sábado, 31 de março de 2018




31 DE MARÇO DE 2018
CLAUDIA LAITANO

velhos camaradas

Bromance é aquele tipo de palavra que nomeia algo que sempre existiu, mas, por algum motivo, nunca havia sido batizado antes. Neste caso, o laço de afeto e lealdade que une dois ou mais homens.

O termo é atribuído ao editor de uma revista de skate americana que, nos anos 1990, teria usado a expressão para descrever a amizade entre skatistas que passavam muito tempo juntos em um ambiente exclusivamente masculino. Nos anos 2000, a palavra caiu no gosto de jornais e revistas e acabou no cinema, virando uma espécie de subgênero de comédias hollywoodianas repletas de festas (de arromba), garotas (anônimas), cerveja (muita) - e rapazes dizendo bobagens, claro.

Enquanto o termo "sororidade", muito popular nos dias de hoje, encerra um sentido político evidente - união das mulheres em torno de causas comuns e apoio mútuo em situações de conflito -, ninguém associa a palavra bromance com conversa séria ou textão. Não procure no bromance reflexões sobre as diferentes formas de excercer a masculinidade ou pautas coletivas (direitos iguais para homens e mulheres na hora de calcular a aposentadoria ou decidir a guarda dos filhos, por exemplo). 

O bromance existe principalmente para celebrar a camaradagem e a liberdade para negar, ou adiar, os compromissos da vida adulta. O fato de algumas dessas comédias abusarem dos clichês de uma masculinidade meio bobalhona não parece incomodar os homens. E isso não porque todos sejam iguais ou tenham um fraco por comédias hollywoodianas de segunda linha, mas porque a ideia de uma visão distorcida ou simplória do gênero masculino não é um assunto que desperte muito o interesse, ou a indignação, dos rapazes. Significa.

O diretor Richard Linklater, que ficou conhecido pela trilogia Antes do Amanhecer, emprestou alguma densidade ao gênero com o filme Jovens, Loucos e Mais Rebeldes (2015). Com muitos elementos autobiográficos, o filme retrata a rotina de um grupo de universitários que aguarda o início das aulas, em um alojamento coletivo, no início dos anos 80 - uma espécie de "continuação espiritual" de Jovens, Loucos e Rebeldes (1993), ambientado nos anos 70 e no último ano da escola. Estão lá as festas, as garotas e a cerveja - e os rapazes dizendo bobagens -, mas também as sutilezas e os jogos de poder que vêm à superfície quando muitos homens dividem o mesmo espaço durante muito tempo. Digamos que o filme está para a amizade masculina assim como Antes do Amanhecer está para o primeiro amor: fácil de gostar e de se identificar.

Se Jovens, Loucos e Mais Rebeldes é sobre amigos descobrindo o mundo no início da vida adulta, A Melhor Escolha, filme mais recente de Linklater, em cartaz em Porto Alegre, é sobre a revisão do passado. Apesar do ponto de partida melancólico - o reencontro de três veteranos de guerra para enterrar o filho de um deles -, A Melhor Escolha de certa forma também celebra a camaradagem masculina. Mesmo quando a vida adulta e suas dores tornam as baladas mais raras, as garotas menos disponíveis e a cerveja mais controlada, a memória e o afeto são os últimos a sair da festa.

CLAUDIA LAITANO

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas