sábado, 6 de março de 2021


06 DE MARÇO DE 2021
LAUDIA TAJES

Força

Enquanto 2021 vai se mostrando um não vale a pena ver de novo de coisas que a gente, infelizmente, já viu, o calendário não para e é 8 de março novamente. Um Dia da Mulher sem aquela rosa vermelha meio murcha na saída do supermercado, ou o décimo gancho de pendurar bolsa na mesa recebido de presente na empresa.

Pensando na força que as mulheres em geral têm demonstrado nesse buraco em que o negacionismo de quem devia enfrentar a pandemia nos jogou, compartilho aqui na coluna um post da psicanalista e professora universitária Luciane Slomka. É o relato do encontro dela com uma amiga que não via há algum tempo, a Kamile.

As palavras da Luciane dão conta do que os profissionais da saúde estão passando. E da inconformidade deles com a falta de colaboração da sociedade para diminuir o caos desse momento, o pior desde que tudo começou. Para as mulheres, nesse dia sem comemoração, minha admiração e felicidade por ser da mesma turma de vocês.

"A Kamile é fisioterapeuta da emergencia do Hospital Moinhos de Vento. Foi la´ que trabalhei com ela nos meus anos de psicologa hospitalar, e a Kamile nao tinha o mesmo olhar de agora. Hoje a encontrei no supermercado e conversei minutos suficientes para querer abraca´-la e chorar junto. Ela disse que tirou uma foto de si mesma hoje pela manha~, ao sair do plantao, para ver a propria feição exausta.

A Kamile me falou do desespero de pacientes jovens se agarrando na roupa dela, pedindo desesperadamente para que não os deixasse morrer. Adultos jovens internando filhos adolescentes, com piora grave do estado geral. Uma mulher jovem com mais de 80% do pulmao comprometido, pedindo para viver porque precisava ver o aniversario da filha.

Os profissionais estao exaustos, deprimidos, revoltados com uma populac¸a~o que nao compreende o que estamos vivendo enquanto sociedade. A Kamile perdeu sete quilos, tem muita dificuldade para dormir, assim como a grande maioria dos colegas.

Olha nos olhos da Kamile e diz para ela que tu ta´ cansado de ficar em casa. Olha nos olhos dela e diz que foi so´ uma viagem curta com poucos amigos para um lugar ?vazio?. Olha nos olhos dela e diz que foi so´ ?uma voltinha para espairecer?, olha nos olhos dela, ouve a voz cansada dela, como eu ouvi, e ve^ se tu ainda na~o vai conseguir entender a gravidade do que estamos vivendo.

Ela me contou que ja´ esta´ começando a fazer escolhas entre quem vive e quem morre. Na~o adianta ter convenio, não adianta ter grana, não tem mais lugar, não tem mais equipe! Se tu te acha imune ao risco, ao menos em respeito a esses profissionais, fica em casa e agradece ter oxigenio para respirar.

Me desculpem a postagem dura, mas eu queria que todo mundo pudesse ter visto o olhar da Kamile, ouvido os relatos dela e sentido um pouco do que a vida dela e de todos os meus bravos ex-colegas de HMV, e certamente de todos os outros hospitais dessa cidade, estao passando. Eu pedi a ela autorizacão para fazer esse post, e ela pediu que eu usasse meu espaço para falar. Porque nem isso mais ela tem energia de fazer.

Fica em casa, usa máscara e cuida dos teus."

CLAUDIA TAJES

06 DE MARÇO DE 2021
LEANDRO KARNAL

O NOVO DÓLAR

NÃO DÓI MUDAR UMA EFÍGIE EM UMA NOTA. ESPECIALMENTE PORQUE ELAS ESTAMPARAM VALORES DE ÉPOCA. E NOSSOS TEMPOS PODEM E DEVEM SER MAIS PLURAIS.

Alguns devem pensar que o dinheiro dos EUA emergiu pronto da explosão do Big Bang. Todavia, os próximos anos devem testemunhar uma mudança no rosto da moeda estadunidense.

O dólar deve seu nome a uma corruptela do thaler, uma das primeiras moedas de prata de grande tamanho cunhadas na Boêmia do século 16. O thaler passou a ser sinônimo de moeda valiosa e ultrapassou as fronteiras do vale em que foi criado originalmente. Era possível encontrá-las por todo o Velho Mundo e, em língua inglesa, ela virou o dollar, quase como uma gíria como "grana" ou "dindim" nos dias atuais. Era usada para expressar dinheiro.

A Inglaterra já usava libras quando isso ocorreu. Por lei, entretanto, a velha Albion não permitia que sua própria moeda saísse das ilhas britânicas, nem mesmo para suas colônias. Por isso, no século 18, era muito difícil encontrar libras e shillings circulando. A moeda que surgia de forma mais comum nas colônias britânicas do Novo Mundo era... mexicana! Ah, a ironia da História!

O México, também desde o século 16, tinha sua própria casa da moeda e cunhava os valiosos "reales de a ocho", um peso de prata que equivalia a oito unidades de menor valor, chamada real. Esse spanish dollar, como era chamado nas 13 colônias, a "grana espanhola", era uma das poucas moedas circulantes por ali. No início do século 18, a crise da falta de moeda estimulou o jovem Benjamin Franklin a escrever um manifesto que reclamava como a situação impedia a economia local de se desenvolver. Além disso, ele passou a imprimir dinheiro, na forma de vales em papel. A Coroa proibiu essa prática também. O ressentimento dessa medida estava entre os fatores listados para a guerra de independência pouco tempo depois.

Guerras custam dinheiro, e isso a colônia não tinha, já vimos. Solução: imprimir dinheiro. O "continental" (nome dado em homenagem ao Congresso Continental que declarara a independência), em sua intenção inicial, se baseava no valor de um "dólar espanhol". As cédulas vinham com o valor estabelecido em um pequeno texto que dizia algo como: este pedaço de papel vale um, 10 ou 20 dólares. Os mais velhos entre nós, leitores, se lembrarão da URV, a unidade que estabelecia quanto valia o real nos tempos que antecederam a implementação de nossa moeda, nos longínquos anos 1990, quando achávamos que vivíamos uma crise.

Imprimiu-se tanto dólar de papel para sustentar o esforço de guerra que eles se desvalorizaram muito rápido. No fim do conflito, já corria o ditado: "Isso vale tão pouco quanto um continental". As cédulas foram abandonadas e, em 1792, estipulou-se a criação efetiva do dólar americano. Nome alemão e referências espanholas, a moeda estadunidense deveria ser feita apenas e tão somente em metal, não mais em papel. Foi uma das primeiras do mundo a se basear em um sistema centesimal, facilitando a compreensão de suas frações (lembram-se do real de oito?). As efígies das primeiras moedas recém-nascidas eram alegorias da liberdade, da vitória e outros valores. Jamais pessoas.

Por quase um século, os americanos tiveram apenas moedas e não mais cédulas circulando. Precisaram de outro conflito para voltar a imprimir dinheiro: a Guerra da Secessão (1861-1865), que rachou o país em dois, Sul e Norte, em torno de várias questões. Tanto um lado quanto o outro, precisando desesperadamente de recursos, voltaram a imprimir dinheiro. O do Norte, criado pelo secretário de Finanças de Lincoln, Salmon P. Chase, era verde e, na sua nota de um dólar, trazia a efígie nada modesta de... Chase! Como na guerra anterior, rapidamente a cédula se desvalorizou e, ao fim do conflito, valia um terço do seu valor de face. Isso porque a cédula verde era uma promessa, um bônus de guerra, que poderia ser resgatado quando os canhões silenciassem.

Pior ocorreu com a moeda sulista, os "dixies", que se desvalorizaram muito mais e, ao fim das batalhas, se tornaram pedaços de papel colorido com o fim do país e a reintegração ao norte.

A decisão de quem deve ou não estampar a cédula de dólar é atribuição do secretário de Tesouro. Critério é que a pessoa deve ser alguém cujo valor de face (literalmente) seja conhecido da história americana como personagem confiável. Por isso, há ex-presidentes e personalidades como Benjamin Franklin. Mas muita gente já entrou e saiu dessa galeria. Ela não é nem nunca foi fixa: só não podem mostrar pessoas vivas.

Daí o anúncio em 2016 de que, em 2020, as notas de US$ 20 deixariam de estampar o presidente Andrew Jackson, um controverso governante que era escravista, por uma notória abolicionista, Harriet Tubman. A primeira mulher negra (moedas de US$ 1 mostram, desde 2000, Sacagewa; ainda no século 19, por curto período, a primeira-dama Martha Washington estampou a nota de um "dólar de prata") em uma moeda norte-americana. Jackson não reclamaria: ele era um feroz opositor das cédulas e de bancos poderosos!

A administração Trump anunciou que o custo seria alto e que postergaria a decisão por, no mínimo, 10 anos. Biden, decidido a desfazer a herança do antecessor, anunciou que iniciaria a substituição.

Viram? Não dói mudar uma efígie em uma nota. Especialmente porque elas estampam valores de época. E nossos tempos podem e devem ser mais plurais. A esperança é associada ao verde, cor tradicional dos dólares. É preciso ter ambos, dólares e esperança.

LEANDRO KARNAL

06 DE MARÇO DE 2021
JULIA DANTAS

COMO CONTINUAR?

Dentre todas as coisas incompreensíveis a respeito da guerra, há uma que sempre voltava à minha cabeça: como as pessoas faziam para ir vivendo suas vidas ao longo de anos e anos de conflito e conseguiam continuar trabalhando, casando, tendo filhos, se mudando de cidade, escrevendo livros, inventando coisas, frequentando bailes, indo à escola?

Me parecia inacreditável que as pessoas conseguissem existir num território sob a ameaça constante de um bombardeio, por exemplo. Como elas faziam para sair de casa e comprar comida sabendo que a qualquer momento suas vidas podiam estar em risco? Também me perguntava, ao ler sobre a ditadura, como as pessoas aguentavam viver sob um regime autoritário, ou como as pessoas aguentavam viver com profunda instabilidade, ou num país com fome e desemprego, com mais dúvidas que certezas. Bom, eu ainda não sei a resposta, mas hoje entendo.

De alguma forma, nossa mente encontra um modo de seguir operando e fabricando o tecido delicado da vida enquanto a ameaça paira ao nosso redor. Ou - devo dizer - isso acontece pelo menos na mente das pessoas que têm a mesma sorte que eu de até agora não terem perdido pessoas próximas para a covid.

Os seres humanos são contraditórios por natureza, e isso pode funcionar a nosso favor. Na véspera da vigência da bandeira preta no Estado, encerrei meu doutorado numa defesa via Zoom que reuniu amigos e familiares num encontro bonito, de aprendizado e abertura para o futuro. Esse rito de passagem foi um momento fora desse tempo: a vida aconteceu ali, naquela manhã de sexta-feira, e fiquei feliz. Quatro dias depois, li a notícia sobre a necessidade de alugar um contêiner refrigerado para armazenar cadáveres e me enchi de angústia e medo. Esses sentimentos opostos encontram espaço para conviver, e a tristeza pela onipresença da morte não anula a alegria das pequenas coisas da vida que ainda podem existir. Talvez seja assim que se sobrevive a um país em frangalhos.

"A Alemanha declarou guerra à Rússia - à tarde, natação", Kafka escreveu em seu diário quando a Primeira Guerra Mundial começou. Parece insensível, mas mostra como os pequenos eventos muitas vezes continuam se desenrolando a despeito dos grandes eventos. Falei dos meus pequenos acontecimentos, mas este texto é para dizer que espero que os profissionais da saúde também estejam conseguindo viver as suas alegrias pessoais. Tenho lido os depoimentos de exaustão. "Quando nós vemos um paciente se despedir do seu familiar ao telefone, todos nós morremos um pouquinho", disse Fabiano Nagel do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, e eu morri um pouquinho também.

As equipes médicas já estão precisando fazer escolhas a respeito de quem vive e quem morre nos hospitais. Não existe literatura nem imaginação suficientes que possam dar a medida desse sofrimento. Eu apenas torço para que, em meio a esse trauma coletivo, os médicos, os enfermeiros, os maqueiros, os faxineiros e todos os outros funcionários que um hospital tem consigam encontrar, na parte íntima da vida, coisas boas às quais se agarrar e continuar aguentando.

JULIA DANTAS

06 DE MARÇO DE 2021
COM A PALAVRA

SOB UMA PAZ ARMADA N A PRISÃO, FACÇÕES SE FORTALECEM NA RUA

Marcelli Cipriani

Pesquisadora na área de Sociologia, 30 anos

Foi premiada com dissertação de mestrado sobre a guerra das facções do crime organizado em Porto Alegre

O macabro cenário de cabeças cortadas e corpos desmembrados que abalou a capital gaúcha em anos recentes virou tema laureado na academia. A cientista social Marcelli Cipriani conquistou o prêmio de melhor dissertação de mestrado em sua área pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) em 2020 com o trabalho Os Coletivos Criminais de Porto Alegre Entre a "Paz" na Prisão e a Guerra na Rua. O tema é a guerra de facções estabelecida na cidade entre 2016 e 2018. Marcelli, que é bacharel em Direito e mestre em Ciências Sociais pela PUCRS e bacharel em Ciências Sociais e doutoranda em Sociologia pela UFRGS, comprovou que a batalha nos bairros não chegou à prisão, onde uma espécie de pacto de não agressão permitiu que as autoridades controlassem a panela de pressão das facções em convivência. Está longe de ser um trabalho teórico. Para realizá-lo, a pesquisadora porto-alegrense aproximou-se de "soldados" de facções, policiais, carcereiros e integrantes do Judiciário. Nesta entrevista, ela conta algumas de suas descobertas.

COMO FOI A LOGÍSTICA DA PESQUISA, INCLUINDO AS ENTREVISTAS COM INTEGRANTES DAS FACÇÕES?

Fiz a pesquisa empírica em duas etapas. A primeira teve como foco a Cadeia Pública de Porto Alegre (Presídio Central). Lá, entrevistei os presos conhecidos como prefeitos, que são os responsáveis pela manutenção do espaço e que fazem uma "ponte" entre o dentro e o fora das galerias, conduzindo demandas coletivas à administração e repassando solicitações e avisos aos demais custodiados. Além dos presos, entrevistei policiais trabalhando no Central, funcionários do estabelecimento e integrantes do Judiciário ocupados com a Execução Penal, como membros do Ministério Público, da Defensoria Pública e da Vara de Execuções Criminais. Ainda pude conversar com presos de galerias consideradas menos "problemáticas" em eventos ocorridos no presídio. Foi a partir desse punhado de depoimentos que deparei com o processo de "pacificação" da prisão, que se mantém apesar da coexistência - no mesmo estabelecimento, ainda que em diferentes galerias - de grupos rivais. 

Na mesma época, comecei a escutar de outros interlocutores sobre os eventos que se desenrolavam nas periferias da Capital e que relatavam um cenário distinto, de conflitos cada vez mais frequentes e extremos. Foi na segunda etapa da pesquisa que tentei entender o que estava ocorrendo, e, para isso, entrevistei adolescentes cumprindo medida socioeducativa em meios fechado e aberto, moradores de áreas de confronto e traficantes. De forma complementar, analisei um apanhado de vídeos e músicas divulgados pelos integrantes de grupos, que circulavam por distintas plataformas produzindo uma continuidade virtual dos conflitos, promessas de vingança e provocações. Na Fundação de Atendimento Sócio-Educativo do Rio Grande do Sul (Fase), no Central e nos Centros de Referência em Assistência Social (Creas) em que fiz pesquisa, conversei com os responsáveis de cada instituição para definir quem seriam os entrevistados. Na rua, entrevistei especialmente moradores. Quanto aos envolvidos no crime, o grosso das entrevistas foi feito nessas instituições.

OS CHEFES DE GALERIAS DO PRESÍDIO LHE RECEBERAM BEM? ONDE FEZ AS ENTREVISTAS, NUM PARLATÓRIO?

Me receberam muitíssimo bem, de forma educada e respeitosa. Sempre deixei claro que eu era uma socióloga e não uma agente do Estado. Ou seja, que meu papel não era de julgá-los nem de ter acesso a informações que pudessem comprometê-los ou me comprometer. Eu não queria saber nomes ou detalhes logísticos, nem acessar dados privilegiados sobre a dinâmica dos grupos - que, quando divulgadas, pudessem vir a ser prejudiciais a algum deles. Meu interesse era conhecer as histórias das pessoas que entrevistei, entrar em contato com suas perspectivas e entender seus pontos de vista, a partir de suas próprias leituras. Fiz as entrevistas em uma sala de atendimento. Pude ficar sozinha com os presos, embora eles estivessem algemados.

ANTES DESSE TRABALHO, VOCÊ JÁ TINHA INGRESSADO NA CADEIA PÚBLICA DE PORTO ALEGRE? O QUE LHE PARECEU O LOCAL?

Não. A primeira vez que acessei o Central foi em decorrência da pesquisa, período no qual fiz dezenas de visitas, tanto para fazer entrevistas quanto para acompanhar inaugurações, eventos, e mesmo ajudar a organizar uma festa de Dia das Crianças e outra de Páscoa. Não cheguei nem perto das galerias consideradas "problemáticas". Só pude transitar pela área administrativa, por alguns pátios e por galerias tomadas como "tranquilas", como G, E e H. O ambiente é insustentável e congrega uma série de afrontas aos direitos e à dignidade dos presos. Esse cenário é amenizado em um ou outro espaço onde não há superlotação, mas a precariedade e a falta de investimento estatal se refletem em todo o prédio. É por isso que trato da "paz" entre aspas, porque não se trata da ausência de violações no ambiente prisional - que nunca deixaram de ocorrer, embora tenham mudado de figura -, mas da redução de instabilidades, das mortes cometidas por presos e do trato violento por parte da polícia, que eram corriqueiros entre a década de 1980 e a primeira metade dos anos 2000.

O QUE PREDOMINAVA QUANDO VOCÊ INICIOU A PESQUISA, ACERTO DE CONTAS INTERNO NAS FACÇÕES OU GUERRA ENTRE ELAS?

Os confrontos que ocorreram entre 2016 e 2018 foram repetidamente nomeados pelos interlocutores como uma consequência da "guerra das facções". Ainda que esse seja um termo frequentemente usado no senso comum para descrever episódios de violência entre grupos criminais, o período trouxe particularidades que o diferenciava de outros momentos no crime. A principal característica da guerra foi a amplitude do engajamento, porque não se tratou de um conflito territorialmente localizado, embora os ataques tenham privilegiado algumas áreas de Porto Alegre. 

A guerra produziu um afunilamento das relações no mundo do crime, que ficaram praticamente polarizadas entre o embolamento dos Bala na Cara e o dos Antibala, aqui entendidos como frentes de aliança constituídas por vários grupos, que formam uma rede de apoios recíprocos e convergem para inimigos comuns, marcando quem são seus aliados e seus "contras". Apesar de ambos serem entendidos como embolamentos, o primeiro corresponde a uma facção muito mais expressiva - os Bala na Cara - em torno da qual gravitam grupos aliados, enquanto os Antibala são uma composição entre agrupamentos, conquanto também haja diferenciações entre eles. Foi a declaração de existência do embolamento Antibala que marcou o início da guerra - e, segundo seus integrantes, a criação foi motivada pelo acúmulo de ofensivas dos Bala na Cara, um grupo que eles tomavam como opressor e cujas práticas, em sua interpretação, não estariam "pelo certo". 

Assim, embora interesses instrumentais e estratégicos estivessem presentes - em especial, refrear os avanços dos Bala na Cara e se proteger de seu expansionismo -, o estopim da guerra envolveu uma distinção discursiva no plano da "ética do crime", forçando uma tomada de posição de todos os agrupamentos, que tinham de decidir de qual lado estavam. Como decorrência, novos conflitos surgiram, porque grupos que inicialmente não se enxergavam como rivais passaram a se entender dessa forma por estarem associados a embolamentos opostos. Em paralelo, rivalidades pontuais que já existiam foram redimensionadas, pois seu caráter local ia sendo incorporado a essas grandes frentes de grupos, com adesões e simpatizantes espraiados por todo o município. Com isso, o número de inimigos potenciais de cada coletivo se tornou muito mais expressivo e pulverizado, dado que o binário "aliado e contra" mudou de figura: passou da escala dos grupos para a dos embolamentos.

QUAL O FATOR DE MAIOR IMPORTÂNCIA PARA A PACIFICAÇÃO E A REDUÇÃO DE HOMICÍDIOS DESDE 2016?

Em geral, oscilações nos índices de homicídio dependem de vários fatores. Enfatizando apenas as dinâmicas das facções, ou seja, sem considerar o papel das instituições de controle do crime, compreender o aumento da violência letal durante a guerra ajuda no entendimento da redução posterior. Afora os sequestros seguidos de morte, uma das principais táticas usadas no período foi a dos "atentados". Grosso modo, são ataques feitos em grupo, direcionados a vilas rivais, em que os indivíduos passam atirando com a intenção de "tocar o terror nos contras" e não de "tomar a boca". Ou seja, os homicídios cometidos nos atentados não se tratavam de um meio para atingir um fim imediato; eram um tipo de performance, uma forma de provocar o inimigo. Cada uma dessas incursões gerava represálias, que serviam não só para vingar os assassinados, mas também para reparar a "moral" do embolamento lesada com a afronta. 

Tornando-se uma tática contínua para afirmação do poder, os atentados levaram a um ciclo de violência recíproca entre Bala na Cara e Antibala, instigando reações não só de uma ou outra boca, mas de toda a frente de aliados. Como a vingança era devolvida nos mesmos termos - com disparos a esmo, em bocas ou vilas rivais -, não necessariamente atingia os responsáveis pelo atentado que a motivou, envolvendo cada vez mais pessoas, bem como suas redes afetivas, nesse confronto cíclico. Assim, no momento em que uma vingança era concretizada, equilibrando os termos, também inseria outros atores na relação, o que produzia uma nova demanda por vingança. A popularização dessa tática de "tocar o terror" foi um elemento central para a escalada de homicídios vista entre 2016 e 2017 em Porto Alegre. 

Porém, ao final desse período, algumas coisas já haviam mudado, contribuindo para que os grupos cessassem os ataques e os índices começassem a baixar. No início de 2018, o V7 - principal grupo na articulação dos Antibala - já tinha conquistado duas galerias no Central, elevando seu status no crime. Apesar desse salto qualitativo, que foi um saldo da guerra, o estado permanente de conflito não era interessante para ninguém no âmbito dos negócios. Um "crime pacificado", como costumam defender os Manos, não só possibilita a preservação da vida dos envolvidos como maximiza os rendimentos, já que a guerra contribui para afastar os consumidores da boca, estremecer a presença das facções nas comunidades e intensificar as operações policiais. Diante de uma guerra cuja principal dimensão, a partir de certo momento, não estava rendendo ganhos territoriais para ninguém, o custo se tornou muito alto. Essa racionalidade foi incorporada pelos grupos e colaborou para um cessar fogo em 2018 - que, porém, sempre pode vir a ser abalado por tentativas de retomada de território, pretensões expansionistas, novas alianças e rivalidades, dentre outras razões.

NO INTERIOR, NÃO VIGORAM MUITOS ACORDOS. FACÇÕES QUE COLABORAM COM OS MANOS TÊM DISPUTAS COM OS BALA NA CARA. POR QUE, SE EM PORTO ALEGRE FUNCIONAM ALGUNS ACERTOS TERRITORIAIS?

O grau de estruturação do crime não é o mesmo. Na Capital, a reorganização das facções em torno de embolamentos passou a conceder dimensões muito mais expressivas para qualquer tipo de conflito. Por meio do apoio, um mecanismo que pressupõe a reciprocidade de favores e serviços entre aqueles que estão embolados, bocas invadidas podem recorrer a uma vasta rede de aliados para pedir auxílio na defesa de seus territórios, o que envolve o empréstimo de armas e a agregação de indivíduos. 

Assim, confrontos pontuais podem facilmente escalar para disputas generalizadas, o que aumenta o grau de imprevisibilidade dos ataques. Ademais, em Porto Alegre, alcançou-se uma espécie de estado de saturação, o que torna a conquista de novos territórios mais delicada, especialmente considerando-se a tendência ao controle, pelos embolamentos, de vilas inteiras ou de grandes trechos de vilas, que se tornam áreas fortemente protegidas. Não me ocupei com o processo de interiorização dos agrupamentos, mas os dados que colhi sugerem que esses foram fatores que contribuíram para a transferência de interesses dos grupos para outros municípios, onde a expansão territorial é mais viável. 

O método utilizado parece ser semelhante ao da constituição de embolamentos, já que grupos maiores - como Bala na Cara e Manos, que em Porto Alegre não se atacam - se vinculam, por meio do apoio, a agrupamentos nativos de bairros interioranos, que se tornam os principais protagonistas nos enfrentamentos que lá ocorrem. Assim, os grupos grandes disponibilizam armamento, partilham expertise e eventualmente enviam pessoal para o Interior, em troca da aliança dos grupos menores, de sua fidelidade na compra de drogas e do engajamento nos conflitos locais. Com isso, as duas principais facções da Capital operam como investidoras dessas disputas -recebendo, em retorno, a ampliação de sua esfera de compradores e assegurando a presença em novas áreas. Ao mesmo tempo, preservam o núcleo duro de cada embolamento, pois seguem mantendo o acordo de paz em Porto Alegre, em que o enfrentamento direto traria poucos benefícios.

SEU TRABALHO MOSTRA QUE EXISTIA UM ACORDO DE NÃO AGRESSÃO DENTRO DOS PRESÍDIOS, PELO MENOS NOS MAIORES. POR QUE AS FACÇÕES NÃO REPRODUZIAM ISSO FORA DA CADEIA?

O principal objetivo da administração prisional é manter a prisão funcionando sem o surgimento de problemas, especialmente aqueles que têm alto custo político, como motins, rebeliões e homicídios. Esse é um grande desafio para a polícia diante de questões como a falta de efetivo, a superlotação, o pouco investimento no preso e no sistema e as dificuldades para o contato com os custodiados, já que as celas do Central não têm grades e a polícia não entra rotineiramente nas galerias, por onde circulam centenas de presos. Na prática, trata-se de uma situação inviável, que a polícia não tem como realmente resolver, no máximo gerir. Então, para que a gestão seja possível sob essas condições, eventualmente percebeu-se que era preciso incorporar os presos nas engrenagens, contando com a sua contribuição para organizar as relações nas galerias, repassar solicitações de atendimentos, efetuar tarefas do dia a dia e mesmo reduzir a precariedade de vida dos presos. Assim, as facções organizam certas situações, evitam conflitos, oferecem complementos à alimentação e material de higiene, fazem melhorias estruturais no prédio e até bancam a contratação de serviços, como dedetização do ambiente e compra de itens de limpeza. Assim, a facção assegura condições um pouco melhores para os presos, garante a "paz" e se consolida diante da população encarcerada, solidificando os laços de lealdade e gratidão. 

De outro lado, garantindo a ausência de violências e de turbulências entre custodiados e mantendo o diálogo com a administração, os integrantes das facções podem gerir suas galerias, autorizar ou vetar a entrada de novos moradores - o que é uma forma de a polícia evitar conflitos internos pela incompatibilidade entre presos - e criar suas próprias regras de convivência. Com isso, porém, a galeria torna-se um nicho de relações negociais e para a construção de alianças, agregando traficantes de lugares variados e viabilizando trocas comerciais. 

Ainda, possibilita a projeção de territorialidades para o lado de fora, já que as alianças firmadas na prisão serão refletidas na geopolítica dos bairros, em novos arranjos de compra e venda de drogas e de armamentos, nos favores e serviços recíprocos entre agrupamentos etc. Portanto, sob uma "paz armada" na prisão - que certamente é melhor para todos, presos e policiais -, os grupos aproveitam para se fortalecer na rua, onde o eixo de seu antagonismo não é mais com a polícia, mas com os "contras". Nesse sentido, pode-se dizer que a "pacificação" prisional permite a convergência entre os interesses das facções e as necessidades funcionais da administração, já que esse tipo de reprodução do sistema em "ordem" gera, ao mesmo tempo, o empoderamento dos grupos do lado de fora e a viabilidade cotidiana da prisão. Entretanto, esse equilíbrio entre polos opostos não necessariamente se reproduz na rua, onde a configuração entre guerra e paz é outra - e, no caso de Porto Alegre, tem como foco os acordos ou conflitos entre as facções e não entre facções e polícia.

OS PREFEITOS DAS GALERIAS RIVAIS FALAVAM ENTRE SI? CHEGAVAM A SE ENCONTRAR?

Em geral, ficam bem separados, há toda uma logística para uso do pátio e dos corredores para evitar problemas. Mas, em alguns momentos-chave, eles foram chamados para reuniões coletivas com a administração prisional ou o Judiciário. É compreensível, já que, se uma galeria brigar com a outra, o Batalhão de Choque vai entrar - "A polícia vai ter que medir força com a gente, o que não é bom para ninguém", disse um entrevistado -, a luz e a água serão imediatamente cortadas, os presos perderão o direito à visita. Como falou outro: "Todo mundo, a segurança, os presos e as prefeituras das galerias que se atacarem vão ter algum prejuízo. 

E dificilmente vai ter um retorno. Pra que fazer?". E outro: "A gente se tolera porque todo mundo sai ganhando. Então a gente decidiu viver melhor assim, se respeitar, se tolerar. Até os inimigos têm que se aturar. Tem cara que é inimigo de morte na rua, mas que aqui só se olha... Se intimida". A regra, enfim, colou: "Aqui, nós, líderes de galerias, nos damos bem. Na rua não vai ser da mesma forma, mas aqui a coisa é assim". 

HUMBERTO TREZZI

06 DE MARÇO DE 2021
DRAUZIO VARELLA

TRANSMISSÃO DA COVID DEVE PERSISTIR POR ANOS

O futuro a Deus pertence, dizia minha avó. Em relação ao futuro do atual coronavírus, no entanto, os modelos matemáticos permitem fazer algumas previsões.

A revista Nature, uma das publicações científicas mais respeitadas do mundo, perguntou para cem pesquisadores nas áreas de epidemiologia, infectologia, virologia e imunologia se o coronavírus que se dissemina pelos quatro cantos será erradicado.

Responderam que o vírus continuará a circular em bolsões espalhados pelo mundo 89% dos cientistas entrevistados. Segundo eles, o Sars-CoV-2 se tornará endêmico, isto é, sua transmissão persistirá por anos ou décadas em várias regiões do globo.

Quando a pergunta foi se ele será eliminado pelo menos em alguns países, apenas 40% julgaram que isso seja provável.

A dificuldade de erradicação, entretanto, não significa que o número de mortes e a necessidade de isolamento continuarão na escala atual. O futuro dependerá de dois fatores cruciais. Um é a duração da imunidade adquirida por infecção natural e pela vacinação. Outro são as características das variantes que emergirão.

Os quatro coronavírus anteriores, causadores de resfriados comuns, e o vírus da gripe (influenza) também são endêmicos, mas convivem com a humanidade sem lockdowns e medidas restritivas ao convívio, embora a gripe cause no mundo pelo menos 650 mil mortes anuais.

Certamente, haverá países que chegarão à imunidade coletiva por meio da vacinação da quase totalidade de seus habitantes.

Ainda assim, sobrarão pessoas suscetíveis que correrão risco de adoecer, pela reintrodução do vírus trazido por viajantes oriundos de áreas em que a aderência às medidas de prevenção e os índices de vacinação sejam baixos.

É provável que em países como o nosso, daqui a dois ou três anos, passe a existir algum grau de imunidade induzida pela doença ou pelas vacinas, capaz de nos proteger contra casos como os que agora superlotam as UTIs.

Quando esses níveis de proteção forem alcançados, o primeiro encontro com o Sars-CoV-2 se dará na infância, fase em que os sintomas da covid são brandos, semelhantes aos dos resfriados comuns.

Essa possibilidade faz sentido. Quatro dos outros coronavírus causam resfriados em seres humanos há centenas de anos; dois dos quais respondem por 15% das infecções respiratórias. A maioria das crianças infectadas por eles antes dos seis anos de idade desenvolve imunidade temporária, que não evita novos resfriados, mas assegura proteção contra quadros mais graves na vida adulta.

Não é possível prever se a imunidade contra o Sars-CoV-2 seguirá os mesmos passos. Os estudos mostram que os níveis de anticorpos neutralizantes produzidos contra ele começam a cair depois de seis a oito meses da doença, mas permanecem células de memória capazes de respostas imunológicas mais rápidas se houver nova infecção. Apesar de ocorrerem reinfecções pela mesma ou por variantes novas, esses casos são relativamente raros.

Ao contrário da situação atual de pandemia, mantida pelo grande número de indivíduos suscetíveis, a fase de endemia será atingida quando o número de novas infecções se mantiver relativamente estável no decorrer de anos, embora possam acontecer surtos esporádicos.

A gripe espanhola de 1918 levou 50 milhões à morte. Desde então, praticamente todas as epidemias de influenza A que se disseminaram pelo mundo foram causadas por variantes descendentes daquela de 1918. Um vírus se torna sazonal, isto é, passa a atacar em determinadas épocas do ano, quando a maior parte da população está imune a ele -por contato prévio ou vacinação.

É difícil prever quando um país como o Brasil, sem disponibilidade de vacinas em número suficiente e com tanta dificuldade em conseguir que a população use máscara e evite aglomerações, atingirá a sonhada imunidade coletiva. Quanto tempo levaremos? Um ano ou dois? Os piores dias ainda estão por vir?

DRAUZIO VARELLA

06 DE MARÇO DE 2021
BRUNA LOMBARDI

SORORIDADE

Uma amiga querida me ligou de repente numa manhã e disse: "Perdi tudo o que eu tinha. Minha casa inteira queimou e tudo, absolutamente tudo, virou cinzas".

Eu vinha acompanhando apreensiva daqui de São Paulo os grandes incêndios na Califórnia que avançavam com ventos e clima seco e tinham chegado em Malibu, onde ela morava.

Durante o verão, o deserto californiano costuma pegar fogo, e não chove nunca, por isso existe um forte esquema para proteger os residentes e suas casas. Quando a área corre risco, todos os moradores precisam sair de emergência e vão ter um tempo limitado para pegar tudo o que querem salvar.

Com ela, foi no meio da noite. Veio o aviso e ela, sozinha, correndo, pegou as duas filhas, os cachorros e o gato, documentos, computador, celular e mais algumas coisas que na pressão pareceram essenciais e enfiou tudo no carro.

E nessa madrugada caótica, entre chamas e forte fumaça no caminho, entre bombeiros, polícia e moradores atônitos, ela atravessou o fogo dirigindo. Dirigiu durante horas entre o terrível calor das labaredas e a fumaça que mal a fazia enxergar a estrada. E não teve tempo de pensar no medo.

Minha amiga é uma heroína no meio de tantas heroínas anônimas, que realizam grandes feitos que passam despercebidos.

Quantas mulheres no mundo enfrentam as piores adversidades e criam seus filhos sozinhas na maior dificuldade? Não são notícia: não haveria espaço suficiente em todos os jornais do planeta para falar delas.

Viemos todas de uma linhagem de mulheres guerreiras, batalhadoras. Descendemos todas nós de grandes tribos, temos lendas e histórias na nossa ancestralidade dessas mulheres fortes e vencedoras, desde o começo dos tempos. Mas esse poder foi roubado gradativamente, e em seu lugar, instaurados o medo e a submissão.

Portanto, toda conquista de uma mulher é sempre uma reconquista. Ela volta a ocupar o lugar que sempre foi seu. A coisa mais importante e corajosa que uma mulher pode fazer é ser ela mesma. A melhor coisa que uma mulher pode conquistar é a própria liberdade.

A verdadeira beleza começa quando nos conhecemos e aprendemos a ser nós mesmas. Esse é o real poder, aquele que sentimos quando somos livres.

Percorremos um longo caminho para chegar a nós mesmas. Algumas de nós correram, outras vieram devagar e nada disso importa. Cada uma tem seu tempo.

E precisamos nos unir. A competição que nos instigam a ter é apenas uma forma efetiva de nos dividir, porque mulheres unidas são imbatíveis. A vida não é fácil, mas nós também não somos.

Quem pensa que nos derruba na verdade espalha nossas sementes. Quem pensa que nos quebra não sabe o mosaico maravilhoso que fazemos com os nossos cacos.

A gente aprende a compreender a importância das nossas vozes cada vez que nos manifestamos. E sempre que tentam nos silenciar, voltamos num forte e sonoro coro que transforma as circunstâncias.

Basta ver quantas conquistas e quantos movimentos, que pareciam impossíveis, as mulheres unidas fizeram acontecer. Sister, onde quer que você esteja, estamos juntas e solidárias na nossa irmandade.

BRUNA LOMBARDI
 

06 DE MARÇO DE 2021
J.J. CAMARGO

NOSSA JUVENTUDE É AUDACIOSA. OU O QUÊ?

As presunções são muitas, mas a sensação final, frente a tantas manifestações de imprudência, é de que há alguma coisa a mais por trás dessa aparente "bravura juvenil". Como tudo o que se diga atiça uma resposta com ares de provocação, talvez a nossa abordagem não esteja pedagogicamente adequada.

O convite que recebi era para uma live esclarecedora sobre os riscos que todos corremos com as aglutinações, que na juventude aparentemente são estimuladas pelas proibições, um comportamento frequente entre adolescentes ingênuos e adultos jovens imaturos, servindo de modelos de uma conduta abestalhada.

Não havendo como antecipar as reações do grupo, me aventurei pelo caminho mais lógico, o das verdades científicas, com todas as incertezas que a ciência ainda não resolveu. Usando os olhos dos meninos como monitores da aceitação, fui avançando pelos caminhos inseguros do convencimento. Desisti precocemente de falar das características do vírus porque nada é mais enfadonho do que o retrato falado do invisível.

Ao confessar que ainda estamos aprendendo sobre uma doença nova que, diferentemente dos outros vírus que comprometiam, quase exclusivamente, os pulmões, este tem sido encontrado praticamente em qualquer órgão, tive a percepção de alguns bocejos.

O início da recuperação do interesse da plateia de garotos coincidiu com a informação de que este novo corona foi encontrado até no sêmen. Foi impressão minha ou alguns, prudentemente, cruzaram as pernas?

A informação de que um de cada quatro sobreviventes de formas graves, aqueles que exigiram respiração artificial, morreram nos seis meses seguintes à alta, e de que 40% deles necessitaram de reinternação neste mesmo período para tratamento de sequelas da doença, impressionou menos do que esperava, porque os meninos partiam do princípio que as vítimas deviam ser mesmo pacientes em idade de morrer, em que a covid-19 foi uma mera despachante.

Admiti que a idade não ajuda nada, especialmente na análise comparativa com os jovens, quanto à cognição e memória, significativamente alteradas nos idosos que adoeceram. Mas, querendo recuperar o interesse da galera, passei a falar do dano muscular, um alvo de preocupação naquela fase da vida em que cérebro e músculo disputam primazia.

Vários mudaram de posição na cadeira quando citei uma pesquisa que acompanha atletas pós-covid, que demoram muito ou não conseguem, na convalescência, retornar aos índices de excelência física que a atividade atlética de alta performance exige, e que isso tem sido atribuído a uma "má fase", quando na verdade é provável que o problema esteja no coração, que como músculo que é, pode demorar muito a voltar a ser o que era.

A primeira pergunta, quando abrimos o espaço para o debate, foi emblemática: "Por que nós, jovens, temos que ficar privados da nossa liberdade, se essa é uma doença de velhos?". Senti, então, que a minha apresentação ia finalmente começar!

- Duas razões, e vocês estão convocados a dar-lhes a ordem de importância: primeiro, desejo ardentemente que vocês tenham pais, e torço que ainda tenham avós! Se for assim, espera-se que vocês não pretendam ser cúmplices do vírus na eliminação deles. Segundo, a nova onda de infecção está com perfil diferente, envolvendo mais pacientes jovens, sem nenhuma comorbidade conhecida. 

Então aconselho-os à autopreservação, porque a morte na juventude é maneira menos inteligente de evitar a descoberta de que a velhice não é a pior coisa que pode acontecer a alguém. Deste privilégio foi agraciada a minha geração, que já superou esta idade audaciosa e agora está preocupada com vocês, que não têm nenhuma certeza que envelhecerão.

No final, resolvi investigar: - Pessoal, vendo as aglomerações nos bares, fiquei curioso: e se alguém aparecer de máscara, o que acontece com ele? Um desavisado confirmou minha intuição: "Leva a maior vaia da galera!".

Questão respondida: a ousadia é falsa. O constrangimento do bullying é verdadeiro!

J.J. CAMARGO

06 DE MARÇO DE 2021
DAVID COIMBRA

É possível falar bem de políticos

Eu, com os políticos, eu tenho certas reservas. Não que os considere todos desonestos, claro que não. Não existe, em Brasília, uma árvore que dê muda de político, eles saem do meio do povo, um era sindicalista, outro era empresário, outro era jornalista.

O que me faz desconfiar do político é a natureza da sua atividade. Ele lida com poder, dinheiro e interesses. Ele está sempre cercado de tentações, como Jesus no deserto da Judeia.

É fácil resistir às tentações quando não se é tentado. Você é fiel à sua mulher, mas a Ísis Valverde nunca lhe mandou um olhar de ladinho. E se ela mandar? Você resiste? Alguém, alguma vez, já lhe ofereceu R$ 1 milhão em troca de uma facilidade escusa? Como você pode ter certeza da sua integridade se ela nunca foi posta à prova?

A integridade dos políticos, pelo menos dos que têm alguma importância, está sempre sendo posta à prova. No livro A Organização, de Malu Gaspar, ela conta como a Odebrecht mapeava os políticos em ascensão para cooptá-los com mimos antes mesmo que eles se tornassem relevantes. Uma espécie de pagamento antecipado para favores futuros.

Mas é evidente que muitos políticos, como Jesus no deserto da Judeia, resistem às tentações. O Rio Grande do Sul é pródigo na produção de políticos probos. Já citei e de novo cito alguns políticos retos que não atuam mais: à direita temos os reluzentes exemplos de Germano Bonow, apesar de ter sido, imagine, do PFL, e Guilherme Vilela, talvez o melhor prefeito da história de Porto Alegre. Mais ao centro, uma lenda: Pedro Simon. À esquerda dele, um gigante: Leonel Brizola. E, entre os petistas, muitos que me detestam por minhas críticas aos governos de Lula e Dilma: Olívio Dutra, Flávio Koutzii, Bisol e Raul Pont, que, tempos atrás, escreveu um artigo me desancando e falando mal até de Boston, que foi o que me deixou mais chateado.

Quero dizer, desta forma, que tento ser justo quando faço uma análise. Não levo discordâncias para o lado pessoal, a não ser que o político me ataque pessoalmente e, assim, revele um pedaço do seu caráter. Não faz muito, Tarso Genro publicou um artigo em sites me classificando como "bolsonarista extremado". Fiquei irritado. Não exatamente pela classificação, que, para mim é, sim, uma ofensa, mas porque Tarso sabe que não é verdade. Ele foi malicioso, maldoso e injusto, e disse isso a ele.

Tudo bem, passou. Tudo certo.

Mas é preciso destacar que talvez eu tenha sido o primeiro jornalista a publicar crônica pedindo ao eleitor "Não vote em Bolsonaro", e o fiz dois anos antes da eleição. Às vésperas da votação, essa coluna foi recuperada por petistas e viralizou na internet.

Continuo achando que a eleição de Bolsonaro foi um erro, e ele reforça essa convicção todos os dias com sua grosseria, sua falta de educação, sua inépcia e sua crueldade. A forma como se comporta na pandemia, então, é mais do que reprovável. É triste.

Mas sou capaz, sim, de elogiar a ação de algum político em atividade. Disse de Marchezan, quando ele saiu da prefeitura: foi um bom prefeito. Se seria de novo, não sei. Se fará algo mais de positivo, também não sei. Falo do que fez.

Posso falar, também, do que está sendo feito, e me refiro agora ao governador do Estado, Eduardo Leite. Ele lançou sua pré-candidatura à Presidência da República e, a partir daí, entrou na linha de tiro dos bolsonaristas. Virou o inimigo a ser abatido. É essa, mais do que quaisquer outras, a razão das acerbas críticas que vem recebendo pelo seu manejo da crise do coronavírus no Estado.

É óbvio que muitas pessoas são contra o fechamento do comércio. Ninguém gosta de uma medida tão radical e, no começo da pandemia, também achei que houve algum exagero. Mas, agora, não. Agora é necessário. Estamos vivendo o pior período da peste. O mais grave.

Assim, com um pé atrás, as mãos espalmadas para a frente e algum receio no peito, afirmo: Eduardo Leite está certo. Precisamos ter disciplina germânica e fleuma britânica pelo menos por mais duas semanas. Depois, quem sabe, pode haver um relaxamento, e o comércio retorne, sempre com cautelas, que esse é um tempo de cautelas. Em momentos de perigo, o líder tem de tomar atitudes assertivas. É o que o governador está fazendo. E está fazendo bem. E, olha, eu com os políticos, eu tenho certas reservas.

DAVID COIMBRA

06 DE MARÇO DE 2021
FLÁVIO TAVARES

PANDEMÔNIO E PANDEMIA

Nunca pretendi ser profeta nem vaticinar e, nas raras vezes em que "li" as linhas da mão, inventei a esmo, só para alegrar. Sete dias atrás, porém, alertei aqui para o perigo de o caos em torno da pandemia ampliar-se por si só, criando pânico.

Agora, estamos chegando perto disso, tal qual ocorre no modelar Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, no qual a dificuldade já não é salvar vidas, mas - sim - onde colocar os mortos por covid-19. O necrotério está repleto e os cadáveres passaram a ser guardados em contêineres refrigerados, normalmente utilizados para frangos e outras carnes de cozinha.

Serão essas as nossas "novas façanhas" apregoadas na propaganda do governo estadual? Ou isto busca, apenas, preparar-nos para a morte, não para a vida em si?

De outra forma, repete-se na capital gaúcha a tragédia de Manaus, no distante Amazonas. Lá, as mortes pela peste criaram o que foi chamado de "crise de sepultamento", pois faltaram coveiros para cavar sepulturas.

Aqui, o primeiro ato do prefeito Sebastião Melo foi adquirir cloroquina para remediar a peste. Ignorou as advertências da medicina (de usar cloroquina só em casos de malária) e preferiu guiar-se pelo improvisado médico-charlatão instalado no Palácio do Planalto. Com isto, expôs a população ao horror.

A vereadora Comandante Nádia, vice-líder do governo da Capital, acusa os críticos do uso da cloroquina, de "obstruírem o tratamento da pandemia", invertendo as conclusões da própria ciência médica. No final de 2020, prefeito e secretários municipais receberam Bolsonaro na ponte do Guaíba, acintosamente sem máscaras. O absurdo completou-se, dias atrás, com o secretário municipal da Saúde afirmando que "o pior já passou".

Por tudo isso, nossa capital já não tem as cores farroupilhas e, agora, é "bandeira preta" ou "vermelha", indicando o horror. Ou o pandemônio na pandemia retratado nos contêineres refrigerados, cheios de cadáveres.

Pandemônio é um neologismo criado pelo poeta inglês John Milton no século 17, para significar "a capital do Inferno" ou "o palácio de Satã" e, modernamente, tem o sentido de tumulto, balbúrdia ou confusão.

Agora, o presidente Bolsonaro reuniu todas essas acepções negativas para apregoar que a máscara antipandemia provoca efeitos colaterais, como irritabilidade, difícil concentração, recusa de ir à escola, vertigem e desânimo, além de "diminuir a percepção de felicidade".

É o pandemônio inundando a pandemia.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

06 DE MARÇO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

UM ANO DE PANDEMIA NO RS

Na próxima quarta-feira, completa um ano o primeiro caso do novo coronavírus no Rio Grande do Sul. Esta trágica efeméride, exatamente nos dias em que o Estado vive o período mais crítico da pandemia, abre a oportunidade para um balanço e uma série de reflexões sobre como a sociedade e o poder público reagiram a esse episódio, que ficará marcado para sempre na história do mundo.

É inevitável admitir o fracasso na contenção dos contágios, embora não seja um insucesso restrito ao Rio Grande do Sul, mas disseminado pelo país, pelo equivocado incentivo a uma divisão que criou a falsa dicotomia entre saúde e economia. Apesar de alertas e súplicas das autoridades responsáveis, não foi possível manter o distanciamento social nos níveis desejados, por uma profusão de razões, como negacionismo, a impossibilidade de isolamento da população que vive em condições precárias, a alta informalidade no trabalho e, por fim, o relaxamento e uma dose de egoísmo em aglomerações e festas clandestinas. O resultado não poderia ser pior: o Estado soma 13 mil mortes e foi inevitável reeditar restrições a atividades, com impacto negativo na economia.

Embora prevaleçam, não há apenas aspectos negativos a ressaltar. A pandemia desnudou ainda mais a desigualdade no país - e no Rio Grande do Sul -, mas ao mesmo tempo provocou o surgimento de uma onda irrefreável de solidariedade para amparar os mais necessitados que uniu empresas, entidades e cidadãos. Impelida pela necessidade, a tecnologia e a digitalização avançaram de forma poucas vezes vista em áreas como saúde, na própria economia e na educação, apesar de aqui, no ensino, também ter se formado um pesado passivo a ser recuperado. Graças ao esforço de um grande número de cientistas espalhados pelo planeta, o mundo ganhou uma série de vacinas contra a covid-19 em tempo recorde. São a esperança palpável para o fim deste pesadelo global que, infelizmente, hoje açoita de forma drástica o Rio Grande do Sul. É o facho de luz em meio às trevas.

Além da solidariedade, o Estado viu surgirem milhares de heróis anônimos. São os profissionais de áreas essenciais como segurança, transportes e outros serviços de utilidade pública, mas principalmente da área da saúde. Submetidos a desgastantes jornadas e à exaustão de um ano na trincheira dos hospitais, dedicam-se diuturnamente para salvar vidas. Algumas dessas pessoas em funções mais proeminentes, talvez em um futuro não tão distante, serão devidamente reconhecidas e receberão justas homenagens pela dedicação e desprendimento. Sabem estar do lado certo da História, ao contrário de outras lideranças que se notabilizaram por agir na contramão das orientações científicas e, indiferentes ao sofrimento alheio, um dia talvez tenham de acertar as contas com a Justiça.

Ficam lições como a necessidade de olhar mais para a ciência como instrumento de desenvolvimento e de precaução para outras calamidades que possam vir e a urgência de se combater a vergonhosa desigualdade, que no Rio Grande do Sul é um pouco menor em relação à média brasileira, mas mesmo assim atinge níveis inaceitáveis. Mesmo desgastada, é a política, com a pressão e a participação da sociedade, que tem de dar as respostas e implementá-las. Chegou a hora de os agentes públicos sensatos unirem esforços em busca de uma guinada na trajetória do Estado e do Brasil. Se não for agora, em meio a este marcante e traumático episódio da humanidade, será quando?


06 DE MARÇO DE 2021
MARCELO RECH

Quem está no comando?

A pandemia dividiu o mundo em três categorias. Há os países que controlaram o coronavírus, os que são controlados por ele e os que estão em transição entre os dois estágios. Entre os que controlaram, identificam-se desde a rica Austrália ao modesto Camboja. Na transição para o controle, estão, por exemplo, EUA, Portugal e Israel. Já na categoria dos controlados pelo vírus, desponta o Brasil.

O Brasil não está onde está por trapaça do destino. Chegamos ao epicentro da mais aguda tragédia da República muito pelo fato de o presidente governar, mas não liderar, o país em sua guerra mais traiçoeira. Lembremos: a heroica Força Expedicionária Brasileira perdeu 457 pracinhas nos campos da Itália da Segunda Guerra, menos do que uma noite de homens e mulheres tombados pelo coronavírus em hospitais e nas filas de UTI do Brasil de março de 2021.

A liderança é um dom que está presente ou aflora em momentos decisivos. Churchill salvou sua pequena ilha da sanha nazista não pelo mero repasse de impostos britânicos para distritos e condados, mas pela força inspiradora que levou o Reino Unido a resistir, enfrentar e vencer o inimigo. Esperar algo parecido de Jair Bolsonaro seria injusto com ele. A tarefa de mobilizar o Brasil em sua mais devastadora guerra sanitária, social e econômica vai muito além de sua capacidade e senso de liderança, que até a Presidência só haviam sido testados em uma indisciplinada carreira militar e na gestão de um gabinete de deputado.

Ao desdenhar das vacinas, sabotar o uso de máscaras, estimular aglomerações e não incentivar o distanciamento social, Bolsonaro abdicou de inspirar o Brasil e de combater o inimigo pela raiz. Vencer o coronavírus não é uma questão de gosto ideológico, como demonstra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, com quem Bolsonaro tem muitas afinidades, mas não a indispensável disposição de liderar a nação na sua hora mais grave.

Em liderança, não há vácuo. Na ausência dela, outros a ocupam. Em mais nenhum país se tem notícia de governadores e prefeitos se unindo para comprar vacinas diante da incúria do governo central. Ao anunciar finalmente acordos com outros fabricantes, mais uma vez o Planalto acordou no susto, embora siga propagando a fantasia de que o STF tenha atado suas ações. Falso. O que o STF fez foi impedir que, em seu delírio negacionista, Bolsonaro obrigasse Estados e municípios a seguir sua receita de menosprezo ao inimigo.

Esse cardápio vem sendo explicitado ao país em desabafos de Bolsonaro a apoiadores. "Brasileiro pula em esgoto e não acontece nada", "Gripezinha", "País de maricas", "E daí? Quer que eu faça o quê?". É simples. De um líder numa guerra se espera que lidere - ou então deixe a tarefa para outros mais capazes.

