sábado, 12 de agosto de 2017




12 DE AGOSTO DE 2017
CARPINEJAR

Centopeia de espírito

Nunca vi nenhuma mulher selecionar os seus sapatos para a campanha de agasalho (até porque elas acreditam que sapato não é agasalho). São generosas e oferecem roupas novas, recentes, que não servem mais. Realizam limpas no armário mensalmente, separam o que não agrada com bonança. Nunca deixam nada parado, sem utilidade para o próximo. Mas sapato, não.

Sapato é imortal para a mulher. Sapato pode estragar, adoecer, só que não morre. Sapato pode perder a sola, o bico, arrebentar as tiras, porém recebe a condecoração da permanência. Ou ele é levado para um sapateiro de confiança ou fica em coma numa sacolinha com sachê.

Mulher ama sapatos, de homens apenas gosta e nem todo dia.

Quando o sapato não corresponde às expectativas, ela repassa a uma amiga torcendo para a felicidade dos dois. É o máximo de caridade que alcança nesse quesito.

Jogar fora, nunca. Tampouco das caixas consegue se desfazer. Não elimina coisa alguma: conserva o ventre dos sapatos, a placenta dos sapatos, o cordão umbilical dos sapatos.

Já observei botas, tênis e calçados masculinos na rua, no lixo e no meio-fio, gestos impensáveis para o universo feminino.

Mulher é uma centopeia de espírito. Não compra quando precisa. Compra para criar necessidades. Jamais conta quantos pares possui ? é um número aberto e infinito. Apesar das mil e uma noites, ela sabe de cor os que usou e onde fez a sua estreia.

Por maior que seja a coleção, acha que ainda tem pouco. Não considera o estoque suficiente. Vive uma repescagem nas lojas, caçando tipos favoritos de edições passadas. Tanto que a mulher não lamenta amores perdidos, e sim chora por não ter adquirido um par a mais daquele salto predileto.

Sapato é o xamã para as mulheres. Cura demissões, tristezas e depressões. Em casos graves, a solução é a superdose: arrebatar vários em um único dia.

Se o homem deseja terminar um relacionamento, existe uma receita ideal que poupa saliva e dispensa enfrentamentos exaustivos. Basta arremessar scarpins de sua esposa na parede. Ou despejar a gaveta de sandálias pela janela. Ou arrebentar os fechos das botas. Ou preparar macarrão com as rasteirinhas.

Não sofrerá discutindo. A porta baterá para sempre e ela, certamente, não colocará também você na campanha de agasalho.

CARPINEJAR


12 DE AGOSTO DE 2017
PIANGERS

Desculpe por não ser Marcos Piangers

Nesta semana de Dia dos Pais, dei palestras sobre paternidade para grandes empresas nacionais; estou na capa da maior revista de família do Brasil, a Pais&Filhos; fiz campanhas publicitárias falando da importância do homem na criação dos filhos; dei minha terceira palestra no TEDx, desta vez em São Paulo, na maior conferência da América Latina, no estádio do Palmeiras; dei entrevista pra diversos jornais, revistas, rádios e televisões, entre elas a Globo, no programa do Pedro Bial, ao lado do Cauã Reymond.

Isso faz de mim um pai perfeito. Evidente que não. O que me faz pai é o tempo que gasto na educação das minhas filhas. E essa semana de Dia dos Pais passei longe delas, por causa de tudo isso que citei aí no parágrafo de cima. Foram cinco dias longe das minhas meninas. Sou um poço de culpa. Sou um pai inacabado, um marido inexperiente, um homem em reconstrução.

Minha filha mais velha fica triste porque acha que sou muito duro com ela e muito mole com a mais nova. Pra minha esposa, dou respostas ríspidas, muitas vezes não sou atencioso ou paciente. Elas adorariam que eu fosse esse Marcos Piangers que as pessoas idealizam, mas não sou. Minha esposa está fascinada por um outro rapaz da internet que fala sobre feminismo. Diz pra eu assistir seus vídeos pra ver se eu melhoro. Lembra alguém?

Toda família é igual. Toda esposa está tentando tornar seu marido em um cara melhor. Todo homem acha que já faz o suficiente e que a mulher reclama de barriga cheia. Todo pai se sente culpado. Estamos todos no mesmo barco, amontoados de inseguranças e traumas, guardando pra nós mesmos nossas dores. Achando que existe alguém perfeito no mundo.

O melhor homem possível está aí do seu lado, com todos os problemas e defeitos. O melhor pai possível está aí, precisando de ajustes e puxões de orelha, mas pronto para ser melhorado. A melhor família é essa aí que você tem. A melhor viagem é esta que você fez, com chuva e malas extraviadas. O dia mais feliz da sua vida não foi sua formatura, seu casamento, o dia que seu filho nasceu. O dia mais feliz da sua vida é hoje.

Neste domingo, dia 13, vou estar com minhas garotas, finalmente. Teremos que nos reconhecer, nos reconquistar. Espero ser mais Marcos Piangers semana que vem. Depois um pouco mais. Depois mais. Quem sabe um dia. Quem sabe.

PIANGERS

quarta-feira, 9 de agosto de 2017


09 DE AGOSTO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

Clube de Jazz


Passei os últimos dias ralhando com minha imagem no espelho: que porto-alegrense fajuta é você? Há 35 anos, a pianista Ivone Pacheco fundou o Clube de Jazz e eu, que em diversas cidades do mundo já me infiltrei em bares enfumaçados, botecos, microteatros e demais esconderijos secretos onde se toca boa música, simplesmente desconhecia o que acontecia embaixo do meu nariz. O mistério faz parte da mística do evento, mas contarei um pouquinho para os desavisados como eu.

Noite de sábado. Uma casa escura numa rua pouco iluminada. Uma passagem lateral. Você entra como quem comete invasão de domicílio. Silêncio. O muro que conduz ao pátio dos fundos está grafitado. É, acho que é aqui.

Começam a chegar outras pessoas. Uma confraria. As portas do porão estão abertas. Lá dentro, algumas cadeiras descombinadas em frente a um pequeno espaço onde há um piano, uma bateria, microfones, alguns pôsteres de New Orleans colados nas paredes negras, um lustre vintage. E então surge um cara de terno e gravata com o mesmo charme de John Pizzarelli e a magia começa, sem ?senhoras e senhores?, sem ingresso vendido, sem cachê pago, sem lugar marcado, sem playlist, sem ?desliguem seus celulares?, sem a distância habitual entre quem faz e quem escuta. 

O cara canta três ou quatro músicas, depois dá lugar a um trio de blues, a duas cantoras de bossa nova, a nomes conhecidos e desconhecidos da noite gaúcha, maestros, pianistas, roqueiros. A dama Ivone Pacheco, aos 85, barbariza tocando Summertime e outros standards, uma garota linda de cabelo verde toca baixo e canta alto, solos de guitarra, gaita de boca, improvisos, jam sessions num revezamento ininterrupto. 

Ali fora, no pátio, pra quem deu uma escapadinha pra fumar ou papear, rola uma fogueira, um quentão, um pinhão, um São João também improvisado em agosto, e você se dá conta de que há quatro horas mantém um sorriso bobo no rosto por estar no ambiente certo e ao lado do homem certo, que te conduziu pela mão até essa simplicidade e sofisticação: uma reunião despretensiosa onde se celebra a música de forma não comercial, e sim emocional e espontânea. Assim foi a mais recente edição do Clube de Jazz Take Five de Ivone Pacheco, do qual tanto eu ouvia falar como quem ouve falar da lua cheia sem levantar os olhos para o céu.

Tem mesmo que ser como é. Sem endereço divulgado, sem banalização, atraindo apenas os amantes da sonoridade mais pura, abrindo espaço para artistas que se divertem com o que fazem, gente que se comunica através da corda do violoncelo, das teclas bicolores do piano, amadores e veteranos apaixonados pelo ofício de encantar.

É a arte em sua essência: bela, generosa e transcendental. Como a lua no céu.

martha.medeiros@terra.com.br


09 DE AGOSTO DE 2017
DAVID COIMBRA


O escândalo do beijo gay

Freme e pulsa, na cidade, o assunto do beijo gay pespegado em meio a uma festa de formatura. Como só disponho de uma versão do ocorrido, faço um resumo impreciso: dois homens se beijaram na boca durante a comemoração de uma moça que se graduou em Direito, no fim de semana. O pai da formanda e alguns convidados não gostaram do gesto e agrediram o beijoqueiro mais velho, um psicólogo de 53 anos de idade. Em seguida, expulsaram o casal do lugar.

Como já disse, foi divulgada apenas a versão da suposta vítima. Logo, não vou me arriscar em julgamentos precipitados. Até porque me interessa menos o caso e mais o escândalo do beijo. Não seria a primeira vez que um beijo causa revolta, se é que foi isso que aconteceu.

Artistas vivem tentando provocar polêmica à custa de beijos. O beijo de língua, que os romanos chamavam de ?savium? e que os ingleses chamavam de ?beijo francês?, chegou a ser proibido em algumas estações ferroviárias da Europa Central no século 19, mas não por excesso de sensualidade, e sim porque os amantes provocavam atraso dos trens com despedidas longas demais.

Nós ocidentais estamos acostumados a encarar o beijo como manifestação de afeto, mas em outras culturas nem beijo há. Os portugueses surpreenderam as índias brasileiras (positivamente, diga-se de passagem) beijando-as na boca quando aqui chegaram pela primeira vez. Nossos índios, tristemente, não beijavam... E não eram os únicos: lembre-se de que os esquimós dão beijo de esquimó ? com o nariz.

Tempos atrás, eu e a Marcinha visitávamos Praga. Há lá uma igreja curiosa, de estilo gótico e velha de 600 anos, chamada Nossa Senhora de Týn, com acento no ipsilone.

Não é o acento que a torna curiosa, e sim o fato de que sua fachada fica parcialmente escondida por alguns prédios que foram construídos não apenas diante dela, mas quase colados a ela. Os prédios se voltam para uma das praças mais lindas da Cidade Velha de Praga e, atrás deles, as torres da igreja se projetam por 80 metros, rumo aos anjos do Céu. Entra-se na igreja por uma portinha lateral, meio escondida. Um charme.

Depois de um dia cheio de programações turísticas e inevitáveis caminhadas, eu e a Marcinha fomos explorar o interior da igreja. Passeávamos por entre as naves e a Marcinha, cansada, debruçou-se no meu ombro e me deu uma bicotinha nos lábios. Brinquei:

? Não me beija aqui, que vão nos expulsar da igreja.

Como se tivesse me ouvido, um padre de cabelos brancos emergiu das sombras. Pulou detrás de um pilar ou das entranhas da terra, sei lá, e dentro de uma batina negra de modelo antigo, com golas enormes em forma de asas, bradou:

? Get out! Get out! Get out!

Não parou de gritar, enquanto não saímos da igreja. A Marcinha, católica que é, sentiu-se muito mal com aquilo. Já eu fiquei intrigado: o beijo não tinha sido erótico, não tinha sido de língua, não tinha sido nem sequer de boca aberta. Fora tão somente um carinho breve. E o padre se sentiu insultado com a cena.

Por quê?

Um beijo, a não ser que seja o da traição de Judas, não é algo mau em si. Um beijo é feito um afago ou um sorriso bonito ou um abraço demorado, é um ato amoroso e bom. Por que duas pessoas se beijando pode ser ofensivo para outras pessoas?

Homem com homem, mulher com mulher, homem com mulher, tanto faz. Prefiro beijos a tantas palavras e ações duras perpetradas por aí. Beijos, é isso que queremos. Precisamos de mais beijos neste grande, confuso e, às vezes, áspero mundo.

DAVID COIMBRA

sábado, 5 de agosto de 2017



05 DE AGOSTO DE 2017
LYA LUFT

Construir, tecer


Alguém, muito gentil como são meus leitores através de tantos anos, me pergunta num encontro casual se concordo com a teoria de que tudo está predeterminado em nossa vida, que apenas seguimos feito manada em direção ao nosso destino. Claro que não!, eu disse. Espírito de manada é outra coisa, é o conforto de não decidir, mas acompanhar a maioria, sem refletir, sem reagir, portanto sem responsabilidade nenhuma (na nossa cabeça, claro).

Talvez seja meio a meio, respondi. Parte, sim, é determinada pela família em que nascemos, amorosa, fria e até violenta; pelas capacidades com que somos dotados geneticamente, mais bonito, mais tortinho, mais lúcido, mais sonhador, otimista ou sombrio, bom em matemática, bom em artes, ou nos dois, por que não? Corajoso ou tímido. Mil detalhes que constituem um ser humano, e que nem sempre podemos mudar.

Outra parte é o que nós escolhemos, e vai aqui de novo uma coluna sobre escolhas. Essa é a parte complicada, porque aceitar que podemos tomar decisões significa assumir alguma responsabilidade. Tão bom se os outros decidem e a gente apenas segue feito cordeiro para o sacrifício ou a festa. Mas, sim, temos escolhas. 

Posso tentar controlar um pouco, ao menos, o mau gênio, se nasci com ele. Posso ser mais humano, mais delicado, menos preconceituoso, mais gentil: olhar, abraçar, aplaudir, elogiar aqui e ali, partilhar de alguma risada ou divertimento, confortar nas horas duras, dar colo ou ombro, ou até um silêncio cúmplice e generoso. Isto é, ver algo além de mim.

Posso tentar caprichar mais na escola, no trabalho, ser menos relaxado ou desligado, ser mais interessado. Posso tentar ouvir boa música. Posso experimentar ler algum livro e sentir que minha cabeça se abre para o mundo, para os outros, até para mim mesmo. Posso tentar esporte ou contemplação. Enfim, posso ver a natureza pela janela de casa, numa trilha ou no ônibus e ver que ainda existe beleza. Posso várias coisas, nem todas difíceis.

Mas não posso tudo: esse é o drama. De verdade, existe o incontornável, o que não posso evitar: abandono de uma pessoa querida, desemprego, doença, morte, essas rasteiras que a vida nos passa. Posso não sair do limite da pobreza, embora lute feito um leão numa sociedade cruel. Mas posso ser mais amoroso. Posso ser melhor comigo mesmo. Posso refletir um pouco, ver saídas, descobrir jeitos, ou, se nada disso ocorrer, tentar não ser um sujeito brutal, desses meninos que se vangloriam: ?Hoje saí a fim de matar alguém, então liquidei uma velhinha na frente da casa dela, um tiro, pum, e fim?.

Mesmo nas piores situações, podemos escolher não matar uma velhinha indefesa no portão da casa dela. Podemos não magoar a pessoa que nos ama, não descuidar dos filhos que de nós dependem, podemos levantar o lixo do chão, podemos não nos matar de bebida ou droga. Podemos pedir ajuda e construir uma vida. Podemos também não poder, se o mal que nos fizeram ? ou nos fizemos ? foi grande demais: aí, quem sabe, algum anjo da guarda etéreo ou humano apareça para nos dar aquele empurrão positivo.

E, se nada disso acontecer, em vez de construir uma vida, podemos viver tecendo a nossa própria mortalha. Sempre podemos alguma coisa. Nisso reside a nossa dificuldade, e a nossa salvação: sermos apenas humanos.

lya.luft@zerohora.com.br


05 DE AGOSTO DE 2017
MARTHA MEDEIROS

A intérprete

Nas poucas vezes em que parei pra pensar na profissão de intérprete, me vinha a ideia de alguém fazendo uma tradução simultânea num seminário internacional ou acompanhando políticos em viagens oficiais. Um tédio. O intérprete seria aquele papagaio de pirata sentado ao lado dos protagonistas, mas sempre cortado das fotos.

