sábado, 28 de outubro de 2023


28 DE OUTUBRO DE 2023
CONSELHO EDITORIAL

OS RISCOS DA IMPORTAÇÃO DA GUERRA

A Guerra do Vietnã, o "imperialismo" americano, o embargo econômico a Cuba e as violações do regime, a crise na Venezuela, o conflito Rússia x Ucrânia. Não é de hoje que temas internacionais - uns mais do que outros - são "importados" para o contexto brasileiro e, em geral, instrumentalizados por atores políticos domésticos.

Com o confronto entre Israel e Hamas não é diferente. Desde o infame 7 de outubro, cada palavra e ação no Oriente Médio alimenta, do lado de cá, a 16 mil quilômetros de distância, discussões apaixonadas (e por vezes raivosas) turbinadas pelo ambiente de polarização nacional.

Recém-chegado do front, onde atuei como correspondente nos primeiros dias da guerra, desembarquei na última terça-feira na reunião mensal do Conselho Editorial do Grupo RBS. Entre os vários desafios que a atual confrontação impõe ao jornalismo, o fenômeno da "abrasileiração" do conflito é um dos que mais preocupam.

São vários os riscos de se olhar rivalidades no Exterior sob as lentes de nossa compreensão do mundo: o primeiro é o de se cair na simplificação da disputa, relegar uma crise ao duelo direita x esquerda, que não só reduz a complexidade da guerra a uma lógica de "mocinho x bandido", como ignora que o Oriente Médio tem dinâmicas regionais próprias. Os movimentos no front ou nos gabinetes são influenciados por variáveis internas e externas e disputas de poder que não cabem em simplificações - tampouco se adaptam à realidade brasileira e a seus dilemas.

Ao "abrasileirarmos" o conflito desconsideramos nuances, ignoramos a História e descontextualizamos decisões. Este é o primeiro passo para que visões obtusas sobre a guerra se cristalizem.

O jornalismo profissional é antídoto para que se evite essa armadilha. Neste Conselho, firmamos posição em torno da necessidade de explicar, contextualizar, lançar luzes sobre fatos nebulosos, buscar diversidade de opiniões e propor soluções. Nossa linha editorial é a favor da paz, contra o terrorismo e em defesa da solução de dois Estados - um israelense e um palestino - legítimos. Buscaremos, em nossos espaços, evitar ao máximo a importação do conflito e o reducionismo desses dias insanos a disputas partidárias e ideológicas brasileiras.

RODRIGO LOPES

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas