sábado, 12 de dezembro de 2015



12 de dezembro de 2015 | N° 18383
JJ CAMARGO | J.J. CAMARGO

A NOÇÃO DE MORTE DIGNA


A PERDA SEMPRE PARECERÁ CRUEL, DOLOROSA E EXTEMPORÂNEA AOS OLHOS DE QUEM AMA 

Esse foi o título da minha conferência de abertura do Simpósio da Academia Nacional de Medicina, sobre O Direito de Morrer.

Antecipei que, quando se discute o conceito de morte digna, temos de considerar primariamente a circunstância em que ela ocorre: súbita, traumática ou arrastada por doença crônica, além da idade da pessoa.

A perda de um jovem que nem viveu o suficiente para se justificar neste mundo e a morte de um indivíduo sadio até o evento são, evidentemente, diferentes daquela que representa um ponto final de uma enfermidade crônica que arrastou a vítima e sua família pela via crucis do sofrimento. Principalmente quando esse sofrimento não envolvia nenhuma perspectiva de benefício e significava apenas a protelação injusta do desfecho inevitável. Admito, constrangido, que demorei algum tempo para aprender que desejar a morte de um familiar nessa condição não tem nada de desamor, é só um gesto de dolorosa compaixão.

A naturalidade com que se convive com o acontecido no velório de pacientes idosos é reveladora da nossa tendência de interpretar a morte como um previsível e imutável ponto final do ciclo biológico.

No entanto, não se deve esquecer que essas racionalizações são desapegadas de afeto, porque a morte sempre parecerá cruel, dolorosa e extemporânea aos olhos de quem ama, independentemente da idade do falecido.

Por que é assim? Porque o afeto não é um sentimento racionalizável, e disso só entendem bem os sobreviventes da dor da perda, ou seja, os que morrem um pouco com os que se vão.

A noção de morte digna devia exigir um tempo de preparação que permitisse o resgate dos afetos negligenciados, a confissão dos amores omitidos e o reconhecimento agradecido pelo querer bem incondicional.

Não há possibilidade de morte digna num mar de sofrimento físico, de tal modo que um princípio básico do atendimento profissional é a noção de que toda queixa clínica representa uma urgência médica. Nada mais incompreensível do que um paciente terminal gemente de dor num hospital moderno. Isso deveria ser visto como a mais grosseira capitulação da medicina, cuja principal missão é aliviar sofrimento.

Como a convivência com a proximidade da morte é um devastador exercício de impotência, compreende-se que o médico queira interrompê-lo por sedação do pobre paciente, mas essa decisão também precisa ser compartilhada.

O Juvenal tinha se tornado um amigo querido durante os anos de convívio com uma fibrose pulmonar que o alcançara acima da idade limite para o transplante. Quando comuniquei à esposa que pretendíamos sedá-lo para interromper a angústia inútil, ela me disse: “Por favor, não. Estávamos falando e ele me disse umas coisas tão bonitas! Não interrompa essa conversa, por favor!”.

Horas depois, quando voltei ao quarto, ele tinha acabado de morrer e ela me abraçou e, carinhosamente, agradeceu: “Obrigado, doutor. Por sua generosidade, nós tivemos a segunda melhor noite das nossas vidas!”.

Aprendi, neste dia, o quanto sabemos pouco do que é melhor para cada pessoa no ocaso do seu universo único e intransferível.

Outro imenso desafio à sensibilidade médica é conviver com a família e descobrir que o mais revoltado e inconsolável é o mau filho, que se apercebeu que a última oportunidade de recuperar o afeto renegado está indo embora.

Por fim, resistir à pressão descabida de algumas famílias em transferir o paciente para a solidão desumanizada da UTI e garantir que ele tenha seus instantes finais sem nenhum sofrimento físico, de mãos dadas e olhando no olho das pessoas que de fato vão sentir a sua falta é o mais próximo que podemos chegar do conceito de morte digna.

Gostaria de fazer uma correção. Na sessão “Enquanto isto, na Academia”, publicada sábado passado, há uma informação equivocada: não é correto que 62% dos jovens com menos de 18 anos já provaram maconha, e sim que 62% dos usuários de maconha iniciaram seu uso antes dos 18 anos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas