sábado, 10 de março de 2018



10 DE MARÇO DE 2018
PIANGERS

A culpa é sua

"Reatei meu relacionamento com a minha filha. A culpa é sua!", me escreveu um pai de Minas Gerais. Eu estava em Lisboa no ano passado lançando meu livro, ele fotografando a Praça Luís de Camões no saudoso Chiado, me olhou e reconheceu de algum lugar. "Você?", gritou de um lado da rua. "Sim!", respondi, imaginando que ele achava que eu era quem eu realmente sou, não o Nando Reis.

Nós nos encontramos novamente na noite do lançamento. Dei meu livro pra ele, ele tirou fotos do evento, depois me mandou por e-mail. Nunca mais ouvi dele, até essa semana. "Reatei", escreveu. "A culpa é sua!". Não há nada que me aumente o coração mais do que isso. Um pai que se flagra da importância de estar perto dos filhos.

Um homem de aspecto bruto começou a chorar no lançamento em Curitiba. "Quero só agradecer porque eu nunca brincava com a minha filha porque meu pai nunca brincava comigo", disse na frente de toda a plateia. "E não sabia que eu estava perdendo! Hoje brinco todos os dias, deixo-a me maquiar. É a melhor coisa do mundo! Obrigado por mudar a minha visão de paternidade", completou.

Em Criciúma, eu falava sobre a importância de passar mais tempo com a família e menos preocupado com o trabalho. Um senhor de idade pediu o microfone e chorou na frente de mil pessoas. "Ouçam isso com atenção. É isso mesmo!", disse. "Presenteei meu pai com seu livro e o vi chorar pela primeira vez", me escreveu um filho de Blumenau. "Seus textos e vídeos me ajudam a aguentar as dificuldades de ser mãe solteira", me escrevem todos os dias no Instagram. 

"Meu filho viu seu vídeo e mandou ?eu te amo? pra toda a família", me disse uma mãe em Florianópolis. "Estava indo me suicidar e dei de cara com seu texto no jornal", me escreveu um pai. O texto se chamava A Vida É Longa. "Ia deixar sozinho meu filho de oito anos", escreveu. Uma menina, morta por um câncer fulminante, escolheu meu texto Não é uma Tragédia pra ser lido no enterro.

Quando comecei a escrever nunca imaginei nada disso. Quando ficava de frente pra uma tela branca, imaginava muito mais as agressões, os julgamentos, os comentários maldosos que viriam. Escrever abrindo o coração é uma vulnerabilidade que sempre me amedrontou. Hoje, recebo mensagens bonitas demais, muito mais do que eu mereço. Por ironia, todas essas mensagens me ajudaram também a ser um pai melhor. A passar pelos momentos difíceis. A encontrar felicidade nas coisas simples. A culpa é de vocês.

PIANGERS

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas