quarta-feira, 7 de março de 2018



07 DE MARÇO DE 2018
NÍLSON SOUZA

Árbitro de voto

Agora que até a caturra Fifa se rendeu à tecnologia do árbitro de vídeo, destinada a corrigir equívocos e omissões do julgamento humano no futebol, bem que podíamos introduzir na vida pública brasileira um mecanismo democrático de finalidade semelhante: o recall político. O recurso permite aos cidadãos - e não apenas aos seus representantes aferrados ao poder - interromper mandatos de governantes e burocratas inaptos ou envolvidos com a corrupção. Basta um abaixo-assinado com um número significativo e válido de assinaturas para que o político sob desconfiança seja obrigado a passar por nova aferição eleitoral, podendo ser destituído ou reconduzido ao cargo. Simples assim.

O recurso é antigo e funciona bem em alguns países de democracia consolidada. E, ao contrário do que se poderia imaginar, não fragiliza o sistema representativo nem vulgariza o impedimento de eleitos. Pelo contrário, legitima e torna mais célere os processos de afastamento, neutralizando suspeitas de manobras políticas e golpes institucionais.

A introdução desse mecanismo na legislação brasileira tem esbarrado sistematicamente na pouca disposição do Congresso para examiná-lo, como ocorreu com uma proposta relativamente recente do senador Eduardo Suplicy para a criação do chamado referendo revocatório, outro nome para o sistema. No mínimo, falta um mutirão popular semelhante ao que forçou a classe política a engolir a Lei da Ficha Limpa. Portanto, mãos às assinaturas, gente!

Na condição de árbitros de vídeo da política nacional, poderíamos transformar em ações práticas e consequentes a nossa indignação com apartamentos recheados de malas de dinheiro, assessores especiais para assuntos de propina e mandatários que mantêm relações promíscuas com corruptores de todos os calibres.

Mais: a população poderia examinar, a qualquer tempo, a postura de detentores de mandatos não apenas em relação à probidade, mas também quanto à eficácia dos serviços públicos. Cidade esburacada, água com mau cheiro, atraso no salário dos servidores, sítios e apartamentos mal havidos, tudo isso pode ser gatilho para o mecanismo revocatório.

Voltando à analogia esportiva, não se trata de substituir governante como se troca técnico de futebol, apenas por paixão ferida ou desencanto com os resultados. Trata-se, isto sim, de garantir aos cidadãos o direito de escolher, vigiar e julgar seus representantes a qualquer tempo - e não apenas de quatro em quatro anos, como prevê a atual legislação.

Agora mesmo, estamos na antevéspera de mais um processo eleitoral e a impressão que se tem, diante das alternativas conhecidas, é de que o nosso voto pode ser uma autocondenação a outro longo período de decepções. Seria bem mais tranquilo votar se tivéssemos a certeza de que, a qualquer momento, poderemos juntar os dedos indicadores, desenhar uma tela de televisão no ar e pedir o nosso voto de volta.

NÍLSON SOUZA

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas