sábado, 31 de março de 2018



31 DE MARÇO DE 2018
LYA LUFT

Uma gorda amada

O nome era Meg, mas nós a chamávamos de Gorda. Pela própria raça, tendia a ser roliça. Era mansa, preguiçosa, carinhosa, sempre atrás de mim pela casa. Deitava-se invariavelmente do meu lado esquerdo quando eu ia para o computador. Na sala, à direita da minha poltrona, onde eu podia fazer-lhe carinho e conversar com ela. Quando a comprei, há uns nove anos, era minúscula, com aquela carinha comovente de pug, olhos grandes, focinho achatado, rabinho enroscado. Com o tempo, cresceu mais do que o esperado, ficou difícil carregar no colo.

Quando tinha uns quatro anos, comprei-lhe uma irmã: Melanie, a spitz, ou lulu-da-pomerânia, uma raposinha mignon que se aninhou no meu pescoço quando a peguei na pet, e me seduziu imediatamente, incondicionalmente. Era em tudo diferente da Gorda: focinho fino, olhos de gazela. Melanie é uma raposinha que finge ser um cachorro, que pensa que é gente. 

Eram uma dupla engraçada, mas muito amigas: instalavam-se lado a lado na poltrona vermelha da sala, às vezes Melanie atormentava a pug com suas brincadeiras, puxando-lhe orelhas e rabo, ou acabavam dando suas corridinhas pela casa. Meg era a minha gorda melancólica, com aquele ar enternecedor da sua raça; Melanie, uma pluma de pelos longos sempre querendo colo.

No último ano, a minha Gorda amada começou a ter sérios problemas de saúde: respiração difícil, já não conseguia subir na poltrona vermelha, alergias fortes e resistentes a quase todos os muitos remédios, problemas em um ouvido, que por fim levaram a uma cirurgia delicada e longa. Era inevitável: mais de um veterinário consultado, melhor pet, melhor clínica, mas meu coração de mãe estava inquieto. Passou alguns dias numa excelente clínica, onde a gente a visitava. 

Todos estavam otimistas, a Gorda acabou voltando para casa, sacudindo aquele seu improvável rabinho enrolado. Mas não era mais a mesma. Muito cansada, pouca fome (antes, devorava o que lhe déssemos), sem vontade de brincar. Queria ficar perto da gente. Dormia, às vezes, no tapete junto da minha cama, cabeça sobre minhas Havaianas. Nós, preocupados e impotentes.

No sábado à noite, parecia mais cansada do que de costume. Quando fui ao seu quarto na manhã de domingo, meu peito gelou: não conseguia levantar mais. Tomei-a nos braços, ainda pesada, chamei socorro, voltou para a clínica, de onde seguidamente ligavam com notícias de que estava estável, no soro, e ficaria tudo bem.

Na noite desse mesmo domingo, Melanie, a raposinha, correu duas ou três vezes ao quarto da irmã e voltou nos encarando com seu focinhinho atento. Queria nos dizer alguma coisa, ela está sempre dizendo coisas. Na manhã seguinte, o telefonema da veterinária. Nem precisou dizer: "A Gorda morreu". Morreu de madrugada, parada cardíaca, tudo rápido, sem drama nem alarido, do jeito que sempre foi: mansa, quieta. Não sei se existe um céu de cachorros, de bichos, mas algo daquela sua energia bondosa continua por aí e pela casa. Vai ser cremada, vamos enterrar a urninha em algum lugar bucólico.

São muito humanos esses bichos de estimação criados conosco. Talvez alguns de nós devêssemos nos tornar mais caninos: sem tanta raiva e rancor, tanto conflito e neurose, mas com o amor incondicional e a paz que eles, os nossos pets, nos trazem.

LYA LUFT

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas