sábado, 4 de dezembro de 2021



04 DE DEZEMBRO DE 2021
LYA LUFT

Palavras em colo de mãe

Em criança eu traduzia a lápis na margem dos livros infantis palavras e frases inteiras.

Que estranha vocação precoce de pensar em dois idiomas, porque falava os dois?

Que impaciência que transbordava?

Que encanto em ouvir o jardineiro dizer "transbaldava" em lugar de " transbordava"? Entendi afinal que para ele a água saía pelas bordas dos baldes. Essas coisas triviais me seduziam.

Me perguntam como e quando me tornei escritora. Outra dúvida. Possivelmente quando saiu meu primeiro livro aos 25 anos, mas na verdade sempre escrevi em pensamento histórias para mim mesma, usando e abusando do giro das palavras dentro de mim.

Era meu jeito de ser e continua sendo. Desaparecer nas palavras e repetir: "não queiram me decifrar, não me prendam com o alfinete da interpretação. Se digo flor, é flor; se digo água, é água; corrente de sinais com o meu nome embaixo".

E também ele um dia vai evanescer como umidade nas paredes.

E tudo será silêncio de grande colo de mãe.

LYA LUFT

04 DE DEZEMBRO DE 2021
MARTHA MEDEIROS

Carta aos Beatles

Prezados, esta carta chegará atrasada, com dois de vocês já habitando outro plano, mas como foi sacramentado que a banda é eterna, seguimos juntos.

Quero falar de Get Back, claro, o documentário que está obcecando quem é beatlemaníaco (ia escrever "foi" beatlemaníaco, mas alguém conseguiu deixar de ser?). Lennon quase passou por um cancelamento por ter dito que vocês eram mais famosos que Jesus Cristo (sorte que as redes sociais não existiam), mas o exagero da declaração procede, os Beatles se tornaram mesmo uma espécie de religião, e agora temos a oportunidade de entrar no céu através de uma plataforma de streaming.

Não sabia que o doc seria dividido em três partes e totalizaria sete horas de imagens: a indução ao tédio é um risco, são só vocês quatro num estúdio, dia após dia, criando canções e discutindo o próximo show ao vivo (que viria a ser o último). Eu mesma, lá pela metade da primeira parte, tive que parar porque bateu a fome - coisa mundana, jantar... Mas voltei pra frente da TV e resolvi não esperar pelo fim, já estou aqui remetendo minha adulação nessas mal traçadas.

Não é qualquer banda que cria um gênero musical. Existe o jazz, o blues, o rock, o samba, o hip hop, o forró, os Beatles, o gospel, o bolero. Vocês fundaram um estilo único, sofisticado, de extraordinária inventividade, nenhum disco igual ao outro. Quem não reconhece os primeiros acordes de Yesterday, The Long and Winding Road, Hey Jude, Don?t Let me Down? São duas centenas de clássicos em apenas 10 anos.

Vocês entraram no meu quarto de menina e ofertaram a trilha sonora da minha vida. Quem diria que, mais tarde, eu também entraria na intimidade de vocês, que me sentaria ao lado de George Harrison enquanto ele compunha um riff de guitarra ou que dividiria a banqueta do piano com John Lennon (licença, Yoko). Que perceberia tão nitidamente a calma de Ringo e a hiperatividade de Paul, e como cada um dos quatro lidava com o temperamento do outro, mantendo a elegância até mesmo - ou principalmente - durante as desavenças. Não, nunca foi only rock?n?roll.

Nove de janeiro de 1969: o parto de Let It Be. O privilégio de ver nascer uma obra-prima. A busca pelo tom melódico, pelas palavras certas. Neste dezembro de 2021, esparramada num sofá em Porto Alegre, me vi transportada para a fleumática Londres e virei voyeur de um big bang: o desenvolvimento inicial de canções que atingiram em cheio aquela menina de sete anos que eu fui e que tinha vocês como ídolos intocáveis - e que agora tem a honra de senti-los tão perturbadoramente perto.

Devemos ao diretor Peter Jackson esse presentaço de Natal e a vocês quatro a genialidade que nos legaram. Talvez eu não esteja falando por todos, mas falo por mim, herdeira perplexa de tamanha fortuna, mais beatlemaníaca do que nunca.

MARTHA MEDEIROS

04 DE DEZEMBRO DE 2021
LEANDRO KARNAL

Muita gente tem férias no final do ano. Como já escrevi, 2021 deixará poucas saudades, e a pausa é merecida e necessária. Quer ver algo interessante? A série coreana da Netflix quebrou a banca: Round 6. Trata-se de uma metáfora do capitalismo similar à obra espanhola O Poço. Em nome do dinheiro, o que cada pessoa está disposta a arriscar? Uma questão muito importante. Um aviso: as cenas incluem violência. Se você acha que já houve coisas fortes demais no ano que se encerra, opte por outras: O Gambito da Rainha, Lupin ou a nova temporada de Lúcifer. Sim, reconheço: ver as aventuras do príncipe das trevas pode nos distrair de 2021... A que ponto chegamos.

Cansado da televisão? Voltemos aos livros: A Vida dos Estoicos - A Arte de Viver de Zenão a Marco Aurélio (Holiday e Hanselman, editora Intrínseca) é a dica certa para você. Celso Castro é filho de um oficial do Exército brasileiro e antropologo. A partir de um trabalho de campo na Academia de Agulhas Negras, ele tenta fazer uma análise distante dos jargões do militarismo ou da visão de mundo castrense. O que seria, na visão fardada, o paisano? Existe mentalidade militar, de fato? A leitura do livro O Espírito Militar - Um Antropologo na Caserna (Zahar) traz luzes sobre essas indagações.

O Oriente Médio tem jeito? Adi Schwartz e Einat Wilf acham que sim. Os dois israelenses fazem reflexões muito distantes da polarização reinante nos dois lados em livro da Editora Contexto: A Guerra do Retorno - Como Resolver o Problema dos Refugiados e Estabelecer a Paz entre Palestinos e Israelenses. Como a questão é complexa, estou buscando uma boa obra similar escrita por um palestino. Alguma indicação?

Como se fala em judicialização do mundo, seria interessante ler o livro de Augusto de Arruda Botelho: Iguais Perante a Lei - Um Guia Prático para Você Garantir Seus Direitos (ed. Planeta). Você insultou alguém nas redes sociais e tem medo de processo? Se prefere continuar no campo jurídico, gostei muito da Biografia Não Autorizada do Direito, de Fábio Ulhoa Coelho (WMF Martins Fontes). Aprecio, em particular, textos que buscam a história de um conceito como esse do Fábio.

Encerro falando de um sucesso: Política É para Todos, de Gabriela Prioli. A advogada lançou pela Cia. das Letras um livro curto e claro para falar de forma crítica de grandes conceitos e práticas do poder e sua administração. Bom pontapé inicial para 2022, que promete ser essencialmente político. Ler como estratégia ou... por vingança contra aqueles que nos governam. Ler é esperança!

LEANDRO KARNAL

04 DE DEZEMBRO DE 2021
CLAUDIA TAJES

O golpe do amor premiado

"Como posso explicar para você? Não é fácil acordar do coma."

Foi assim que Roberto Cazzaniga, jogador de vôlei italiano, começou a revelar os últimos 15 anos da sua vida em um programa de TV. Quinze anos que ele passou apaixonado pela voz que acreditava ser da modelo brasileira Alessandra Ambrósio, e dedicado a ela - a voz. Quinze anos sendo depenado sem dó nem piedade, por uma voz ao celular. Conta final da brincadeira: 700 mil euros, mais ou menos R$ 4,3 milhões.

Não era amor, era cilada. Mais comum, segundo as estatísticas, é as mulheres serem vítimas do chamado golpe romântico. Algumas são famosas, como a atriz que julgou estar namorando o George Clooney. Quase todo mundo tem uma amiga que caiu na lábia de um conquistador profissional, ou uma parente que, nem aí para os avisos, entregou o que tinha e o que não tinha para um alguém que surgiu do nada.

O soldado que escreve do front porque viu a foto dela no Facebook, o empresário milionário procurando uma noiva, um sheik árabe em busca de uma nova esposa. Nem precisa de muita criatividade. Se até hoje tem gente que cai no conto do bilhete premiado, como resistir a um amor que chega de surpresa em um dia chato?

Amor, aliás, que já serviu até para estragar computador. Há alguns anos, um vírus que tinha por título uma declaração apaixonada chegava por e-mail, e pimba. Não era um príncipe, e sim o técnico de informática que aparecia em casa na sequência.

Roberto, o italiano, começou a cair no golpe em 2007, quando uma amiga - muy amiga! - disse a ele que uma certa Maya, muito bonita, queria falar com ele. Botou os dois em contato pelo celular e, algumas ligações depois, a desconhecida revelou ser a top Alessandra Ambrósio.

A essa altura, um Roberto já muito interessado se apaixonou de vez. Foi quando a falsa Alessandra passou a pedir dinheiro para custear um suposto tratamento para uma doença cardíaca gravíssima. O jogador de vôlei pediu empréstimos para a família, foi aos bancos, vendeu o que tinha para ajudar a amada. Enquanto isso, a verdadeira Alessandra desfilava pelo mundo com o companheiro de tempos, com quem tem dois filhos.

Um dia que o pegou chorando, o irmão de Roberto perguntou, come và, ragazzo? A mulher que eu amo vai morrer se eu não mandar uma quantia tal de euros para a cirurgia, ele respondeu. Mas já não havia o que mandar.

Essa história terminou na delegacia e foi parar no programa de TV, que descobriu que a falsa Alessandra era uma mulher de 50 anos chamada Valéria. Nos 15 anos em que levou Roberto literalmente na conversa, Valéria reformou a casa e criou os filhos. Roberto ainda deve 60 mil euros e os amigos do time de vôlei criaram uma vaquinha para que, conseguindo pagar a dívida, ele enfim consiga seguir em frente.

De onde se conclui que amor é como qualquer tipo de investimento, precisa de um mínimo de segurança. Se aparecer um bilhete premiado, e ainda por cima por telefone, desligue e vá ler um romance, que você ganha mais.

E tem os brilhantes verdadeiros. Dia 8 de dezembro, quarta-feira, um espetáculo com quase 10 anos de sucesso encerra sua carreira no Theatro São Pedro. BR Trans, escrita e interpretada por Silvero Pereira, nasceu da experiência do artista com o universo das pessoas trans e travestis a partir de uma oficina de reinserção que ele desenvolveu no Presídio Central. Ao longo do espetáculo, histórias e relatos de vida se entrelaçam para contar um pouco da realidade do país que mais mata travestis e transexuais no mundo, tudo isso com o talento do Silvero e a participação do músico Rodrigo Apolinário, que faz a trilha da peça ao vivo. Se já é emoção do início ao fim, imagine sendo a última sessão de BR Trans para todo o sempre. Vale muito garantir o lugar. Ingressos à venda na bilheteria do Theatro São Pedro e pela plataforma Sympla.

CLAUDIA TAJES

04 DE DEZEMBRO DE 2021
DRAUZIO VARELLA

O FURO DA COVID

A atenção dos cientistas está voltada para a disseminação da covid no Reino Unido.

A revista Nature ouviu especialistas do mundo inteiro para discutir esse tema relevante, porque várias vezes a pandemia inglesa precedeu o que veio a acontecer em outros países.

Por exemplo: 1) a variante Alfa foi detectada pela primeira vez no Reino Unido; 2) o país relatou casos provocados pela variante Delta, altamente contagiosa, antes que eles se espalhassem pelo mundo; 3) foi o primeiro país a descrever a onda atual de infecções, que novamente transformaram a Europa em epicentro da epidemia atual.

Depois de implantar um dos programas mais eficientes de vacinação em massa, a Inglaterra foi dos primeiros países a suspender quase todas as restrições anteriormente impostas pela covid. O distanciamento social e o uso de máscaras foram abolidos em julho deste ano.

Apostar todas as fichas na vacinação e na responsabilidade individual fez do Reino Unido um experimento social de interesse para outros países. Apenas entre julho e outubro deste ano (2021), houve 3 milhões de novas infecções no Reino Unido, número comparável ao das que ocorreram no final de 2020, em plena vigência do lockdown inglês. Difícil encontrar explicação, se lembrarmos que, naquela época, não havia vacinas, e que agora quase 80% dos adultos foram imunizados com duas doses.

Os índices de transmissão no Reino Unido são mais elevados do que no resto da Europa. Na semana de 17 a 23 de outubro, por exemplo, a Espanha contabilizou 286 infecções por milhão de habitantes, a Alemanha, 1.203, enquanto no Reino Unido houve 4.868.

Esses dados ensinam ao mundo que a transmissão do vírus não será controlada apenas com vacinas. Levantar as restrições tão precocemente não terá sido um equívoco? O comportamento da sociedade seria responsável pela onda atual?

Hoje, a média de contatos interpessoais entre os ingleses é de três a quatro pessoas por dia; antes da pandemia era mais de 10. O uso de máscaras também foi reduzido depois que as restrições foram oficialmente suspensas. É muito provável que a liberação de eventos públicos em ambientes fechados tenha contribuído para os altos índices de transmissões no país.

Esses dados sugerem que a pressa em levantar restrições pode causar novas ondas, mesmo quando grande parte da população já está imunizada.

A alternativa para explicar o aumento do número de casos seria a queda progressiva da concentração de anticorpos protetores induzidos pela vacinação. Como o Reino Unido foi o primeiro, na Europa, a instituir campanhas de imunização, a imunidade induzida pela aplicação teve mais tempo para cair. Um estudo conduzido no país mostrou que depois de seis meses, a eficácia da vacina fica reduzida, especialmente nas pessoas com mais de 60 anos. Um estudo em Israel obteve resultados semelhantes.

Embora a variante Delta seja mais contagiosa, as vacinas continuam protegendo contra as hospitalizações e os óbitos. Entre julho e outubro deste ano, houve 75 mil internações, contra 185 mil entre outubro e janeiro de 2021. Relativamente ao número de habitantes, o Reino Unido tem três vezes mais infecções do que os Estados Unidos, mas dois terços de mortes diárias.

A administração da terceira dose parece conferir mais proteção ainda do que os cientistas ingleses esperavam. Estudo recente realizado em Israel demonstrou que cinco meses depois de haver recebido a terceira dose da vacina Pfizer, o risco de desenvolver doença grave tinha caído 20 vezes e o de ser infectado, dez vezes.

Entrevistado pela "Nature", Marc Baguelin do Imperial College London, especialista em modelagem epidemiológica, disse que as previsões mais otimistas baseadas no comportamento social e na eficácia das vacinas, permitem prever números altos de novas infecções até março de 2022. Nesse período, deverão ocorrer cerca de 43 mil hospitalizações e mais de 5 mil mortes, no Reino Unido.

A chegada do inverno europeu é uma preocupação a mais. A ampliação das aplicações da terceira dose são, agora, muito mais necessárias.

O anúncio feito pela Merck e pela Pfizer, de duas drogas capazes de reduzir o número de internações e de mortes, quando administradas até cinco dias contados a partir do surgimento dos primeiros sintomas, torna o tratamento precoce uma realidade capaz de mudar o curso da epidemia mundial, ao lado das vacinas, é claro.

DRAUZIO VARELLA

04 DE DEZEMBRO DE 2021
MONJA COEN

RETIRO DO DESPERTAR

Todos os anos, de 1º a 8 de dezembro, nós, zen budistas da tradição Soto Shu, nos retiramos de nossas atividades regulares para homenagear o Buda histórico.

Essa homenagem é de um retiro especial, onde procuramos fazer o que ele fez há mais de dois mil e seiscentos anos. Esse retiro é chamado, em japonês, de Ro Hatsu Sesshin. Ro se refere ao mês de dezembro e hatsu , a oito dias. Sesshin é uma palavra que pode ter dois significados: um deles é penetrar a essência e outro é aplainar a mente.

Ou seja, praticamos muitas horas de meditação sentada e meditação caminhando para penetrar o mais íntimo da nossa intimidade. Esse encontro chamamos de despertar.

Despertar para a mente que quer o bem de todos os seres, mesmo antes de você encontrar seu estado de plenitude.

Para nós, essa é a mente suprema, a mente superior, a mente desperta. Diferentemente de desejar coisas para si, de entrar em um retiro para se sentir bem ou ganhar méritos.

Além dos méritos, além de ganhos pessoais, oferecemos a nossa prática para que todos se beneficiem.

No dia 23 de novembro passado, estive com Sua Santidade, o XIV Dalai Lama. Ele estava em Dharansala, na Índia, e nós, um grupo de 50 pessoas, aqui no Brasil. Foi a visita de Sua Santidade, este ano, online. Organizada pela Associação Palas Athena de Estudos Filosóficos, responsável por todas as visitas que ele já fez ao Brasil.

O assunto de nosso encontro foi "Educação para o Novo Milênio."

Várias perguntas foram formuladas e quase todas foram respondidas da mesma maneira. É preciso educar. Inteligência apenas não é suficiente. É importante, mas não basta. É preciso usar o coração.

Que bonito! Além de religiões, de grupos, de países.

Vivemos em um planetinha, onde pertencemos à mesma espécie. Semelhantes, mas não iguais. Educar para cuidar com sabedoria e afeto todas as formas de vida. Restaurar as condições de vida humana no planeta é prioridade, mas apenas a inteligência não seria suficiente.

Chamo isso despertar para a mente desperta. A nossa capacidade de ver a realidade assim como é e atuar de forma decisiva para o bem de todo ecossistema.

Isso é ensinamento antigo, de muitas filosofias e tradições espirituais.

Como você tem vivido? Percebeu que enquanto os povos da África não estiverem vacinados, cuidados, com saneamento básico e remédios adequados, a pandemia não terminará? Será que é possível colocar uma redoma em alguns países?

Já percebemos que não. É momento de despertar. Ou ganhamos todos juntos ou perderemos todos juntos.

Despertem para o colaborar, o compartilhar, o cooperar. Há tanto que podemos fazer uns pelos outros. Quando Xaquiamuni Buda despertou, depois de uma semana de meditação sentada, superando todas as artimanhas da mente humana, das divisões e polaridades, exclamou: "Eu e a grande Terra e todos os seres, juntos, simultaneamente, nos tornamos o Caminho".

Que frase maravilhosa. Esse eu é a grande terra, é todos os seres, é a verdade, é o Caminho. Uma só vida, um só corpo. Inseparáveis e sem que haja uma autoidentidade fixa ou permanente.

Reflitam. Apreciem estes oito primeiros dias de dezembro e juntos, simultaneamente devemos despertar. Assim haverá harmonia, respeito, vida em plenitude para todos os povos em todos os lugares.

Mãos em prece

MONJA COEN

04 DE DEZEMBRO DE 2021
J.J. CAMARGO

CORAGEM NÃO SE IMPROVISA

"Os corajosos experimentam a morte apenas uma vez. Os covardes morrem muito antes de morrer." (Shakespeare, em Júlio Cesar)

Sempre me interessei pela coragem, por considerá-la uma virtude tão importante que, se conseguíssemos sustentá-la não o tempo todo, porque bancar super-herói deve ser muito cansativo, mas ao menos nas encruzilhadas mais relevantes, a vida ficaria mais digna.

Quando ainda menino, me queixei ao amado avô por ter-me submetido a um teste de medo: eu nunca faria aquilo com um neto meu. Ele riu debochado e disse: "Não se preocupe com isso. Nós passamos a vida fugindo, assustados. A diferença é que os valentes, quando sentem medo, correm para frente".

Hoje sei que as melhores coisas que consegui na vida foram pela subjugação do medo, ainda que agora admita com naturalidade: muitas das vezes em que dei a impressão que pagava para ver no que ia dar se deveram à criação de circunstâncias que não me impediam recuar. Enfim, correr para a frente era a única saída possível. Mas a minha admiração é pela coragem espontânea, sem tempo de ensaio que permita simular uma coragem maquiada no camarim.

Quando o Ivan Antonello, esse renomado nefrologista gaúcho, participando de uma sessão memorável do nosso Curso de Medicina da Pessoa, embargou a voz para contar a história de um pacientinho de nove anos, eu soube que lá vinha emoção. Porque sei que o Ivan é um chorão, mas também sei que ele não chora à toa.

O Rodriguinho, depois de um longo tempo de diálise, recebeu um rim do pai e já saiu do bloco cirúrgico urinando, o que é o sonho de todo o transplantado de rim. Três dias depois, já estava no quarto, para a alegria comovida da família. No fim do quarto dia, Ivan recebeu o aviso da enfermagem que Rodrigo chorava de dor. O exame físico detectou um abdômen contraído e extremamente doloroso à palpação. Isso, que os médicos chamam de ventre em tábua, é resultante de uma irritação inflamatória intensa, praticamente sempre associada à perfuração de uma víscera, e indicativo de cirurgia de urgência.

O cirurgião responsável ainda estava no bloco cirúrgico e pediu que o garoto fosse imediatamente levado para lá, onde procederia o exame e a provável intervenção. Sem tempo a perder, o Ivan, esse tipo que sabe que empurrar maca não faz de ninguém menos médico, saiu pelo corredor com a sua carga gemente e naturalmente assustada.

Logo adiante, encontraram os pais, movidos por aquela angústia que nasce da percepção de mãe, que nunca se engana quando sua intuição lhe diz que uma coisa muito errada está acontecendo com a sua cria. E não importa que idade a cria tenha.

Quando a maca parou, o choro contido do pai era abafado pelo pranto desesperado da mãe.

E então, Rodriguinho, como se a sua dor tivesse por encanto sumido, assumiu o comando: "Mãe, não chore, eu vou ficar bem. O Dr. Ivan me disse que o que vou fazer é uma coisa simples, e que eu vou voltar bem rapidinho".

Uma úlcera gástrica perfurada contrariou o otimismo forçado de Rodrigo, e depois de uma luta insana um choque séptico refratário, interrompeu seu sonho de criança.

Depois disso, nas muitas vezes em que Ivan conviveu com os pais, o assunto obrigatório era a coragem daquele pingo de gente que, na inocência de seus nove aninhos, fora criativo para inventar uma frase que o Ivan nunca dissera, simplesmente para proteger a mãe de um sofrimento que ele nem imaginava o tamanho que teria.

Meu avô teria gostado de conhecer o Rodriguinho.

J.J. CAMARGO

04 DE DEZEMBRO DE 2021
DAVID COIMBRA

O sol nas bancas de revista

Eu vinha num Uber pela Avenida Teresópolis. Pouco ando pela Avenida Teresópolis e, confesso, nunca cheguei a lamentar isso. É que sou da Zona Norte, a avenida com que mais me relacionei na vida foi a cinzenta, enfumaçada e, diga-se a verdade, feia Assis Brasil.

Posso, sim, dizer que ela é feia, porque temos intimidade. Passei anos circulando pelas imediações da Assis Brasil, ia ao cinema Rey, vi o Viaduto Obirici ser construído, bebia no bar do Chico, cortava o cabelo no Salão Grenal. Tenho afeição, portanto, pela velha Assis Brasil. Mas sei que é feia. Que fazer? Paciência. Nem todos nascem com a cara da Megan Fox.

A Teresópolis, bonita não é, mas ganha da Assis Brasil. E, nesse dia em que por ela rodei, parecia até ajeitadinha. Havia inclusive algumas amenidades aqui e ali, o que me fez balançar a cabeça e reconhecer: a Teresópolis não está tão mal...

Foi aí que vi, numa esquina, algo que me comoveu: uma banca de jornais. Porque elas estão desaparecendo, é preciso que se diga. Você não encontra mais facilmente uma banca de jornal, como antes encontrava. No Centro, talvez, e em algumas outras partes da cidade em que as pessoas circulam a pé. No mais, são cada vez mais escassas.

A visão daquela banca de jornais me deu um sentimento bom de normalidade da vida. Porque uma banca de jornais significa que naquele lugar um homem exerce seu ofício na rua sem medo, significa que as pessoas se detêm para conferir as manchetes do dia ou se já chegou a revista preferida. Elas param e conversam sobre o tempo com o dono da banca, que está sentado em um banquinho, debaixo de uma boina, lendo um gibi, e então colhem uma revista colorida da prateleira e a folheiam e podem comentar acerca de uma reportagem ou de uma foto:

- Como estão fortes as pernas da Paolla, hein?

Uma vez, quando procurava emprego e não conseguia, pensei que, se nada desse certo, ia dar um jeito de montar uma banca de revistas para mim. Havia sido rejeitado pelos jornais de Cachoeira do Sul e de São Jerônimo, ninguém me queria, ninguém me amava. Por que não uma banca de revistas? Um serviço tranquilo. E o melhor: poderia passar o dia lendo no trabalho.

O sol nas bancas de revista me enche de alegria e preguiça, cantava Caetano, e eu o compreendo. Uma banca de revistas numa tarde de sol de dezembro é a própria civilidade, é um indício de que o mundo pode ser simples e bom.

Quase pedi para o motorista parar um pouco. Ia descer do carro, ia até a banca, ia comprar uma Zero Hora e mais, sei lá, uma revista de História, adoro revistas de História. Ia falar sobre o Grêmio e o Inter com o dono da banca, ia apontar para um pote de Sonho de Valsa que estava ao lado dele e dizer:

- Vou levar três.

Sairia, então, comendo o meu Sonho de Valsa, planejando chegar em casa e fazer um café para ler meus jornais e minhas revistas, e iria saborear aquele café, e iria saborear aquela leitura leve, e iria morder outro Sonho de Valsa, e iria pensar que tudo está em seu lugar. Sim, tudo está em seu lugar.

DAVID COIMBRA

04 DE DEZEMBRO DE 2021
ACERTODE CONTAS

Avanços da Capital

A feira internacional de inovação South Summit e o projeto urbanístico do 4º Distrito foram temas de perguntas da coluna ao vice-prefeito de Porto Alegre, Ricardo Gomes, em entrevista ao programa Gaúcha Atualidade.

Quem fará a reforma dos armazéns do Cais para a South Summit?

Será de telhados e portas, talvez uma pintura pontual. Município e Estado estão dispostos, mas obra do poder público leva meses. Tem termo de referência, abre licitação, discute, faz contratação. Não haveria tempo hábil. Então, o prefeito convidou empresas para ajudar na tarefa. Como? Doações como patrocínios para a South Summit Brasil, empresa que realizará o evento. Quem quiser contribuir mande WhatsApp (51) 99325-3828. A obra é estimada em R$ 1,5 milhão e deixará três pavilhões em condições para outros eventos.

Sobre o 4º Distrito, o senhor encabeça um projeto a ser enviado à Câmara em 2022. Será ousado, disseram.

Tivemos uma reunião nesta semana após um ano de trabalho, temos um time muito capacitado na Secretaria do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus). Estávamos consolidando uma proposta real e concreta, um sonho de transformação total, mas a jornada de mil milhas começa com um passo. Vamos apresentar ao prefeito Melo e, depois, à sociedade, na Câmara de Vereadores, para abrir discussão. Mas antecipo que a ideia é produzir um incentivo importante de natureza tributária, urbanística e de convivência para quem quiser investir no 4º Distrito. Poderíamos ter até 150 economias por quilômetro, e temos 32. É um espaço com infraestrutura subutilizado. Precisamos, para o bem de Porto Alegre, recuperá-lo.

Grupo de Lajeado finca pé na Capital

Está marcada a entrada do Grupo Imec em Porto Alegre - empresa fundada há 66 anos em Lajeado. No dia 7, será inaugurado o atacarejo da bandeira Desco super&atacado na Rua Ramiro Barcellos, no bairro Floresta, onde funcionava uma antiga concessionária Copagra.

O grupo tem 26 lojas nos vales do Taquari, do Rio Pardo, do Caí e do Paranhana, na Região Carbonífera, na serra gaúcha e na Região Metropolitana. O diretor-presidente do Grupo Imec, Leonardo Taufer, reforça a estratégia da empresa de expandir no Interior, criando uma relação com as comunidades.

Agora chega a vez da Capital, o que ele considera um marco para a empresa. A unidade gerou 170 empregos. Para o ano que vem, estão previstas filiais para a zona sul de Porto Alegre e para Alvorada.

GIANE GUERRA



04 DE DEZEMBRO DE 2021
+ ECONOMIA

Galeteria no cais

Uma das galeterias mais tradicionais do Estado vai ancorar no Cais Embarcadero. Com obras já iniciada, o Mamma Mia prevê abrir as portas na semana dos 250 anos de Porto Alegre, em março de 2022. O novo restaurante terá dois andares e área total de 400 m².

Segundo o empresário Julinho Cavichioni, o local terá operação diferente das demais. Além dos tradicionais galeto, polenta e massa, haverá entradas exclusivas, petiscos e tábuas de antepastos para o happy hour, também inspirados na Itália, como burrata caprese, carpaccio, calabresa sott?olio e arancini.

O projeto do Mamma Mia Embarcadero resgata as origens do restaurante, com elementos da colonização italiana, com domínio da madeira em harmonia com os armazéns do Cais. No segundo andar, uma área externa para os clientes apreciarem o pôr do sol.

Tijolo, um hub para a construção

O setor de inovação do Estado ganhará, nos próximos dias, um ecossistema dedicado às cadeias de construção civil e mercado imobiliário. O Tijolo Innovation Hub será lançando na próxima segunda-feira, às 18h, no Instituto Caldeira.

À frente do projeto, está a An Lab Brasil. Segundo o sócio-fundador da empresa, Fred Mentz, o projeto foi desenvolvido na pandemia, mas não criado por causa da covid-19. Mentz observa que a escolha do local tem relação direta com o modelo de negócio. Lançando há dois anos, o Instituto Caldeira fica no 4º Distrito, região de Porto Alegre que, em geral, abrigava somente indústrias e passa por processo de revitalização.

Entre o início da pesquisa de mercado e a inauguração do projeto, passou-se cerca de um ano. Mesmo antes do lançamento oficial, o Tijolo já tem 22 empresas mantenedoras, incluindo a imobiliária Auxiliadora Predial e a ZM Construtora. Por meio de associação, as empresas participantes terão acesso aos programas de inovação. Mentz explica que os pacotes de participação podem ser renovados anualmente.

MARTA SFREDO

04 DE DEZEMBRO DE 2021
CHAMOU ATENÇÃO

A longa travessia de Pedro

Poucos pais podem medir o orgulho sentido pelas conquistas dos filhos como Pedro Figueiredo, 63 anos. No seu caso, o cálculo é exato: 1,4 mil quilômetros. Essa foi a distância pedalada pelo ativista ambiental, de Porto Alegre até o Rio de Janeiro, para a formatura de Agostinho Figueiredo como oficial aspirante na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman).

