sábado, 10 de dezembro de 2016


10 de dezembro de 2016 | N° 18711 
CARPINEJAR

  • Depende do ponto de vista

    Ele já tinha sido um cantor de sucesso, tocado para ginásios com mais de 50 mil pessoas, fugido de fãs pelas saídas laterais, conhecido a fama de perto, a ponto de interromper selfies e autógrafos para não ser esmagado pelo público, aparecido no Faustão e no Jô Soares, agora ele mergulhara no anonimato. Ninguém mais comentava sobre seu trabalho, suas músicas não rodavam nas rádios, seus CDs não vendiam como antes, os seus bajuladores haviam desaparecido sob alcunha de falsos amigos.

    Quando chegou para dar um show em restaurante no litoral gaúcho, só tinha três mesas ocupadas. Circulavam mais garçons que espectadores.

    Havia uma melancolia de circo desmontado, uma tristeza de cachorro manco, um dó de tempestade de verão, tanto que o seu assessor estava disposto a cancelar o evento.

    O dono do local, prevendo que não contaria com lucro e antevendo o prejuízo com o pagamento do cachê, aproximou-se do artista e debochou:

    – É o fim de carreira, hein?

    O músico não julgou o comentário, bateu afavelmente nas costas do sujeito e respondeu:

    – Pode ser fim de carreira ou reinício, depende do ponto de vista, eu comecei tocando para três mesas quando jovem.

    Ele pegou seu violão, ajustou o microfone e fez a melhor apresentação de sua trajetória. Cantou com vontade, não se desanimou com a ausência de eco da multidão, pôs os braços para cima a chamar aplausos coreografados e lembrou letras prediletas e melodias antigas que não vinham à tona há muito tempo.

    Quem o via não compreendia a performance entusiasmada, o turbilhão interno, a gana de vencer. Talvez até ficasse constrangido com o escândalo da alegria, absolutamente fora de um contexto vitorioso. Mas o cantor não foi prepotente com a vida, não tingiu um ponto final na fé, não confundiu vocação com ambição, não estacionou a voz na vaidade, não se apequenou com as adversidades, entendeu a escassa procura como uma reestreia.

    Você pode encarar o problema como um fim ou como uma oportunidade, pode aceitar a solidão como um fracasso ou um novo nascimento, pode precipitar o fiasco ou transformá-lo em esperança.

    Humildade é e sempre será otimismo.


10 de dezembro de 2016 | N° 18711
MARTHA MEDEIROS

Três dias sem celular

Fotografar tudo e todos, a toda hora, sofregamente, é “tirar o tempo do próprio tempo”, é não estar mais ali como protagonista da própria vida

Consta que o escritor francês Honoré de Balzac não tinha pela fotografia muita consideração. Dizia ele: Todos os corpos físicos são compostos, na sua totalidade, por infinitas camadas fantasmagóricas, uma em cima da outra. A fotografia tem o poder de retirar cada camada espectral e de transferi-la para o retrato. Ou seja, a cada click, morremos um pouco.

Li também em algum lugar (minhas desculpas ao autor desconhecido que ficará sem crédito) que fotografar é tirar o tempo do próprio tempo, engaiolar o momento, eternizar o homem mortal em arquivo.

Isso explica, em parte, o fato de tantas pessoas, tribos e povos não gostarem de ser fotografados. Quando não conseguem evitar, fecham o rosto: é a resistência possível, sonegar o sorriso. Por respeitar aqueles que acreditam em roubo de alma, costumo pedir permissão antes de fotografar desconhecidos, mas só pensei seriamente neste assunto quando fiquei três dias sem celular.

No início, achei que me sentiria amputada, mas aconteceu o contrário: reintegração de posse. Posse do meu olhar, da minha presença íntegra. De repente, eu estava nos lugares com este único fim: ali estar e ponto – não a fim de gerar conteúdo para abastecer redes sociais. 

Assisti a uma palestra e não fotografei o palestrante, estive num bairro desconhecido e não fotografei seus prédios, almocei com uma amiga e não bati uma selfie nossa, e isto não causou nenhuma sensação de incompletude ou solidão, ao contrário, lembrei como as circunstâncias e experiências do dia se tornam mais perceptíveis quando não temos um dispositivo eletrônico ao alcance da mão. É a mesma regra que o teatro impõe: apreenda o que está vendo e escutando, absorva o encantamento, porque logo tudo irá desaparecer e só o seu sentimento irá ficar.

O que eterniza – qualquer coisa – é a impressão causada. Óbvio que é muito bom ter fotos das pessoas que amamos, das comemorações, das viagens, de nós mesmos quando crianças, de nossos ritos de passagem. E tão importante quanto é a fotografia como expressão artística e/ou jornalística, o registro de um segundo que transcende o banal, que desperta reflexões, espanto, deslumbramento, releituras.

Mas fotografar tudo e todos, a toda hora, sofregamente, é “tirar o tempo do próprio tempo”, é não estar mais ali como protagonista da própria vida, e sim como um freelancer com um contrato temporário a cumprir. De certa forma, estamos todos a serviço do celular, nosso patrão.

Afanaram meu patrão e não fiquei desempregada, continuei usando a vida. E nem deu tempo de comentar aqui sobre esses três dias em que passei, também, sem escutar os apitos do WhatsApp. Ainda que pareça inacreditável, sobrevive-se.




10 de dezembro de 2016 | N° 18711
LYA LUFT

Pode ser mais simples

Almas aflitas, inseguros no turbilhão de informações corretas ou tresloucadas que nos confundem, em que até altas figuras fazem e refazem, decidem e se enrolam, vivemos vulneráveis a toda sorte de famigeradas “receitas” baseadas na futilidade geral: seja bem-sucedido, segure seu marido, enlouqueça sua mulher, tenha pelo menos dois orgasmos a cada relação, jamais envelheça etc. Como tudo está cada vez mais complicado, e andamos desgovernados, encalhados ou jogados por marés imprevistas, desistindo de prever qualquer coisa porque tudo se levanta e desmorona em questão de horas, acabamos nos aferrando a algum desses preceitos espalhados por toda parte.

É a era das receitas, das frases feitas e clichês, adaptados a milhares de desiguais como se assim carimbados não tivessem individualidades. Somos uma manada, o que oferece conforto, mas aniquila o espírito. Rouba a liberdade, mata a originalidade. É essencial ­– nos aconselham – fazer como todo mundo, frequentar o restaurante da hora, o cabeleireiro idem, ler aquele best-seller sem saber do que trata, conhecer as Bahamas, dar uma passadinha em Paris. Transpirando e lutando para pagar as reles contas do dia a dia, corremos ofegantes em busca disso que não podemos avaliar nem alcançar, eternamente frustrados.
Se prestarmos atenção a muitas mutantes e loucas recomendações, havemos de nos divertir: Não beba muito café; café faz bem. Não tome aspirina demais; tome uma por dia (a infantil, claro). Vitaminas não ajudam; tome esse moderno complemento de vitaminas. Faça exames a cada poucos meses; não faça exames demais. Álcool faz mal; uma taça de vinho faz bem. Exercite-se diariamente; não se esforce demais. Coma só carboidratos, evite carboidratos; fuja das gorduras, coma bacon e ovo frito todo dia no café da manhã... além dos grotescos conselhos sobre sucesso profissional, sexual, e ser linda(o), “ser famoso”.

Mesmo em assuntos mais sérios, há declarações duvidosas, como “Quem não lê é uma pessoa triste”. Desculpem, amigos, leitores, ex-alunos e colegas escritores, mas isso é mais uma empulhação. Quem não lê sabe menos, se diverte menos, tem menos bagagem interior, visão bem mais estreita de mundo, talvez fique mais solitário (livro é um belo companheiro) – mas não precisa ser “triste”. Os mais ignorantes quem sabe, andam mais alegrinhos por não fazerem ideia do festival de enganos e desfaçatez em que nos enredam.

Atenção: não estou dizendo que a gente não siga ao menos essa receita, de ler mais. Mas não reside nisso nossa tristeza: apenas, lendo, nossa alma se expande, cria varandas como dizia um amigo meu; aprendemos história, arqueologia, psicologia, saboreamos beleza, nos intrigamos, nos conhecemos melhor, curtimos “as franjas das palavras”, seus muitos sentidos – se soubermos ver. 

Tudo pode ser mais simples do que nossa aflição com receituários financeiros, psicológicos, sexuais. Recentemente, numa palestra, me perguntaram por que alunos deveriam estudar. Não precisei refletir. Do fundo dos meus tantos anos e experiências, fracassos e tolices cometidas, respondi o que julgo ser a verdade mais simples: “Devem estudar para não ficarem burros”. De modo geral, em quase tudo a simplicidade nos salva.

Termino com um P.S.: delícia o encontro de colunistas da ZH na quinta-feira, alegria e orgulho de novamente estar nesta família.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016



06 de dezembro de 2016 | N° 18707 
CARPINEJAR

Tempo emocional

Quantas décadas passaram entre 29 de novembro, madrugada da tragédia da Chapecoense, e 30 de novembro? Em uma única data, correram quantas semanas?

Foi um pesar violento, que 24 horas e 365 dias não fizeram mais nenhum sentido para abarcar o que transcorreu na intimidade da existência de cada um. Tudo o que aconteceu em outubro e setembro parece que está longe demais. Eu tenho que me esforçar para lembrar. Sinto que troquei de ano várias vezes em um ano, que me despedi das folhas do calendário em solitária noite.

O choque, o susto, a calamidade inspiram a reprisar o mesmo ato, de tal modo que você vive uma lembrança eternamente. Você recua e avança na recordação sem força para alterar o imponderável. O destino impacta a sua estabilidade, destrói o seu romantismo e nada mais é fixo e imutável.

O sofrimento nos deixa antigos. A dor nos envelhece rapidamente. O tempo emocional se sobrepõe ao tempo físico. O tempo emocional é o que vigora nas palavras e na realidade sensível. É um fim de uma crença que chega antes do fim do ano, é o Réveillon silencioso de um ideal sem espocar de fogos nem brindes.

Não mudamos de idade, não mudamos a aparência, mas somos outros por dentro, amadurecemos forçosamente. É quando somos abalados por uma tristeza tão grande que a sensação é de que atravessamos a metade de um século em um piscar de olhos. Pode ser um desemprego ou um término de um romance, é algo que não esperávamos e que consome a nossa paz e rotina, que devora a nossa tranquilidade e não tem como fingir indiferença.

Choramos, acumulamos insônia e nos encolhemos no sofá em posição fetal assistindo ao noticiário, com os olhos parados naquilo que é passado e que também não se esgotou como futuro.

Quem já não perdeu um familiar e não acordou como se estivesse sonhando, não crendo, com a impressão do impossível experimentado?

Quem já não se separou de alguém que amava muito e não atravessou a mais funda desilusão? Toda renúncia entorta os relógios e adoece a solidão.

O tempo emocional sempre manda quando transformamos a nossa maneira de pensar a vida, quando a ingenuidade é assassinada, quando o nosso riso é mais difícil de sair dos dentes para os lábios.

Com a morte de Tancredo Neves abandonei a infância, com a morte de Ayrton Senna deixei a adolescência, com a morte dos Mamonas Assassinas ingressei na maturidade. A queda do avião com o time da Chapecoense talvez seja o meu portal para a velhice. Já seguro o guarda-chuva como uma bengala, apoiando o peso do país em meus ombros.

sábado, 3 de dezembro de 2016




03 de dezembro de 2016 | N° 18705
CARPINEJAR

Doce laquê

Nunca entendi a minha atração por salão de beleza.

Havia um mistério na neblina das escovas e dos secadores trabalhando, no adocicado do vento daquele refúgio de beleza.

Desde pequeno, quando acompanhava minha mãe, vinha a vontade irresistível de rondar as cadeiras na frente do espelho, onde as senhoras esperavam alegremente com seus bobes e revistas de fofocas. Não me entediava como a maioria das crianças, não queria retornar rapidamente aos brinquedos de casa. Agradecia a demora e o atraso do almoço. Nem a fome me incomodava.


O ambiente me hipnotizava, acreditava que fosse pelo brilho das tranças e pela altura surpreendente dos andares das cabeças femininas, mas abandonei a lembrança na caixinha de incompreensões da vida e segui em frente.

Quando a minha mulher apertou o spray fixador em seus cabelos antes de sairmos para uma formatura, eu quase tive um colapso de felicidade.

Discerni o feitiço: laquê. O que me inebriava no espaço dos cabeleireiros era o olor do laquê. As borrifadas de 15 centímetros de distância criavam uma aurora boreal em minha respiração.

Sou apaixonado por laquê. Melhor que incenso e aromatizador. Melhor que os toldos dos jacarandás na primavera porto-alegrense.

Por que não trocaram o nebulizador pelo laquê para curar a minha asma? Por que não me dispensaram das aulas de natação e das maçãs diárias?

Gastaria um laquê para perfumar a residência. Jogaria um laquê em cima de minhas roupas.

A vontade é ser um traficante de laquê. Viajar para a fronteira de Uruguaiana ou Santana do Livramento contrabandear laquê. Desviar todo o salário na compra de caixas de laquê. Forrar as prateleiras do banheiro de laquê.

Escrevo compulsivamente laquê, repito laquê freneticamente, em pleno turbilhão de viciado.

No salão, o laquê paralisava os penteados das mulheres e também o meu olfato. Eu planava no ar como um beija-flor ou Dadá Maravilha.

Pena que descobri tarde demais para um reposicionamento de carreira. Eu me daria bem salvando as tranças e os coques das clientes. Imagine o que seriam os meus penteados?



03 de dezembro de 2016 | N° 18705
MARTHA MEDEIROS

Seu terapeuta é feliz?

Ele não pode ter uma vida, apenas uma carreira. Tem que fixar residência no consultório e estar sempre a nossa espera de banho tomado e alma lavada

Outro dia acompanhei uma conversa instigante. Em meio a um grupo, uma mulher comentou o quanto havia ficado desconcertada ao saber que sua analista não era feliz. Havia se tratado com ela por três anos, nada sabia da vida íntima da profissional com quem tanto havia desabafado e agora, depois de muito tempo, havia descoberto que a analista tinha problemas pessoais e que inclusive havia tentado o suicídio uma vez.

A tentativa de suicídio me pareceu um acréscimo sensacionalista à história, mas, desconsiderando esse detalhe, me concentrei na fantasia que alimentamos a respeito desses profissionais.

Eles ajudam a amenizar nosso sofrimento emocional, a tomar decisões necessárias para que a vida destrave, a compreender e perdoar nosso passado, a vencer medos e traumas, enfim, fazem uma assistência técnica básica. Para que o processo dê resultado, contam com nossa sinceridade e confiança, e é por isso que despejamos, sem reservas, tudo aquilo que ocultamos até de nós mesmos. Declaramos abertamente nossas fraquezas, recalques, frustrações, taras, dificuldades. O que esperamos em troca? Que eles já tenham resolvido todas essas questões em suas próprias vidas para que possam se concentrar na nossa.

É um delírio, mas ficamos mais descansados assim.

Até que um dia descobrimos, sabe-se lá como, que aquela criatura que parecia acima do bem e do mal é uma pessoa que bebe muito, que não consegue manter relações afetivas por mais de seis meses, que já atropelou um cachorro e fugiu, que sofre até hoje por um grande amor perdido, que tem medo de andar de elevador, que coleciona multas de trânsito, que não fala com um irmão há sete anos.

Isso significa que ele não é feliz? Apenas significa que é mais parecido com um ser humano do que com Deus.

Eis a encrenca: ele não pode ser parecido com um ser humano, ou seja, conosco. Se não resolveu suas próprias tranqueiras, que habilidade terá para lidar com as tranqueiras dos outros? Não admitimos que ele enlouqueça de ciúmes, que tenha vaidades, que guarde segredos, que morra de sono no meio da tarde, que sinta tédio, raiva, claustrofobia. Não pode estar atolado em dívidas, não pode ter um botão faltando na camisa, não pode fumar, não pode atrasar, não pode chorar.

Ele não pode ter uma vida, apenas uma carreira. Tem que fixar residência no consultório e estar sempre a nossa espera de banho tomado e alma lavada. Encontrá-lo com um carrinho lotado de cerveja no caixa do supermercado exigirá de nós muito autocontrole.

Desejamos que nossos terapeutas sejam perfeitos, e é por isso que eles costumam acertar no nosso diagnóstico: no fundo, somos todos uns narcisistas.



03 de dezembro de 2016 | N° 18705
PALAVRA DE MÉDICO | J. J. Camargo

As dúvidas que fingimos

A BUSCA PELA IMORTALIDADE é tão antiga quanto a certeza de que morreremos

A doença como ameaça e a morte como concretização do fantasma são temas tão inquietantes, desde sempre, que exercem um fascínio irresistível nos escritores que, manejando ficção ou realidade, descobriram nelas um veio inesgotável de emoção. E se servem deste filão emprestando-lhe inspiração e sensibilidade, ingredientes indispensáveis aos operários da palavra.

Aliás, tendo a palavra como instrumento em comum, escritor e médico usam-na à exaustão como ferramenta de criação estética de um e arma de consolo e solidariedade do outro.

Além disso, a quantidade de médicos que conseguiram destaque na literatura atesta o papel da emoção como um recurso sedutor na captação de novos e intangíveis leitores.

Alguns, mais escritores do que médicos, mas tendo a medicina como lastro e assoalho, se deram ao luxo de criar estilos que impactaram na literatura pelo brilhantismo e pela criatividade. Claro que estava pensando em Guimarães Rosa quando escrevi este parágrafo. Mas outros, como Pedro Nava, Moacyr Scliar e António Lobo Antunes, com textos singelos e diretos, foram igualmente encantadores.

Preparando uma conferência na Academia Nacional de Medicina sobre essa interface, deparei com uma população especial: escritores leigos abordando temas médicos da maior densidade emocional, com uma precisão e, às vezes, uma contundência nunca reportadas pelos profissionais do ramo.

A descrição do sofrimento emocional de Ivan Ilitch, devastado pela dor física da doença terminal e pela sensação de abandono multiplicada pela distância da família que misturava negação com otimismo mentiroso, e dos médicos que falavam um idioma que ele não entendia, é mais do que uma obra-prima, é o transporte do leitor para dentro do sofrimento do pobre homem, e compartilhado pela genialidade inconteste de Liev Tolstoi.

Quem não leu As intermitências da morte, de Saramago, terá apenas uma pífia ideia do assunto quando opinar sobre a naturalidade da morte. Ele concebeu um país onde, por um decreto imperial, a morte estava banida. Depois de uma euforia inicial, começaram os problemas. Primeiro, o que fazer com os agentes funerários, definitivamente desocupados. 

Depois, com os hospitais soterrados de moribundos, proibidos de morrer, mas não de adoecer. A situação vai se agravando até chegar no seio da família que, depois de um tempo, percebeu que o cuidado extremo dedicado aos seus amados não serviria para trazê-los de volta à vida útil e, sendo assim, talvez fosse preferível que eles simplesmente morressem para que a rotina plena dos saudáveis pudesse ser retomada.

Ninguém descreveu com tal brilhantismo o dilema afetivo em que a dor da perda e a exaustão do sofrimento se encontram e se digladiam. E a inexorabilidade da morte é a única vencedora possível, mesmo que a busca fantasiosa pela imortalidade seja tão antiga quanto a certeza de que morreremos. Por pura conveniência, tratamos a única certeza como se houvesse dúvida e trocamos a racionalidade do “quando” pela estupidez do “quem sabe”.



03 de dezembro de 2016 | N° 18705
LYA LUFT

O grande silêncio


A maior parte das coisas nesta nossa vida não se explica, e não parece ter muito sentido. A morte é uma delas. Minha primeira experiência foi a pomba-rola congelada que encontrei nas lajes do pátio, certa manhã de inverno, há tantas décadas. O passarinho me enterneceu, levantei-o do chão, contente por ele não fugir, enfiei debaixo do casaco junto do peito para que não sentisse frio. Meu pai tentou me explicar que não adiantava: a avezinha estava morta. Melhor enterrar no jardim. “Ali, entre as roseiras da mãe.”

No curso da vida, as mortes foram desfilando: tranquilas ou brutais, de velhos ou de crianças, os vivos entrando na sua alameda de mistérios. Mortes fazendo parte da vida. Já aos 35 anos, mãe de três filhos, perdi meu pai: minha vida se dividiu em antes e depois. Fora-se o meu chão fundamental, meu amigo, meu mentor, que estava sempre ali para mim e nunca falhava. No saguão da faculdade onde estava sendo velado, altas horas da noite, depois de viajarmos numa chuva gelada, o primeiro choque foram sua imobilidade e seu silêncio. 

Não adiantava mais chamar seu nome, acariciar seu rosto, seu cabelo grisalho tão igual ao de poucos dias atrás. Não adiantava a dor me rasgando, a incredulidade, a busca do apoio, do estímulo, de tantos significados. Nem um bilhete de despedida que, meio descompensada, procurei por vários dias entre seus papéis: não haveria motivo, uma vez que morreu de um modo fulminante. Suicidas deixam bilhetes; meu pai queria viver. As mortes que enfrentei depois foram silêncios se acumulando numa nuvem infinita que quase passa despercebida na maior parte do tempo.

Nestes dias atuais, de tão cruel tragédia que levou de uma vez dezenas de jovens e adultos, volta o vazio do silêncio fatal de tantas vozes. Numa hora dessas, a fatalidade enfia nossa cabeça nesse poço secreto: onde estão agora? Onde suas almas? Terão ficado perplexas, todas ali reunidas? No 11 de Setembro, muito imaginei aqueles tantos milhares de almas, e agora? Não estive mais em Nova York, mas quem foi me fala de uma sensação de sacralidade e intensa, embora tranquila, presença da morte.

Não só a perda, mas até a eventual possibilidade da perda de uma pessoa amada é uma sombra real sempre à espreita. Aqui e ali, como um raio, este aperto: este momento feliz não vai durar para sempre, essa pessoa também não, nem eu vou permanecer. O jeito é pensar que a vida é algo além de nascer, crescer, comer, procriar, trabalhar e acabar. Um pequeno consolo: depois de um bom tempo de puro horror, vamos entendendo: os que morrem, sendo amados, permanecem. Não só na memória, não só na nossa crença (para quem a tem), mas porque fazem parte de nós, de nosso afeto e nossa tristeza. Nossos medos, nossas lembranças boas. 

Nossa alegria também. Começamos a nos salvar, aliás, quando conseguimos comentar alguma memória engraçada, e rir. Ao menos, sorrir. A gente lembra da voz, das manias, das palavras, do rosto, do jeito de andar, ainda que mais esfumados, e nos inquietamos, como era mesmo? Porém, a morte também nos deixa uma dádiva: vontade de sermos melhores, de cuidar mais dos outros e de nós mesmos, de viver (ou inventar) alguma forma de permanência.

sábado, 26 de novembro de 2016




26 de novembro de 2016 | N° 18699 
LYA LUFT

“Ser feliz”

Certa vez, em lugar de “perdas” escrevi “peras”, num texto qualquer. Ao revisar, eu ia corrigir, mas achei que seria bem mais interessante deixar como estava. Pois, lendo aquilo, as pessoas um dia talvez pensassem: “O que será que ela quis dizer?”. Afinal, o interessante nos fascina e o desinteressante nos entedia. Salvem-nos as surpresas, de preferência as boas...

Essa “ilogicidade” da arte me encanta, embora nem todos os artistas concordem, como minha querida amiga e mestra Lou Borghetti, em cujo atelier uma vez por semana me recupero, tentando pintar – entre diálogos deliciosos e estimulantes –, da hoje assustadora situação deste país. No mágico clima da arte, ainda que aprendiz tardia no campo da pintura, aprendo um pouco mais essa ilogicidade a que me refiro com minhas peras: digamos que se trata antes de liberdade. 

E cada vez mais mergulho, agora com mais tempo, em uma das minhas formas de ser feliz: ler, ler, ler. De momento, uma rara biografia de Confúcio, cuja vida foi, segundo o autor, um relativo desastre, mas cujas ideias embasam a incrível cultura chinesa e fascinam os ocidentais.

O que buscamos afinal, em nossas breves e ilusórias existências? Fama, sucesso, ser magro, ser atlético, ser famoso e rico, enfim “ser feliz”, seja lá o que isso signifique para cada um – objetivo que muda em cada fase da vida. Quando criança, eu queria ser adulta, pois para eles me pareciam existir as coisas interessantes. Adolescente, eu queria entender o mundo, para isso lia feito desesperada para susto de minha mãe, que muitas vezes me mandou sair com as amigas: ler demais me deixaria “pateta” e, além disso, afastaria candidatos, “porque homens não gostam de mulheres muito inteligentes”. 

Adulta, quis ter uma família, filhos, que sempre foram meu maior e mais ardente desejo: o que seria de mim sem essas criaturas tão amadas, mesmo que eu fosse bela, magra, rica e famosa? Sempre quis muito ter uma relação pessoal positiva e boa e, embora duas vezes viúva, tive isso como dádiva do destino, agora mais uma vez – curtindo há bom tempo o aconchego de uma relação já mais para outono do que para primavera.

Nesta fase atual da vida, quase invernosa, o que desejo para esse “ser feliz” tão falado? Além dos afetos já citados, quero sossego: há algum tempo parei de correr pelo país e fora, em palestras, encontros, seminários. Foi quando um jornalista perguntou qual meu maior “sonho de consumo”, e respondi sem refletir: “Ficar quieta”. No avião, voltando para casa, indaguei de mim mesma: “Então por que você não fica quieta?”.

Reformulei muita coisa e tenho conseguido – o máximo possível sem virar uma estranha eremita – ficar sossegada com meus livros, este computador, meus afetos, sabendo que a família melhora este mundo pela sua decência e talentos, os amigos estão perto, ainda escrevo com alegria, curto a paisagem da minha cobertura mais rústica do que chique, e com meu parceiro escapo nos fins de semana para outro refúgio simples, na Serra. Mas confesso que, nestes estranhíssimos e inquietantes tempos, a alma se aflige mesmo quando a vida está boa: o que estão fazendo com este Brasil? E isso, meus amados leitores, não deixa ninguém “ser feliz”.


26 de novembro de 2016 | N° 18699 
MARTHA MEDEIROS

EU INTERMINÁVEL

A cada dia, eu vou assimilando novos elementos à minha identidade, essa identidade que nunca se conclui

Quando parece que já sabemos direitinho quem somos, um novo dia amanhece e traz hesitação: fica claro que não, que não existe essa história de estar completo, finalizado. Eu sei quem sou até este exato instante em que escrevo, mas antes de terminar este texto há uma chance de tudo mudar. Pode o telefone tocar e eu ser convidada para algo que nunca fiz, ser procurada por alguém que vai mudar minha vida ou golpeada por uma notícia que me amadurecerá. 

E serei um pouco mais (ou um pouco menos) do que sempre fui, este sempre fui tão cheio de ondulações e curvas minha vida é uma estrada quase sem retas e sem uma pista para acostar.

A cada dia, um fato vira memória, uma pessoa volta do passado, uma ilusão se desfaz, outra desperta, o céu troca de cor, um plano ganha avalista, as vontades confabulam, e eu vou assimilando novos elementos à minha identidade, essa identidade que nunca se conclui. Queria tanto saber quem sou, mas como arriscar uma definição se ainda me restam três ou quatro parágrafos e um punhado de anos pela frente?

Tenho duas dúvidas a tirar com um colega com quem iniciei um novo projeto, uma declaração ensaiada para quando estiver frente a frente com alguém que nunca ouviu de mim certos verbos, uma alegria ao antever o encontro com uma amiga que está longe dos meus abraços, fome de algumas coisas que ainda não provei e umas incertezas que doem e para as quais não há cura enquanto eu não acabar de me entender, e eu não acabo nem quando me deito e durmo.

Eu apago e acordo no sonho, no delírio etéreo de uma noite povoada por desejos inconscientes e mensagens que decifro com dificuldade, há alguma coisa em mim ainda sendo construída, e quando desperto de fato, este dia a mais de vida me encontra ainda mais indefinida.

Então abro a janela e o céu está com uma luz diferente, tenho um receio que não tinha antes e um problema a menos a resolver, um compromisso apressa meu banho e o reflexo do espelho revela que emagreci, descubro uma saudade ampliada de alguém e um desdém que não estava ali, o dia não é o mesmo de ontem e eu já não sou também.

E ao ligar o computador para responder à pergunta de um estudante de Jornalismo que pede para que eu me revele, que eu explique, afinal, quem sou, de preferência com poucas palavras e precisão, invento qualquer bobagem que justifique a que vim, que esclareça como fui parar aqui e ser assim, enquanto trato de espiar as previsões astrais para o meu signo, de lidar com os espantos e o mistério que ainda não elucidei – e diante de tanto “não sei” me deformo, me reformo, me amoldo, me dilato e admito, ao menos para mim, que sou isso, um eu sem fim.



26 de novembro de 2016 | N° 18699 
CARPINEJAR

O QUÊ?

A velhice vem aos goles. Nunca se bebe o tempo num único sorvo.

A visão é a primeira a não corresponder inteiramente aos seus comandos. Você enxerga com dificuldade, mas não aceita e adivinha mais do que reconhece com rapidez. Assim tem os seus primeiros constrangimentos sociais. O neto exibe as fotos da visita ao zoológico e você comenta: “Que araras azuis bonitas!”.

E o neto retruca que não são araras, mas macacos. Você acabou de demonstrar que é um analfabeto ecológico para a nova geração da família.

Sua teimosia em deduzir no lugar de enxergar vai lhe colocando em situações incômodas, como a de embarcar no ônibus errado, estacionar em vagas de portadores de necessidades especiais ou de realizar perguntas óbvias.

Depois é a memória que fraqueja e rasteja com esforço. Começa a brincar do jogo da forca com as lembranças. O bonequinho recebe contornos a cada lapso e sempre termina com a cabeça a prêmio.

As palavras são apenas figuras. Ou seja, aparece a figura sem a palavra, o raciocínio é próprio de livro colorido para bebês.

O que lembrava instantaneamente custa a vir à tona. Sem wi-fi das ideias, retrocede à internet discada do pensamento. Esquece primeiro o nome das pessoas, os filhos são as cobaias prediletas. Troca os nomes dos guris, Pedro chama de Felipe, Felipe de Pedro e não acerta mais quem se aproxima. No início, dedica horas se explicando, argumenta que o filho confundido deve estar pensando em você, mas a recorrência faz com que perca a credibilidade.

Em seguida, erra o nome trocando o sexo dos filhos, Felipe chama de Gabriela, Gabriela chama de Pedro, a confusão está instalada. Resta rir e levar os acidentes de gênero na brincadeira.

A caduquice cobra os juros. O pior se avizinha. Após falhar o nome das pessoas e não conciliar rosto com legenda, passa a tropeçar na identificação dos objetos. Liquidificador chama de secador, micro-ondas de máquina de lavar, televisão de aspirador de pó, até se contentar com o genérico Coisa: – “Liga a coisa!”, “Alcança a coisa!”, “Onde está a coisa?”.

Por fim, apaga o nome das ruas, das praças, das cidades, do país, até se tornar um cidadão do mundo. Do outro lado do mundo.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016



23 de novembro de 2016 | N° 18695 
MARTHA MEDEIROS

Embriagado pela vida

Não é a primeira vez que escrevo sobre o cineasta Domingos Oliveira e o efeito que ele provoca em mim. Não consigo distingui-lo do seu trabalho, é como se homem e obra fossem uma coisa só. Seus filmes são extensões do seu corpo, ele fica de mãos dadas com cada um da plateia.

Domingos é uma declaração de amor ambulante. Um hedonista, um libertário, um filósofo, um ser pulsante que alterna erros e acertos sem o menor constrangimento porque sabe que a vida é assim mesmo e tentar enquadrá-la como algo plano e sensato seria uma hipocrisia.

Fui assistir ao seu premiado BR716 e saí do cinema com minha admiração confirmada. Domingos já está em seus 80, mas sua alma não tem idade, não acusa o passar do tempo, ele ainda é aquele morador de Copacabana que vivia embriagado de álcool e de enlevo pelas belas garotas que circulavam pelo seu apartamento – BR não é a sigla de uma rodovia, e sim as iniciais da Rua Barata Ribeiro, onde ele morou no início dos anos 60, pré-golpe militar, dando uma festa atrás da outra enquanto tentava escrever um livro. O que não deixa de ser uma viagem.

Caio Blat, que interpreta o alter-ego de Domingos, está perfeito em sua caracterização, melhor do que os atores que interpretam o alter-ego de Woody Allen e chegam lá medianamente. No início, o seu jeito de falar soa estranho, mas logo a gente acostuma. Sophie Charlotte humilha: nunca esteve tão linda, sexy e cativante. Sergio Guizé, no papel de um ativista político regado a algumas doses extras, faz rápidas e definitivas aparições – carisma puro. 

A fotografia em preto e branco é colossal, mas funciona também quando é apenas simples. Os ângulos passam de óbvios a surpreendentes numa piscadela. É tudo dessa forma irregular, incongruente e absolutamente natural. Domingos é Nouvelle Vague e Cinema Novo, é profundo e é comédia, foco e desfocagem intercalando-se.

Como não se deixar seduzir? Seus filmes não parecem filmes, parecem uma pessoa, com caráter e defeitos. Não há sexo explícito, e sim paixão explícita, verdade explícita: Domingos mostra mulheres e homens contraditórios, malucos, românticos, confusos. As falhas não são deletadas, e sim assumidas. Vale tudo, porque o tudo é desse jeito mesmo, múltiplo. Somos amorosos e cafonas, inteligentes e ciumentos, sérios e divertidos. Não existe a supremacia de um aspecto sobre outro, o meu ponto de vista versus o seu. Viver é um projeto coletivo, aberto ao transitório, em que só o que importa é o movimento dos nossos desejos.

