sábado, 4 de janeiro de 2020



04 DE JANEIRO DE 2020
ESPIRITUALIDADE

ANO BUDA 2586, ANO CRISTO 2020

Rituais de passagem. Há uma passagem? Ou inúmeras passagens?

Medite. Zazen é o portal principal. Avance. Sente-se. Levante-se. Deite-se. Caminhe. Coma. Liberte-se do extra, do desnecessário. Conheça a suficiência pessoal e social. Seja você, assim como é, em transformação. Extraordinária e simples, complexa e rara joia: pessoa da família humana, digna e sábia. Acorde, desperte. Aprecie sempre sua vida. No ontem, no amanhã, no agora. Ciclo incessante de estações, de emoções. Vidamortevidamortevida vivida, morrida, chegada, partida, sem ir nem vir, sem nascer, sem morrer. Intersendo. Ah! Santo Lavoisier: "Nada se cria, nada se destrói, tudo se transforma"- pensamento iluminado, mente Buda.

Nos países do Hemisfério Norte, ao final do inverno - quando já não há mais grandes nevadas, que levam à falta de flores, frutos, verduras frescas -, todos celebram o Novo Ano. Da árvore seca, de galhos e tronco retorcido, ainda coberta de neve, quando o som é o silêncio dos pássaros e dos insetos, surge uma pequenina flor branca e perfumada. Desabrocha a primavera. Novo ciclo da vida. Surgem uma, duas, três, cinco pétalas brancas. Pássaros e insetos. A neve derrete - cores e sons voltam à vida, a temperatura sobe.

O outono acontece quando a luz no céu é azul mais que azul perfeito e a lua branca mais branca. Frutas, verduras e já começam a se organizar para frio gentil que inverna a Terra. Dias curtos, noites longas. O bambuzal se dobra com o peso da neve, mas não se quebra.

De repente, na árvore torta, de galhos retorcidos (estaria morta?), surge uma pequena protuberância branca e perfumada. Primavera.

As estações do ano se sucedem e vamos nos transformando juntos a tudo o que existe. Alguns querem apenas as estações intermediárias, com abundância de flores e frutos. Mas sem o frio cortante e o calor escaldante, a vida na Terra não aconteceria.

Assim, quando fazemos o ritual - que foi criado no Hemisfério Norte - aqui no Sul, temos de lembrar suas origens e adaptar à nossa realidade. Pinheiros sem neve. Ameixeiras sem flor. Bambus retos e fortes. Sol e pássaros. Sorvetes e frutas frescas naturais. Banho de mar, roupas leves. Mas, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, invocamos nos primeiros dias do ano a Sabedoria de Buda.

Xaquiamuni Buda era da Índia, Hemisfério Sul. Usava trajes simples e leves. Moreno. Nobre - não apenas por sua casta familiar, mas por acolher todas as pessoas em sua comunidade. Sem preconceitos nem rancores. Por analogias e parábolas, era capaz de transmitir o Darma - a Lei Verdadeira - e com isso libertava todos os seres das amarras da dor e do sofrimento.

Discípulos e discípulas se multiplicaram - criou-se a Sanga, a comunidade de monges e monjas, leigos e leigas. Continuamos praticando seus ensinamentos. Mantemos o ritual sagrado de Dai Hannya - invocar a Grande Sabedoria Perfeita, capaz de afastar os males. Sabedoria que clarifica em profundidade que somos um só povo e uma só vida. Sabedoria plena de compaixão que dialoga e não luta, acolhe e transmuta.

Que o Ano-Novo abra um novo ciclo de amor e ternura. Que todos possam despertar para a mente Bodai - mente iluminada - e cuidar, criar causas e condições sustentáveis para o bem de todos os seres.

Que cessem as condições adversas, que todo pensamento perverso se converta logo em pensamento de bem, que toda fala áspera e rude se torne gentil e educadora, que nunca desistamos de nosso anseio comum de vida plena e que para cada desapontamento surja um novo apontamento sagrado.

Que possamos todos ir adiante, em movimento circular ascendente e nos maravilhemos ao perceber que já estamos vivendo na Pura Terra Sagrada, compartilhando e cantando a vida eterna de Buda.

Mãos em prece

ESPIRITUALIDADE


04 DE JANEIRO DE 2020
J.J. CAMARGO

O CICLO QUE NOS PROTEGE. E AMEAÇA

A MORTE SERÁ SEMPRE DOLOROSA. TENTAR RACIONALIZÁ-LA, MAIS DO QUE INÚTIL, É OFENSIVO

Meu encanto por Leo Buscaglia é antigo. Este escritor ítalo-americano, falecido em 1998, aos 74 anos, foi professor na Southern University of California e publicava com regularidade no New York Times, com uma linha editorial baseada no comportamento humano, especialmente sobre o amor e seus desdobramentos. Foi também o pioneiro em criar na universidade um curso específico sobre o tema. E ironizava: "Ao que eu saiba, somos a única escola do país, e talvez do mundo, que tem uma disciplina chamada Amor. E eu, o único professor, louco o bastante, para ensiná-la".

Há alguns anos, enquanto preparava uma crônica sobre como consolar alguém em sofrimento, pressionado por uma desagradável experiência recente, critiquei as pessoas que não param de falar na tentativa de "distrair" o sofredor da sua perda, ou dão conselhos baseados no princípio da racionalização da morte se a pessoa morreu velhinha, e essas bobagens de quem não entende que a morte será sempre dolorosa, extemporânea e cruel, para quem estiver emocionalmente comprometido. Portanto, nesta circunstância, a tentativa de racionalizar, mais do que inútil, é ofensiva, enquanto que um abraço silencioso muitas vezes será lembrado como consolo inesquecível.

Naquela ocasião, transcrevi, como exemplo, uma historieta em que Leo Buscaglia, tendo participado de um concurso de histórias infantis, se encantou com o relato de um menino de quatro anos que, vendo o vizinho idoso, enviuvado naquela semana, a chorar sentado sozinho num banco de pedra, tratou de pular o muro e sentar-se ao lado dele. No dia seguinte, a mãe, surpreendida por um buque de flores, mandado pelo vizinho como agradecimento, perguntou ao garoto o que ele tinha dito ao velhinho e ele respondeu:

- Nada, eu só o ajudei a chorar!

Desde então, tenho me interessado pelo legado de Leo Buscaglia. E foi assim que encontrei recentemente esta primorosa descrição da morte, com a serena naturalidade do inevitável. E achei que seria muito egoísmo não compartilhá-la:

"... A folha se descobriu a perder a cor, a ficar cada vez mais frágil. Havia sempre frio, e a neve pesava sobre ela. E quando amanheceu, veio o vento, e arrancou a folha de seu galho. Não doeu. Ela sentiu que flutuava no ar, muito calma e tranquila.

E, enquanto caía, ela viu a árvore inteira, pela primeira vez.

Como era forte e firme! Teve certeza de que a árvore viveria por muito tempo, e compreendeu o privilégio de ter sido parte de sua vida. E isso a deixou orgulhosa.

A folha pousou num monte de neve. Estava macio, até mesmo aconchegante. Naquela nova posição, a folha estava mais confortável do que jamais se sentira. Ela fechou os olhos e adormeceu. Não sabia que a folha que fora, seca e aparentemente inútil, se ajuntaria com a água e serviria para tornar a árvore mais forte. E, principalmente, não sabia que ali, na árvore e no solo, já havia planos para novas folhas na primavera".

P.S.: que 2020 encontre-nos saudáveis e sensíveis à dor do outro, como se ela fosse nossa.

J.J. CAMARGO


04 DE JANEIRO DE 2020
DAVID COIMBRA

Que vontade de ser padre

O filme Dois Papas me fez ter vontade de virar padre. Acho que eu seria um bom padre. Não sou muito de fazer sermão nem de ficar ouvindo confissões, mas gosto daquele aspecto sereno que eles têm. O aspecto de quem possui comunicação privilegiada com Deus. Os padres são pessoas calmas. É bonito ser uma pessoa calma. Além disso, a tradição informa que os padres comem bem. "Comi como um padre", diz-se, depois de uma lauta refeição. Assim, se eu fosse padre, comeria todos os dias como um, algo de fato entusiasmante.

Mas, infelizmente, suponho que não tenha mais idade para me dedicar à carreira eclesiástica. Inclusive tem que fazer curso e tudo mais. Seguirei, portanto, na reles vida mundana, sem o conhecimento dos grandes mistérios da religião, sem estar envolvido por aquela aragem de serenidade e sem comer como um padre.

Triste.

Em todo caso, esse desejo sacro que me tomou o espírito dá a dimensão da qualidade do filme do brasileiro Fernando Meirelles. O filme, se é bom, se infiltra na alma do espectador.

Talvez alguém possa acusar o roteiro de ser um pouco maniqueísta, um pouco esquemático demais, o papa bom versus o papa mau, mas, ainda assim, a história é bem contada. Assista. Você vai gostar.

Eu e a Kelly Mattos entrevistamos o Meirelles, na sexta-feira, no Timeline. Em meio a algumas revelações, ele contou do que mais gostou no filme: o fato de os dois papas, apesar de terem opiniões tão diferentes, ouvirem um ao outro.

- As pessoas precisam ouvir o outro - disse o Meirelles, ao que acrescentei:

- Eu sou "o outro"! Eu é que tenho de ser ouvido!

Ele riu.

Mas a verdade é que, como diria o Roberto Carlos, todos estão surdos. A impressão é de que o mundo se transformou em um grande Gre-Nal. Os dois times em eterna disputa bem poderiam ser representados pelos papas do filme: o conservador contra o progressista, o popular contra o elitista, o bonzinho do meu lado contra os malvados do lado deles. Quem está em um time jamais vê algo de bom feito pelo outro. Isso é aborrecido, porque desvaloriza as análises. Não interessa o fato ocorrido, você já sabe previamente se o analista vai se posicionar contra ou a favor. A cada notícia, antecipo sem jamais errar o que dirá cada pessoa pública, cada jornalista, cada artista, cada feicebuqueiro, cada tuiteiro. O pensamento deles já está empacotado e embalado. De que vale uma opinião dessas?

Os intelectuais de esquerda têm pesada responsabilidade por essa situação, porque sempre fizeram julgamento implacável de quem não concordava com eles. Para esses intelectuais, quem não era integralmente de esquerda era moralmente inferior. Aplicou-se, assim, a Terceira Lei de Newton: a toda ação, há sempre uma reação oposta de igual intensidade.

Quer dizer: foi a partir da postura excludente das esquerdas que se formou a nova direita, uma direita grosseira, agressiva, arrogante e igualmente excludente. Não é por acaso que Olavo de Carvalho, o supremo mentor da nova direita, defende o insulto ao invés do argumento. Ele compreendeu que, hoje, não importa o que é debatido, importa é quem debate. Assim, o que se precisa fazer é desmoralizar quem argumenta, sem ligar para o argumento. E, por desgraça, ele está certo. Ninguém vai mudar de opinião. Ninguém vai ouvir o outro. Deveriam todos. Até porque, já avisei, eu sou o outro.

DAVID COIMBRA


04 DE JANEIRO DE 2020
VARIANDO

Pensando bêbados

Heródoto nos conta sobre uma peculiar maneira de pensar dos persas. Vale lembrar que, na época do comentário, eles eram o maior império do planeta. Quando tinham uma importante decisão a tomar, ficavam de porre e discutiam a questão. Depois, já sóbrios, examinavam melhor o que tinham pensado.

Logicamente são três momentos: bêbados, sóbrios e o terceiro seria a síntese que compara os argumentos de uma e outra forma de pensar. Enfim, uma inusual forma de pensar decisões.

Não consigo imaginar hoje uma corporação, ou um governo, agindo assim: "Amanhã vamos pensar a estratégia de vendas para o ano. Quem não gostar de vodca, que a firma oferece, pode trazer de casa sua bebida. Recomendam-se destilados".

Imagine no outro dia, já hidratada e parcialmente refeita, a mesma turma reexaminando as propostas etílicas. Classificando o que é pura fantasia do que seria factível. O que é uma ofensa ao bom senso, do que pode ser um pensamento original. Seria no mínimo divertido.

Apesar da antiga expressão "in vino veritas est" (a verdade está no vinho), não acreditamos no poder do pensamento alcoólico. Mas a melhor pergunta é: o vinho traz a verdade? Caso sim, qual?

O álcool atua como um depressor do sistema nervoso. Ele deprime primeiro o centro inibidor, por isso o paradoxo da euforia do início do efeito, antes de cair a chave-geral. No começo do porre, ficamos corajosos, audazes, impulsivos. Talvez nesse estado possamos falar de nossos recônditos desejos, sonhar com uma realidade melhor, deixar brotar utopias descabidas. Pensar fora da caixa, para usar o vocabulário da moda.

Talvez nossa desconfiança seja por causa do agir bêbado, que facilmente pode ser desastroso. E algumas "verdades" são apenas a deixa para nossos preconceitos. A verdade que vem do álcool é algo que queremos esconder dos outros, ou de nós mesmos. É provável que a origem do ditado latino seja mais quando damos de beber aos desafetos, para que a língua os traia e saibamos das verdadeiras intenções, do que um conselho filosófico.

Toda droga rouba energia do futuro. Depois do excesso, vem a conta: a depressão física e psíquica, as patéticas promessas de não mais beber, a vergonha das besteiras feitas, a culpa por termos machucado pessoas queridas. A ressaca é a aterrissagem forçada depois do voo eufórico. A lama depois da purpurina.

Sinceramente, não creio no conselho persa. Salvo que eles soubessem que há mais da nossa verdade no mal-estar angustiado da ressaca do que no arrebatamento etílico, e que isso fizesse parte do plano filosófico. Que a humilhação de rezar ajoelhado frente à deusa da porcelana estivesse incluída no método. Pensar com as entranhas exaustas nos devolve ao nosso tamanho, a dimensão humana bruta e enxuta. Quem sabe fosse isso...

MÁRIO CORSO


04 DE JANEIRO DE 2020
LITORAL NORTE

A nova onda da praia

Patinetes compartilhadas começam a ganhar espaço em algumas cidades do Litoral Norte. Veranistas de Torres e Capão da Canoa já adotaram o serviço, regulamentado em dezembro

Famosos e já estabelecidos nas principais cidades do país, as patinetes compartilhadas começam, aos poucos, a entrar em algumas praias do Litoral Norte. Se ainda não estão disponíveis em cidades como Tramandaí, Imbé e Xangri- Lá, em dois dos principais destinos dos gaúchos no verão, Capão da Canoa e Torres, já são realidade.

Uma das maiores empresas do setor de compartilhados, a Grow - responsável por patinetes e bicicletas das marcas Grin e Yellow - começou a operar em Torres em 29 de dezembro, após a prefeitura editar decreto regulamentando o serviço, dois dias antes. "Estamos muito satisfeitos com a operação em Torres, que desde o primeiro dia apresenta números acima do esperado. Já dá para perceber que a cidade recebeu bem o serviço de micromobilidade, com destaque para as patinetes", diz, por meio de nota, a analista de Relações Governamentais e Institucionais da Grow, Renata Greco.

Secretário de Turismo da cidade, Fernando Nery avalia que a aceitação dos equipamentos entre veranistas é boa:

- É uma coisa nova e, obviamente, gera opiniões positivas e negativas, mas, equilibrando na balança, fazendo um feedback final, acredito que, pelo menos no nosso município, o serviço está se apresentando, neste momento, com muito mais qualidade do que propriamente defeitos.

O economista Renan Peres, 23 anos, frequentador da Prainha, aprovou o serviço:

- Tomara que tenha no inverno também. Como morador, gostei muito da novidade.

Desde os Molhes, ao lado da divisa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina, os veículos elétricos de duas rodas são vistos circulando na ciclovia, estacionados nas calçadas ou dividindo espaço com os automóveis nas estreitas ruas da cidade, o que preocupa a estudante Juliana Silveira, 23 anos:

- Está bem perigoso, porque, na ciclovia, tem gente caminhando ou correndo, e, no trânsito, os carros não respeitam. Quem sabe com o tempo haja uma adaptação com o novo meio, mas agora está um pouco confuso ainda.

Aprovação

A ciclovia de Torres é a maior do Litoral Norte. Em seus 2,5 quilômetros de extensão, há alguns buracos no piso e a pintura em vermelho está desbotada e com muita areia, devido à proximidade da praia. Por ela, é comum ver dois usuários circulando juntos, na mesma patinete com outra pessoa, embora não seja recomendado.

Edgar e Rogério Palamar atravessaram - cada qual com a sua - os balneários do município sobre as duas rodas.

- Ainda estou apanhando um pouco, mas quem anda de bicicleta anda nessa patinete - compara o programador, de 42 anos, morador de Bento Gonçalves.

Enquanto isso, próximo à Praia Grande, o filho dele operava o celular para liberar mais um equipamento para uso.

- O serviço é bem bom, o aplicativo funciona muito bem. É muito fácil de encontrar. Acho mais legal do que bicicleta, tanto que quase não estou vendo elas por aqui esse ano - analisa o estudante, de 21 anos.

A percepção do jovem foi a mesma da reportagem de ZH. Em dois dias circulando pela cidade, nenhuma bicicleta compartilhada foi vista nas faixas exclusivas ou em qualquer outro ponto do balneário.

Com velocidade máxima de 20km/h, a patinete garante passeios mais audaciosos. O técnico em enfermagem Luciano de Abreu Dias, 20 anos, subiu os 80 metros do Morro do Farol, de onde é possível ter uma vista panorâmica da praia, com o equipamento.

- Subiu bem, chegou à metade da velocidade limite. Eu nunca tinha andado, nem em Porto Alegre. É muito show - comemora.

Questionada sobre a possibilidade de expansão do serviço de compartilhados para outros municípios do Litoral Norte, a Grow informou que "os estudos para ampliação de suas operações para outras cidades são permanentes", mas que, no entanto, "a política de expansão da empresa leva em conta uma série de aspectos, como a demanda de pessoas que precisam percorrer curtas distâncias ao longo do dia, topografia favorável, estrutura de ciclovias e ciclofaixas, regulamentação e segurança, entre outras. Portanto, ainda não há definição para atuação em outras cidades do Estado".

ANDERSON AIRES E TIAGO BOFF


04 DE JANEIRO DE 2020

FLÁVIO TAVARES

ESPERANÇAS

Como todo recomeço, o novo ano revive esperanças mesmo sendo a continuidade do que fomos nos últimos 12 meses. As mudanças só expandem e multiplicam o que somos. Nosso cordão umbilical está em 2019 e é preciso descobrir o que fomos para saber como devemos ser. Não há futuro sem passado.

A esperança é realizar o que se deseja e que virá calcado no que somos.

Limito-me ao âmbito estadual para falar da esperança. A área nacional foi tão atropelada pelas odiosas confusões do governo federal, que densa neblina tapa o ambiente até no tórrido verão.

A névoa cai, também, sobre o Rio Grande, mas aqui temos sabido resistir e enxergar até com cerração. Num exemplo de resistência ao absurdo, as professoras seguem decididas a impedir que terminem com a carreira do magistério. Educar é a mais bela atividade humana e não pode ser confundida com maquiagem num salão de beleza, como pretende o governo.

O Rio Grande soube entender, também, que a crise climática ameaça a vida no planeta. Os alertas da ciência (que o papa Francisco e a ONU reiteram) sobre a urgência de excluir os combustíveis fósseis até 2030, fez a sociedade civil se mobilizar contra a pretendida mina de carvão a 12 quilômetros de Porto Alegre, à beira do Rio Jacuí, que deságua no Guaíba.

Diferentes organismos - da OAB à Ajuris, do Ministério Público à Amrigs e aos Médicos de Família, do Sindicato dos Engenheiros aos técnicos da Fepam e outros -, além de médicos, geólogos e biólogos, alertam sobre os danos da mina que, em 10 ou 15 anos, infestará o ar da área metropolitana e fará do Guaíba um pestilento lixo líquido.

O geólogo Rualdo Menegat, professor da UFRGS e da Unesco (ramo científico da ONU), é um dos tantos que alertam sobre as nefastas consequências da pretendida mina. Frisa que o carvão é mineral complexo, com 76 elementos perigosos, como enxofre e os radiativos urânio e selênio. O cádmio afeta o pâncreas, o mercúrio contém neurotoxinas que se expandem a centenas de quilômetros. O enxofre reage com a água e vira ácido sulfúrico.

A pretendida mina lançará no ar 416 quilos/hora de partículas tóxicas, em 1.056 explosões ao ano. Dia e noite, surgirá, então, uma neblina ácida. O desvio de dois arroios afetará o aquífero quaternário junto ao Delta do Jacuí, um filtro natural que desaparecerá.

Um dos que nos lembraram tudo isto, Menegat acaba de aparecer, agora, em todo o mundo, como o descobridor do secular segredo sobre a construção, no século 15, de Machu Picchu, a cidade sagrada dos incas, a 2,3 mil metros de altitude, no atual Peru. Menegat explicou como os incas aproveitaram as falhas geológicas no topo da montanha e, sem ferramentas, edificaram a portentosa cidade cuja construção desafiava o saber da engenharia.

Quem desvendou o que ninguém explicava também nos adverte sobre o que evitar para reter a esperança.

FLÁVIO TAVARES

04 DE JANEIRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

OS TAMBORES DA GUERRA

A escalada de confrontações entre Irã e Estados Unidos na virada de ano faz soarem novamente, como poucas vezes se viu nos últimos anos, os tambores da guerra no Oriente Médio. O ataque com mísseis disparados por um drone norte-americano contra o comboio que transportava o número 2 do regime iraniano, o major-general Qassem Soleimani, deixa antever que Teerã prepara uma agressiva resposta ao que definiu como um "ato de terrorismo."

A teocracia iraniana está longe de ser uma vítima indefesa das circunstâncias ou do poderio bélico dos Estados Unidos. Com Soleimani à frente do serviço de inteligência e da fanática fração Quds da Guarda Revolucionária, o regime dos aiatolás está por trás de grande parte das milícias, dos conflitos, dos grupos ligados ao terror e de regimes sanguinários no Oriente Médio. O longo braço de Teerã alimenta a guerra no Iêmen, treina e financia o Hezbollah no Líbano, apoia decisivamente o ditador Bashar al-Assad na Síria e, mais recentemente, por meio de milícias iraquianas, passou a controlar grande parte da política e do poder no país vizinho, centro de conflitos no Oriente Médio há mais de quatro décadas.

O fato é que, por interesses comerciais, geopolíticos ou por simplesmente não saber como agir, as democracias do Ocidente não conseguiram interromper a crescente influência dos aiatolás xiitas no tabuleiro da região mais explosiva do planeta. Ao mesmo tempo que voltou a pôr em marcha o programa nuclear, Teerã acelerou sua atividade no Iraque na medida em que o presidente Donald Trump, em iniciativa criticada nos Estados Unidos, reduziu significativamente a presença de tropas no Oriente Médio, seja no próprio Iraque ou no apoio a grupos que enfrentam o Estado Islâmico e o ditador Assad na Síria.

Em junho passado, Trump também voltou atrás em um ataque a alvos iranianos depois que um drone norte-americano foi derrubado, em mais um gesto que pode ter sido considerado como oportunidade para o Irã ir mais a fundo nas suas intervenções na região.

A escalada de violência, que começou na semana de Natal com um ataque de mais de 30 foguetes a uma base militar do Iraque perto de Kirkuk e que matou um funcionário dos EUA, deve ser interrompida o quanto antes. Uma nova guerra em larga escala no Oriente Médio teria um custo inimaginável em vidas e desestabilizaria a economia mundial em um momento de estagnação e incertezas - a disparada do preço do barril de petróleo é apenas o primeiro soluço do que pode estar por vir.

Os tambores da guerra devem ser substituídos pela diplomacia, não apenas para que novos atos de confronto sejam contidos por parte de Washington, mas também para que o Irã deixe de lado o apoio a organizações ligadas ao terror, com a correspondente reinserção do país na convivência internacional. É hora de contenção, não de gestos e atitudes radicais.


04 DE JANEIRO DE 2020
FÉRIAS

14 destinos para curtir o verão na Região Metropolitana

Quem ficar em Porto Alegre ou na Região Metropolitana durante a temporada de verão tem diversas opções de lazer para escapar do ritual de deslocamento em massa para o Litoral.

Zero Hora selecionou 14 destinos, com distância máxima aproximada de 65 quilômetros da saída da Capital, para curtir, relaxar e explorar. Há sítios, cascatas e praias, gratuitos ou a baixo custo. Recomenda-se atenção para banho apenas em locais onde há presença de monitores ou guarda-vidas.

Detalhes dos locais

SÍTIO DO BETO

• O local é conhecido por seu parque aquático e pelas atrações relacionadas ao ecoturismo, esporte e lazer. São mais de 11 piscinas e 40 churrasqueiras  para curtir. Há serviço de guardavidas no local.

• Valor: R$ 15 por pessoa (de segunda a sexta); R$ 22 (aos finais  de semana e feriados); crianças de cinco a nove anos pagam R$ 10 todos os dias.

• Local: Estrada Beco do Pavão, 240, Gravataí.

• Horários: todos os dias, das 9h às 18h.

BURACO DO DIABO

• O local é tradição no turismode Ivoti. Localizado no Núcleo de  Casas Enxamiel, tipo de construção utilizada pelos imigrantes alemães, o Buraco do Diabo é uma expressão que faz referência aos próprios alemães, que moravam em uma parte mais baixa da cidade. Os barulhos escutados por eles durante a noite eram caracterizados como “sons do diabo”. Porém, na verdade, os causadores dos tais ruídos eram apenas tamanduás. A expressão se popularizou, e, hoje, trata-se de bom lugar para passeio, para tomar chimarrão, conhecer a cidade histórica e apreciar os artesanatos dos feirantes locais.