- Cheguei lá e os colegas mandando mensagem para ele, centenas, dizendo teu pai é insano, Figueiredo - diverte- se, sobre a reação dos amigos do jovem.

A saga foi iniciada na capital gaúcha em 4 de novembro. A chegada à cidade de Resende, sede da Aman, ocorreu no dia 24, e a graduação três dias depois, como mostra uma fotografia em família, junto da mãe, a comissária de polícia Iolanda Pinto Lopes, o padrasto, músico Desidério Souza, e o pai.

- Fiz isso para homenagear o esforço dele. Chegar em Agulhas Negras exigiu três anos de estudo, com 10 horas por dia, só para passar na prova, e depois mais cinco anos de curso. Merecia que eu fizesse algo diferente para destacar essa conquista - complementa.

Além da deferência ao filho, ele afirma ter tido como objetivo conscientizar os jovens sobre o cuidado com o meio ambiente, pelo incentivo de utilizar veículos que não gerem poluição.

No caminho do Sul ao Sudeste, Figueiredo recebeu apoio de outros ciclistas e de famílias que lhe hospedaram voluntariamente ao tomar conhecimento de sua missão - reportagens nas afiliadas da Rede Globo foram seguidas de uma série de publicações em portais de notícias do centro do país.

No total, foram 20 dias de viagem, sendo 18 de pedaladas.

TIAGO BOFF


04 DE DEZEMBRO DE 2021
MARCELO RECH

O absurdo do absurdo

Mesmo que ansiadas por contribuintes desamparados pela inércia estatal, emendas parlamentares são uma excrescência da democracia brasileira. Parlamentares são eleitos para levantar, discutir, propor e examinar leis, assegurando o arcabouço jurídico que dá sustentação ao Estado de direito. Pois numa invencionice tipicamente tupiniquim, as tais emendas parlamentares nasceram, cresceram e se converteram no principal instrumento de cooptação do parlamento pelo governo.

Esqueça o mensalão, a mesada que o governo Lula entregava a deputados para aliciar votos na Câmara Federal na primeira metade dos anos 2000. O clientelismo, essa praga ancestral da política brasileira, atende hoje pelo nome de emendas ao orçamento - a possibilidade de parlamentares distribuírem recursos públicos a seu bel-prazer, longe daquela chatice de prioridades coletivas.

As emendas são uma tripla distorção. Em primeiro lugar, confiscam a responsabilidade do Executivo - esse sim eleito para administrar o orçamento a partir de um programa avalizado nas urnas. Em segundo lugar, apequenam o papel do parlamento, que deveria ser a caixa de ressonância dos grandes temas nacionais e não uma quitanda de interesses paroquiais. E, em terceiro, mas não por último, o uso do dinheiro de impostos para angariar votos aniquila o conceito de igualdade que deveria presidir o processo eleitoral.

Temos hoje no Brasil dois tipos de candidatos a parlamentos: os que já estão nos cargos e se valem de emendas para reforçar sua reeleição e aqueles em desvantagem que aspiram um assento só com a força das ideias. Há um terceiro, faça-se justiça: alguns raros parlamentares que repelem a prática - e são tachados de bobos e demagogos pelos demais.

Agora, chegamos ao absurdo do que já era absurdo: emendas secretas do Congresso, nada menos do que R$ 36 bilhões em três anos, empregados como moeda de troca pelo governo Bolsonaro em um mensalão recauchutado. Diante da esdrúxula opacidade na aplicação do dinheiro púbico, o STF decidiu, em um raio de sanidade sobre as verbas oficiais, vetar o sigilo das emendas e requerer a óbvia transparência sobre quem pegou, quando, quanto e para onde foi a dinheirama.

Topamos então com o absurdo do absurdo do absurdo. As cúpulas do Congresso avisaram o STF que não revelarão donos e destinos das emendas porque não há registro sobre elas. Quando algo não tem explicação é porque não quer ou não pode vir à tona. A desfaçatez, portanto, só guarda uma justificativa. Tem truta aí, e da grossa. E, mais dia ou menos dia, vai acabar explodindo em um novo escândalo.

MARCELO RECH

04 DE DEZEMBRO DE 2021
J.R. GUZZO

Alarmistas de plantão

Conteúdo distribuído por Gazeta do Povo Vozes

O mundo vive, definitivamente, a era do pânico. Parece, até mesmo, que as pessoas se viciaram na necessidade de receber más notícias; ficam inquietas se passam três dias seguidos sem ouvir que a covid voltou a piorar, no mundo e no Brasil, e só sossegam quando lhes é servida alguma nova cepa que, esta sim, vai detonar tudo outra vez.

É o caso, agora, da tal variante sul-africana. A médica que a descobriu (e revelou o que havia descoberto, ao contrário da China, que descobriu o vírus original e chamou a polícia para esconder a sua existência) garantiu, várias vezes, que essa cepa causa muito pouca consequência; se espalha com mais rapidez, mas não leva os infectados à UTI, ou nem ao hospital. Pura perda de tempo por parte da boa doutora. O complexo mundial pró-covid declarou, imediatamente, estado de emergência urgentíssima, com fim do mundo a curto prazo.

O Japão, país que desfruta de alta reputação em matéria de governo sério, competente e eficaz, onde ninguém rouba e todo mundo trabalha direito, fechou o país para viagens ao Exterior. Não quis nem saber: fechou o Japão inteiro, como um prefeito do interior do Brasil fecha a escola ou o borracheiro. Aproveitou, aliás, para fechar o espaço aéreo - nada menos do que isso, o espaço aéreo. Israel também se trancou; outros países foram na mesma onda.

Por aqui, foi anunciado com grande destaque que apareceram três casos em São Paulo e parece que há mais dois em Brasília. O Brasil já tem 22 milhões de infectados e mais de 600 mil mortos, mas o que interessa são os cinco da Ômicron.

A era do pânico é um trabalho conjunto de autoridades à beira de um ataque de nervos perpétuo, médicos que se viram no centro do mundo e uma mídia histérica e enrolada na bandeira da revolução mundial através da pandemia. Todos precisam do vírus como as pessoas precisam do ar. Sua vida melhora com a doença. Piora sem ela.

Querem manter os poderes excepcionais e sem controle que ganharam com a covid. Querem regular a vida em sociedade. Querem exigir vistos, emitir atestados, dar e negar licenças, impor questionários. Querem trabalhar em home office. Querem fazer "oposição" a "tudo isso que está aí". Querem dar entrevista. Querem que os hospitais, consultórios médicos e filas de vacinação sejam o centro da vida social. Querem verba, se possível em "regime de emergência" e sem a necessidade de prestar contas. Esse vírus sul-africano, para todos eles, é uma bênção do céu.

J.R. GUZZO

sábado, 27 de novembro de 2021


27 DE NOVEMBRO DE 2021
LYA LUFT

Do fundo das águas secretas

"O que são essas coisas que ficam se mexendo dentro da minha cabeça?", perguntou a criança ao seu pai, que riu e disse algo como "São teus pensamentos, são as palavras. Todo mundo tem isso, todo mundo pensa".(Foi o que a criança respondeu quando a mãe mais uma vez repetiu seu refrão "criança não pensa".) Hoje muitas e muitas vezes me perguntam, a mim e a todos os que lidam com arte, de onde vêm as ideias, ou a chamada inspiração. Cada um vai dar uma resposta diferente, segundo seu jeito de ser, de viver, de trabalhar.

A minha resposta, sincera, que no curso do tempo não mudou, tem sido: tudo vem de dentro de mim, impreciso mas real. Eu só elaboro, arrumo, enfeito (ou pioro). Pois "o vento sopra quando e onde quer": posso ficar períodos sem nenhuma boa ideia, e de repente tudo começar a fluir. Não sou dos disciplinados, modelos para jovens escritores, que escrevem todos os dias. Quando nada tenho a dizer, fico quieta, que é, aliás, o que mais aprecio.

A chamada inspiração, palavra tão polêmica e questionável, é o movimento que nos leva a produzir alguma coisa. No meu caso, repito, está tudo lá dentro, no fundo das águas da mente, ou da alma, aqui a semântica pouco importa. Na verdade, tudo o que vivo, vejo, escuto, sonho, tudo o que me dizem, o que leio, o que vem em entrelinhas e no silêncio, as palavras duras e as amorosas, as alegrias e as injustiças, vai-se depositando no meu inconsciente (ou como quer que o chamemos), como aquela lamazinha no fundo de um aquário. Se ali mexo com um lápis (é só uma metáfora, gente...), esse depósito cria vida, se move, sobe à superfície. Em geral, é algo externo que de repente desperta o fundo das águas: um rosto, um telefonema, um movimento mínimo nas árvores, um sonho quando dormimos e do qual confusamente lembramos ao acordar, uma claridade na beira daquela nuvem. Move-se assim o material para a pintura, o romance, a música.

Assim são as ideias ou emoções que regem o que muitos artistas produzem: mas, embora vindo dessas águas escuras, não são necessariamente sombrias. Pois lá, junto com as pedras e perdas, estão depositados também os encantamentos que nos marcam para sempre. Não somos donos ou controladores dessa chamada inspiração: a palavra me incomoda, mas não tenho bom substituto. Por que me incomoda? Porque sugere algo caído do céu, uma luz que vem do alto, que nos faz sentar e trabalhar leves e alegrinhos. Às vezes, sim, escrevo com uma quase incontida alegria, se pudesse saía a dançar por cima dos telhados vizinhos(no meu caso, bastante improvável...). Outras vezes, me faz refletir, reescrever, desistir e deletar, andar pela casa, subir para o terraço, pensar em nunca mais escrever uma só palavra, depois voltar a este diminuto escritório e retomar a dura lida.

Assim emergem daquelas águas secretas, os primeiros pensamentos sobre o Natal: a árvore que vou enfeitar depois do feriado, as comidas a encomendar pensando nos que vão chegar, o carinho que me aquece sempre que penso neles (e nos que estão distantes e não poderão vir). Emoções como vaga-lumes luminosos que alegram os dias nada fáceis para ninguém neste planeta - que anda bem esquisito.

Texto originalmente publicado na edição de 12 e 13 de novembro de 2016

LYA LUFT

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