Parece um elogio ao filme, mas é um elogio ao ser humano, ao Domingos e a nós todos, no que restou da nossa saudável embriaguez dos sentidos.

terça-feira, 22 de novembro de 2016



22 de novembro de 2016 | N° 18694 
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Maravilhamento

Jurava que era um exagero romântico, uma idealização, uma declaração simpática e educada: aqueles que se casavam e apregoavam que sofreram um baque olhando a noiva chegando.

Mas eu estava no altar e testemunhei. Eu me casei no religioso e percebi a corrente sanguínea virando corrente elétrica. Deixei de ser homem por um momento para ser um relâmpago.

Quando a porta alta da igreja se abriu e enxerguei Beatriz de noiva, lindamente de branco, fui hipnotizado. Empalideci. Experimentava aquilo que os santos chamam de transcendência.

Nunca vi nada mais belo. Nunca. Não estava preparado e não tinha como pedir ajuda para ninguém. Era mais do que a emoção de uma criança mirando o mar pela primeira vez ou de um adolescente com a residência só para si, sem os pais durante o final de semana. Vinham, aos borbotões, todas as emoções inéditas juntas de independência correndo pela boca e eu balbuciava, não emitia nenhum som audível.

Beatriz caminhava, exuberante, o longo corredor vermelho. Eu a desposava lentamente, passo a passo miúdo que ela dava. Eu me fixava em seu rosto como quem se posiciona diante de um quadro do pintor holandês Johannes Vermeer e não encontra ângulo que diminua a beleza.

Eu ia entregando para ela o que fui e o que poderia ser. Senti tanta devoção por alguém, que as minhas pernas tremiam e os meus braços paralisaram. O arrepio passava da pele para as roupas.

Felicidade não é ter controle, é perder o controle a dois. Não sorria para os outros, não fingia felicidade e segurança, eu ria de honesto maravilhamento, como um louco conversando com a Lua.

Beatriz estonteante com o busto cravejado de pedras, com o véu deposto, arrastando a longa cauda de ondas. Uma sereia cantando em silêncio. Uma sereia voando. A mulher de todos os meus dias e todas as minhas noites.

Não acreditava acreditando, atingido plenamente pela fé. Eu olhava com os olhos da fé, não com os olhos do cotidiano e da objetividade. Abriu-se uma janela emperrada da alma naquele instante e pude colher os frutos dos galhos mais altos da árvore da vida.

Havia me casado com ela no civil, mas nada se compara a casar-se diante de Deus. Desculpem os céticos e os ateus, é uma comoção tão violenta, que não suportaria experimentá-la duas vezes.

Se quem morre tem um flashback do que viveu, quem se casa recorda em minutos tudo o que amou na existência.

Eu dizia sim sim sim sim sim a cada movimento de proximidade da noiva. Jamais gritei tanto sim dentro de mim.

sábado, 19 de novembro de 2016



19 de novembro de 2016 | N° 18692 
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Máfia siciliana


Pretende se defender de um canalha? Simples, elementar, ele aparenta ser um homem do lar, que cultiva temperos em horta e cheira rolhas de vinho, mas vive na rua, não distingue a rúcula do radici e apenas come fora.

A propaganda do primeiro encontro é redondamente enganosa.Receberá você no apartamento espaçoso, brilhando, com amplo sofá e vista para o oceano de prédios, entretanto o local de orgulho doméstico é um matadouro higienizado, acabou de se livrar dos resquícios da última conquista. 

Tudo está arrumado e nos trinques como se fosse um maníaco por limpeza, porém não se engane, pagou faxineira para fingir status de rapaz sério e dedicado. Ele fará questão de abrir a porta de avental e mangas dobradas da camisa xadrez, testa suada e cabelo caprichosamente desleixado.

Estará ocupado em lhe agradar e demonstrar os dotes no fogão. Fechará a porta da cozinha para intensificar os segredos e a surpresa. Dirá que é uma receita familiar, que não expõe para qualquer um, que realmente é uma homenagem. Colocará jazz de música ambiente, apesar de vibrar e conhecer de cor as letras do sertanejo universitário.

Os livros de arte em cima da mesa são de fachada, não vê diferença em Jackson Pollock e no desenho de seu sobrinho.

Só que todos os canalhas cometem um erro. Preparam um único prato: risoto de limão siciliano. Fica como um padrão de psicopatia amorosa. É uma marca da maldade, talvez um pré-requisito do sindicato.

Sugerem que cozinham bem mais do que aquele arroz empapado, a questão é que não avançam no livro de receitas. Não entendo o motivo: todo canalha faz risoto de limão siciliano. Por que não estrogonofe? Por que não uma massa de camarão? Por que não um salmão?

Sempre risoto de limão siciliano. Como uma assinatura, um código da cafajestada.

Levam em consideração que a mulher não resiste, que a combinação não agride o regime, além de servir como preliminar para o sexo (não provoca mau hálito).

Cheiro de alecrim fresco e limão no ar é cheiro de crime, saia correndo. Não espere o dia seguinte para descobrir que ele não telefonará.

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