Até que fiquei amiga de uma intérprete. E descobri funções de seu ofício que nunca haviam me ocorrido. O intérprete é mais do que um tradutor discreto da cena. Ele pode dar voz aos tormentos de uma pessoa desconhecida, e pra isso é preciso mais do que conhecimento do idioma. Exige uma sensibilidade rara.

Ela me contou um pouco da sua rotina, se é que existe rotina numa atividade que obriga a estar em diferentes locais a cada dia, testemunhando situações limite enfrentadas por estranhos que dependem de você para a compreensão do que estão vivendo.

Por exemplo, consultas médicas. Inúmeros imigrantes vivem em países estrangeiros com uma noção muito precária da língua do lugar em que escolheram morar. Pensam que falam inglês, que falam francês, que falam espanhol, mas apenas se defendem, até que surge uma situação específica: tratar uma doença, lidar com exames, passar por uma cirurgia. ?

The book is on the table? não vai adiantar pra muita coisa. É quando a intérprete entra em ação para unir as duas pontas de uma conversa difícil. De um lado, alguém ansiando por uma notícia boa, enquanto que o médico tem um diagnóstico terrível a dar. Minha amiga intérprete já esteve muitas vezes ali, naquele instante e local, traduzindo as palavras que fazem uma vida se modificar para sempre.

Tribunais, hospitais e delegacias são ambientes frios onde nos encontramos naturalmente indefesos e vulneráveis, imagine então sendo monoglota e vendo nosso futuro ser debatido por pessoas com quem não conseguimos nos comunicar. Minha amiga ameniza essa solidão torturante. Ela é convocada inclusive para sessões de terapia. E fala na primeira pessoa (se bobear, até chora), incorporando as confissões do seu cliente no divã, numa busca concentrada em fazer o terapeuta entender a dor de quem mal consegue expressar suas dores pra si mesmo.

Nessa hora o intérprete ganha a importância de um pai, de uma mãe, de um advogado amigo, do nosso médico de família, do padre da nossa paróquia. Alguém que nos compreende e que nos ajuda na difícil tarefa de nos relacionarmos com o mundo. É o personal dos sonhos, um dublê para os momentos em que nossa alma grita, só que ninguém escuta.

MARTHA MEDEIROS


05 DE AGOSTO DE 2017
CARPINEJAR

Onde colocar as unhas?

Nunca vi minha mulher cortando as unhas em casa. Se ela faz, é de modo discreto e imperceptível. Seu costume é arrumar no salão.

O meu problema é que deixo as unhas crescerem até furar as meias. E depois não é mais um corte, e sim um abate. Deveríamos receber um saquinho plástico, tipo o existente em avião para desconforto, com uma cordinha e a recomendação desenhada dos possíveis acidentes.

E não há lugar para cortar em paz, sem ser chamado à atenção. Como são lâminas já, cascos já, é enfiar a tesourinha e a unha salta para nunca mais localizá-la. Deve ir para debaixo de algum móvel, assim como copo quando se despedaça.

Após dois meses, são unhas voadoras, unhas morcegos. Criam asas. Daí me lembro por que demoro para apará-las, é sempre o mesmo impasse. Retardo ao máximo e apenas tomo uma atitude quando a minha mulher não aguenta mais e reclama dos arranhões com a carícia dos meus pés na cama.

Não raciocino que o adiamento acentua a força do arremesso. Quanto o maior tempo sem ajeitar, maior a compressão do OVNI.

Não tem muito o que fazer: o cortador é uma alavanca para longe. Não há como reunir a sujeira, o montinho, e botar no lixo. Aliás, lixo é o lugar. Uma vez coloquei na privada e uma amostra grátis restou na tampa para nojo da minha adorável companhia.

Onde cortar é um drama masculino. Tentei podar no quarto e foi uma calamidade. Motivo de divórcio a esposa achar um resquício dos meus pés nos lençóis. Tentei na sala e temo que um dia as ossadas sejam localizadas no tapete felpudo e termine condenado pelo crime de porquice. Na cozinha, nem pensar. No banheiro, com os azulejos brancos, é uma odisseia identificar as foragidas. Mais fácil encontrar uma tarraxa de um brinco do que uma unha. Mais fácil encontrar uma tarraxa transparente de um brinco do que uma unha.

Atinjo a curiosa conclusão de que as unhas mijam de pé. Nunca acertam o vaso. É outra disfunção do nosso universo viril.

CARPINEJAR

05 DE AGOSTO DE 2017
PIANGERS

Que seja um dia comum


Não tem a ver com casa de ferreiro mas, lá em casa, mais uma vez, comemoraremos o Dia dos Pais com constrangedora modéstia. Apesar de sermos escritores e falarmos sobre criação de filhos o tempo todo, eu e minha esposa temos um certo desdém pelas datas comemorativas. Não celebramos o Natal, a não ser pelos familiares; não damos presentes no Dia das Crianças, pelo que já me sinto julgado neste exato momento; e, uma vez, dormimos às nove da noite na virada do Réveillon.

Somos, portanto, chatíssimos. Acreditamos que a vida é mais divertida quando é uma busca constante por significado, não uma alternância entre a melhor festa da sua vida e Prozac terça à noite. A vida é deliciosamente chata, vamos ao supermercado, andamos de bicicleta, dormimos juntos quando a pequena tem medo, nosso fogão está com uma das bocas entupida.

Datas comemorativas são, por essa lógica, só mais um dia no calendário. São importantes para reflexão, mas não podem condensar todo o significado da celebração. Mãe e pai se é todos os dias, e são dias difíceis muitas vezes.

Você não virou pai porque postou foto no Instagram no segundo domingo de agosto. Você virou pai porque virou noites, trocou fraldas, correu desesperado pro médico na primeira febre, levou na creche e chorou no período de adaptação. Você virou pai quando viu crescer, andar, falar, se machucar. Você virou pai quando seus beijos curaram machucados, quando dormiu completamente desconfortável para que a criança dormisse bem. Você virou pai quando ajudou nas tarefas escolares, levou no pediatra, falou sobre sexo. Você virou pai quando viu que seu filho não é seu. Seu filho é dele mesmo.

O que vai definir se somos grandes pais não é a quantidade de Dias dos Pais que passamos juntos com nossos filhos, mas a quantidade de dias normais. A quantidade de dias úteis. A quantidade de tarefas de tarde, de apresentações escolares, de vezes que tivemos que faltar ao trabalho pra levar no médico.

No Dia dos Pais não espero presentes caros ou almoço extravagante. Quero abraços, como recebo todos os dias. Cartõezinhos escritos à mão, como os que já abarrotam minha carteira. Beijos de bom dia barulhentos, como os que já me acordam todas as manhãs.

A paternidade é a maior experiência humana. Nos faz mais sensíveis, mais generosos, mais humanos. Transforma nossa vida em algo encantado. Que dure mais do que apenas um dia.

PIANGERS


05 DE AGOSTO DE 2017
CLÁUDIA LAITANO

o elogio do risco

Façam suas vidas valerem a pena, dizia o velho Sócrates aos seus jovens discípulos. Uma vida sem propósito, sem questionamento, sem reflexão, não vale o esforço.

Sócrates nunca escreveu um livro, e tudo que sabemos sobre ele nos foi contado pelos seus ouvintes, todos fortemente impressionados não apenas pela lucidez do seu pensamento, mas pela notável coerência entre o que ele falava e a forma como conduzia sua vida pública ? sim, tinha disso na Grécia antiga.

Condenado à morte, aos 70 anos, por supostamente corromper a juventude local com ideias exóticas, o filósofo grego aceitou seu destino com serenidade. Em vez de renegar suas ideias ou fugir da cidade, como sugeriam seus amigos, Sócrates preferiu sambar na cara da sociedade ateniense mandando um último recado para a Grécia e a posteridade: morrer não é o fim da picada. 

O fim da picada é viver uma vida meia-boca, acomodada, sem fibra. Séculos mais tarde, outro filósofo, o francês Michel de Montaigne, iria um pouco mais longe dizendo que filosofar nada mais é do que aprender a morrer. Refletir sobre a finitude não apenas nos ajuda a aceitar a morte como parte da nossa natureza, mas nos obriga a usar com alguma sabedoria o pouco tempo que temos para fazer dessa confusão toda algo que valha a pena.

A filósofa francesa Anne Dufourmantelle, como Sócrates e Montaigne, acreditava que é preciso dar sentido à vida e não apenas sobreviver ou se preocupar com a coleção de perigos que podem desabar sobre nossas cabeças toda vez que colocamos o pé para fora de casa. Para Dufourmantelle, que era também psicanalista, vivemos em uma época neuroticamente obcecada pela segurança. 

Sabemos que somos mortais, mas não nos sentimos mortais, ou seja, alimentamos a fantasia de que, se fizermos tudo bem direitinho ? ou seja, nada ? vamos conseguir escapar dos germens, dos ladrões, do terrorismo, das demissões, dos amores infelizes, dos projetos fracassados, das perdas.

O medo de ameaças reais ou imaginárias, diz a filosófa no livro Eloge du Risque (Elogio do Risco), lançado em 2011 e ainda não traduzido no Brasil, nos leva a uma existência acuada. Arriscar a vida, ensina Dufourmantelle, não é colocar-se diante de perigos desnecessários, mas enfrentar os riscos que valem a pena, porque são exatamente eles que dão sentido a nossas vidas. (?O que a vida quer da gente é coragem?, diria de outra forma o escritor Guimarães Rosa, alguns anos antes de Dufourmantelle nascer.)

Há duas semanas, Anne Dufourmantelle estava na praia, com amigos, quando viu duas crianças pedindo ajuda na água. Assumindo todos os riscos, ou talvez sem pensar, lançou-se ao mar para tentar salvá-las. Morreu a caminho, mas as crianças acabaram sendo salvas por um barco que passava pelo local. Tinha 53 anos, três filhos, vários livros escritos e outros tantos a escrever.

Como Sócrates, Dufourmantelle uniu pensamento e biografia para sempre. Será lembrada não apenas pelo que escreveu, mas pela forma como seu último gesto iluminou tudo o que fez e disse antes. Uma morte trágica, mas docemente socrática.

claudia.laitano@zerohora.com.br

sexta-feira, 4 de agosto de 2017


Jaime Cimenti


Sorria, ria A humanidade sempre foi mais para séria. 


Os palhaços, os bem-humorados, os risonhos, os comediantes e os demais integrantes da galera do riso sempre ficaram em segundo plano e alguns bobos da corte foram até assassinados. Há pouco, o Cirque Du Soleil montou um espetáculo que tratava da morte de um palhaço. Comédia e comediantes não levam Oscar, Hollywood se faz de séria. Humoristas, por vezes, são agredidos e mortos, como os do triste episódio do Charlie Hebdo, em Paris. Humoristas, aliás, em geral são sérios e vários se suicidaram.

Carlitos, o maior palhaço, é uma das grandes, honrosas exceções, que confirmam a regra. Penso nessas coisas depois do domingo à noite, momento às vezes triste, que nos lembra os problemas da segunda-feira, quando dei de cara com a escultura do Buda Que Ri na sacada, escondido atrás das plantas.

Com seu barrigão, seu colar de contas e o saco às costas, ele sorria no escuro, sozinho, não estava nem aí para a desgraceira da Lava Jato e outras agruras do Fantástico. O Buda Risonho, notei, apenas ria. Conta uma história que, no Japão, ele ia de um lugar para outro rindo. Seu riso cativante, contagiante, verdadeiro, balançava seu barrigão e o fazia rolar no chão. Nunca pronunciou uma palavra - seu sermão era o riso.

Quando perguntavam sobre Buda, vida e morte ou iluminação, ele apenas ria. Nas aldeias, as pessoas esperavam por sua presença, bênçãos e alegria. Buda Que Ri é pouco lembrado e nem é citado na Wikipédia. Ao menos se tornou tema de empresa famosa de confecção e comércio, que leva seu nome. Rir é o melhor remédio, não custa repetir o adágio popular. Se as pessoas fossem mais bem-humoradas, risonhas e leves, o mundo seria melhor. Não há fanáticos, extremistas ou radicais bem-humorados. O mundo precisa de amor, paz e humor.

O mundo precisa de sorrisos, de risos, de gargalhadas. O mundo precisa rir de seus próprios dramas, que não são poucos. Rir dos próprios problemas e dificuldades é certificado de boa saúde física e mental. A vida é uma graça triste, mas não pode ficar sem graça, sem alegria e descontração. Há quem possa estranhar de eu não estar falando agora nos bufões, nos palhaços, comediantes e reizinhos de nossa política. Eles não têm graça. São piadas prontas, sem graça, de péssimo gosto.

O povo vai rir por último. Ri melhor quem ri por último. Sorria, como diz a imortal canção Smile, de Charles Chaplin, e a preferida, dizem, de Michael Jackson. Sorria apesar das dores do coração ou de ele estar se quebrando, sorria ainda que o céu esteja nublado, bote um sorriso no rosto e alegre-se apesar de tudo, sorria que a vida ainda vai valer a pena. Sorria mesmo que você se preocupe com o sonho brasileiro mais uma vez adiado e com o fato da gente continuar sendo o País do Futuro. Um dia, a piada norte-americana "Brazil is the country of the future.and always will be" vai dançar.

lançamentos 

Simões Lopes Neto para o mundo (Editora da Ufrgs, 282 páginas), organizado por Luís Augusto Fischer, Rosalia Neumann Garcia e Karina de Castilhos Lucena, traz traduções de contos do clássico autor gaúcho. Contrabandista, Chasque do Imperador, Os cabelos da china e outros contos foram traduzidos para o francês, espanhol, inglês, italiano, russo e japonês. Estão acompanhados por textos dos tradutores. Jane Tutikian, Fischer e Rosália assinam os textos introdutórios.

A metamorfose (Via Leitura, 96 páginas, R$ 24,90, tradução de Christina Wolfensberger), do genial escritor Franz Kafka, nascido em Praga em 1883, é considerada uma das obras fundamentais do século XX. Gregor Samsa, homem comum, caixeiro-viajante, acorda transmutado num terrível inseto e por aí vai a surreal, "kafkeana" história, despida de humanidade e que inquieta a todos, desde a primeira edição em 1915.

O chefe de Gregor vai até sua casa e aí... Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá (Ateliê Editorial, 264 páginas), romance do grande escritor e jornalista Lima Barreto, tem apresentação, estudo introdutório e notas de Marcos Scheffell, também responsável pelo estabelecimento de texto com José de Paula Ramos Jr.

A narrativa gira em torno do obscuro funcionário, culto e sensível, em meio à modernização do Rio de Janeiro, no início do século XX. Inadaptado, questiona, critica e pensa sobre as transformações da cidade.  

a propósito...

Para sorrir, movimentamos uns 12 músculos. Para fazer cara de bunda, emburrada, mexemos 50 músculos. Melhor sorrir, enruga menos, é mais saudável.

Ensinamento de Conceição Trucom: quando tiver tempo, relaxe o maxilar inferior, feche os olhos, abra levemente a boca, respire lento, superficial, pela boca e quando respirar ainda mais superficial, muito artificial, vai sentir um sorriso existencial que se espalha por dentro. Seu ventre vai sorrir. Não tem explicação. Não é risada, é sorriso. Delicado, frágil, tipo flor desabrochando. Você vai ficar feliz por 24 horas. Se perder a felicidade, feche os olhos e pegue o sorriso interior de volta.

Quantas vezes quiser. Sorria para a vida, que ela sorri para ti.  - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/08/colunas/livros/576992-direita-esquerda-origem-da-divisao.html)

Jaime Cimenti

Direita, esquerda, origem da divisão 

Para muitos, a questão direita e esquerda é coisa do passado e preferem andar para a frente, sem limitações e amarras históricas, ideológicas, filosóficas ou políticas.

