das primeiras doses nos grupos prioritários. Março, fevereiro, janeiro e até os últimos dias de dezembro de 2020 foram cogitados. Parece claro que sobra imprevidência e falta competência.

Em meio a tantos desencontros e sinais de desorganização, a quantidade de casos e de vítimas fatais volta a subir, assim como sobe a angústia da população. Não há certeza sobre quando o produto desenvolvido pela universidade de Oxford com a farmacêutica AstraZeneca será aprovado para uso no Brasil, embora se espere que a Fiocruz faça o pedido em caráter emergencial ainda neste mês. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro não vem cultivando as melhores relações com a Pfizer, outra opção, e tampouco demonstra grande intenção de fechar contrato para adquirir a CoronaVac, da chinesa Sinovac e desenvolvida em parceria com o Instituto Butantan.

Enquanto os erros se multiplicam, o Brasil - considerado exemplo mundial em outras campanhas de vacinação - está prestes a atingir a sombria marca de 200 mil mortos pela covid-19. Cada dia de atraso no início da vacinação significa mais vidas perdidas e incertezas na retomada da economia. Para o desgosto dos brasileiros, a confusão não envolve apenas a aprovação e a compra dos fármacos, mas também a aquisição de insumos essenciais para assegurar um ritmo aceitável de vacinação, quando for iniciada. Soube-se na semana passada que, em um pregão fracassado, o governo federal conseguiu comprar menos de 3% do número necessário de seringas. Espanta que o Ministério da Saúde, apesar dos reiterados alertas, tenha deixado a aquisição de insumos básicos para a última hora, enquanto todo o mundo corre atrás dos mesmos itens.

Se equivoca o presidente Jair Bolsonaro ao afirmar que seriam os laboratórios que deveriam se esforçar para oferecer a sua vacina no mercado brasileiro. Não se trata de um produto de consumo, mas de uma substância essencial para evitar mortes e debelar a pandemia. É o país, portanto, que tem de se apressar para ter os imunizantes e dar a largada na distribuição das doses. Afinal, não existe problema de demanda para as vacinas. Se o Brasil continuar hesitando, outros governos acabarão adquirindo novos lotes, e os brasileiros ficarão ainda mais para trás.

Não se trata de abrir margem para a burla a qualquer legislação, mas a crise sanitária em curso exige menos burocracia. Se as mesmas vacinas estão sendo aprovadas em outros países, não há justificativa razoável para não ocorrer o mesmo no Brasil. A não ser que, como se desconfia, possa existir um grave problema de competência, agravado por má vontade ideológica. Adversário político do Planalto, o governo de São Paulo também é passível de críticas. Após pressionar Brasília, uma sucessão de anúncios previstos não se concretizaram em relação ao registro da CoronaVac no país e à divulgação da eficácia do fármaco, alimentando desconfianças em relação à vacina. É tudo o que o país não precisa. Os brasileiros merecem mais organização e celeridade, e não esta torturante demora que põe vidas em perigo e afeta a confiança de consumidores e empresários, elevando o risco de a economia também se manter enferma.


02 DE JANEIRO DE 2021
LEI KANDIR

RS receberá da União R$ 6 bilhões até 2037

Depois de anos de discussões sem resultados práticos, Estados e municípios começaram, nesta quinta-feira, a receber a compensação por perdas causadas pela Lei Kandir, que chegará a R$ 58 bilhões até 2037 - dos quais cerca de R$ 6 bilhões serão para o Rio Grande do Sul.

Na primeira leva de repasses da União, o governo do Estado recebeu R$ 276 milhões, e as prefeituras gaúchas serão contempladas com R$ 92 milhões, sendo que R$ 57,4 milhões seriam liberados no último dia de 2020 para 328 das 497 cidades gaúchas.

Entre as beneficiadas, estão Porto Alegre (R$ 7,1 milhões), Caxias do Sul (R$ 4 milhões) e Pelotas (R$ 1,2 milhão). A Lei Kandir foi criada em 1996 e, desde então, os governos estaduais são impedidos de cobrar imposto sobre determinados tipos de exportação, acumulando prejuízos bilionários. Os valores nunca foram totalmente compensados pelo governo federal.