• Valor: acesso público sem custo.

• Local: bairro Feitoria Nova, Ivoti.

• Horários: acesso sempre liberado.

CASCATA DO MATO FINO

• Ideal para quem gosta de cascata (foto ao lado) e de lugares naturais. Localizado na Região Metropolitana, dispõe de várias churrasqueiras e muito contato com a natureza. Além disso, há lancheria, banheiros e monitoramento com guarda-vidas.

• Valor: R$ 25 por pessoa. Crianças de até seis anos não pagam.

• Local: Estrada da Cascata, 1.800, Gravataí.

• Horários: aberta todos os dias, das 8h às 18h.

PRAINHA DE MORUNGAVA

• Dispõe de piscina natural (foto acima) com águas do Arroio Ferreira, mata e vegetação com pedras e água corrente, além de 200 churrasqueiras e um galpão aberto. Também há quartos disponíveis para estadia. O local possui guarda-vidas.

• Valor: R$ 20 por pessoa (segunda a sexta); R$ 23 (fins de semana e feriados); crianças de cinco a 10 anos pagam sempre R$ 15.

• Local: Rua dos Schereiber, parada 96, Gravataí.

• Horários: de segunda a domingo, das 8h às 19h.

SÍTIO TRILHA DO SOL

• As piscinas são o destaque, além

das trilhas nativas para caminhada,

churrasqueiras em meio às árvores,

campos de futebol e de vôlei, cancha

de bocha, hortas orgânicas, centro

equestre para visitação e passeio

com cavalo e playgrounds. O banho é

supervisionado por monitores.

• Valor: R$ 20 por pessoa e R$ 10

para crianças de cinco a 10 anos (de

segunda a sexta); R$ 30 para adulto e

R$ 15 para crianças (fins de semana).

• Local: Estrada Frederico Dihl,

5.563, Viamão.

• Horários: aberto diariamente das

9h às 18h.

BARRA DO RIBEIRO

• O município é banhado pelo Guaíba

e pela Lagoa dos Patos. É possível

visitar o parque municipal e a reserva

ecológica, conhecida como Morro

da Formiga. O espaço tem trilhas

ecológicas. Há, ainda, o Cerro da

Cavalhada, um dos pontos altos da

cidade, com vista para a região. Há

Guarda-vidas no local, ainda que

segundo a Fepam, a praia de Barra do

Ribeiro não esteja própria para banho.

• Valor: acesso público sem custo.

• Local: RS-709, Barra do Ribeiro

• Horários: acesso sempre liberado.

SÍTIO CAPOROROCA

• Local oferece oficina de culinária com ingredientes colhidos na horta do sítio, além de trilhas com orientações e dicas sobre a área ambiental.

• Valor: a única taxa é a de consumo de alimentos e bebidas, que varia entre R$ 15 e R$ 40.

• Local: Estrada do Varejão, 2.630, casa 951, bairro Lami, em Porto Alegre.

• Horários: aberto no segundo domingo do mês, das 11h às 17h. Nos outros dias, é necessário fazer reserva. Contatos: www.facebook.com/sitiocapororoca

BALNEÁRIO SÍTIO DA LAGOA

• Há piscinas adulto e infantil com guarda-vidas, toboáguas, área de lazer com recreação, pedalinho, camping e lagoa, além de trilhas e passeio a cavalo. Tem restaurante, lancheria, salão de festas e churrasqueira.

• Valor: R$ 20 por pessoa (terçaaté sexta); R$ 25 por pessoa (fins  de semana e feriados). Crianças até cinco anos não pagam. De seis a 10 anos pagam sempre R$ 13.

• Local: Rua Henrique Closs, 2.628, Gravataí.

• Horários: de segunda a domingo, das 8h às 19h.

CAMPING CATAÚCHO

• Quem gosta de atividades como stand-up e canoagem pode curtir o camping. O lugar tem piscinas adulto e infantil, toboáguas e área de lazer com recreação. É possível acampar em determinadas áreas, à beira do Rio Gravataí. Possui guarda-vidas durante o final de semana.

• Valor: R$15 por pessoa; R$20 por pessoa para quem for acampar.

• Local: Rua Alcides Ferreira, 1.600, Gravataí.

• Horários: de segunda a domingo, das 8h às 18h.

OÁSIS CLUBE

• Conta com piscinas adulto e infantil com guarda-vidas, rampa molhada, toboáguas, playground e churrasqueiras. Tem restaurante, lancheria e sorveteria. 

• Valor: R$ 20 por pessoa de segunda a sexta; R$ 25 aos sábados, domingos e feriados) por pessoa; crianças a partir de cinco anos pagam o mesmo preço.

• Local: Estrada Henrique Closs, 5.050, Gravataí.

• Horários: de segunda a domingo, das 8h30min às 18h30min.

SÍTIO CARANGUEJO SELVAGEM

• Dispõe de diversas atividades, como campo de futebol e voleibol, cancha de bocha, passeio de mini-bug e tirolesa. São oito piscinas de água tratada e uma piscina de água natural, além de dois toboáguas para adultos e um para crianças. É possível consumir alimentos do bar. Todos os brinquedos funcionam com a supervisão de monitores, treinados para atuar como guarda-vidas.

• Valor: R$ 25 por pessoa; crianças

a partir de cinco anos pagam o mesmo preço.

• Local: Rua Orestes Basotti, 3.531, Novo Hamburgo.

• Horários: de terça a domingo, além de feriados, das 8h30min às 18h.

RESERVA ECOLÓGICA PICADA VERÃO

• Antigo sítio da Família Lima, o local conta com cinco quedas d’água que formam piscinas naturais. É indicado para tomar banho de cachoeira, junto às belezas da Mata Atlântica, além de atividades como trilhas com monitores. Há serviços de guarda-vidas disponível.

• Valor: R$ 17 nos dias de semana; R$ 20 aos sábados; R$ 25 aos domingos e feriados; crianças de cinco a 10 anos pagam R$ 12 todos os dias.

• Local: Vila Picada Verão, bem no limite entre Sapiranga, Dois Irmãos e Morro Reuter.

• Horários: entrada das 8h às 16h30min; a permanência é liberada até as 18h.

CAMINHO DAS SERPENTES ENCANTADAS

• O lugar é cheio de artes em mosaico. Há espécie de trilha por meio da mata, com degraus estilizados. Na arquibancada, também revestida por mosaico, é possível apreciar o horizonte, deixando o olhar se perder na paisagem. Ainda que não exista um restaurante no local, uma cozinha completa está disponível para quem quiser preparar ou armazenar algum lanche ou refeição.

• Valor: R$ 18 por pessoa; crianças abaixo de 10 anos não pagam.

• Local: RS-873, Morro Reuter.

• Horários: aberto aos sábados e domingos, das 11h às 18h.

04 DE JANEIRO DE 2020
FIÉIS ESCUDEIROS

Bo atende até em alemão

Os cães da Polícia Federal que deslizam as patas sobre as esteiras de malas no Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, são capazes de detectar drogas até em embalagens fechadas a vácuo. Para prevenir o fluxo de narcóticos, dois pastores alemães e um pastor belga malinois fazem o trabalho de verificação nos terminais aéreos e nos Correios. Identificam drogas especialmente nos voos com destino a Lisboa, única conexão direta da Capital com a Europa, e no trecho recém- inaugurado para Cabo Verde.

- Nossos cães são de origem europeia e passam por seleção bem forte. Têm genética e pedigree bons para este tipo de trabalho - diz Felipe Contino, veterinário, policial federal e chefe do canil no RS.

A pastor belga malinois Bo já encontrou drogas escondidas em embalagem lacrada de tintura de cabelo. Ao detectar o odor, os cães deitam ou sentam. A Bo atende comandos em alemão, devido às tônicas fortes do idioma.

A identificação de explosivos por cães não é comum no país. Luna, uma pastor alemão de oito anos, demonstrou sua habilidade em identificar pólvora na visita do presidente Jair Bolsonaro a Pelotas, em agosto. Fez a inspeção nos carros do comboio presidencial e, em um deles, identificou cartuchos de armas de integrantes do Gabinete de Segurança Institucional:

- Demonstra a eficácia do cão. É um material próprio da segurança do presidente que continha pólvora e a cachorra identificou.

Um cão da PF deve ser dócil, mas não medroso. Ativo, sem ser agitado. Com um ano, passa a receber treinamento. Ao chegar em Porto Alegre, está pronto para atuar.

- O animal precisa ter vontade de achar a bolinha. Depois, substituímos pelo odor. Se detectar o cheiro que a gente quer, é premiado com a bolinha - explica Felipe.

Uma das facilidades de usar o cão, sinaliza Felipe, é que otimiza as buscas. Ao inspecionar malas, um agente precisaria abrir bagagem por bagagem, enquanto o cão faz indicação mais rápida e precisa.


04 DE JANEIRO DE 2020
+ ECONOMIA

Conta de ataque pode parar na bomba: ande de tanque cheio

O ataque que resultou na morte do principal líder militar do Irã em Bagdá terá como impacto econômico mais imediato, além da natural reação de estresse no mercado financeiro, uma forte pressão sobre o preço do petróleo e, em decorrência, nos combustíveis. Desta vez, até o presidente Jair Bolsonaro, que sempre diz não entender de economia, captou o tamanho do problema. Na sexta-feira, afirmou, sobre a escalada do conflito:

- Que vai impactar, vai. Agora vamos ver o nosso limite aqui. Já está alto o combustível. Se subir muito, complica.

Complica porque, caso gasolina e diesel subam muito, elevam preços em cadeia. Com a inflação em alta, o governo perde um dos poucos instrumentos que tem para estimular a economia: o juro baixo. Isso sem contar o efeito que altas súbitas de gasolina e diesel têm no humor da população e o risco de nova greve de caminhoneiros.

Antes do ataque, o petróleo havia subido cerca de 4% por causa do aumento da tensão entre Irã e Estados Unidos. Na sexta-feira, depois da ação, o valor do barril do tipo de referência no mercado, o brent, encostou em US$ 70, com aumento de 2,6% em um só dia.

- Vai ser bom para a Petrobras e os produtores de petróleo e ruim para os consumidores de combustíveis - resume João Luiz Zuñeda, sócio-fundador da consultoria de petróleo e petroquímica Maxiquim.

Se será "bom para a Petrobras" vai depender da atitude do governo. Embora a maioria dos economistas não veja condições para alguma intervenção, há uma exceção notável: Adriano Pires, um usual crítico desse tipo de medida (leia entrevista abaixo). Quanto gasolina e diesel vão subir ainda é cedo para saber. Vai depender dos desdobramentos do ataque. Pelas ameaças, um conflito grave pode estar nascendo. O primeiro-ministro do Iraque, Adel Abdel Mahdi, já avisou que a ação dos EUA provocará uma "guerra devastadora".

Analistas são céticos sobre o potencial bélico dos países do Oriente Médio, um devastado por interminável guerra civil (Iraque), outro submetido a sanções internacionais (Irã). Mas como todos aprendemos, qualquer sinal de fumaça no Oriente Médio, centro mundial de produção de petróleo, leva fogo às bombas de combustíveis. Na dúvida, mantenha o tanque cheio.

“Não pode passar tudo ao consumidor”
ADRIANO PIRES, Diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura

Com a carreira marcada por pesadas críticas a intervenções do governo na Petrobras, Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), está tão preocupado com as consequências do ataque que resultou na morte do principal líder militar do Irã em Bagdá (Iraque), que defende "medidas extraordinárias". Caso a cotação do petróleo chegue a US$ 90 por barril - cenário que contempla uma guerra de fato ou, o que considera mais provável, o fechamento do Estreito de Ormuz (única ligação entre o Golfo Pérsico e os oceanos, por onde passa todo o tráfego marítimo dos principais países exportadores de petróleo) -, a estatal não deveria repassar toda a alta, sugere Pires.

SEM REPASSE

"Se for a US$ 90 (a cotação de referência do petróleo), o governo não vai poder passar tudo para o consumidor. Eventos extraordinários exigem políticas extraordinárias. É bem diferente de quando o preço sobe por questões de mercado. Não se sabe o que pode acontecer."

USO DE ROYALTIES

"A Cide não pode ser usada porque foi deturpada pelo PT. Mas com o aumento da produção no Brasil, quando sobe o preço do petróleo, a arrecadação de royalty aumenta. Esse acréscimo poderia ser usado, de alguma forma, para formar um fundo de estabilização. Por um tempo, enquanto durasse o impacto, depois compensaria. Isso deveria ser estudado com calma. Já houve o ataque na Arábia Saudita no ano passado, neste ano esse conflito entre um grande produtor de óleo e a maior economia do mundo. O Brasil deveria se mexer para criar um mecanismo para que esse tipo de evento geopolítico não provoque impactos tão sérios na economia do país."