O fato é que os conceitos e as práticas ligados à esquerda ou à direita merecem cuidadoso estudo e profunda análise, para que entendamos os sistemas político norte-americano, europeus e outros, influenciados ainda hoje pelas pessoas e acontecimentos históricos que envolvem direita e esquerda, desde os tempos das Revoluções Francesa e Americana.

O grande debate - Edmund Burke, Thomas Paine e o nascimento da esquerda e da direita (Record, 210 páginas), do analista político, intelectual acadêmico e jornalista Yuval Levin, vem em boa hora para tratar da origem da divisão e seus desdobramentos, a partir do grande debate entre dois geniais intelectuais e políticos. Levin é membro do think tank Centro de Ética e Políticas Públicas, em Washington, e colaborador do Weekly National e da National Review. Escreve Levin: "As origens da divisão entre esquerda e direita, é claro, não são as mesmas de sua encarnação atual.

As diferenças entre as divisões políticas de hoje e aquelas da era de Burke e Paine são, no mínimo, tão fascinantes e numerosas quanto suas similaridades. Espero encorajar ambos os lados de nossa divisão política e refletir sobre o caminho que percorreram. O que podemos aprender sobre nossos progenitores políticos (e os de nossos oponentes) e que insights cruciais podemos ter esquecido com o tempo, mas faríamos bem em lembrar? Acima de tudo, espero que este livro possa ajudar os cidadãos de qualquer orientação ideológica a abordar a política com maior compreensão e confiança.

Espero ajudar o leitor a ver que, embora muitos argumentos que fervem na superfície sejam técnicos e complexos, eles são movidos por profundas questões permanentes que são não apenas importantes, mas também incrivelmente interessantes." Burke, irlandês nascido em 1729, e Paine, inglês nascido em 1737, geniais homens de ideias e ações, debateram em torno da Revolução Francesa e da Revolução Americana.

A Americana deu nascimento a uma nação que personificava o ideal do iluminismo, e a Francesa iniciou verdadeiramente a busca moderna por progresso social, com política e princípio filosófico inalteráveis. - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/08/colunas/livros/576992-direita-esquerda-origem-da-divisao.html)



04 DE AGOSTO DE 2017
ECONOMIA

Gravataí dá origem a família de carros

INVESTIMENTO DE R$ 1,4 BILHÃO, oficializado pela GM, deverá criar uma nova série de modelos

Mais do que um modelo, uma nova família de veículos começa a sair da fábrica da General Motors (GM) em Gravataí a partir do final de 2019 ou início de 2020. Ainda cercados de mistérios, os planos da montadora para a unidade gaúcha, a partir de investimento de R$ 1,4 bilhão, fazem parte da estratégia batizada de Plataforma GEM (do inglês Global Emerging Markets), que dará origem a uma série de automóveis que substituirão parte dos modelos hoje à venda. Versões hatch, sedã, SUV e uma picape pequena são os especulados pelo mercado.

No caso da unidade gaúcha, que ontem recebeu a solenidade para oficializar a nova expansão, um SUV  segmento que mais cresce no país e no mundo ? seria a grande novidade do projeto, que tem como parceiro mundial a montadora chinesa Saic. Além de Gravataí, as plantas de São Caetano do Sul (SP) e de Rosario, na Argentina, seriam as grandes beneficiárias do projeto.

Os detalhes da ampliação e da modernização da fábrica de Gravataí seguem em sigilo. A capacidade instalada de 350 mil veículos por ano ? a maior da GM no Hemisfério Sul ? será elevada, mas não de forma significativa, o que reforça a especulação de que o Prisma tem os dias contados. Grande parte do investimento será em modernização, levando a uma adoção maior dos conceitos da indústria 4.0 ? uso de dispositivos inteligentes e interconectados ao longo de toda a cadeia de produção e logística. Com isso, o número de empregos diretos criados com a ampliação não deve ser grande.

? A geração de vagas vai depender muito da retomada da indústria ? alertou Carlos Zarlenga, presidente da GM Mercosul, acrescentando que, a partir de março deste ano, apareceram os primeiros sinais de retomada e de maior ritmo nas fábricas.

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Gravataí, Valcir Ascari, espera ao menos que, nos próximos anos, o projeto leve à reativação do terceiro turno, que até o final de 2015 ocupava cerca de mil pessoas. Mesmo assim, novos postos serão gerados com os aumentos de capacidade exigidos dos sistemistas e novos fornecedores que chegarão. Dois seriam chineses.

AMPLIAÇÃO COM INTUITO DE CONSOLIDAR LIDERANÇA

Em relação aos atrativos, tecnologia será o principal apelo. Mas economia de combustível e segurança são outras preocupações. A conectividade é o centro do veículo ? confirma Zarlenga, referindo-se à interação entre motorista, automóvel e smartphones.

Embora exista ideia ambiciosa de exportar para outros continentes, a GM avalia que a ampliação da unidade ajudará a montadora consolidar a liderança no Mercosul, onde o Onix é o modelo mais vendido.

Dá mais longevidade, ainda mais para um mercado pronto para se reaquecer ? lembra o vice-presidente da GM Mercosul, Marcos Munhoz.

O prefeito de Gravataí, Marco Alba, ressaltou que o anúncio da terceira ampliação da GM na cidade ocorre em fase ainda crítica da economia:

Acontece em um momento em que o Brasil e o Rio Grande do Sul estão em uma das piores crises financeiras e fiscais, o que também se reflete nos municípios ? disse Alba, à espera de aumento da arrecadação em 2021.