Em razão disso, desde então, o tema se tornou alvo de intenso debate, até que o caso foi parar no Supremo Tribunal Federal e, finalmente, terminou em acordo. A decisão virou projeto de lei, foi aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro na última terça-feira.

Ficou acertado que o governo federal repassará R$ 4 bilhões anuais a Estados e municípios de 2020 a 2030. Depois disso, a partir de 2031, haverá redução de R$ 500 milhões por ano, até chegar a um total de R$ 58 bilhões em 2037, sendo 75% para os Estados e 25% aos municípios.

Ainda que o desfecho seja bem aquém do estrago sofrido pelos Estados (só o Rio Grande do Sul, por exemplo, teve prejuízo estimado de R$ 50 bilhões com a Lei Kandir), o resultado é considerado benéfico. Conforme o relator do projeto de lei, deputado federal Lucas Redecker (PSDB-RS), "é um dinheiro que vem em boa hora".

- A dívida estimada, considerando todos os Estados e municípios do país, era de R$ 600 bilhões. Nunca seria paga. Há diferença grande entre a expectativa e a realidade. Chegamos a um acordo possível, que garantirá recursos pelos próximos 17 anos. Conseguimos avançar no debate em um momento difícil. Há muito o que comemorar - ressalta Redecker.

Na Secretaria Estadual da Fazenda, a solução encontrada também é avaliada como positiva. Os primeiros R$ 276 milhões não resolverão nem de longe o problema das finanças, mas ajudarão no fechamento das contas. A título de comparação, a folha salarial dos servidores do Executivo custa R$ 1,2 bilhão por mês, em valores líquidos.

JULIANA BUBLITZ

02 DE JANEIRO DE 2021
CARTA DA EDITORA

Reinvenções na pandemia

Lá em maio, quando já sabíamos que tão cedo a pandemia não nos deixaria, a colunista de economia de ZH e GZH Marta Sfredo, uma profissional que é referência no meio empresarial, teve a ideia de mostrar os impactos da covid-19 pelo ponto de vista de quem tem a responsabilidade de gerir empresas e entidades dos mais diversos ramos.

Marta criou então a seção Cultura Home Office, que passou a ser publicada em sua coluna +Economia de ZH nas edições de final de semana. O convidado de estreia foi José Galló, presidente do conselho de administração das Lojas Renner. Desde então, foram 34 depoimentos de empresários, executivos e líderes de entidades do Rio Grande do Sul que falaram sobre suas rotinas, inquietações, medos, aprendizados, reinvenções e expectativas. Muitos deles, como lembra Marta, contraíram a doença ao longo desse período ou tiveram pessoas próximas contagiadas. Alguns depoimentos emocionaram a colunista, como o de James Bellini, presidente da Marcopolo, que embargou a voz ao contar suas reflexões após superar a covid-19.

Esse conteúdo rico em informações, lições e inspirações para todos nós foi reunido em uma versão digital de Zero Hora. Exclusivo para assinantes de ZH e GZH, os depoimentos, distribuídos em 19 páginas, podem ser acessados pelo celular ou pelo computador.

"O que nasceu de uma forma despretensiosa, acabou se tornando um mosaico tão rico de experiências, aprendizados e reflexões que Zero Hora decidiu unir esses pedaços que ajudam a contar a história da pandemia nos negócios do Rio Grande do Sul", escreve Marta na apresentação desse conteúdo da versão digital de ZH.

Já nesta edição de fim de semana, nas páginas 12 e 13, temos uma reportagem, de Leonardo Vieceli, focada em lições que a pandemia deixou exclusivamente para a área de negócios, segundo líderes empresariais do Estado.

Que todos esses relatos sobre o que aprendemos com 2020 possam servir de inspiração para um 2021 melhor.

DIONE KUHN

Postagem em destaque

Domingo – Dia das Mães Está friozinho aqui na Capital dos pampas e eu estou ouvindo agora, essa canção tão cheia de ternura nesse domingo ...

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