quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018


07 DE FEVEREIRO DE 2018
DAVID COIMBRA


Pequenas diferenças

Por que, afinal de contas, o pessoal lá de Mianmar está matando o povo rohingya?

Meu filho veio me perguntar isso, esses dias, e não soube responder. Na escola, ele tem contato com colegas de vários países diferentes, e aí acaba se interessando por questões internacionais e eu é que sou obrigado a estudar, para não passar vergonha.

Povo rohingya. Confesso a você (não vá contar para o meu filho) que não sabia nada dessas pessoas, até que elas começaram a ser perseguidas em Mianmar, o que foi noticiado pelos jornais. De Mianmar, inclusive, pouco sei além de que o país antes se chamava Birmânia e era uma possessão inglesa e fica perto da Tailândia. Não é o suficiente para satisfazer a curiosidade de um menino de 10 anos.

Tem mais: essa história dos rohingyas fez com que ele se metesse YouTube adentro para se informar a respeito de povos perseguidos. Então, preciso discorrer sobre conflitos clássicos, como a secular luta entre sunitas e xiitas ou a dos tutsis contra os hutus, mas o que exatamente está acontecendo com os naxalitas da Índia e com os houthis do Iêmen? E as razões de todas essas disputas, como são difíceis de explicar!

Por que muçulmanos não gostam de judeus? Por que judeus e palestinos não podem viver juntos e em paz? Por que Trump teima em levantar um muro para apartar os americanos dos mexicanos?

Por que os sírios estão em debandada pela Terra?

Por que afegãos trocaram tiros com eritreus na França, enquanto aguardam para rumar para a Inglaterra, que não quer mais fazer parte da Europa, que enfrenta movimentos separatistas como o da Catalunha?

Por quê? Por quê?

A verdade é que sempre encontramos razões para brigar uns com os outros.

Pol Pot, ditador do Camboja, não gostava de intelectuais, embora ele próprio fosse um: havia estudado na França, onde entrara numa organização comunista, e voltara ao seu país para ser professor de história.

Mesmo assim, talvez em autocrítica subconsciente, ele decidiu eliminar todos os intelectuais quando assumiu o poder. Caçou professores, jornalistas, escritores e artistas e matou-os todos ou os atirou em campos de trabalhos forçados. Transformou cinemas, bibliotecas e teatros em chiqueiros. Para assegurar que não sobrasse ninguém vagamente relacionado a alguma atividade que não fosse braçal, mandou que seus esbirros prendessem... quem usava óculos!

Imagine: o sujeito podia ser o maior iletrado do Oriente, mas, se sofresse de miopia ou astigmatismo, seria preso e, provavelmente, morto. Então, usar óculos tornou-se maldição no Camboja, como é maldição ser tutsi em meio aos hutus ou sunita entre os xiitas. Mas o fato é que, se você estiver caminhando pela Rua da Praia e lá do outro lado vier um rohingya, você nem notará. Ele é apenas um ser humano como os milhares que o cercam. Da mesma forma, se ele for um judeu ou um muçulmano ou um zulu ou um xhosa. Somos todos Sapiens partilhando o mesmo planeta. Não temos de nos odiar por pequenas diferenças. Ou mesmo por grandes diferenças. Paz. Precisamos de paz. Pense nisso, nesta eleição de 2018.

DAVID COIMBRA

07 DE FEVEREIRO DE 2018
LIVRO

Um poeta da Roma Antiga ensina a arte de bem falar mal



POEMAS DE MARCIAL, autor romano do primeiro século, ganham tradução em português
Ao contrário do que podem achar algumas sensibilidades conservadoras dispostas a fechar exposições obscenas por aí, a relação entre arte e sacanagem é tão antiga quanto frutífera. Um bom exemplo disso pode ser encontrado na recente edição em português dos Epigramas, composições breves do poeta Marco Valério Marcial (40 104), que viveu na Roma do primeiro século da Era Cristã e fez de seus versos navalhas certeiras dirigidas ao que considerava os vícios e hipocrisias do mundo em que vivia.

Epigramas foram uma forma de poesia breve muito difundida na antiguidade. Seu espírito direto e por vezes cortante servia tanto para breves elegias ou epitáfios quanto para ataques a desafetos e ditos humorísticos que poderiam muito bem ser enquadrados, hoje em dia, como "piadas bagaceiras" - Marcial e seu precursor Catulo (87?a.C. -57?a.C.) foram mestres tanto num caso como no outro.

Nascido em Bílbilis, no território em que hoje se localiza a região espanhola de Zaragoza, Marcial mudou-se, pouco depois de seus 20 anos, para Roma, o centro do Império, onde viveu por décadas, como era comum em sua época, apadrinhado por nobres ricos ou por figuras ligadas ao poder imperial. 

Seus poemas curtos, antecipadores de muitos "tuítes" de hoje em dia, atacavam o que considerava defeitos de seus contemporâneos, como o oportunismo, a desfaçatez dos jogos de interesses e até a cara de pau de outros poetas que roubavam a autoria de seus versos e passavam a lê-los nos saraus públicos como se de autoria própria. Ele também compôs tiradas maliciosas ou abertamente obscenas sobre os costumes sexuais de seu tempo (a seleção no quadro ao lado reúne alguns poucos mordazes mas ainda publicáveis).

- Marcial é impiedoso em seus versos. Em muitos instantes ele poderia ser considerado politicamente incorreto, mas é impossível aplicar à obra dele um contexto do século 21 que não existia em seu tempo. Os únicos que ele poupava eram seus patronos, porque aí ele adulava e puxava o saco mesmo - explica o tradutor paranaense Rodrigo Garcia Lopes.

Epigramas reúne 219 poemas de Marcial publicados ao longo de toda sua vida A versão em português vem acompanhada do original latino, e a edição tem o formato de um arquivo de capa dura em que 12 cadernos podem ser destacados e separados, e cada um deles corresponde a um dos 12 livros que o poeta de fato publicou em vida.

- Marcial costumava chamar cada livro que publicava de "libellus", ou seja, "livrinho", uma maneira ao mesmo tempo irônica, carinhosa e autodepreciativa de se referir ao próprio trabalho. Foi a partir dessa ideia que Gustavo Piqueira (designer responsável pelo projeto gráfico) teve a ideia de publicar a obra em forma de livros menores. Claro que também isso foi uma licença poética, já que, na época de Marcial, os livros eram em rolos - diz Lopes.

Jornalista, escritor, poeta e tradutor, Rodrigo Garcia Lopes tem uma história de três décadas com Marcial. Descobriu a poesia do romano enquanto fazia mestrado sobre William Burroughs no Arizona, em 1990, e foi traduzindo aos poucos os epigramas que chamavam a sua atenção.

- Em 2014, eu já tinha uns cem epigramas traduzidos e me dei conta de que precisava me dedicar àquilo. Mergulhei no conjunto e traduzi mais da metade do livro em uma imersão de dois anos. Selecionei um conjunto que apresentasse uma versão por inteiro de seu trabalho, porque ele podia, como poeta, ser terno, ser comovente, ser elegíaco e em outros momentos ser impiedoso. Mesmo proibido durante a Idade Média, ele é retomado por outros mais adiante como Bocage ou Quevedo.

carlos.moreira@zerohora.com.br - CARLOS ANDRÉ MOREIRA

domingo, 4 de fevereiro de 2018



03 DE FEVEREIRO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Aos navegantes


Se eu pudesse definir o perfil do futuro presidente (homem ou mulher), gostaria que fosse uma pessoa obstinada em encontrar soluções simples e inovadoras para velhos problemas, que fosse metódico e comprometido com a eficiência de tudo, que tivesse liderança suficiente para engajar os outros em seus projetos e que se antecipasse às crises, investindo em planejamento. Em suma, que fosse prático e criativo, mas não um aventureiro.

Aí me dou conta que esse cara existe e se chama Amyr Klink, que tantos consideram justamente um aventureiro.

Não Há Tempo a Perder, seu livro lançado em 2016, é um longo depoimento dado à editora Isa Pessoa, em que ele comenta não apenas sobre suas viagens solitárias pela Antártica e sobre sua travessia da África para o Brasil num barco a remo, mas também revela sua maneira de ver o mundo, suas convicções, seu estilo de comportamento, o dinamismo com que reverte imprevistos. Focado, discorre sobre as razões pelas quais, mesmo se dedicando a uma atividade considerada perigosa como a navegação de longa distância, nunca passou por nenhuma situação muito grave e sempre voltou para casa são e salvo.

A razão é óbvia: ele não é nem um pouco aventureiro.

Ao contrário do que parece, Klink não gosta de experiências dramáticas e de colocar a vida em risco (nem a dele, nem a de ninguém) e, por isso, investe muito em conhecimento e se empenha à exaustão até realizar seus planos. Ainda assim, admite que em tudo há uma porcentagem de erro. Faz o possível para minimizá-la, mas não a ponto de ficar paralisado pela busca da perfeição - tem uma hora em que é preciso partir, já que nada é perfeito e nunca será. Então, ele vai. E volta pra contar.

Não é homem de deixar nada incompleto, pelo meio do caminho - valoriza as conclusões. Eficiência é isso: começar e terminar. Aí, lembro que o Brasil é esse imenso canteiro de obras inacabadas, de estradas esburacadas, de variados exemplos da nossa incompetência para ir até o fim, para entregar o prometido, para cumprir o combinado. Um país feito apenas de pontapés iniciais.

É fácil supor que ser presidente da República é uma viagem na qual Amyr Klink nunca sonhou em embarcar. Então, só resta recomendar a leitura de seu livro a quem pleiteia o cargo este ano, e que se dê atenção para a parte em que Klink fala da importância de não apenas cuidarmos do que é nosso, mas especialmente cuidarmos do que não é nosso - que esse pensamento seja constante e inspirador para aqueles que se apresentam como opção para governar um país que não é de alguns, e sim de todos.

Aliás, vale pro nosso cercadinho também: cuidar do que é do vizinho, cuidar do que é do colega de aula, cuidar do que é do parceiro de trabalho, cuidar do que é do bairro, da cidade, da coletividade. Um pouco mais de zelo e quem sabe a gente não continue assim, tão à deriva.

MARTHA MEDEIROS

03 DE FEVEREIRO DE 2018

CARPINEJAR

O escândalo masculino


O homem pode matar barata com os pés descalços, não tem medo de esmagar mosquito com as mãos, mas ainda não consegue enfrentar uma mera gripe.

Arma um escândalo quando está gripado. É como se fosse desmaiar. É como se fosse um ataque de asma, uma pneumonia. Força a tosse, e só descreve as suas dores com resmungos. Joga o corpo para frente em uma epilepsia histriônica. Deita no sofá e lá fica na posição de almofada.

Transforma-se numa criança incapaz de medir a própria temperatura, de buscar remédio e preparar chá. Toda namorada é convertida em mãe, em enfermeira, em baby-sitter.

A casa torna-se uma creche, com as roupas espalhadas e objetos fora do lugar.

Enquanto a mulher gripada não diz nada, medica-se e segue com o trabalho, o homem realiza uma ópera. Entra em pânico, é preciso reinstalar o Windows do sujeito.

O nariz escorre coriza e reage com o espanto de sangue. Ele quer ir para o hospital, acha que vai morrer, recusa o banho, puxa as cobertas aos ombros, treme de frio a ponto de bater o queixo, responde a mesma pergunta na quarta tentativa, alucina de olhos abertos.

Qualquer pessoa de fora jura que ele está chapado ou é um péssimo ator. Não dá para acreditar na autenticidade dos sintomas. Não existe progressão gradual. O cansaço já é lassidão, a derrocada, violenta e imediata, não subiu degraus.

É um simples resfriado, e já pede para a namorada telefonar para o emprego no seu lugar e arranjar um atestado. Não encontra valentia nem para ligar para o seu chefe.

Ninguém descobrirá se dessa vez é grave porque sempre é grave. Finge se afogar nas primeiras expectorações. Há um retrocesso etário em poucas horas. Conforme aumenta a febre, diminui a idade.

Antes de perder a paciência com o seu eleito e rebaixá-lo de herói dos insetos a covarde das dores, a ciência provou que o sistema imunológico masculino é mais fraco do que o das mulheres e, ao mesmo tempo, ele tem mais receptores de temperatura no cérebro, o que intensifica e amplia os efeitos.

Perdoe a birra incurável no homem.

CARPINEJAR


03 DE FEVEREIRO DE 2018
PIANGERS

Controle de solo para Major Tom



Não vou dizer que não existem dias em que estou tão tranquilo e feliz que digo para mim mesmo e, às vezes, até para outras pessoas: Eu poderia morrer agora e morreria feliz. Só de vez em quando. Na maior parte do tempo, estou decepcionado pela brevidade da vida, pela curiosidade com o mundo em 3018, pela angústia de deixar um dia de existir. Alguns dizem: É apenas um sono eterno, como se dormir para sempre não fosse também um desespero. Será que há sonho? Alguém me acordará depois de milênios por conta de alguma descoberta científica?

Alguns outros estão firmes na convicção de uma vida eterna (e como eu quero que estejam certos!), mas não há detalhes: envelheceremos no paraíso? Moraremos junto das nossas famílias? Existirão mosquitos?

Gosto de pensar que o paraíso post mortem é congelado eternamente na época em que você foi mais feliz. Você passaria o resto do "pra todo sempre" naquela mesma praia onde ia na infância, correndo com seus amigos de oito anos de idade. Ou estaria para sempre vivo no dia da festa do seu casamento, rodeado de amigos e ao lado do seu grande amor. Ou seu paraíso seria viver para sempre acompanhando o crescimento das suas filhas pequenas, em um andamento temporal imperceptivelmente delicioso. Seja qual for, parecem apenas sonhos irreais. Não sei o que vem depois, e qualquer pessoa que diz que sabe está mentindo.

Quando leio sobre a astrofísica e os bilhões de anos que me separam da explosão inicial, isso também só me deixa mais angustiado. Sou uma coincidência minúscula e insignificante contemplando a grandeza do universo. E como explicar a infinidade do espaço sideral? São estrelas e galáxias e planetas e o que vem depois? E depois disso, o que vem? E por quanto tempo?

Entendo que, para não pensarmos nessas coisas, tenhamos inventado nossos trabalhos insignificantes e nossas discussões de internet. Nossos dilemas diários tão profundos são também bobos quando deparamos com uma visão do todo. O reconhecimento de que não sabemos de nada. De que um dia iremos embora. De que só temos o hoje. E que o hoje, de vez em quando, possa ser um daqueles dias tranquilos em que a gente morreria em paz.

PIANGERS


03 DE FEVEREIRO DE 2018
CLÁUDIA LAITANO

LEGAL, PORÉM ILEGÍTIMO

O que você faria, fora da lei, se tivesse certeza de que nunca seria punido? Muitos se regalariam no trânsito, convencidos de que dirigir depois de beber um pouco, ultrapassar o sinal ou estacionar em um lugar proibido não são infrações tão graves assim. Outros talvez se permitissem furtar um objeto de uma loja, argumentando para si mesmos que um pequeno furto é uma gota d?água no oceano de lucros de algum empresário abastado. Uma minoria, imagino, cometeria crimes mais sérios, mas mesmo esses, não sendo psicopatas, tratariam de encontrar alguma justificação íntima que tornasse a falta menos grave.

Para nossa sorte, a lei está aí para nos poupar o trabalho de decidirmos, por nós mesmos, o que é certo ou errado, o que obviamente não impede que muitos optem por burlá-la - seja pela certeza da impunidade, seja porque as vantagens do crime parecem compensar o risco de uma eventual punição.

Mas e se você fosse colocado diante de uma situação em que o que é legal não é necessariamente moral ou justo? Esse é o centro da polêmica na qual o juiz Marcelo Bretas se envolveu nos últimos dias. Casado com uma juíza que já recebe o benefício, o juiz responsável pela Lava-Jato no Rio de Janeiro entrou com uma ação para garantir um segundo auxílio-moradia, depois que o ministro Luiz Fux, do STF, liberou o pagamento do benefício para todos os juízes do país, em 2014.

Poucos consideram aceitável que dois juízes acumulem um benefício que, em dose única, já parece descabido - muitos dos magistrados que recebem o auxílio sempre moraram na cidade onde trabalham e possuem imóveis próprios. Mas mais difícil do que descobrir um contribuinte satisfeito por estar destinando parte dos seus impostos para engordar a folha de pagamento da elite do funcionalismo talvez seja lotar um estádio com todos os brasileiros dispostos a abrir mão de privilégios legais - ainda que moralmente indefensáveis - se tivessem a oportunidade.

O ex-governador Sérgio Cabral, preso pela Lava-Jato, e o juiz Marcelo Bretas, que o colocou na cadeia, ilustram duas faces de um mesmo cacoete nacional. O primeiro lambuzou-se na calda doce da corrupção - talvez convencido de que apenas estava sendo um pouco mais esperto do que os colegas ao extrair vantagens pessoais do jogo político como poucos antes dele. O segundo foi à Justiça buscar um direito - talvez convencido de que estaria sendo bobo se abrisse mão de mais um penduricalho legal nos vencimentos da família. Ambos são produtos de uma cultura que tolera tudo, menos a falta de esperteza.

A moral é sempre afetada pelo ponto de vista. Não é fácil fazermos julgamentos morais isentos quando nossos próprios interesses e emoções estão envolvidos. Ainda assim, uma ação não é moral se não leva em conta os efeitos sobre as outras pessoas, se não se coloca sob o escrutínio da perspectiva dos outros interesses envolvidos - como o dos contribuintes, por exemplo. Muitos filósofos chegaram a uma mesma formulação simples e eficaz: na dúvida, não faça nada que você não gostaria que virasse uma regra universal - inclusive quando a lei está ao seu lado.

CLÁUDIA LAITANO

sábado, 27 de janeiro de 2018



27 DE JANEIRO DE 2018
LYA LUFT
As virgens loucas


As virgens loucas do Novo Testamento - não preciso verificar e citar ao pé da letra porque aqui só me interessa a metáfora - não cuidaram do azeite de suas lamparinas e sofreram algum castigo (talvez o noivo que escolheria uma delas se perdesse na escuridão, deixando-as mais loucas ainda).

Mas gosto da expressão, da loucura, do quanto reflete a nossa condição atual, o tsunami de confusões, ameaças, protestos, coisas honradas e outras distorcidas, nem tantas tão dignas.

O chamado povo brasileiro, que alguns qualificam de preguiçoso, desatento, conformado, eu o vejo como heroico, honrado, sacrificado, em parte desinformado e por isso iludido. É o meu povo. Há cinco ou seis gerações, minha família vive aqui, ajudou com sacrifício a construir esse gigante de momento tão atrapalhado.

Quem somos? O que sabemos? O que queremos? Oscilamos entre os pregadores da esculhambação, os oradores complicados que ninguém entende, os gritalhões adolescentes eternos e irresponsáveis. Mas, de repente, vejam só: num tribunal de desembargadores aqui, em Porto Alegre, minha amadíssima cidade adotiva (Gramado é a outra, sendo Santa Cruz meu berço), magistrados relativamente jovens, preparadíssimos mas não metidos a eruditos, sem rasgados falsos elogios mútuos, começam a botar as coisas em seus devidos lugares e a apresentar a verdade - devidos, porque é justo, porque é questão de justiça. 

Não há política nem politicagem, não há exibicionismo de erudição jurídica, não há nada palavroso nem olhares fulminantes ou peitos estufados. Apenas, com a simplicidade de quem de verdade sabe e sabe que está com a verdade, fizeram uma faxina moral e conceitual nas nossas cabeças. Isto é, de quem quis ou soube escutar.

Um velho professor com quem muitíssimo aprendi sempre me dizia: "Só quem sabe o mais consegue dizer com clareza e verdade o menos". De modo que, assim, aprendi então que o caminho da sabedoria é também o da simplicidade, sobre as calçadas da verdade.

Difícil, sim. Na vida pessoal, mais ainda na vida pública. Não quero nenhum imitador de Cristo populista, não quero incitação à desobediência, não quero irresponsabilidade nem borbulhas de champanhe francês atrás dos bastidores enquanto nós, o povo brasileiro, trabalhamos até o fim para pagar contas e impostos, morremos nas filas, no chão dos hospitais, na pobreza e falta de higiene nos nossos barracos, porque nem esgoto decente nos deram, muito menos escola boa, e próxima.

Quero, sobretudo, paz. Decência. Honradez. Alguma liderança de cara e mãos limpas, que nos dê esperança de não estarmos nos últimos lugares em quase todas as avaliações globais: infraestrutura, educação, saúde, Previdência, orgulho natural disto que somos.

Deus nos ajude.

LYA LUFT

27 DE JANEIRO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

O fim da mulher discreta


Diretores de empresas, cineastas, fotógrafos, senadores, deputados, médicos, dentistas, advogados, jornalistas, professores, treinadores, executivos em geral: posso imaginar alguns deles colocando a cabeça no travesseiro à noite e se perguntando quais as chances de, na manhã seguinte, serem despertados por uma denúncia de assédio que porventura tenham cometido anos atrás. 

Rastreando a memória, talvez eles encontrem cenas esparsas de um carinho mal-intencionado numa estagiária, de uma proposta constrangedora a uma funcionária recém-contratada, de uma apalpada indevida numa paciente imobilizada, enfim, alguma situação de abuso de poder que tenha caído no esquecimento, mas quem garante? A mulherada lembra de tudo e resolveu soltar o verbo.

Pois é, rapazes, já não se fazem mais garotas discretas como antigamente.

Todas as pessoas, seja homem ou mulher, têm segredos guardados, e não há do que se envergonhar disso, ao contrário, é sinal de vida bem vivida. Ninguém está interessado na biografia de alguém que não tenha nadinha a esconder. Pequenas derrapadas, aventuras secretas, as deliciosas maluquices que ficaram sem testemunhas, quem nunca? Se você tem propagado por aí que sua vida é um livro aberto, não vejo tanta virtude nessa transparência toda, talvez seja um atestado do quão pouco audaciosa você é. Ora, não há quem não tenha, em sua história pessoal, ao menos um parágrafo punk.