O governador José Ivo Sartori também celebrou melhores expectativas para a economia com a expansão da GM:  Essa nova família de veículos vai trazer empregos, aumento de receita, expansão de negócios, incremento na cadeia de suprimentos e exportações ? projetou o governador.

Em 17 anos de operação, a fábrica gaúcha da GM produziu cerca de 3,5 milhões de veículos, dos quais 350 mil foram destinados à exportação. De janeiro a julho, os modelos Onix e Prisma, montados no Estado, representaram 73% dos emplacamentos de veículos de passeio da General Motors no país.

caio.cigana@zerohora.com.br


04 DE AGOSTO DE 2017
COMPORTAMENTO

UMA BRIGA DE TIRAR O SONO


Diz o ditado popular que o direito de um termina no exato ponto onde começa o do outro. A frase parece sob medida para resumir a contenda entre moradores e frequentadores da Cidade Baixa. Seguidamente, enquanto centenas de notívagos divertem-se nos bares e nas ruas do bairro mais boêmio da Capital, vizinhos das áreas mais movimentadas reviram-se na cama, tentando ignorar os ruídos externos e cair no sono para uma merecida noite de descanso.

Aqui, virou moda fazerem baile funk ? reclama o técnico de enfermagem Adauto*, 46 anos, que se habituou a ligar o ventilador para abafar o barulho vindo das ruas, faça frio ou calor.

Durante duas madrugadas, ZH conversou com moradores, comerciantes e frequentadores. Nem todos estão contentes. Donos dos bares que tornaram a rua uma das referências na noite da Capital se queixam de que o perfil dos notívagos mudou: estariam ficando menos nos estabelecimentos e mais na parte externa. Já os boêmios reclamam da pressão para liberar a via ? na madrugada de 16 de julho, a Brigada Militar usou bombas de gás para retirar as pessoas que ocupavam a rua, depois de policiais terem sido recebidos a garrafadas. Moradores que não aguentam mais o barulho se reú- nem em grupos de WhatsApp e pedem providências ao poder público.

A tensão cresceu nos últimos meses. E o epicentro é a Rua João Alfredo, onde Adauto mora com a mãe, Noê- mia*. De quarta-feira a domingo, ele transfere o colchão para o corredor do apartamento e dorme junto à porta. Tudo para fugir do alvoroço que invade o quarto, de frente para a rua. Aos 85 anos, dona Noêmia conta que frequentemente acorda com gritos ou brigas na via, que concentra cerca de uma dezena de bares:

Uma vez, todos os vidros tremeram. Parecia que iam se quebrar. E dispararam os alarmes dos carros aqui do prédio. Era o som de um carro na rua.

Fã de Pink Floyd (o toque de seu celular é a música Time), Adauto afirma não se opor à vida noturna na região. Diz, inclusive, que também sai para se divertir, mas com o cuidado de não perturbar os demais moradores.

Para ele, a origem do barulho que lhe tira o sono não está na concentração de casas noturnas, mas na reunião de centenas de pessoas no lado de fora de bares e danceterias e nas dezenas de automóveis estacionados ? a maioria, com caixas de isopor abarrotadas de bebidas ? ou transitando pela região com potentes equipamentos de som.

Quando não param o carro, ficam circulando pelo bairro. A maioria não é daqui (de Porto Alegre). Eles ficam disputando para ver quem tem o som mais potente ? conta Adauto.

HOJE É SEXTA-FEIRA. Na Cidade Baixa, outra noite deverá contrapor quem frequenta a Rua João Alfredo para divertir-se ao ar livre, em bares e danceterias e moradores que não conseguem dormir com o barulho

JÉSSICA REBECA WEBER MARCELO MONTEIRO

04 DE AGOSTO DE 2017
CIÊNCIA

Feevale faz seleção para vagas em novo curso de Medicina

A Feevale abriu ontem as inscrições para preencher as primeiras 30 vagas de um total de 60 anuais em seu novo curso de Medicina. Junto a Unisinos, em São Leopoldo, a instituição teve autorização para dar início às atividades da graduação publicada na terça-feira do Diário Oficial.

Nas duas instituições, a seleção dos alunos será feita por meio das notas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Na Feevale, as inscrições poderão ser feitas no site até as 22h de 23 de agosto. As aulas estão previstas para começar em 12 de setembro. O valor da mensalidade será de R$ 7.920 no primeiro e segundo semestres. Depois, passa para R$ 6,6 mil em seis parcelas.

A Feevale ainda adotará o critério de ?inclusão regional?, estimulando o acesso dos estudantes que concluíram todo o Ensino Médio em cidades no entorno da universidade com um acréscimo de 2% sobre a nota do Enem. Na Unisinos, as inscrições podem ser feitas no site da universidade até 15 de agosto. As aulas começam em 4 de setembro.

O processo para instalação dos cursos começou há quatro anos, com a publicação da lei que instituiu o programa Mais Médicos ? que previa a autorização de cursos de graduação em Medicina por instituições do ensino privado. Na terça-feira, o governo federal assinou a criação de 11 novos cursos de Medicina no país. São 710 novas vagas anuais no Rio Grande do Sul, Paraná, Rio de Janeiro e em São Paulo. Os municípios gaúchos de Erechim e Ijuí também foram selecionados em edital e se preparam para criar novos cursos de Medicina.

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