RISCO PARA O ANO

"Começamos o ano com o pé esquerdo. Ninguém sabe o que vai acontecer, será necessário encontrar um caminho. Temos de um lado o governo iraniano, focado em questões religiosas, ideológicas, e, do outro lado, um cara que não é nada normal. Há dois polos irracionais. Caso o (presidente dos EUA, Donald) Trump não faça declarações malucas e se o Irã tiver bom senso, podemos sair com poucos estragos. Mas isso pode ser pouco realista. Em três ou quatro dias será possível ver para onde vai. Se a temperatura não subir, ótimo, se subir, não se sabe onde pode chegar."

MARTA SFREDO


04 DE JANEIRO DE 2020
CARTA DO EDITOR

Cenário promissor

Cerca de 10 dias antes de o ano se encerrar, a editora de Notícias, Dione Kuhn, deu uma missão para Leonardo Vieceli, repórter especializado em economia: apresentar aos leitores de Zero Hora e GaúchaZH, no primeiro final de semana de 2020, o cenário do mercado de trabalho para o ano.

Afeito a números e a planilhas de Excel - habilidades incomuns entre os jornalistas profissionais -, Leo, como é chamado pelos colegas, é responsável por algumas das missões mais espinhosas do dia a dia da Redação Integrada, como destrinchar orçamentos públicos, analisar dados macroeconômicos, interpretar os humores do mercado e da economia. Para a missão dada por Dione, o repórter mergulhou nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), cruzou informações, falou com economistas e consultores em recursos humanos. Da apuração, emerge um cenário promissor, apesar do alto índice de desemprego que ainda atormenta os brasileiros. Aos poucos, setores intensivos em mão de obra, como o comércio e a construção civil, dão discretos sinais de retomada nas contratações.

A reportagem, que tem a colaboração do experiente repórter Fábio Schaffner, mostra também profissões e áreas em alta, como tecnologia e saúde destinada a idosos, e oferece dicas para quem tenta voltar ao mercado de trabalho.

- Um dos economistas mais respeitados na área reforça a leitura de que a geração de empregos vem ganhando fôlego. É uma melhora lenta. Ele não é o único otimista. Surpreende o fato de as opiniões de diferentes especialistas convergirem para o mesmo sentido - diz Leo, que entrevistou o economista José Márcio Camargo, consultor e professor da PUC-RJ.

Graduado em Jornalismo pela Unisinos, Leonardo, 26 anos, é prata da casa, como dizem os dirigentes de futebol quando se referem aos profissionais formados pelas categorias de base. Um dos vencedores do concurso Primeira Pauta de 2014, ele trabalha na Redação Integrada desde agosto de 2015. À época, ainda estudante de Jornalismo, assumiu vaga de assistente de conteúdo da editoria de Notícias. Em meados de 2016, quase um ano depois, passou a atuar como assistente da coluna +Economia, assinada por Marta Sfredo. Há dois anos, tornou-se repórter, com foco na produção de notícias e reportagens sobre economia.

- Meu primeiro contato diário com economia ocorreu em 2015, quando entrei no jornal. Com o passar do tempo, percebi que a análise de dados pode resultar em histórias interessantes para os leitores. Ao jornalista econômico cabe a missão de tentar traduzir os números para o público - sintetiza o repórter, que recentemente participou de curso de análise de estatísticas oferecido pelo IBGE.

Para quem convive com o desemprego - sentindo na pele a experiência de estar desocupado ou acompanhando a angústia de pessoas próximas -, as páginas 8 e 9 desta edição são alentadoras.

CARLOS ETCHICHURY

04 DE JANEIRO DE 2020
INFORME ESPECIAL

Eva Sopher vira personagem de livro escrito por sua neta


Ela fez o caminho inverso da avó. Letícia Sopher Pereyron, 39 anos, saiu do Rio Grande do Sul e atravessou o mundo. Viveu em Londres, na Filadélfia e, atualmente, mora em Sidney, na Austrália, com o marido e seus dois filhos. Nas suas andanças, conheceu mulheres que mereceriam um livro. Foi o que ela fez.

O lançamento de Mulheres e suas bagagens, da Artêra Editorial, será no dia 22 de janeiro, no Theatro São Pedro. Lá, na entrada da plateia, uma das personagens estará, pelo menos em espírito, acompanhando tudo. O capítulo dedicado à Eva Sopher conta a história de duas amigas judias perseguidas pelo nazismo. Uma conseguiu sair da Alemanha - Dona Eva. A outra, não. Além dessa, há histórias de inglesas, americanas, argentinas e uruguaias, todas com "vidas curiosamente interessantes".

Letícia é professora universitária, especialista em linguística e filha de Ruth - que faz pelo Theatro Treze de Maio, em Santa Maria, o que a avó, Eva, fez pelo São Pedro. Desafiada a descrevê-la em poucas palavras, nem precisou pensar: "Sabedoria, simplicidade e honestidade". A autora se considera parecida com a avó, especialmente na forma direta de dizer o que pensa.

Eva Sopher nasceu em Frankfurt, em 1923. Com a ascensão do nazismo, foi obrigada a emigrar para o Brasil aos 13 anos. Depois de passar pelo Rio de Janeiro, chegou a Porto Alegre em 1960. Na capital gaúcha, comandou com voz e mãos fortes a restauração do Theatro São Pedro que, em ruínas, foi salvo por ela da demolição.

Descartes

Li, sem sobressaltos, as notícias sobre as toneladas de lixo deixadas em Porto Alegre e no Cassino durante as festas de fim de ano. Tempos atrás, o dedos estariam apontados para as prefeituras. "Faltam lixeiras", eu diria, cheio de razão. As coisas mudaram, ainda bem.

Durante as Olimpíadas de Londres, em 2012, comprei uma garrafa plástica de água enquanto andava pela rua. Terminei de beber e passei a procurar um local apropriado para descartá-la.

Andei várias quadras, na região central da cidade. Nada. Concluí que era pelo medo do terrorismo. Uma bomba poderia ser colocada em uma lixeira.

De volta ao hotel, comentei com um amigo britânico. Sem perder a fleuma, ele me explicou que a ausência dos equipamentos tinha, de fato, outras motivações. "Deixemos que cada um cuide do seu lixo", disse. Tudo fez sentido. Compreendi, definitivamente, que o lixo em lugares públicos não é causado pelos governos, mas sim por nós.