E não precisa contar. Guarde pra você, esta é a graça da coisa: saber que ninguém imagina do que você foi capaz.

Completamente diferente é você ter sido vítima de um crime e silenciar a respeito por ser uma dama sofisticada que não se expõe. Sei bem como é difícil abrir o porão da nossa intimidade, já que foi assim que nos educaram: mulher fina é mulher calada. Graças a essa opressão travestida de etiqueta, guardamos traumas que nos infernizaram por anos. E, para piorar, nós mesmas fazíamos bullying umas com as outras: se alguma vinha a público denunciar um chefe ou um parente, éramos as primeiras a julgá-la como escandalosa, chamativa, vulgar.

Isso foi em outro século. Sabe esse boato de que o mundo está mudando? Procede.

Mulher fina pode e deve falar sobre alguma violência a que tenha sido submetida. É bem verdade que ainda há quem não tenha entendido que assédio está relacionado com poder - não só poder hierárquico, mas físico também. Cantada sem contato corporal e sem uma chantagem subentendida não é crime, pode, no máximo, ser uma grosseria, uma chatice, uma inconveniência, então cuidado para não ser injusta. 

Mas, se o titio justificou o parentesco para obrigá-la a fazer coisas que você não queria ou se o chefe insinuou que sua carreira não iria adiante se você não fosse boazinha com ele, abra o bico. Com um batom arrasador, claro: uma vez elegante, sempre elegante.

De resto (sobre aquilo que ninguém sabe que você fez ano passado), nem um pio.

MARTHA MEDEIROS

27 DE JANEIRO DE 2018
CARPINEJAR

A lição do quero-quero


Eu tenho hábito de escrever em praças. Em Porto Alegre, me isolo no laguinho do Grêmio Náutico União, da sede Petrópolis. Enquanto os outros caminham em círculos, eu ando dentro de mim.

Mas nunca é fácil me aproximar do meu esconderijo entre as árvores. Preciso enfrentar o temperamento agressivo do quero-quero. Ele não gosta de mim. Quando eu me dirijo para a alameda das quadras, ele já se põe em arma. É um duelo de faroeste. Bufa, concentra os olhos, arruma o penacho, levanta poeira com uma de suas patas e corre em minha direção. Sou obrigado a perder o charme do passo a passo e trotear em desespero. É uma vergonha social. Nem ficar quieto traz calmaria, a tática usada com os cachorros bravos não tem serventia.

Farejando o meu medo, ele voa para cutucar as minhas costas e cabeça. É uma invasão de pássaros feita por um único pássaro. Não o compreendo: não fiz nada para que demonstre colossal ódio. Soa como implicância gratuita. Parece que a cisma é somente comigo. Não ataca mais ninguém.

Lá estou, adulto, homem barbudo, fugindo do quero-quero. Logo eu, que não temo cascavel e rato. Uma comédia para os funcionários do clube, que não escondem as risadas da perseguição matinal. Não duvido que a cena seja um dia gravada e surja nas cassetadas de Faustão.

Buscando decifrar o seu comportamento arisco, me dei conta de que ele apenas está protegendo o seu ninho, guardando a casa. Atrás de sua vigília, há dois filhotes ainda sem pêlo e bambas, perto das cercas.

Aquilo me converteu emocionalmente, desmoronou a antipatia. Ele é um exemplo de pai. Eu vi que somos iguais, ou, pelo menos, tento ser. Minha paternidade sonha em lutar pelos filhos como um quero-quero. Com a mesma garra e imposição. Com a mesma fúria e possessão.

Pode me zombar, pode me ofender, mas jamais os meus filhos. Minha vaidade se concentra toda na minha ninhada. Eu perco o discernimento. Levanto voo e afio as asas em revoada. É o ponto fraco e também o ponto forte.

Coisa de gaúcho não temer a batalha para defender a prole.

CARPINEJAR


27 DE JANEIRO DE 2018
PIANGERS

Aurora


Hoje uma senhora passou por mim na praia e gritou: Sou fã da Aurora!. As pessoas são suas fãs, Aurora. Acho que é por causa do seu jeito alegre, sempre sorrindo, da sua simpatia em acenar para todos. Isso vem de quando você era ainda mais nova com um ou dois anos você já acenava para cachorros na rua. Com três anos, você fazia amizade com todos os mendigos do bairro, conversava demoradamente sobre os objetos que eles tinham amontoados em cima do cobertor no chão. Eu queria apressar o papo, meio por receio do que poderia surgir daquela amizade, meio porque chegaria atrasado pra te deixar na creche.

Acho que as pessoas são suas fãs porque você está sempre se divertindo. Acorda dando risada, toma café da manhã com entusiasmo, vamos andando até a escola com alegria. Se eu faço uma piada, você ri alto; se te carrego no colo, você comemora; se encontra uma joaninha no meio do caminho, fica deslumbrada. 

Você, aos cinco anos, ainda acredita nas coisas mais fantásticas. Como aquela vez em que fomos a um parque com dinossauros de plástico gigantes, e você disse que achava que eram dinossauros de verdade que aceitaram trabalhar no parque em troca de comida. Como quando eu esqueci de trocar seu dente que caiu por uma moeda, você acordou e disse: "Olhem só. Eu ganhei o meu próprio dente!". Você é uma menina feliz, Aurora.

Uma vez, me disseram que eu mudei depois que você chegou. Que minha primeira filha era mais séria e racional - como eu -, e, por isso, eu não tinha mudado muito com a chegada dela. Mas que, quando você chegou, eu fiquei mais doce e deslumbrado. Acho que isso aconteceu mesmo. 

Você gosta de cócegas e de andar pela rua saltitando de mão dadas. Você me chama de seu herói, diz que sou a pessoa mais legal do mundo. Não tem como não ficar doce e deslumbrado com essas coisas, Aurora. Você é um sopro de esperança em um mundo duro. Você conversa com todos sem julgamento. Seus olhos brilham com as coisas mais comuns da natureza. Você se diverte com as coisas mais triviais.

Não há nada que deixe um pai mais orgulhoso do que ouvir um elogio aos filhos. Você pode elogiar o pai, e ele ficará contente, mas elogie seus filhos, e ele ficará realizado. Toda vez que alguém diz que gosta do meu trabalho, fico agradecido. Mas, toda vez que alguém diz que gosta das minhas filhas, fico emocionado.

Ontem, você segurou a porta do quarto pra eu não entrar. Disse que tinha uma charada, e eu só entraria se acertasse a resposta: "O que é o que é um ponto amarelo na grama". Respondi: "Um fandangos? Um milho?". E você: "Não. Um flor amarela!". Eu ri tanto. "Já que você não acertou tenho outra: o que é um pontinho preto andando na calçada?" "Uma pessoa?", eu disse. "Sim! E qual o nome da ?pissoa? (sic fofo)?", você perguntou. "Marcos?", respondi. "Acertou", e você me deixou entrar.

Neste verão, estou te contando uma história infinita sobre um lagarto que vimos aqui no terreno da frente do prédio. Ele morava com a família em um buraco e ficou amigo de um sapo. O sapo ganhou uma capa que dava a ele superpoderes. Os dois fizeram corridas, festas de Réveillon, entregaram brinquedos de Natal e organizaram apresentações em zoológicos. No episódio de ontem, eles perderam a voz e tiveram que se apresentar apenas batendo palmas. Sempre que digo "Continua amanhã", você diz que eu contei muito pouco, que quer mais. É uma história que nunca vai terminar, Aurora.

Assim como a nossa.

PIANGERS

27 DE JANEIRO DE 2018
CAUÊ FONSECA (INERINO)

LULA, ENTRE O BRONZE E A CARNE



Chamou atenção o finalzinho da manifestação do procurador regional da República, Maurício Gotardo Gerum, durante o julgamento que tornou Porto Alegre o epicentro político do Brasil na quarta-feira passada. Falando, é claro, do réu Luiz Inácio Lula da Silva, o procurador citou Crime e Castigo, a crise de consciência em forma de romance escrita por Fiódor Dostoiévski. No trecho, enquanto pensa na velha agiota que assassinara, o protagonista Raskólhnikov devaneia sobre Napoleão:

- O verdadeiro soberano, a quem tudo é permitido, esmaga Toulon, faz uma carnificina em Paris, esquece um exército no Egito, sacrifica meio milhão de homens na campanha da Rússia e se safa com um calembur em Vilna. E ao morrer é transformado em ídolo. Logo, tudo lhe é permitido. Não, pelo visto esses homens não são de carne. São de bronze.

Gerum então se apruma para fechar sua participação com uma frase de efeito:

- Em uma República, excelências, todos os homens são de carne.

Carne, pensei cá com meus botões, por alguns muito bem protegida pelas armaduras da imunidade parlamentar ou do foro privilegiado. Mas tudo bem, o que achei curioso mesmo foi a citação ao bronze. Porque Lula há muito não está lutando com unhas e dentes pelo direito de voltar a ser presidente da República. Político experiente que é, duvido que ele mesmo se enxergue subindo a rampa do Palácio do Planalto em 1° de janeiro de 2019 e tomando a faixa verde-amarela de Michel Temer. Lula está lutando justamente pela sua versão em bronze. Pelo que será lembrado.

Me pergunto se Lula, ao olhar para o espelho e enxergar aquele misto de cansaço e fúria das capas de jornal da última semana, já se perguntou quais foram os seus grandes erros desde 2010, quando deixou o poder como o preferido de líderes de Estado como o francês Nicolas Sarkozy e o português José Sócrates para ser secretário-geral da ONU. Aquele para quem Barack Obama apontou em 2009 e disse: "Esse é o cara!". Desconfio que esses erros não têm nada a ver com triplex. As primeiras fissuras na figura de Lula se deram a partir de escolhas políticas infelizes.

Falando em Obama, faltou a Lula a grandeza de se afastar do poder como fazem os presidentes norte-americanos tão logo abandonam a Casa Branca. De se exilar da vida política após a sua contribuição de quatro ou oito anos. E Lula não deveria fazê-lo apesar de ser extremamente popular, mas justamente por sê-lo. Sua popularidade desobrigou o PT e a esquerda como um todo de procurar um sucessor natural, alguém com capacidade própria de liderar políticos em torno de um projeto de governo e de país. Esse candidato, perdesse ou ganhasse a eleição, tiraria o foco de Lula. Traçaria seu próprio caminho.

Em vez disso, Lula optou por moldar a figura de Dilma Rousseff e se manter presente. Teve carisma para eleger e reeleger a sucessora, e esse foi outro erro. Dilma pode ter sido eleita por Lula, mas ainda era a presidente, e uma presidente pode ser apeada - especialmente uma, diferentemente de Lula, sem características de liderança tão necessárias para o cargo e aliada a partidos infiéis. Somando a esse cenário a incompetência da oposição de superar Lula ou o legado de Lula, deu-se o impeachment e a derrocada do seu partido, hoje um triste agrupamento de cabeças brancas amarguradas.

Fora da política, sobre apartamentos, sítios e afins, não sou procurador, advogado de defesa e muito menos juiz para sentenciar, mas me consternou, à época, uma fala de Lula repetida à exaustão em um daqueles discursos inflamados após a condução coercitiva em março de 2016. Lula se referia aos pedalinhos com os nomes dos netos em Atibaia:

- Só eu não posso?!

Exatamente, Lula. Só você é o primeiro presidente de origem popular. E, como tal, teria de ter especial cuidado com a coisa pública para evitar que qualquer problema na Justiça desse vazão ao preconceito social em forma de protesto contra a corrupção. Seu dever - o de todos, mas seu em especial - era o de ter uma índole inatacável. Pela simbologia que representa. Os processos vêm mostrando, infelizmente, que está longe disso.

A batalha de Lula, agora, é pela caneta da História. Se ficar de fora da eleição, Lula tentará emplacar a versão de um herói, de um perseguido político por ser um candidato imbatível. Para isso, grita forte para que não emplaque a outra versão, a de que ele é apenas mais um político cooptado pela corrupção que terminou na cadeia. Uma batalha entre o bronze e a carne. Ou entre o bronze e o plástico, em forma de boneco inflável flutuando no Guaíba em trajes listrados. Lembra do tal calembur (um trocadilho, um jogo de palavras) citado na fala do procurador, proferido por Napoleão ao abandonar suas tropas aos frangalhos sob a neve de Vilna: do sublime ao ridículo, é só um passo.

CAUÊ FONSECA (INERINO)

terça-feira, 23 de janeiro de 2018



23 DE JANEIRO DE 2018

CARPINEJAR


O concurso do amor


Em dicas de vestibular e concursos, recebi a clara recomendação de descartar as questões mais simples para depois resolver as mais difíceis.

Nunca deu certo. Assim que começava uma prova, as mais fáceis pareciam também difíceis. Batia um pânico na porta de meus olhos. Não conseguia eliminar nenhuma das perguntas simples para ganhar preciosos minutos e enfrentar as soluções dispendiosas. Eu me debatia pela quebra do planejamento. Mordia a caneta, mastigava o lápis, tirava nacos da borracha.

Há quem, diferentemente dos conselhos dos professores, segue a ordem cronológica da prova para não enlouquecer com o que vem pela frente.

Comigo apenas funcionou a receita de iniciar pelas perguntas mais espinhosas e depois resolver as mais básicas. Encaro o que não sei para em seguida desenrolar o que entendo. Aproveito a tranquilidade do cronômetro para refletir demoradamente em uma saída para as charadas e ciladas.

Na vida pessoal, segui idêntico processo. Eu me preocupei bem mais em ter sucesso no amor do que na profissão. Mesmo que isso significasse ser reprovado pela soma dos pontos.

Eu me lancei na missão de achar a minha cara-metade. Não tive nenhuma outra prioridade. Mantive a consciência de que me quebraria, de que erraria, de que choraria, de que superaria vexames e desilusões, de que me arrependeria das certezas e me enervaria com as dúvidas.

O que entendi desde sempre: é preciso estudar para amar. Não é algo que se nasce conhecendo. Você experimentará pessoas, fórmulas e crises para definir o seu repouso. Passará madrugadas lendo os pensamentos e avaliando o instinto. Não se acertará de primeira. Dependerá de rascunhos e recomeços.

Ser amado e amar é a operação mais complexa da existência, a mais assustadora. Não é tarefa superficial localizar alguém para casar nesse mundão, compatível, com cumplicidade para atravessar as tormentas e generosidade para transformar a banalidade da rotina em alegria. Exige a nossa maior concentração. Há grandes chances de não encontrar ou se desencontrar do grande amor de sua biografia. Ou de deixar a folha em branco aguardando uma melhor hora.

Após responder à questão amorosa, todas as demais se tornam mais singelas e desembaraçadas. O êxito na carreira vem como consequência, os filhos serão resultado da convivência harmoniosa.

Quando Beatriz disse que ficava feliz não fazendo nada ao meu lado, eu poderia finalmente ser tudo. Não existe declaração de felicidade mais imponente para se ouvir.

O tempo agora está a meu favor para seguir com o exame.

CARPINEJAR

sábado, 20 de janeiro de 2018


20 DE JANEIRO DE 2018
LYA LUFT

As vítimas, os monstros... e o resto

Nesses últimos meses, semanas e dias, o acúmulo de denúncias dolorosas e horrorosas de abuso sexual contra crianças e adolescentes (e também jovens adultos) no mundo está crescendo de forma espantosa. Não sei se os casos aumentaram, mas certamente aumentou a coragem de denunciar. Um tsunami de pavor, e os questionamentos que ele traz consigo.

Mesmo que haja alguns delírios ou injustiças, a multidão de casos reais é tão assustadora, que me pergunto: que gente somos? Que pessoas eram e são essas, aquelas? Quem faria isso com uma criança, uma adolescente, um adolescente? Repetidamente, às vezes anos a fio?

E que espírito humilhado, dilacerado, apavorado, levou as vítimas a suportar tais horrores às vezes longo tempo, sem se queixar nem aos pais, aos professores, a algum irmão mais velho ou melhor amigo? O que há conosco, com nossos filhos, netos, conhecidos e mesmo desconhecidos mundo afora - vítimas e criminosos enrolados em laços tão malignos, que nas vítimas abrem feridas muitas vezes incuráveis?

Padres, pastores, diretores, chefes de equipes esportivas, treinadores, professores, ou parentes, inclusive pais ou tios... Que seres pouco humanos têm esse acesso às vítimas e conseguem manter esse terror por anos e anos?

Mais do que isso: sabe-se que alguns superiores ou chefes foram alertados pelas vítimas ou pelos seus pais: mesmo assim, pouquíssima coisa transpirou, nada de punições exemplares e clamor público. Minha compreensão é pequena demais para entender que todas as crianças não sejam alertadas em casa, desde sempre, para correr, gritar, fazer escândalo, a qualquer sinal de algo indevido da parte de outras pessoas, sobretudo adultos. Professor, sacerdote, parente, treinador... tanto faz. Autopreservação é a palavra de ordem. E confiança de que alguém virá ajudar. Melhor chamar a atenção para um engano do que se submeter a tal horror.

As vítimas, muitas das quais choram décadas depois do ocorrido ao falar nele, sofreram por ingenuidade, medo, ou falta de ajuda e colo e escuta em casa. Por uma cruel e cômoda omissão do resto, dos outros, de nós, a sociedade e a família?

Essa cumplicidade velha e sólida dos grupos responsáveis construiu essa torre de opróbrio no alto da qual, agora, os culpados deveriam ser expostos e - perdoem os mais compassivos - castrados, ainda que quimicamente. Prisão é pouco. É fácil demais escapar, sobretudo por aqui.

Gente famosa, respeitada, admirada, é objeto de acusações dramáticas, de quem, quando o crime aconteceu, era apenas criança. Foi só uma vez? Dez? Durante alguns anos ou um ano só? Uma hora que seja, meia hora? O estrago na alma, na psique, na confiança, no recato, no respeito por si e pelos outros foi fundamente escavado nessas vítimas. Que sociedades, que famílias, que igrejas, escolas, academias, equipes esportivas foram e são as que abrigam, ou mesmo ajudam pelo silêncio vergonhoso, esses crimes?

Não sei. Sempre, desde que me conheço, escrevi contra qualquer discriminação, e pela dignidade de crianças, adultos, qualquer raça e condição social. Mas neste assunto, confesso, até eu me atrapalho com as palavras: para esses violadores da natureza humana, quero castigo e eterna discriminação.

LYA LUFT



20 DE JANEIRO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

A MATRIZ


Recebi um vídeo em que o filósofo Mario Sergio Cortella diz que todos os nossos valores de conduta deveriam ser submetidos a uma pergunta simples: O que minha mãe diria se soubesse que eu...?. Se ela compreendesse, se considerasse coisa de pouca gravidade, você estaria absolvido. Mas, se a reação dela fosse fechar as janelas da casa e retirar suas fotos dos porta-retratos, não haveria dúvida: você teria sido reprovado no mais implacável teste de dignidade. Uma mãe envergonhada de um filho é o fundo do poço, não há como descer mais.

Fiquei pensando se alguma vez envergonhei minha mãe, e a resposta, claro, foi um redondo sim, ou não seria uma criatura normal. Mas nada que justificasse retirar minhas fotos dos porta-retratos. Eu era um bicho do mato quando menina, nenhuma articulação para conversar com parentes, e o gosto para me vestir era mais que duvidoso. 

Sabe aquela bonitinha de maria-chiquinha que todos apertam a bochecha? Esquece, não era eu. Depois, virei uma moça que, para os padrões da época, talvez parecesse meio selvagem: fui morar sozinha, tinha uns namorados estranhos, não casei na igreja. Mas nunca repeti o ano, jamais tiveram que me buscar numa delegacia e venderia fácil meu carro usado.

Então, virei uma jovem senhora, e a maturidade fez seu dever de casa: minha mãe e eu viramos a melhor amiga uma da outra.

O sorriso permanente que ela traz no rosto só saiu dali por breves minutos de sua vida inteira. Minha mãe assiste a todos os bons filmes que estão em cartaz e a todos os clássicos que reprisam no Telecine. É formada em Letras e já lia Dostoievski com 12 anos de idade. E, garanto, teria sido a mais divertida comentarista de televisão: quem pensa que o jornalismo ganhou algo comigo não pode imaginar o que ele perdeu por não tê-la descoberto primeiro.

É mãe excelente, mas quem dera tivesse sido minha avó. Para entender isso melhor, perguntem a quatro sortudos: Julia, Laura, João Pedro e Rafael. Eles sabem o que é ter a Disney a 15 minutos de casa. Basta que ela abra uma caixa de pulseiras, uma gaveta de fantasias ou um baralho encantado, e ninguém mais quer saber de TV, computador, smartphone. Quantos adultos sabem brincar pra valer?

Minha brincadeira preferida é conversar, e ela domina essa arte também. Não há ninguém que me entenda tanto quanto ela, que me faça sentir tão à vontade para falar sobre qualquer assunto. É uma interlocutora antenada: não é chata nem careta, nem pirada. Teria direito, hoje, de ser um pouco de cada, mas chegou aos 80 anos preservando sua independência, sem fazer chantagens emocionais e com a lucidez diabólica de quem amou muito, leu muito e valorizou cada segundo respirado.

Isabel é o nome da aniversariante de hoje, a quem espero não estar envergonhando com essa megaexposição: que minhas fotos permaneçam no lugar.

MARTHA MEDEIROS

Postagem em destaque

Grande sertão: veredas, os primeiros 70 anos Jaime Cimenti Italo Calvino escreveu um livro intitulado Por que ler os clássicos e ensinou: po...

Postagens mais visitadas