sábado, 18 de julho de 2015



19 de julho de 2015 | N° 18231 
ANTONIO PRATA

Dormir é para os fracos

Quinze constatações a partir da paternidade: uma crônica de autoajuda para os que pretendem procriar – ou talvez, mais ainda, para os que não pretendem.

1 – Antes de ter filhos, eu era um vagabundo que ficava reclamando, sem razão, de não ter tempo pra nada.

2 – Depois de ter filhos, eu sou um pobre-diabo que fica reclamando, com razão, de não ter tempo pra nada. (Se hoje me dessem três meses com o tempo livre que eu tinha há dois anos, eu conseguiria aprender esperanto, escrever Anna Karenina e treinar pro Ironman).

3 – Se eu tivesse um minuto pra pensar a respeito da paternidade, provavelmente me daria conta de que estou vivendo um dos momentos mais gloriosos da minha breve passagem sobre a Terra: estou acompanhando o desabrochar de pequenos seres humanos feitos com metade dos meus genes e metade dos genes da mulher amada.

4 - Se eu não tenho um minuto pra pensar a respeito da paternidade é porque estou exercendo a paternidade, o que significa, entre outras coisas: tentar evitar que um desses pequenos seres humanos ponha na boca a mão que acabou de meter na fralda suja de cocô; tentar convencer o outro pequeno ser humano de que não dá para vermos o caranguejo, agora, pois o caranguejo mora em Ubatuba, nós moramos em São Paulo – e são duas e trinta e sete da manhã. Tais atividades, convenhamos, deixam pouco espaço para a contemplação.

5 – Felizmente, devido a uma simpática trapaça cognitiva, pregada pela seleção natural, o cocô dos nossos filhos nos parece muitíssimo menos repulsivo do que os cocôs do resto da humanidade. (Infelizmente, não a ponto de nos esquecermos que aquilo na fralda, nas costas, nas pernas ou na mão do pequeno ser humano continua sendo cocô.)

7 - Depois de ter filhos, os minutos destinados ao próprio cocô se transformam num raro e beatífico momento de paz pelo qual os jovens pais anseiam como um monge por sua meditação.

8 - (Não é incomum pais neófitos simularem dores de barriga para poderem se trancar no banheiro várias vezes ao dia e: ler rótulo de creme hidratante, dar “like” na foto do gato da prima, contemplar os azulejos num torpor quase místico).

9 - Ninando um bebê, me descubro capaz de executar funções com partes do meu corpo que, até ter filhos, julgava completamente ineptas. Consigo abrir e fechar uma maçaneta com o cotovelo – sem fazer barulho. Consigo regular o dimer com a bunda. Consigo abrir e fechar o mosquiteiro com o nariz. Coço o queixo na estante de livros, as costas no armário embutido, a testa no prato da samambaia. Se tiver uma única mão livre, posso fazer o solo de bateria do John Bonham, em Moby Dick, de trás pra frente – só não faço porque iria acordar o bebê.

10 – Antes de ter filhos, eu achava o fim da picada pais que trabalhavam com: babá, biscoito recheado, televisão no carro.

11 – Hoje, procuro uma folguista pro fim de semana (pago metade do meu salário e dou meu carro como bonificação), negocio “Só mais uma, já é o terceiro pacote!” e imploro “Não chora! Olha o filme do Senhor Batata! A Menina Moleca! A Galinha Pintadinha!”.

12 – Galinha Pintadinha é a imagem da Besta.

13 – Galinha Pintadinha é uma bênção divina.

14 – Dormir é para os fracos.

15 – Eu sou fraco.


RUTH DE AQUINO
17/07/2015 - 22h35 - Atualizado 17/07/2015 22h39

Um dia da caça, outro do caçador

A democracia brasileira vive um momento de ouro, porque não poupa ninguém

A cena dos três carros de luxo, uma Ferrari, um Lamborghini e um Porsche, apreendidos da casa do ex-caçador de marajás e ex-presidente impedido Fernando Collor, é um bálsamo para todos que sempre se sentiram meio quixotes neste país, em luta contra moinhos de vento.