Produzir menos lixo e assumir responsabilidade por ele. Esse é o futuro, para que haja um futuro.

TULIO MILMAN

sábado, 28 de dezembro de 2019



28 DE DEZEMBRO DE 2019
LYA LUFT

Boas festas

Infância: o jardim eram todos os segredos: as vozes murmuravam entre as folhas e sussurravam no vento. O horizonte eram morros azuis da tinta que um anjo distraído deixara cair do céu. Todos os mundos que criei, pessoas que inventei, músicas irreais que eu compus nasceram ali na infância: perderam-se mas persistem porque nada no caminho do tempo é fatal.

Autorretrato: do pai, a retidão e certa melancolia: o olhar sobre o que vem atrás das coisas. Da mãe, a alegria. Da remota linhagem, o novelo de fios que tramam alma e imagem, ninguém sabe quando e onde. Mais os trabalhos e a dor, a fantasia, a obstinada procura, alguma sorte, muita esperança na bagagem. (Dissabores fazem parte: maior foi a celebração da vida.) Entre o começo e a morte, mar e miragem: não há muito de mim na personagem que enxergam. Há que buscar o que ela esconde.

Poeminha: dormem os grandes navios do sonho, como num porto: boiam rostos ou espumas à flor de um espelho morto. Não tenho certeza de nada e mesmo assim me disponho: sou um reflexo no fundo de um corredor ou de um sonho? Deitada na grama, contemplo: no azul do céu ou das águas passam vultos como velas. (São miragens os navios ou as nuvens, caravelas?)

Busca: naquele tempo sem tempo, a verdade parecia estar nos livros: ali moravam as respostas e nasciam os nomes. Quanto mais procurei, mais me enredei na ramagem das indagações: as respostas não vinham, a verdade era miragem, a busca era melhor do que a descoberta - e nunca se chegava. (Viver era mesmo sentir aquela fome.)

Palavras: abro a gaveta, e salta uma palavra: dança sedutora sobre o meu cansaço, veste-se de indefinições, vagueia no labirinto das ambiguidades. Acha graça de mim, que espero à frente encontrar a solução dos meus enigmas. Tento uma geometria que a contenha no espaço entre dois silêncios quaisquer, mas ela decide meus passos: peso de fruta no sono da semente, assiste à minha luta quando a desejo aprisionar e, às vezes, até finge que sou eu a senhora, a domadora, a fonte. Palavras são livres e riem dos poetas: nós, mediação incompetente.

Condição: se me quiserem amar, terá de ser agora: depois estarei cansada. Minha vida foi feita de parceria com a morte: pertenço um pouco a cada uma, pra mim sobrou quase nada. Ponho a máscara do dia, um rosto cômodo e simples, e assim garanto a minha sobrevida. Se me quiserem amar, terá de ser hoje: amanhã estarei mudada.

Esperança: os deuses estavam de bom humor: abriram as mãos e deixaram cair no mundo os oceanos e as montanhas, os campos onde corre o vento, as árvores com mil vozes, as manadas, as revoadas - e, para atrapalhar, as pessoas. Todas correndo atrás de mil coisas ou de coisa nenhuma: tudo menos parar, pensar, contemplar. Enquanto isso, a Morte revira seus grandes olhos de gato, termina de palitar os dentes e prepara o bote.

Mas a gente sempre aposta na vida.

LYA LUFT

28 DE DEZEMBRO DE 2019
MARTHA MEDEIROS

Os filhos do mundo


Foi aparecer Greta Thunberg e achei que mataríamos saudade do consenso - lembra consenso? Difícil imaginar divergência de opiniões a respeito de uma adolescente que um dia saiu de casa com um cartaz nas mãos e se plantou na frente do Parlamento sueco pra protestar contra o pouco caso com o meio ambiente. O que pode ser mais inofensivo e bem-intencionado? 

Ela poderia estar num shopping consumindo hambúrgueres e sapatos, poderia estar grudada num smartphone baixando aplicativos bobinhos, poderia estar acampando na frente de um estádio para assistir a algum ídolo teen, e nunca teríamos ouvido falar dela, assim como o mundo nunca ouviu falar de nossos filhos. Mas fez barulho e foi eleita a Personalidade do Ano. Não é bacana?


Defender o meio ambiente não é uma atitude de esquerda ou de direita. Envolve todos os seres humanos, incluindo os tios fascistas, as primas comunistas, os bichos, as plantas - o planeta inteiro se beneficiaria caso os grandes líderes mundiais parassem de pensar só em lucro e tomassem medidas preventivas para deter o aquecimento global e suas consequências. Separar o lixo seco do lixo orgânico é importante, mas não basta. Deixar o carro na garagem e caminhar cinco quarteirões? Ajuda, mas o que ajuda mesmo é não pegar no pé de quem está fazendo muito mais do que nós.


Dizem que Greta é chata. Não sei, nunca escutei a menina por mais de um minuto, quem assistiu aos seus discursos completos é que pode dizer. Mas, ainda assim, creio que chato é ficar ilhado sobre um bloco de gelo derretendo, ursos polares que o digam. Ou ter a casa invadida por enchentes. Ou ter que sair à rua usando uma máscara tapando nariz e boca. Devo estar sendo chata também, desculpe aí.


Enfim, não entra na minha cabeça a razão de Greta ser ofendida. Que ela incomode alguns industriais e políticos, é compreensível, já que reivindica medidas que envolvem dinheiro e poder, mas por que haveríamos de ficar contra ela, se ela age por nós? Não age? Tem "alguém" por trás? O Soros, o Papa, o Lula, a Damares, o pessoal do Porta dos Fundos? E daí? 


A causa é boa. E mesmo que não se acredite em aquecimento global, mesmo que se pense que é paranoia e que o mundo está em perfeitas condições de uso, mal não faz uma garota gastar seu tempo e sua juventude em algo que acredita. Não foi a primeira nem será a última a se sobressair clamando por conscientização - se ela está certa ou errada, o tempo dirá. Esse mesmo tempo que nos levará à extinção em breve, mas que poderia ser mais seguro para nossos descendentes, pelos quais temos alguma responsabilidade. Portanto, se não existe mais consenso sobre nada, que ao menos escolhamos melhor nossos inimigos em 2020. Greta, obrigada.

MARTHA MEDEIROS

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Domingo – Dia das Mães Está friozinho aqui na Capital dos pampas e eu estou ouvindo agora, essa canção tão cheia de ternura nesse domingo ...

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