MARCELO RECH

06 DE MARÇO DE 2021
INFORME ESPECIAL

A flor no ombro do Buda

Mistérios, mistérios...um deles se apresentou botanicamente na área aberta do meu apartamento. A primavera engatinhava quando notei um ramo de planta crescendo na direção do Buda sentado sobre um pequeno estrado de madeira.

O Buda foi trazido da Índia. Para mim, não chega a ser um símbolo religioso, mas vai muito além de uma peça de decoração. Perdão, não é esse o meu relato.

O ramo veio crescendo e, na sua ponta, formou-se um botão. Que virou flor, dois dias depois. Uau, pensei, quando vi as pétalas brancas manchadas de roxo, exatamente sobre o ombro da pequena estátua. Tive certeza de que havia ali uma mensagem, um ensinamento. A flor no ombro do Buda. Na pior das hipóteses, é um baita nome de livro de autoajuda. Só falta agora escrever.

Mas aí a flor murchou, secou, morreu. E a vida seguiu. Uma semana depois, notei que um segundo ramo se esticava na mesma direção do anterior. Passados dois dias, pela manhã, uma outra flor nasceu. No mesmo lugar. Definitivamente, o cosmo tentava me mostrar alguma coisa, só que eu não entendia.

A história poderia terminar aqui, se não houvessem se sucedido pelo menos mais nove flores. No ombro esquerdo do Buda. Foi só ali que elas nasceram desse jeito, em série. Cheguei a comentar com um amigo budista. Mas os budistas que conheço não são definitivos, porque entendem de impermanência e sabem das conexões insondáveis do universo. Agora, com o verão chegando ao fim, pensei que tinha terminado. Semana passada, uma outra flor nasceu ali. No ombro do Buda. E nada de eu encontrar uma resposta. Talvez porque, me dei conta agora, a resposta pouco importe. As flores do ombro do Buda estão me ensinando, de forma suave e luminosa, sobre a beleza da pergunta.

TULIO MILMAN

06 DE MARÇO DE 2021
J.R. GUZZO

PIB de 2021 pode piorar

Chegou a primeira conta - ou melhor, chegou o primeiro demonstrativo numérico, pois a conta já está sendo paga há muito tempo - do prejuízo que o país teve com o fechamento da economia e a destruição de postos de trabalho em 2020, por conta da covid-19. O PIB brasileiro caiu 4,1% em 2020 - uma pancada para ninguém botar defeito, a maior desde há muito tempo. É verdade que Dilma Rousseff, sem epidemia nenhuma, conseguiu não ficar longe disso, com a sua recessão dupla de 2015 e 2016, mas aí não vale; Dilma é uma calamidade por si própria, e não permite comparações. Em suma: 2020 foi um desastre para o Brasil e para os brasileiros.

Recessões, naturalmente, valem pelos seus efeitos práticos - a devastação causada por esta queda de 4% está aí, à vista de todos, e os sofrimentos que trouxe são aqueles que todos podem constatar olhando à sua volta. São os empregos perdidos, os negócios fechados, os investimentos que foram para o lixo e por aí afora. Mas, para serem melhor entendidas, certamente ajuda comparar as recessões do país A ou B com as do país C ou D. É aí que se tem uma ideia mais precisa do que aconteceu.

Nessas comparações com o resto do mundo, o Brasil não está nada mal - quer dizer, está horrível, mas tem muita gente boa que está muito, ou muitíssimo pior. No mesmo ano de 2020, a Itália, por exemplo, teve uma queda de 9% na sua economia, mais do que o dobro do recuo brasileiro. A Inglaterra caiu 10%. Na Espanha foram 11%. É certo que são economias muito mais ricas do que a do Brasil e que, assim sendo, suas populações sofrem bem menos com a recessão. Mas não há como dizer que estamos sozinhos nesta desgraça.

A questão, agora, é 2021. Pelo pânico descontrolado das "autoridades locais", que se lançam de novo a medidas extremas de fechamento da sociedade, o ano não promete nada de bom. A recessão de 2020, como se pode constatar pela aritmética, foi inútil. Em troca de milhões de empregos destruídos, e um aumento inédito nos índices de miséria, ignorância e desigualdade, tudo o que se conseguiu foram quase 260 mil mortos, de acordo com os números divulgados pelo Ministério da Saúde, e o colapso do sistema hospitalar gerido por governadores e prefeitos.

Pelo jeito, a maioria deles está querendo mais. Quem sabe, para dobrar a meta, uma recessão de 8% em 2021? Muito país sério já conseguiu mais do que isso.

*Conteúdo distribuído por Gazeta do Povo Vozes - J.R. GUZZO*

sábado, 27 de fevereiro de 2021


27 DE FEVEREIRO DE 2021
LYA LUFT

Nós, os sequelados

(Não quero parecer pessimista com esse título, mas amorosa. Parece que o primeiro golpe, que pode deixar sequelas, é o nascimento. Depois, a família, carinhosa ou violenta; depois, a juventude com esperança ou mortificação; a adultez com seus fracassos ou conquistas, por menores que sejam; a velhice com afetos ainda, mas alguma irrecuperável perda. Hoje homenageio meus leitores condensando em prosa poemas vários, para que sintam que poesia é prazer e magia. E cura algumas sequelas.)

O mar dos meus amores é turvo de desencanto. Não é azul nem verde: é marinho. Na crista do sonho, um raro gesto faz desmaiarem as sereias. No mar das minhas dores, escuro do naufrágio do mundo, espero e escuto: alguém virá? O cavalo da espuma deixa pelo caminho a luz dos momentos que são mais que muito: são tanto e tão fundo. Meu mais secreto destino como o reverso das ilhas; maremoto marinho, calado alado e sonoro: mais que navego, imagino.

Eu pedia licença a Deus, encostava a testa no vão da porta e espiava: lá estavam os mortos, aquietados, cada um em sua gaveta, o rosto eterno que eu não via. (Os mortos, sim, me vigiavam.) Guardados naquele silêncio, dobras de vidro e metal, à noite, eu sabia, eles voltavam às casas onde tinham amado, esfregavam os rostos nos espelhos até sangrar, e seu lamento agudo gotejava no sono dos vivos, como chuva. Eu me retirava devagar pelo caminho de pedra, os olhos dos mortos grudados nas minhas costas.

No jardim moravam todos os segredos: as vozes cantavam entre as folhas, e choravam no vento. No horizonte, morros azuis da tinta que um anjo distraído deixara cair do céu. Nada parecia impossível, nem princesas nem unicórnios, nem fantasmas na noite. Todos os mundos que criei, pessoas que inventei, destinos que tracei, nasceram ali: perderam-se mas persistem, porque o que parece perdido existe.

Naquele tempo sem tempo, a verdade parecia estar nos livros: ali moravam as respostas e nasciam os nomes. Quanto mais procurei, mais me enredei na ramagem das indagações: as respostas não vinham, a verdade era miragem, a busca era melhor que a descoberta - e nunca se chegava. (Viver era mesmo sentir aquela fome.)

Na parede atrás de minha mesa, ombro a ombro, a menina e seu pai, em dois retratos, conversam no escuro da noite. Quando apago a luz e fecho a porta, eles riem baixinho desta que hoje sou: ainda tão distraída e desassossegada, cheia de encantamento, e susto. E dizem, meneando as cabeças: ela nunca vai mudar.

Estou sempre dando adeus: também ao desencontro e ao desencanto. Estou sempre me despedindo do ponto de partida que me lança de si, do porto de chegada que nunca é aqui. Estou sempre dizendo adeus: até a Deus, para o reencontrar em outra esquina de adeuses. Estarei sempre de partida, até o momento de sermos deuses: quando me fizeres dar adeus à solidão e à sombra.

LYA LUFT

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