É compreensível que empresários bilionários ostentem brinquedos assim e se sintam mais machos enfileirando na garagem suas máquinas potentes e incompatíveis com o trânsito brasileiro. Mas, e quando se trata de políticos? Só muita cara de pau, complexo de inferioridade e problemas de caráter explicam essa obsessão em um congressista ou homem público, num país com tantos desafios básicos e graves.

O valor total dos três carros, estimado em cerca de R$ 5 milhões, é detalhe. Milhões e bilhões são jogados pelo ralo da corrupção todo dia. Ninguém consegue acompanhar o montante das propinas na Operação Lava Jato. Mais reveladora é a dívida de Collor com o IPVA das três máquinas, R$ 343.480,48. Quem caiu por um Fiat Elba sujismundo deveria ter virado colecionador de tudo, menos de carros. Sempre faltou visão a esse político afeito a surtos arrogantes e a golpes baixos.

Collor reagiu como... Collor. Com bravatas e chiliques. O senador se disse “ultrajado” com a apreensão em sua propriedade, a Casa da Dinda. “Estamos no terreno do vale-tudo!” Chamou os investigadores de “facínoras que se dizem democratas”.

Policiais federais, com mandados de busca e apreensão assinados por ministros do Supremo Tribunal Federal, levaram também material da emissora de TV do senador, em Maceió, repetidora da Globo. Era madrugada de terça-feira. A ação, acatada pelo STF a pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, foi batizada de Politeia, que seria uma república grega, caracterizada pelos direitos civis, pela ética e pela virtude.

Com uma biografia pontuada de episódios ainda obscuros, Collor foi redimido por seus pares e é senador pelo Partido Trabalhista Brasileiro – o PTB fundado por Getúlio Vargas em 1945. E pensar que Collor quase foi presidente da CPI da Petrobras, indicado pelos governistas.

Lula elogiou Collor como um dos mais leais de sua base, em 2009. Abraçaram-se num palanque de Alagoas, em Palmeira dos Índios. Lula disse que tanto Collor quando Juscelino Kubitschek tinham sido presidentes que viajavam para “sentir o drama do povo”. O que Lula dirá agora? Nada. Até porque muito ainda deve surgir sobre a relação íntima de Lula com a Odebrecht.

Os que mais se comoveram com o sentimento de ultraje de Collor foram o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o presidente do Senado, Renan Calheiros. Ambos são alvos da Lava Jato, acusados de receber propinas robustas de fornecedores da Petrobras.

O show de Collor foi roubado por seus irmãos camaradas do PMDB, Cunha e Renan. Se pensássemos num filme que resumisse os protagonistas da semana, poderia ser Os três patetas, na versão mais carinhosa, ou Os irmãos metralha, na versão mais dura. Dos três, Collor é o mais inofensivo, o menos perigoso, por não passar de figurante canastrão no grande palco político.

“É tudo vingança do governo. Parece que o Executivo quer jogar sua crise no Congresso”, disse o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Cunha foi acusado pelo lobista de empreiteiras e delator da Lava Jato Júlio Camargo de receber US$ 5 milhões diretamente dele, em 2011. O Brasil assistiu ao depoimento, gravado em vídeo pela Justiça Federal. Cunha afirmou que o procurador-geral Janot “obrigou Camargo a mentir”.

Os delatores acusam Cunha de intimidação. Dizem ter medo dele. Não são os únicos. A figura messiânica, as manobras polêmicas e as posições extremamente conservadoras de Cunha mostram a face pior do PMDB. Até recentemente, Cunha era fã da delação premiada e da Lava Jato. Agora, diz que o Executivo usa a operação “para constranger o Legislativo”.

A tropa de choque do PMDB em torno de Cunha formou-se rapidamente. “Essas coisas” atrapalham o país, “abalando a natural tranquilidade que sempre permeou” o Brasil, disse o vice-presidente Michel Temer. Renan Calheiros afirmou que o país passa por “uma crise institucional”. “Vivemos um momento grave, preocupante”, porque o Brasil pode estar “ferindo de morte a própria democracia”, disse o presidente do Senado.

É curioso. O Brasil, com certeza, tem outra opinião. A democracia vive um momento de ouro porque não poupa ninguém. Não há lugar na Politeia para Collor e uma cambada de homens públicos brasileiros. Nossa República dos rabos presos precisa ser refundada e começo a crer nessa possibilidade. Você compraria um Lamborghini usado de Collor, Cunha ou Renan?


18 de julho de 2015 | N° 18230 
NÍLSON SOUZA

PÉS NA LAMA

Somos mesmo criaturas contraditórias.

Devíamos amar essa chuva que desabriga pessoas, inunda vilas e cidades, umedece as roupas, as paredes e as almas dos vivos. Mas não. Ficamos todos entristecidos pelas famílias expulsas de suas casas, com suas crianças chorosas e seus animais de estimação. Também me comovo com isso. Mas a culpa não é da chuva nem de São Pedro e tampouco dessa pobre gente que mora em áreas suscetíveis de alagamentos, na maioria dos casos por não ter para onde ir. Fácil demais, também, é responsabilizar as autoridades e os próprios cidadãos, pelo mau hábito de lançar lixo em qualquer lugar, o que causa entupimento de esgotos e o assoreamento dos rios.

Então, de quem é a responsabilidade?

Da natureza é que não é. Chove desde o início dos tempos e é essa bênção que mantém a vida sobre o planeta. A chuva deveria ser sempre bem-vinda. O problema somos nós, todos nós, não apenas os moradores de áreas de risco. Não queremos mais sujar os pés. Isso mesmo, os alagamentos nas cidades – asseguram geólogos e urbanistas – devem-se principalmente à impermeabilização de extensas áreas. 

É bom trafegar pelo asfalto, é ótimo caminhar em dia de chuva sem pisar na lama, é confortável não ter que varrer as folhas de árvores dos pátios e das calçadas. Mas o preço é este: quando a água chega, não tem como se infiltrar no solo, não tem raízes que a conduzam ao interior da terra. Então, se acumula, provoca deslizamentos, invade ruas, praças e casas. Não há sistema de drenagem que dê conta.

Nossas cidades impermeáveis são um convite às inundações.

Nem é preciso chover durante quatro anos, onze meses e dois dias, como ocorreu na emblemática Macondo de García Márquez. Basta uma semana de tempo feio, como esta que está terminando, para todos amaldiçoarmos a bendita chuva.

O papa Francisco, esse surpreendente argentino que conjuga humildade e sabedoria, divulgou há poucos dias uma encíclica sobre o meio ambiente e alertou para a iminência de guerras pela água. Se continuarmos a consumi-la irresponsavelmente, em breve estaremos brigando por ela.

Concluo, pois, esta pregação no molhado com aquele provérbio chinês que manda acender uma vela em vez de amaldiçoar a escuridão. Pise na lama, mas bendiga a chuva.


18 de julho de 2015 | N° 18230 
PALAVRA DE MÉDICO - J.J. CAMARGO

Os que não conseguem morrer

Que motivações tornam tão diferentes os indivíduos que buscam felicidade pessoal?

Morrer, literalmente, é de um primarismo e de uma pobreza que contrastam com a engenhosidade e a exuberância dos sonhos concebidos naquela fase da vida em que fantasiamos ser o que provavelmente nunca seremos. Superada essa etapa de projetos irrealizáveis e promessas falaciosas, os modelos da vida real começam a se esboçar com diferentes perspectivas. E todos, de uma maneira mais ou menos elaborada, tentam sublimar a rudeza da morte e seguir vivendo, apesar da ameaça.

Excluída a legião tristemente majoritária dos que gastam a vida tendo como único alvo a sobrevivência – e desses não se pode exigir mais do que tristeza e resignação –, emergem dois grupos de pessoas mais equipadas do ponto de vista intelectual e econômico, ou seja, aquelas que têm condições de realmente planejar o que querem ser. Evidentemente, se vão conseguir ou não dependerá de uma série imensa de fatores aleatórios, como inteligência, iniciativa, perspicácia, ambição, oportunismo, coragem e, naturalmente, uma pitada de sorte. Esses ingredientes que dão à vida o delicioso colorido do imponderável.

Mas não é dessas dificuldades e vicissitudes que quero me ocupar. Pretendo, antes, rever as motivações que tornam tão diferentes os indivíduos que, partindo do mesmo ponto de largada e com os mesmos equipamentos, escolhem caminhos tão diversos na busca da realização e da felicidade pessoal.

Há os egocêntricos, que crescem enclausurados na autossuficiência, constroem grandes fortunas, esmagam os concorrentes, odeiam qualquer Segundo Caderno, esbanjam vaidades discutíveis, casam com mulheres bonitas e fúteis, montam sofisticadas academias em casa e, ainda assim, engordam muito, morrem antes da velhice e promovem velórios silenciosos, rodeados de amigos falsos e parentes interesseiros. Alguns poucos, constrangidos pelo estigma do egoísmo, fazem doações espalhafatosas e nem tentam disfarçar a expectativa de reconhecimento. Mas, mesmo na homenagem, não conseguem dissimular a falta que faz a espontaneidade. A avareza é uma tatuagem com tinta colorida, dolorosamente irreversível. Para esse grupo, a morte é a única terapia eficaz, compreensivelmente acelerada pelo esquecimento.

No contraponto, estão as criaturas especiais que nasceram para outro tipo de façanha: a de modificar para melhor a vida dos outros. Alguns desses até ganham dinheiro, não porque o perseguiram, mas como prêmio por sua competência. Para esses tipos, não há espaço para ostentação, nem tolerância com as mediocridades laureadas. 

São modestos e austeros, detestam exibicionismo e estão sempre inconformados por terem feito menos do que conceberam realizável. Não se queixam de fracassos eventuais e até usam deles para se fortalecerem ainda mais e esticar a corda do possível. São estoicos na doença e comovem seus pares pela bravura e pela resiliência. Quando a morte física chega, parece que não. Há tanto para relembrar e tantos projetos energizados pela contagiante gana de viver, que eles serão perpetuados, pelo menos até que morra o último felizardo agraciado pela ternura do convívio.

Li o obituário do Silvio Antonio Zanini com a leveza de quem tinha convivido e testemunhado, pela vida afora, a doce passagem de um desses tipos imortais. E, depois que chorei, senti vontade de melhorar.

terça-feira, 14 de julho de 2015



14 de julho de 2015 | N° 18226 
CARPINEJAR

Aguente declarações de amor sem gracinhas

O sarcasmo destrói a sinceridade. Já fui vítima e já fui algoz.

O homem, principalmente, tem vergonha de se declarar e vive se escondendo em brincadeiras. Tem vergonha de se emocionar e vive mascarando com piadas os momentos próximos das lágrimas.

É perceber que vai chorar ou umedecer os olhos que ele retira uma ironia do fundo de si para escapar ileso da entrega. Em vez de retribuir uma delicadeza ou entrar no clima romântico, ele vem com uma grosseria para tentar descontrair.

Não faça mais isso, aprendi a não fazer. É tão difícil ser sincero, leva muito tempo para o outro encontrar força para dizer algo importante, não banalize o encontro com a sua desatenção.

É custoso formular o que talvez nunca tenha sido dito para ninguém, não estrague com o deboche.

Sua namorada pode ter atravessado décadas naqueles minutos para entender um sentimento e partilhar uma verdade.

Relembre seus amores platônicos e doloridos da infância: quantas vezes procurou se declarar para uma menina, as frases subiram até a boca e voltaram ao silêncio? Você deseja que sua companhia passe pelo mesmo sofrimento?

Ninguém é covarde sozinho. Somos covardes porque nos deixam sozinhos com as palavras, não somos ajudados a falar o que nos incomoda.

Apoie a coragem de sua namorada. Devemos economizar e preservar as confissões de amor. Devemos valorizar e inspirar as confissões de amor. Temos que diferenciar a hora da ironia da hora de falar sério.

Não desestimule a sinceridade com palhaçadas. Drama pede meia-luz, mãos dadas e olhos nos olhos (o gênero comédia romântica é uma mentira – é só romance, colocaram comédia no nome para forçar o namorado a ir ao cinema).

Não dê motivos para que ela desconfie de seu compromisso – é o que acontece quando reage superficialmente diante de conversas mais profundas.

Fique quieto, parado, ouvindo, sei que você se enxergará emparedado, encurralado, assustado com a queda repentina de testosterona no corpo, pronto para abrir a porta do riso e sair correndo, mas segure a respiração e suporte escutar que você é a pessoa mais importante de alguém, sem baixar a cabeça, sem buscar refúgio no celular, sem nenhuma gracinha.

Serão juras que salvarão o relacionamento quando estiver em crise.

sábado, 11 de julho de 2015



12 de julho de 2015 | N° 18224 
CARPINEJAR

Casal brigando esquece que tem filho

Quando estou numa discussão de relacionamento ainda me pego guri, ainda me pego distraído. A mulher me pergunta algo simples e objetivo berrando e me perco no ponto de interrogação, somente presto atenção no agudo de seu timbre.

Ela questiona sim ou não, e rastejo indeciso num estado meditativo.

Com uma caneta nas mãos, faço de conta que não é comigo. Já me flagro tirando o canudo, reparando o estado da tinta, me desligo completamente das palavras. Diante da voz levantada, as palavras não são mais comigo, sou inteiro do silêncio.

É um estado de fuga que guardei da infância, no momento em que meus pais brigavam aos gritos. O palco permanece montado em minha memória: arrumados na sala, eu e os irmãos brincávamos de forte-apache enquanto esperávamos para almoçar.

Tudo ia bem, os cabelos estavam penteados e a mesa posta. De repente, a porta da frente batia, os lustres balançavam e a paz ia embora. Alguém saía de casa correndo, talvez o pai, talvez a mãe, e um seguia o outro.

A discrição não frequentava o nosso endereço, envolvia perseguição de carros, latidos desesperados no quintal, abraços histéricos e empurrões confusos.

Descobria que não teria almoço, nem sessão da tarde, muito menos tranquilidade.

A briga dava dois trabalhos: o de explicar aos vizinhos durante toda a semana o que aconteceu e o de acalmar o coração que nunca sabia ao certo o que estava acontecendo.

Eu me abstraía de propósito, recusando determinar se correspondia ao fim do casamento ou uma reiterada tentativa do papai e da mamãe de se entenderem e de serem felizes.

Os filhos desapareciam naquele instante para os pais, eles realmente esqueciam que eram pais. Casal quando briga esquece que tem filhos.

Alheios ao que escutávamos e à nossa posição vulnerável no front de batalha, retornavam para a sala, jogavam objetos nas paredes, soltavam palavrões que jamais poderíamos repetir e se xingavam mutuamente, com energia e disposição demoníacas.

Eu mexia cada vez mais no cocar de meu índio do forte-apache e em sua machadinha marrom. Fingia que não existia, diminuindo de tamanho, até me transformar num boneco e alguém me guardar na caixinha para brincar no dia seguinte.

Fixo na caneta e vejo que não me defendo do medo de gritos, apesar de adulto, apesar da paternidade.

Em vez de escrever qualquer coisa de útil, em vez de pedir socorro, vou desmontando a caneta no meio de uma nova e inesperada gritaria doméstica. 



12 de julho de 2015 | N° 18224 
MARTHA MEDEIROS

Inquietude pré-embarque

A cada vez que estou fechando a porta de casa para ir ao aeroporto, dou uma espiada mais demorada para a sala e penso: será que voltarei?

Julho, mês de férias. Momento de se preparar para a melhor coisa do mundo: viajar.

Na verdade, as três melhores coisas do mundo são comer, dormir e transar (coloquei em ordem alfabética, não em ordem de preferência), mas é viajando que desfrutamos para valer desses três grandes prazeres da vida. Não há rotina, não há horários, ninguém está nos apressando. O que pode ser mais excitante?

Pois estava, dias desses, conversando com quatro mulheres que vivem em trânsito pelo mundo. Ainda que sejam contumazes viajantes, elas admitiram que, a cada vez que compram uma passagem, sentem um temor incômodo que não sabem de onde vem. Estranho, tendo elas tantas milhagens acumuladas, mas não me surpreendeu. Também fico meio aflita antes de embarcar para um destino longe demais do meu quintal. Por um motivo tosco, infantil: fico achando que vou morrer.

Uma amiga que mora no Rio tem esta mesma sensação. Já somos seis (as quatro mulheres da primeira conversa, minha amiga carioca e eu). Você também? Então está na hora de a gente formar um grupo de apoio e tentar entender o que acontece.

Não é um medo racional, um medo de que o avião caia, por exemplo. As chances de ele cair são mínimas. Neste exato instante há várias centenas de aviões cruzando os céus do planeta e nenhum deles estará na matéria de abertura do Fantástico neste domingo (uma madeira, pelo amor de Deus! – toc, toc, toc).

Trata-se de um desassossego, mais do que um medo. Viajar é abrir um parêntese na vida, escapar de um esquema já organizado, se predispor ao desconhecido – e se despedir de quem fica. A cada vez que estou fechando a porta de casa para ir ao aeroporto, dou uma espiada mais demorada para a sala e penso: será que voltarei? Nem preciso dizer o que sinto ao dar um beijo nos familiares e trocar mensagens com os amigos: por um fiapo de segundo me passa pela cabeça que é a última vez que estou falando com eles. Qual a razão dessa neura descabida, se algo tão maravilhoso está para acontecer?

Deve ser justamente isso. Dá a impressão de que não merecemos este algo tão maravilhoso, de que teremos que pagar por este extremo deleite, não em cash, mas em sofrimento.

Culpa, em outras palavras.

Já soube de gente que, ao chegar ao aeroporto, mudou de planos: deu meia-volta e retornou para casa. Ufa, me sinto menos louca diante desses casos perdidos. Eu embarco com inquietação e tudo, e assim que o avião aterrissa do outro lado, estou uma tonelada mais leve e completamente esquecida do que até então me perturbava. A inquietação se autoextravia.

Aliás, embarco hoje e volto para a coluna daqui a duas semanas. Sem despedidas, por favor.

sábado, 4 de julho de 2015



05 de julho de 2015 | N° 18215 
CARPINEJAR

Invasores

– Já que ele não vai ficar comigo, não vai ficar com mais ninguém.

Assim também esquece que ele jamais olhará novamente para sua cara. Tentar destruir a próxima relação de seu ex ou flerte postando mensagens ofensivas e insinuações na web ou até mesmo mandando prints de conversas antigas é atitude de recalcada. Desceu sem volta o seu espírito para o inferno mais remoto. Não há depois como salvar o respeito e a reputação. É gesto de megera, de bruxa, de burra, de psicopata, onde os fins justificam os meios.

Pode estar desesperada, louca, histérica, mas até o jogo da sedução é constituído de regras e etiqueta, não é um vale-tudo emocional, o que não é reciproco deixa de vigorar como realidade, cabe respeitar a decisão de sua companhia, mesmo que um dia tenha recebido juras. Nada de destituir a liberdade do outro, que tem todo o direito de reavaliar o trajeto, não querer o relacionamento e trocar de opinião. Nada de bancar a hacker e entrar em contas alheias em nome de uma dor-de-cotovelo.

Depois de perder o amor, é muito fácil perder o amor próprio e despencar para a grosseria.

Não é não, o não está a léguas de significar um charme, não é para insistir se não existe abertura, não é uma provocação, um desafio e uma oportunidade para provar o seu valor.

Se ele não quer ficar junto, não se rebaixe e, o mais grave, não busque rebaixar todo mundo. Não arraste inocentes para seu túmulo. Se está infeliz, não espalhe a infelicidade. Aceite a derrota e o fracasso com humildade. Não procure sofrer acompanhando a novela do amor recente nas redes sociais. Não fique investigando o perfil da nova namorada. Não faça comparações e conclusões distorcidas, não crie tumulto e fakes. Policial amador é criminoso.

Ele não quis permanecer a seu lado quando apresentou seu melhor, não é com o pior que mudará seu conceito. Compreensão e respeito são capazes de trazer alguém de volta, jamais mentira e invasão de privacidade. Isso serve para homens e mulheres.

Não provoque o desprezo. O desprezo é a paixão azedando, vinho virando vinagre, sem rótulo e safra para ser lembrado. Quando o sentimento acaba por uma das partes, é necessário ser amigo do tempo. O tempo cordial é a única esperança que resta.


05 de julho de 2015 | N° 18215 
MARTHA MEDEIROS 

SUTIÃS

 
Um sutiã pode ter um significado oculto. Funcionar como um abraço apertado. Uma amarração.

Minha profissão traz poucas inconveniências e muitos prazeres, o que torna o saldo altamente positivo. Uma das coisas a celebrar é o contato que tenho com pessoas que, mesmo desconhecidas, estabelecem comigo uma intimidade enriquecedora. Foi o caso de uma garota (acho que ainda posso chamar uma socióloga de 45 anos de garota) com quem tive uma adorável conversa dias atrás, no Rio de Janeiro.

Ela me contou sobre seu primeiro casamento e sua primeira separação, do quanto ficou abalada, de como fez para se reerguer, de como foi o processo todo. Fez um relato comovente de tudo o que aconteceu, mas não pude deixar de ajustar o foco num detalhe rápido que ela mencionou, daqueles que a gente costuma deixar passar batido. Em meio ao turbilhão de emoções que ela narrava, me disse: Depois do fim, eu já nem sabia direito quem era, nunca usei sutiã e de repente comecei a usar.

Encontramos metáforas onde menos se espera.

Separação: tem desamparo maior? Uma aposta que parecia estar dando certo de repente começa a fazer água, alguém que para você era a pessoa mais importante do mundo perde o protagonismo, a vida estruturada se dissolve, o amor dá lugar à mágoa, e mesmo quando não há mágoa ainda assim existe um abismo para se atravessar antes de chegar ao outro lado. Você precisa reconstruir sua identidade, não é mais a esposa de, o marido de, o amor da vida de alguém.

As declarações não se sustentaram, as promessas não vingaram, o destino foi mais forte que a idealização: fez cada um seguir carreira solo. Depois de tanta luta, tanta negociação, tantas tentativas de manter o acordo, chega a hora em que é preciso entregar os pontos, não há mais o que fazer a não ser partir e tentar de novo com outro alguém, quando as forças voltarem.

Mas, até que elas voltem, quanto medo. Da solidão, da saudade, do rumo desconhecido. Você agora é um, não dois. Já não tem quem segure sua mão. Está solto. E essa soltura assusta. E se eu cair?

Um sutiã pode ter um significado oculto. Funcionar como um abraço apertado. Uma amarração. Não usá-lo sempre foi uma atitude libertária, até que, um belo dia, você descobre que a liberdade virou um bicho-papão e você voltou a ser uma menininha assustada. O que mais deseja é se sentir presa, segura, acolhida.

O desafio das separações é fazer com que voltemos a nos sentir confortáveis com a soltura dos dias, confortáveis diante da incógnita do futuro. Não sei no que os homens se seguram quando se separam (minto: sei, sim), mas grande parte das mulheres recomeça a vida emocional se segurando nelas mesmas. Só então, aos poucos, iniciam outra revolução, uma nova queima de sutiãs, a fim de formar uma identidade mais firme que a anterior.

quarta-feira, 1 de julho de 2015


ESTAMOS NA BUSCA. . .

INCESSANTE DE SER.
CADA UM COM SEUS PROPÓSITOS SERIAM ESTEPE DO BEM VIVER.
QUE FAÇAM SUAS APOSTAS SE FOR POR MERECER QUE MEREÇA.
CHEGAMOS NUS E VIVEMOS NOS COBRINDO.
NESSAS CONCORDÂNCIAS ACABAMOS PARTINDO VESTIDOS.
NA DURA VERDADE VOLTAMOS COMO CHEGAMOS NADA NO BOLSO
E NAS MÃOS CARREGAMOS APENAS VIVÊNCIAS QUE AQUI GANHAMOS.
OS SENTIMENTOS SERÃO NOSSO PASSAPORTE PORQUE É O ÚNICO
DOCUMENTO QUE LEVAREMOS UMA VEZ RADICADO JAMAIS DESFEITO.
E NOSSO TEMPLO CORPO ABRIGO DO ESPIRITO NOS SERVIU TANTO
NOS COMBATES ALEGRIAS E PRAZERES FICARÁ AQUI NO PLANO.
POIS O CORPO PERTENCE AO MUNDO SERVIU APENAS 
DE VESTIMENTA E DEIXAMOS AQUI NO CHÃO TERRA.
GRATOS SEREMOS ETERNAMENTE POR ESSA VESTIMENTA.
NOS ABRIGOU PROTEGEU E AMPAROU.
QUE A SAÚDE NOS BRINDE DANDO MAIS ANOS DE VIDA.
MESMO COM DORES E MAZELAS É TÃO BOM FICAR AQUI.
A VIDA É BELA E ENCANTADORA SEJAMOS GRATOS.
VIVENDO TODAS AS BELEZAS ANTES QUE A NOITE CAIA.
ENQUANTO NÃO CHEGA VAMOS USUFRUIR DA LUZ.
ATÉ O SONO CHEGAR ESTAREMOS ACESOS 
PARA O QUE DER E VIER.

SOL HOLME








OLÁ MEU ANJO!!!

Sinta vivendo agora
A juventude que eu tive um dia
Viva a emoção sem demora
Não curta a dor, só alegria

Como tudo na vida passa
Não passe com amargor
Sua fase tão linda na vida
De ser jovem e dar calor

Você é linda e perfeita
As pequenas falhas se vão
Quando souber que a receita
É ouvir seu próprio coração!

Autora: (Lúcia Biazetto
Beijokas em teu ♥



Amei
Nesse jogo eu , perdi.
Mas na verdade nós dois perdemos.



Eu porque te amava, você porque perdeu quem mais te amava

Mas, na verdade você perdeu mais do que eu,
porque eu poderei amar outras pessoas como amei você
mas você nunca será amada
como eu te AMEI!!! 

-¬ Amor ¬-


01 de julho de 2015 | N° 18211 
MARTHA MEDEIROS

Ainda Cristiano Araújo

Em uma cena de Birdman, o personagem Riggan Thomson, um astro em decadência, reflete sobre o que aconteceria se ele e George Clooney estivessem no mesmo avião e ocorresse um acidente fatal. Óbvio: Clooney estamparia as páginas de todos os jornais no dia seguinte, enquanto que a Thomson restaria uma nota de rodapé.

Farrah Fawcett teve a infelicidade não só de morrer, mas de morrer no mesmo dia que Michael Jackson. O senador Antonio Carlos Magalhães morreu em julho de 2007, três dias depois de um dos maiores desastres aéreos do país, notícia que monopolizou a imprensa por semanas. As mortes de Farrah e ACM ficaram em segundo plano. Não é preciso buscar outros exemplos: existe hierarquia na tragédia.

Gaúchos apegados à sua cultura podem ter considerado desproporcional a cobertura das mortes de Nico Fagundes e Cristiano Araújo, mas, sem entrar na discussão sobre o legado de cada um, o desaparecimento do cantor sertanejo teve todos os componentes para causar comoção – era jovem, talentoso (dizem os entendidos no gênero), um ícone nacional (também só soube agora) e morreu num acidente súbito ao lado de uma linda namorada. Não é páreo para o ocaso de um tradicionalista de 80 anos que transitava dentro das fronteiras do próprio Estado. Não é páreo em termos de notícia, que fique bem claro.

Ainda assim, a cobertura televisiva da morte de Cristiano Araújo causou espanto porque evidenciou a “alienação” de quem não sabia quem ele era. Alienação ou direito de escolha? Eu não apenas desconhecia Cristiano Araújo como também desconheço a maioria de seus colegas que compareceram ao velório, e não pretendo me atualizar sobre eles.

Não sei quem são os expoentes do axé e do forró, quem domina a cena do pagode atualmente, assim como muitos brasileiros talvez não saibam quem é Adriana Calcanhotto ou Marcelo Camelo – e muito menos quem é Tulipa Ruiz, Filipe Catto, Céu, Clarice Falcão. Vai do interesse de cada um. O problema é que, se a criatura vende milhões, é promovida a fenômeno, e ai de quem não capitular. Outro dia quase fui espancada por ter feito uma pergunta inocente: quem é Ludmila?

Houve uma época em que nossos ídolos eram os mesmos e vivíamos como nossos pais. Todos sabiam quem era Caetano, quem era Rita Lee, gostassem deles ou não. Agora os gêneros musicais deram cria, as tribos se multiplicaram e a tecnologia facilitou a popularização: há sucesso para todos os paladares – tantos, que é impossível acompanhar. 

Não há nada de errado em não saber quem era Cristiano Araújo e isso não significa que sua morte é desprezada, ela apenas não causa sensação de perda em quem não escutava sua música. A hierarquia do obituário obedece a critérios midiáticos, já a importância de cada um é medida não por números, e sim pela qualidade do encantamento que provocou em vida.

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