sábado, 5 de setembro de 2020



05 DE SETEMBRO DE 2020

LYA LUFT


O que podemos fazer


Antes que fique noite fechada, muitas vezes esse vislumbre de claridade numa beira de nuvem, ou um risco vermelho embaixo no horizonte. Com a gente pode ser assim.

Em tempos difíceis e confusos como estes, às vezes tendemos a nos encolher mal-humorados porque assustados e tristes.

O pessimismo é mais fácil do que o seu contrário, basta a gente se entregar, e o mundo está louco, o ser humano não presta, o sistema (seja o que isso for) nos manipula... e por aí vai.

A amargura pinga do nosso olhar, a irritação salta da nossa boca, reclamamos, criticamos, ironizamos tudo e todos. Sim, é mais simples do que tentar agarrar o que temos de bom, sensato, inteligente sábio lá no fundo da alma que nestes dias anda retorcida e emburrada.

Pois a quarentena é difícil e chatíssima, o isolamento frio e nada natural, a máscara incomoda e desumaniza: onde a boca, o sorriso, palavra clara?

Mas a gente pode fazer melhor do que piorar que já está chato, ruim, desconfortável... eu também. Não quero ser “mensageira da agonia” para meus leitores e amigos e seguidores do Instagram, muito menos para os familiares. Mesmo que só nos vejamos em vídeos ou de máscara, e de longe.

Se olharmos em torno, ou dentro de nós, sempre existirá o bom e o belo, o terno e até o divertido.

A cor dessa árvore, o barulho do vento, a luz do restinho de sol na montanha, a risada de uma criança, a chave na porta quando quem precisou sair retorna... o novo livro no colo ou no notebook... quem sabe o privilégio de não precisar sair por obrigação... o telefonema do amigo apenas pra matar saudade, saber das novidades, para xingarmos juntos esse maldito vírus e filosofarmos sobre como serão mundo e humanidade quando tudo passar.

Tem ainda o dom de poder ficar quieto pensando coisas boas, claro), ou vendo um bom programa televisão. Eu pessoalmente, opto pelos da natureza, história, arte, viagens, concertos... e meu secreto vício... as séries policiais.

Fora isso, a sugestão ou pedido de sempre (se pudesse, ordem rigorosa): fique em casa se puder, use máscara até no elevador, abuse de álcool gel e sabonetes... e não ponha em perigo nenhuma outra pessoa dizendo que a covid é invenção de malvados que querem ferrar com o mundo.

Então: ficar bem, sobreviver, voltar à vida de sempre (ou nova vida) depende, muito, de nós. Sem tromba, sem bater pé, sem ironizar quem quer viver direito depois destes dias tortos. Leia outras colunas em gauchazh.com/lyaluft

LYA LUFT

05 DE SETEMBRO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

Assim como nós perdoamos


Você perdoaria uma traição amorosa? Perdoaria uma demissão injusta? Perdoaria um amigo que te insultou? Fui preparada para responder essas perguntas na estreia da nova temporada do programa Potter Entrevista, que tinha o perdão como tema. E, durante o papo, minha inclinação foi para o "sim", mesmo correndo o risco de ganhar o troféu Água com Açúcar 2020.

Perdoar me parece um verbo arrogante. Deus perdoa, Papas idem, padres também - simples mortais passam uma borracha no assunto. É o que faço, agora que sou uma mulher madura, que não desperdiça mais energia com as obstruções que encontra pelo caminho. Parei de usar este verbo, perdoar, desde que, poucos anos atrás, tive oportunidade de conversar com o Nelson Motta: fiquei encantada com a doçura, a leveza, a jovialidade daquele guri, na véspera de completar 70 anos. Qual o segredo? perguntei. "Não guardo rancor."

É isso. Não guardar rancor é o mesmo que perdoar, só que sem a pompa. Ninguém precisa ajoelhar na nossa frente nem rogar por nada. A gente simplesmente deixa pra lá e toca a vida. Não é a coisa mais fácil do mundo, antes é preciso deglutir a pancada, mas há um limite de tempo para essa ruminação, caso contrário, envelhecemos arrastando correntes.

A medida do imperdoável é sempre a intensidade da dor. Quando somos jovens, tudo dói mais. Ainda nos sentimos especiais, mimados, e ai de quem ferir nossos sentimentos. Até que a gente amadurece e se dá conta de que mágoas & afins estão na categoria "coisas que acontecem". Ninguém gosta de se sentir ofendido, mas alimentar a raiva é mau negócio: tudo que fica retido dentro da gente acaba nos implodindo de alguma forma. Poema de Vera Americano: "Perdão/duro rito/de remoção do estorvo".

Já me aprontaram. Pessoas próximas, outras nem tanto. E daí? Estou mais preocupada em viver bem, tarefa que toma boa parte do meu tempo. Não sobra para dar cartaz aos vacilões.

Crime é outra coisa, a pessoa tem que se ver com a Justiça. E se mexerem com minhas filhas, esqueça tanta benevolência, viro uma leoa, saio da toca faminta pela jugular de quem se atrever. Mas guardar rancor durante décadas por ter sido frustrada, negligenciada ou algo do tipo? É dar muita trela para nosso ego: ele é péssimo em dimensionar revezes, faz tudo parecer maior do que é.

Outro dia, um amigo disse algo muito sábio: a maioria das pessoas agressivas não são más, são apenas infelizes. "Apenas" infelizes. Então, misericórdia. Pragueje um pouco e depois esqueça a afronta, pois o castigo delas começou bem antes de terem cruzado com você.

MARTHA MEDEIROS


05 DE SETEMBRO DE 2020
CLAUDIA TAJES

Pensamentos imperfeitos sobre o cancelamento

Muito já se falou sobre a tal cultura do cancelamento, essa espécie de Sibéria dos nossos dias. Isso para quem ainda lembra de quando os dissidentes da ex-União Soviética eram mandados para o esquecimento das terras geladas e desoladas do norte da Ásia, uma legítima cultura do congelamento. Mas é melhor não falar nisso porque, para um lado ou para o outro, podem querer me cancelar. E este é apenas o primeiro parágrafo da coluna.

O cancelamento é o "morreu para mim" de hoje. O antigo "nunca mais olho na cara da fulana". O arcaico "se estiver caído no meio da rua, passo por cima", como dizia, a respeito de seus desafetos, um então poderoso colega de trabalho sobre quem a vida se encarregou de passar por cima. O cancelamento é o fim da relação, o até nunca mais, o desterro no mundo digital, em geral sem elegância. Pode vir precedido de xingamentos e do aviso: cancelando em 3, 2, 1.

Pessoalmente, cancelo direto, mas sem grosseria - como deveria ser, na minha humilde opinião. Os mal-educados, os de maus bofes, os que ofendem de graça, os que confundem caixa de comentários com lata de lixo, esses são sumariamente excluídos e bloqueados. No real ou no digital, primeiro vem o respeito. Depois a gente conversa.

Fiquei surpresa com o número de pessoas incomodadas com a minha coluna da semana passada. O assunto: a necessidade de se usar máscara. Às vezes o tema é espinhoso e quem escreve já sabe que vai ser criticado - quando não cancelado. Mas polêmica por causa da máscara? Com um único leitor, depois de um início tenso, foi possível ter um diálogo respeitoso. Sigo defendendo o uso da máscara, ele segue discordando, mas um não cancelou o outro. Já os que partiram para a ignorância, a esses dei adeus. E garanto que não sentirão a minha falta.

Um causo interessante aconteceu há alguns meses, no outro jornal em que escrevo. Alguém me mandou o print do comentário de um sujeito que ofendia não o meu texto, mas a mim - pessoa física, trabalhadeira, muié. Um agravante eram os erros de português, tão ou mais agressivos que as palavras do homem. Fiquei curiosa e fui procurar o nome dele no Facebook, esse dedo-duro de biografias. Era um senhor cheio de fotos com as netinhas, um vovô explodindo de ternura nas horas vagas do seu ódio. Vi também que trabalhava em uma empresa pública. Ah, é?

Escrevi para a ouvidoria da empresa e anexei o comentário do sujeito. Cheguei a pensar que não acreditariam, uma baixaria daquelas vinda de um vovô amoroso, mas é bem capaz. Poucos dias depois, recebi o telefonema da ouvidora da empresa, uma advogada com quem conversei durante um longo tempo sobre a diferença entre liberdade de expressão e abuso de expressão. Para encurtar a coisa, não era a primeira vez que o vovô manifestava sua grosseria, e sua especial predileção por desancar mulheres. Foi desligado. Cancelado na vida real. Não por mim, por causa dele mesmo.

De qualquer jeito, escrever com responsabilidade, sem menosprezar a inteligência dos leitores, é a tarefa número 1 de qualquer colunista. Sendo também engraçado, surpreendente, original e brilhante, daí você é o Luis Fernando Verissimo. E se, mesmo oferecendo toda a sua sinceridade, você for cancelado, buenas, são os ossos do ofício. Kurt Vonnegut, o grande escritor norte-americano, deu a morta em Um Homem Sem Pátria. "Bill Gates diz: esperem para ver o que o seu computador pode se tornar. Mas é você que deveria se tornar algo, não o desgraçado e estúpido do seu computador". Mais ou menos isso. E, se não for, é só cancelar.

CLAUDIA TAJES



05 DE SETEMBRO DE 2020
KARNAL

Leandro KARNAL - Historiador, professor da Unicamp, autor de, entre outros, "Todos Contra Todos: o Ódio Nosso de Cada Dia".

O mensageiro

Os latinos diziam que não devemos matar o mensageiro (Ne nuntium necare). Era uma reflexão sábia que procurava evitar uma prática histórica. Dario III, o último imperador persa, executou Charidemos por não ter gostado das notícias trazidas. Pior, além de narrar a derrota para o governante, o embaixador ainda analisou que a culpa pelo desastre diante de Alexandre Magno passava por erros estratégicos do último Aquemênida.

Dario III tivera uma ascensão difícil ao trono. Intrigas de eunucos em meio a envenenamento de familiares e de rivais. Ele próprio escapou por pouco de morrer no pântano de adagas e taças fatais da corte. Já senhor da coroa do maior império visto até então, entregou-se a prazeres. Cronistas gregos (devemos levar em conta o interesse em atacar a figura do persa) falavam de um governante hedonista ao extremo, que chegava a oferecer prêmios para quem inventasse uma delícia nova que agradasse ao rei dos reis. 

Um general macedônio, após capturar parte da bagagem e da corte de Dario III, escreveu sobre a grande quantidade de concubinas músicas, escravos especializados em fazer guirlandas, misturadores de bebidas raras e um pelotão de perfumistas para o serviço imperial. A corte persa era um lugar de luxo que mal disfarçava os problemas imensos de governantes que buscavam autonomia (sátrapas), o avanço greco-macedônico e o colapso do modelo administrativo que havia sido gestado por Ciro. O mundo no qual o grande Dario vivia era um paraíso cercado de infernos que avançavam para o rei-deus.

O problema era similar ao de tantas outras comunidades de áulicos. A Cidade Proibida de Pequim isolou-se dos súditos do império chinês. Construída para apagar a memória da recente dominação mongol, introduziu entre os Ming uma capacidade de existir do núcleo decisório que quase flutuava acima do tecido social da China. O fenômeno se repete em Versalhes, construída por Luís XIV exatamente porque, quando menino, fora traumatizado pelos levantes violentos das Frondas. Era necessário afastar o poder da sociedade. 

O grupo de cortesãos persas, a cidade Ming e o Palácio de Versalhes guardam algo em comum: mostram o apogeu do afastamento entre Estado e Nação. No fim do processo? As cortes perdulárias e distantes vão ficando cada vez mais pesadas para os contribuintes. Talvez seja pior: antes de isso acontecer, cega o Estado. A nação (a totalidade da população e das suas forças produtivas) percebe que o projeto do governo é o poder em si e não o bem-estar de todos no território. Da mesma forma, recebendo recursos e impostos de todo lado, governantes divinizados passam a se considerar um bem em si. Atacá-los passa a ser crime de lesa-majestade e de lesa-pátria. Ou, como preferia o tutor do Rei-Sol, o eloquente bispo Bossuet, levantar-se contra o rei sagrado e ungido era delito político e pecado mortal.

O mensageiro é o elo com o mundo real. Mimado, dotado de estatura física gigantesca, Dario não queria más notícias, especialmente alguma que falasse da sua incompetência logística na guerra. O mundo dele era de concubinas e de perfumistas. Más-novas fedem e o mensageiro é o único signo do real que ele contempla. Logo, a culpa deve ser do mensageiro. Cercado de aduladores que vivem do elogio e do louvor declarado, o governante perde contato com as queixas dos súditos. O que será mais agradável: cuidar do elegante bailado ao redor de Luís na noite brilhante do palácio ou ouvir uma mulher que perdeu sua casa para cobradores de impostos?

Povoado de eunucos (de fato ou de espírito), o grupo ao redor do soberano é lugar onde a grande questão de Estado é a fofoca pessoal, o insulto, a intriga e as disputas que, diante da sacra majestade, emitem a fala que mais agrade. Nos três exemplos que eu dei, o Estado personificado em um ser sagrado acaba se desligando da nação real. O mundo das guirlandas e bailarinas da Pérsia foi tomado por Alexandre Magno. Dario III terminou assassinado por um ex-colaborador. Os Ming foram apeados do poder por invasores manchus que tomaram o país. O novo poder foi seduzido pelo fausto do antigo e os estrangeiros instalaram-se no mesmo palácio para serem desalojados de lá por outras convulsões no século 20. Versalhes levaria alguns anos, mas acabou sendo invadida pelo povo. Seu ocupante perderia a cabeça. Não adiantou executar todo mensageiro que dissesse algo contra a ordem no mundo de aduladores poderosos. Um dia, a cabeça do monarca pode ser considerada inútil...

As monarquias diminuíram. Mensageiros foram substituídos pela imprensa. Atacar a mensagem não retarda a crise e jamais resolve o problema. Os Aquemênidas, os Bourbons e os Mings deram ouvidos a ministros e não a mensageiros. É sempre agradável ouvir aquilo que eu desejo. Ninguém deveria ter medo da mensagem ou raiva. Deveriam ter medo do povo. Ele é volúvel. No domingo, os eleitores gritaram: "Hosana ao Filho de Davi!". Na sexta, berraram: "Crucifica-o!". A culpa não é do evangelista, ele é apenas mensageiro da realidade. É preciso ter esperança na liberdade de imprensa.

KARNAL


05 DE SETEMBRO DE 2020
FABRO STEIBEL

Os aviões podem encolher

A crise não tem precedentes. O mercado de aviação no Brasil é hoje 15% do que era ano passado, e as empresas estão fazendo malabarismo para não quebrarem. Como toda crise gera oportunidades, esse baque possibilitou a Embraer crescer. E entender isso fala muito sobre o papel do governo em organizar dados para superarmos os tempos de crise.

Para entender a oportunidade da Embraer, precisamos entender dois fatores: o papel do ticket médio para aviação e a dependência de dados para gerar isso. O ticket médio refere-se à média do preço pago por pessoa para voar. São vendidas milhares de passagens por minuto, e, se alguns pagam pechinchas, outros pagam microfortunas. A margem de lucro da aviação vem de assegurar o maior valor médio pago por todos, transportando o maior número de pessoas.

A magia do preço das passagens depende de dados, muitos dados. Há os que se compram no mercado, como os de clima e economia, mas os dados bons vêm da própria empresa e de seu histórico de vendas. O molho secreto é gerado pela análise ágil de séries históricas acumuladas por anos a fio, sem interrupção, segundo a segundo.

Eis que a covid-19 nos ensina uma coisa: enfrentamos, no momento, um apagão de dados. Se o mercado encolheu, as informações para calcular mercados futuros diminuíram mais ainda. Pior: nada indica que os dados antigos serão assertivos, pois mudanças de comportamento, como o home office, o medo de multidões ou o turismo de carro geram padrões de dados que ainda não produzimos.

Lembre agora de que a margem de lucro na aviação é baixa. O mercado é grande, mas há fortes competidores, e a flutuação do preço em dólar ou do combustível coloca muita pressão para empresas encontrarem um ticket médio que seja alto e que seja pago pelo maior número de pessoas. Se os riscos de cálculo são grandes, qual uma saída possível? Diminuir o tamanho das aeronaves.

A Embraer fabrica hoje excelentes aviões que são menores do que a média do mercado. Quem adotar aeronaves menores tem menos assentos para vender e, com isso, menos chance de errar, o que gera crescimento potencial do ticket médio. Há riscos nessa operação? Sim. Mas some isso ao aumento da aviação regional nos Estados Unidos e na Europa e eis que a crise gera uma oportunidade que pode - inclusive - ser sustentável. Da mesma forma que as low cost mudaram o mercado, vai que ele muda novamente?

Aprendemos nesse cenário que, com o apagão de dados, cadeias de negócio inteiras vão se reorganizar. Há certezas? Não, pelo contrário. E onde precisamos do governo nesse momento? Ajudando a sociedade a encontrar dados baratos, bem organizados e responsáveis. É nisso que ministérios, agências reguladoras e agências de fomento (e, também, a Autoridade Nacional de Dados Pessoais, recém criada, mas ainda na gaveta) devem focar. Governos são centrais em nos ajudar a explorar - com responsabilidade - essa energia em potencial. Dito isso, apertem os cintos, os dados sumiram.

FABRO STEIBEL




05 DE SETEMBRO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

CIÊNCIA E IGNORÂNCIA

A ciência é uma ilha cercada de incompreensões por todos os lados. A um só tempo, ela contradiz o senso comum, o misticismo e o pensamento mágico, formas de interpretar o mundo adotadas pela maioria.

Nos países mais desenvolvidos, as crianças ouvem falar dos princípios que regem a ciência já nos primeiros anos da vida escolar. Infelizmente, entre nós, os estudantes entram e saem das universidades sem noção de como deve ser articulado o pensamento científico.

Quando Galileu Galilei afirmou que a Terra era um dos planetas que giravam ao redor do Sol, quase foi condenado à morte pela Inquisição. O senso comum era o de que ficávamos parados no centro do universo, enquanto o Sol, a Lua e os demais astros orbitavam em nossa volta.

Muito mais fácil para os religiosos defender que a Terra era imóvel, como afirmava a Bíblia, do que para Galileu explicar os movimentos de translação e rotação, que ninguém conseguia enxergar nem sentir.

Quando Charles Darwin e Alfred Wallace demonstraram que a vida na Terra - e em qualquer planeta em que venha a existir - é uma eterna competição por recursos naturais limitados, na qual os menos aptos perdem a oportunidade de deixar descendentes, a reação foi tão feroz que, 150 anos mais tarde, ainda existem contestadores.

No mundo da internet, o senso comum ganhou o mesmo status da expertise técnica. Ativistas do movimento antivacina, terraplanistas, charlatães e os defensores de teorias conspiratórias e de tratamentos de eficácia jamais comprovada divulgam ideias estapafúrdias, como se tivessem o nível de conhecimento de cientistas brilhantes.

A ciência é uma frágil conquista civilizatória da sociedade, baseada no raciocínio lógico, na observação empírica, na significância estatística, no confronto de dados e na reprodutibilidade dos experimentos, regra segundo a qual a repetição de uma experiência deve levar aos mesmos resultados, independentemente do observador.

Não é tarefa simples convencer sociedades inteiras de conceitos tão abstratos. Veja o caso do uso da hidroxicloroquina no tratamento da infecção pelo atual coronavírus, droga dotada de ação antiviral no tubo de ensaio, já testada sem sucesso contra dengue, gripe, zyka, chikungunya e outras viroses. Para demonstrar atividade de um medicamento contra determinada enfermidade, para a qual não há tratamento conhecido, o estudo deve pertencer à categoria dos ensaios clínicos controlados, randomizados, prospectivos, em duplo cego. Isso quer dizer, que os participantes precisam ser alocados ao acaso para dois grupos: um deles servirá de controle, outro receberá pela primeira vez a droga em teste. No entanto, como o simples ato de tomar remédio altera a percepção dos sintomas que nos afligem, os pacientes não devem saber para que grupo foram sorteados. Da mesma forma, é preciso evitar que o julgamento do médico seja comprometido.

Para evitar esses vieses, há necessidade de administrar um placebo para o grupo-controle, comprimido inerte (geralmente talco) com aparência idêntica à do que contém a droga em teste, de modo que nem o participante nem o médico possam identificar quem está em cada grupo (duplo cego). Os participantes serão seguidos até que o número de desfechos clínicos nos dois grupos (cura, piora, mortalidade, sobrevida ou outro), seja suficiente para que os dados nos deem pelo menos 95% de certeza de que são significantes do ponto de vista estatístico.

Como explicar a necessidade de estudos tão detalhados, para quem não teve formação científica? É muito mais fácil para os mistificadores contestá-los com base em crenças pessoais, opiniões, dados falsos, interesses políticos ou financeiros. Nem precisam se dar ao trabalho de contra-argumentar, basta colocar os resultados em dúvida: "Não é bem assim", "eu não acredito nisso".

Médicos criteriosos se baseiam em estudos conduzidos com tanto rigor, porque foi graças a eles que a medicina contribuiu para duplicar a expectativa de vida da população, no decorrer do século 20.

No caso específico da hidroxicloroquina, nenhum estudo prospectivo, randomizado, controlado, em duplo cego, mostrou que os pacientes tiveram qualquer benefício em comparação com os que receberam placebo. Então, por que há médicos que a prescrevem? A resposta, prezado leitor, deixo a seu critério.

DRAUZIO VARELLA


05 DE SETEMBRO DE 2020
BRUNA LOMBARDI

COMO É SUA METADE DO COPO?

Você é uma pessoa meio copo vazio ou meio copo cheio? Não, não estou falando de bebida porque essa, cada vez que a gente olha, parece que copo esvaziou de repente.

Falo daquela velha ideia de como estamos olhando a vida. Na perspectiva da escassez ou da abundância?

Sabemos que oscila, às vezes parece que tudo falta e outras vezes, que as coisas estão jorrando em excesso, mas existe um jeito nosso, uma tendência que sempre pende para um lado da balança.

Você pode estar no meio da caminhada ou no meio do isolamento, olhar o quanto ainda falta e ficar exausto e desanimado ou celebrar que conseguiu chegar até aqui.

Ariano Suassuna dizia que o otimista é um tolo, o pessimista um chato e o bom é ser um realista com esperança. Eu tinha um professor que dizia que preferia pensar com pessimismo para poder ter uma surpresa boa no final.

No fundo, acho que a gente quer ser otimista, mas o medo nos previne e, sem perceber, a gente se prepara para o pior. Precisamos inventar estímulos e parar de sofrer de expectativas.

A nossa força de vontade vem do estímulo, a gente faz as coisas porque precisa e também porque acredita que vai conseguir superar. Tem uma faísca que brilha na esperança de tudo dar certo, mesmo contra todos os obstáculos. E é para essa faísca que precisamos olhar.

Tive a chance de conhecer, já quase com quase seus 90 anos e ainda se apresentando no palco, o excêntrico escritor ingles Quentin Crisp. Ele começava seu monólogo com uma original mensagem que definia como otimista. Ele dizia: "Moro num pequeno apartamento há 30 anos e nunca tirei o pó dos móveis. E afirmo que, depois dos primeiros dois anos, a poeira não fica pior".

A coisa é assim, se a gente consegue segurar no começo, na correnteza das grandes ondas, depois que a gente conseguir passar a rebentação tudo fica mais fácil.

A coisa é simples. Tem gente que olha para o que tem e agradece. E tem aqueles que, mesmo tendo bastante, só conseguem olhar para aquilo que acham que está faltando. Reclamam sem parar do que não têm, mesmo tendo muito mais do que a grande maioria.

E continuam inconformados porque querem mais e nada parece suficiente.

Essa é a raiz da ansiedade, da frustração, do ressentimento. De todas as barreiras que vão nos impedir de sermos felizes, de conseguir enxergar a mesma exata metade do copo como cheia.

A parte que a gente pensa que falta, na verdade, é fruto de expectativas, do que a gente acha que precisa ter. E é a nossa atitude que vai escrever e transformar a nossa história.

Esse é o momento de olhar além de nós mesmos. Olhar o mundo em volta e compreender que a maioria nem copo tem.

Quando se aprende a mudar o olhar, muda a nossa perspectiva e a gente pode ver a metade cheia com um sentimento de gratidão. Essa pequena diferença nos faz alcançar um estado interior de paz. E de solidariedade com todos que nos cercam.

Temos que saber aceitar o que a vida traz e agradecer por ter chegado até aqui.

Aprender a olhar amorosamente o que somos, o que temos e para quem segue com a gente nessa nossa jornada.

BRUNA LOMBARDI



05 DE SETEMBRO DE 2020
J.J. CAMARGO

POR QUE MENTIMOS?

Mentir faz parte da nossa natureza e, se admitirmos que a alegada expulsão de Adão e Eva do paraíso começou com uma desculpa esfarrapada da Eva, ninguém dirá que estamos diante de uma novidade chocante.

Nem os ingênuos, nem os mais otimistas conceberiam um mundo sem mentiras. Normalmente vista como a vilã dos relacionamentos pessoais, a mentira existe, em muito, porque nos ajuda a cumprir um propósito essencial: a convivência civilizada em sociedade.

A propósito, como seria o mundo da sinceridade absoluta? Claro que teríamos vantagens; todas as promessas de campanha seriam cumpridas, os compromissos seriam respeitados, ninguém manteria segredos, a traição não existiria e certos políticos volúveis seriam excluídos de todos os grupos de WhatsApp, poupando-nos da náusea recorrente. Em contrapartida, você teria que ouvir, com naturalidade, o que os outros pensam da sua aparência, dos seus amores, das suas opiniões e do seu futuro profissional.

Em sã consciência, esperamos que as pessoas nos tratem com sinceridade, mas intimamente tememos o súper sincero, admitindo que as pequenas mentiras do dia a dia tornam o viver suportável, pois não precisamos enfrentar verdades que nem sempre estamos prontos para encarar. Então uma mentirinha aqui e ali pode ser um elemento indispensável na vida social.

De acordo com Mônica Portella, psicóloga e autora do divertido Como Identificar a Mentira, são dois os principais motivos que levam as pessoas a mentir: proteger-se de uma possível consequência negativa de nossas ações e preservar a autoimagem. Ou seja, quando sabemos que nossa posição poderá sofrer reprovações ou sanções optamos por mentir. Naturalmente, esperamos que a mentira cole e, mais importante, que dure, porque nada mais assustador do que a sensação desagradável de que um dia ela será descoberta. Porque todos sabemos que um dia será.

Quem tiver interesse pelo tema não pode deixar de ler o maravilhoso Why We Lie? (2009), do professor de filosofia e historiador David Livingstone Smith, que enxerga outra motivação essencial para os mentirosos: "Conseguir coisas que seriam mais difíceis de obter de outra forma". E, indicando o quanto a mentira contumaz revela o caráter, acrescenta: "Mentimos em qualquer circunstância onde manipular o comportamento do outro possa ser vantajoso para nós".

O Primeiro Mentiroso (The Invention of Lying, 2009), um filme escrito e interpretado por Ricky Gervais, mostra um fracassado roteirista do cinema que vive em um mundo ideal, no qual ninguém mente, e aceita estoicamente as opiniões sinceras (e quase sempre cruéis) dos outros. Um dia, depois de ter sido demitido e acabado de ouvir o que a garota dos seus sonhos pensava dele, voltou para casa e foi ameaçado de despejo, porque o aluguel de US$ 800 estava vencido. Foi ao banco, mentiu pela primeira vez, e a atendente, crédula como todo mundo, lhe entregou a quantia de que ele precisava. Inaugurado o ciclo da mentira, ele se torna rico e famoso. Na história, se mantém um canalha que preservou a doçura, um exemplo que virou clichê no mundo moderno.

Será que já tivemos uma época em que ninguém sabia mentir, até que alguém descobriu os poderes da dissimulação? Mônica e David acham que não, e creem que mentir é algo natural para os seres humanos. Incluindo o bebezinho, que, ao descobrir o quanto o choro lhe traz de benefícios, produz, com aquela carinha de anjo, a primeira das muitas mentiras futuras. Talvez tudo seja mesmo só uma questão de dose.

J.J. CAMARGO


05 DE SETEMBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

Como assim, quem dera ser um peixe?

Eu odeio a música quem dera ser um peixe. E, olha, não sou homem de ódios. Não odeio, por exemplo, mondongo - tem muita gente que odeia mondongo. Moela seria, talvez, algo detestável, mas, não, não detesto a moela, apenas a desprezo olimpicamente.

Meu velho amigo Ricardo Carle gostava de moela. Uma noite, nós estávamos no Jazz Café, histórico bar do Dirceu Russi, ali na Fernando Gomes. Estávamos eu, ele e a Mariana Bertolucci. Aí o Ricardo pediu um prato de moela. Fiz uma careta:

"Moela?" E ele: "Moela!"

Tudo bem, veio a moela. O Ricardo ficou comendo e, de repente, a Mariana olhou para ele e comentou:

"Tu estás com uma cara estranha..."

Enquanto mastigava, ele rosnou, que o Ricardo rosnava:

"Grunf".

Olhei para ele e, de fato, havia algo diferente em seu rosto. Então, a Mariana gritou:

"Os teus lábios!"

Foi quando percebi: os lábios do Ricardo estavam inchando bem na nossa frente, estavam já maiores do que gomos de bergamota poncã e aumentando cada vez mais.

"Meus lábios?", murmurou o Ricardo. Ao que, a Mariana vasculhou a bolsa e das suas profundezas extraiu um espelhinho: "Olha!"

Ele se mirou e viu: os lábios estavam enormes, vermelhos, brilhantes.

"É alergia!", concluí. "Tu tens alergia a moela!"

O Ricardo se examinou por mais alguns segundos no espelhinho e concordou:

"Acho que é isso mesmo. Alergia".

Dito isso, pescou outra moela do prato, levou à boca e começou a mastigar. Em seguida, virou-se para o balcão e gritou:

"Dirceu! Manda alguém trazer mais um chope!"

Não seria uma alergiazinha que tiraria a sede do Ricardo.

Pois nem essa agressão ao meu amigo fez com que passasse a odiar a moela. Não quero vê-la na minha frente, isso sim, mas odiá-la, não a odeio.

Já a música quem dera ser um peixe odeio com todas as minhas forças. Sei que não se chama quem dera ser um peixe, o nome certo é Borbulhas de Amor. Pior ainda. Nome tão brega quanto a música.

O caso é que esse refrão maldito ficou colado em meu cérebro durante DOIS DIAS INTEIROS dessa semana, sem que o pudesse esquecer. Mesmo dormindo sonhava com "quem dera ser um peixe, para em teu límpido aquário mergulhar, fazer borbulhas de amor pra te encantar". Acordava no meio da noite pensando nesse verso mole e com o dia claro o verso mole ainda me ribombava na cabeça.

Essa música era cantada pelo Fagner, a letra foi composta pelo Ferreira Gullar. O Fagner uma vez disse: "Eu sou o melhor cantor do Brasil". Não é, né?

Cara exibido.

Tenho certa prevenção contra o Fagner, porque ele brigou com o Belchior. Os dois fizeram juntos grandes músicas, entre elas a maravilhosa Velas do Mucuripe, mas depois se tornaram desafetos. Por quê? Não sei. Suspeito de que haja alguma bela dama envolvida.

Até hoje o Fagner fala mal do Belchior, o que sempre será uma injustiça. O Belchior era uma pessoa boa, um coração puro demais para este mundo cínico. Não foi à toa que se tornou uma espécie de ermitão itinerante, no fim da vida. Ele não suportava mais a lógica da existência. Tinha, inclusive, avisado que faria assim, ao cantar: "Se você vier me perguntar por onde andei, no tempo em que você sonhava, de olhos abertos lhe direi: amigo, eu me desesperava".

Belchior se desesperou porque não aceitava viver num mundo que não fosse simples e bom como era o seu coração. Não se pode falar mal dele, portanto.

Mas não é só por isso que odeio quem dera ser um peixe. A música é cafona mesmo. Quem é que vai querer ser um peixe? Bicho mais sem graça. Gosto de comer peixes, óbvio, mas me transformar em um deles? Essa, não.

A minha amiga Deinha Guahnon tem um peixe. Ele é minúsculo, do tamanho do dedão direito do pé da Ísis Valverde, que é um dedão módico. Ele fica nadando dentro de um aquário pouco maior do que uma caixa de sapatos. Ele não tem nenhuma companhia, aquele triste peixe. Passa os dias e as noites nadando 28 centímetros para um lado, 28 centímetros para o outro. Quando vou à casa da Deinha, olho para aquele peixe e proponho:

"Por que não solta o coitado nas águas do Guaíba, para ele viver em liberdade, entre seus amigos com guelras?"

"Ele é feliz aqui", responde a Deinha.

Como é que ela sabe???

Depois dessas conversas, sempre examino com mais cuidado o peixe e não noto nele nenhum traço de alegria, de satisfação, nada. Então, não me venham com essa ideia de ser peixe.

Mas a coisa pode piorar. É que li uma entrevista do Ferreira Gullar explicando que o peixe da letra não é um peixe: trata-se de uma alegoria para falar do órgão sexual masculino. Ou seja: quem canta essa música canta "quem dera ser um pênis".

Por favor!

E eu dois dias com esse troço me corroendo as células cinzentas.

Eu odeio a música quem dera ser um peixe.
DAVID COIMBRA


05 DE SETEMBRO DE 2020
FLÁVIO TAVARES

LOBO VACINADO?

O feriado da Independência obriga a pensar com seriedade no futuro, para que o lema "Pátria Amada", do hino, não seja apenas algo artificial e postiço, repetido como propaganda a esmo, mas uma realidade em si. Daí surge a pergunta: que projetos concretos desenvolveu o governo nesses 20 meses?

A não ser retirar o radar das rodovias e aproveitar a pandemia para "passar a boiada" e, assim, facilitar a degradação do meio ambiente, o fato mais visível foi a homenagem ao lobo-guará, que agora pulará do nosso bolso para o consumo diário.

A nova cédula de R$ 200 pode não ser, apenas, indício prévio de eventual inflação que faça ressurgir o monstro da desvalorização monetária. Mas não falamos disto por quê? Por medo?

As grandes transações são bancárias e, assim, a cédula do lobo-guará se presta, mais do que tudo, para facilitar a propina usual típica do conluio entre empresas e políticos ou altos funcionários, onde só se negocia em dinheiro vivo. O lobo-guará é um carnívoro voraz e desponta na nova cédula como fantasma para extinguir a estabilidade financeira obtida a partir do governo de Itamar Franco.

Esse animal de pelugem vermelha vive hoje no cerrado central do Brasil, mas já habitou o pampa gaúcho, no qual foi extinto pela bestialidade da chamada "caça esportiva", que mata pelo prazer de eliminar o belo. Resta ainda no pampa uruguaio.

Vale indagar: o lobo-guará que ressurge estará vacinado contra a inflação?

Ou algum governante tirano tentará tirar do lobo-guará a "liberdade" de não se vacinar?

Após Bolsonaro frisar que, na pandemia atual, "ninguém pode obrigar ninguém a se vacinar", a Secretaria de Comunicação da Presidência lembrou que obrigar "é ato dos tiranos", como se, em vez de prevenir e salvar, vacinação fosse castigo ou tortura.

No planeta inteiro, cientistas se dedicam a pesquisar vacinas que previnam o contágio pela brutalidade do coronavírus, mas, no Brasil, o presidente da República prega (mesmo indiretamente) abandonar a vacinação. Com isto, tumultua os cuidados no combate à peste e contraria a própria missão do Estado de preservar a saúde da população.

Pode parecer banal indagar de onde vem esse tom ranzinza de Bolsonaro, que vê pelo espelho retrovisor tudo que está à frente, como se avançasse para trás. Ou como se (para conservar o calor) guardasse a garrafa térmica na geladeira.

Ainda no atual mandato presidencial, o Brasil completará 200 anos de independência, em que acumulou êxitos e desastres. Os governantes, porém, seguem com a mentalidade do atraso, contrariando até o óbvio e, assim, se tornam lobos vorazes e não vacinados.

FLÁVIO TAVARES

05 DE SETEMBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

A HERANÇA DA LAVA-JATO


O afastamento do procurador Deltan Dallagnol, que, com o ex-juiz Sergio Moro, foi a face mais pública da Lava- Jato, representa o fim simbólico de um ciclo que transformou a nação. Desde o início da operação, em 2014, o Brasil teve suas entranhas expostas em público e aprendeu muitas lições. A força-tarefa chega ao término dessa fase com um saldo amplamente positivo para o país.

Desmontou-se um dos maiores esquemas de corrupção da história recente mundial e desmanchou-se a promiscuidade entre grandes empreiteiras, obras e setor público que atravessava décadas de governos de todos as cores ideológicas. Com a prisão de peixes graúdos da política e do setor empresarial, a Lava-Jato desfez a noção arraigada no Brasil de que roubar dos cofres públicos era parte da cultura nacional e que não haveria punição. Só por isso, a operação e os que a sustentaram entrarão para o panteão dos que viram uma oportunidade história e, contra muitos interesses, seguiram em frente para mudar o Brasil.

É certo que, ao jogar luzes nas sombras de partidos de todos os matizes e desvendar conexões ocultas de mitos da esquerda, a Lava-Jato despertou uma muralha de contrários. Aos poucos, os atingidos e seus representantes foram se rearticulando para desgastar a operação, a começar pelos que a lideraram - Sergio Moro no Judiciário e Dallagnol no Ministério Público Federal. Infelizmente, porém, os deslizes de ambos só vieram à tona porque de fato ocorreram, assim como os de outros integrantes da força-tarefa. Não há como apagar a excessiva proximidade entre ambos e a circunstância de Moro ter aceitado integrar - ou sido usado, como se viu depois - o ministério do maior beneficiado político pela prisão do ex-presidente Lula.

Também os exageros de procuradores e certos exibicionismos de ações para manter a operação sob constantes holofotes depõem contra seus articuladores. A pior delas, porém, foi a obsessão do ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot em incriminar o ex-presidente Michel Temer por meio de uma desastrada delação premiada. A trapalhada interrompeu o ciclo de reformas que o governo interino vinha promovendo, agravando as dificuldades do país, e deixou à solta um dos então capitães do esquema de corrupção que assolava as estruturas de poder.

A Lava-Jato, porém, é muito maior do que suas falhas. Caberá ao futuro promover o julgamento moral definitivo dos homens e mulheres que a conduziram, mas, desde já, apenas com a criação da percepção de punição aos corruptos, a operação tem lugar garantido entre aquelas ações que tiveram o condão de mudar para melhor a história do Brasil.



05 DE SETEMBRO DE 2020

O MEU LUGAR. EM QUALQUER LUGAR?


"O MEU LUGAR. EM QUALQUER LUGAR"


GZH amplia conexão com o público

Reposicionamento reflete a transformação da marca após três anos de história na vida dos gaúchos e a visão digital da RBS

Diariamente, milhares de gaúchos conectam-se a GaúchaZH para estarem perto das principais notícias do Rio Grande do Sul, independentemente de onde estiverem. Trata-se de uma relação histórica, a partir de dois veículos consagrados (Zero Hora e Rádio Gaúcha) e que foi renovada a partir do novo jeito de consumir jornalismo. Nesta sexta-feira, GZH lançou novo posicionamento de marca, que traduz o vínculo construído com seu público e com o mercado e que conversa com a estratégia e a visão digital do Grupo RBS para o futuro. A novidade é materializada a partir do conceito "GZH. O meu lugar. Em qualquer lugar", acompanhado de elementos de identidade visual recriados.

- Após três anos de uma história robusta para uma marca tão nova, estamos levando ao público um reposicionamento que fala diretamente com o futuro do nosso negócio. O mundo segue buscando notícias. O que mudou foi a forma como isso acontece e os rituais que envolvem esse processo. Enquanto marca nativa digital, GZH atualiza o hábito de consumir informação e reflete a transformação do nosso jornalismo. A nova forma de comunicar materializa isso e desconstrói o sentido de lugar como uma condição geográfica. Para nós, é algo que ultrapassa as fronteiras. É o meu lugar, porque é onde estão os gaúchos, porque é feito para mim, porque é onde encontro as notícias da minha região. Em qualquer lugar, porque me acompanha aonde eu for com meu celular - destaca o diretor-executivo de Marketing do Grupo RBS, Marcelo Leite.

O conceito será desdobrado em todos os pontos de contato da plataforma com o objetivo de atender às preferências e refletir o comportamento do gaúcho, disponibilizando ofertas constantes de conteúdos e experiências adequadas.

A marca foi lançada em setembro de 2017, com a proposta de reunir a instantaneidade e a interatividade da Gaúcha com a profundidade e a análise de Zero Hora, além de gerar conteúdos exclusivos no digital. Desde então, a plataforma vem evoluindo com os gaúchos e para os gaúchos. Apenas em março, mês em que foi liberado o acesso gratuito a conteúdos de serviço sobre a pandemia, GZH registrou 96,9 milhões de acessos, somando site e aplicativo. Somente no site, foram 74,4 milhões de páginas vistas, 55 milhões de visitas e 30,1 milhões de usuários.

Layout

A partir de agora, GaúchaZH passa por uma transição gradual de nome, até o fim de 2020, evoluindo para GZH - maneira mais simples e digital de se comunicar. A logomarca também muda: com uma paleta preta e branca, GZH é escrito com fonte vazada, que ultrapassa as fronteiras da identidade visual e gera alto grau de leitura e impacto, além de um toque moderno para a composição. O site e o aplicativo de GZH também serão adaptados às mudanças, assim como todos os materiais assinados pela marca - inclusive as campanhas publicitárias, que agora terão o p&b em sua estética e serão mais minimalistas, contemporâneas e digitais.

Texto-manifesto

Qual é o meu lugar?

É o endereço das minhas contas?

O que está marcado nas minhas fotos?

Ou é o mundo inteiro?

É o meu mundo particular?

É onde vive quem eu amo?

Ou onde eu mais amo viver?

É exatamente onde eu estou agora?

Ou onde estão meus sonhos?

Meu lugar não é um número, um nome de rua ou uma coordenada.

Meu lugar é onde eu sinto que faço parte.

Quando falam do meu jeito, eu tô no meu lugar.

Quando eu revisito e reinvento tradições, eu tô no meu lugar.

Quando eu participo da conversa, eu tô no meu lugar.

Quando eu acompanho minhas paixões, eu tô no meu lugar.

Quando eu vivo os meus rituais, eu tô no meu lugar.

Quando eu me conecto com todos os assuntos que fazem a diferença na minha vida, eu tô no meu lugar.

GZH. O meu lugar. Em qualquer lugar.

05 DE SETEMBRO DE 2020
GUZZO

Um delírio acima de todos

Nos Estados Unidos de hoje, as coisas estão assim: se um policial branco atira num homem negro, não importa por qual motivo e em quais circunstâncias, o “movimento antirracista”, que no momento opera sob a marca genérica “Black Lives Matter”, começa imediatamente a tocar fogo nas cidades, saquear lojas e exigir que o orçamento das polícias seja cortado.

(Não se sabe qual seria a posição do movimento em relação aos atos praticados pelos milhares de policiais negros que trabalham em todos os 50 Estados norteamericanos, mas não é permitido perguntar nada a respeito; a simples pergunta, em si, já é racismo.) Ao mesmo tempo, uma manchete única circula na mídia mundial: “Polícia mata homem negro nos Estados Unidos”.

“Homem negro”? No último delírio desse tipo, a polícia de uma cidade de interior foi chamada por uma mulher negra para deter um indivíduo, também negro, que a estava ameaçando em sua casa. Esse cidadão era um ex-namorado da mulher; por ordem da Justiça, estava proibido de chegar perto dela. Tinha contra si um mandado de prisão e um histórico de violência agravada contra mulheres. Quando a polícia chegou, estava armado. Não há nenhuma dúvida de que se tratava de um criminoso. Mas nada disso tem a menor importância. O incidente, no qual o agressor acabou morto ao resistir à prisão, já está devidamente registrado como mais um marco na história do “racismo”, da “resistência à brutalidade branca” e do heroísmo da raça negra na luta contra a opressão policial.

Pelo jeito, a única maneira de contentar o “movimento negro” e seus servidores na esquerda branca dos Estados Unidos – ou, pelo menos, de tentar alguma coisa parecida – seria obrigar a polícia, daqui para diante, a seguir um regulamento de ação inteiramente novo. Como sugere um vídeo de humor que corre a internet, a polícia só deve mandar para a cena de um crime policiais que, comprovadamente, não são racistas, violentos ou discriminatórios. Os cidadãos, ao fazerem um pedido de socorro, ficam obrigados a informar a raça, a orientação sexual, o “gênero”, a idade, a folha corrida e outros detalhes sobre o agressor; têm de se certificar de que ele está armado, e que tipo de arma, exatamente, está portando consigo. Caso o criminoso seja “não-caucasiano”, a polícia está proibida de enviar policiais brancos para socorrer a vítima, mesmo que ela seja negra – como aliás foi o caso neste último episódio. Se alguma dessas observações não for seguida, nada feito: a polícia não se mexe.

É o antirracismo acima de todos e as “vidas negras” acima de tudo. Quem sabe, assim, param de saquear as lojas da Apple ou da Nike – desde, é claro, que os novos mandamentos para a polícia sejam acompanhados da renúncia imediata de Donald Trump, de “salários iguais para os negros” e da extinção do “racismo sistêmico”.

*Conteúdo distribuído por Gazeta do Povo Vozes

J.R. GUZZO*

sábado, 29 de agosto de 2020


29 DE AGOSTO DE 2020
LYA LUFT

A casa da alma

Tenho lido e comentado, no meu Instagram lya.luft, trechos breves de livros meus como As Coisas Humanas e A Casa Inventada. Na Casa, pequena obra de ficção, invento uma personagem, Penelope, que tem como amiga, alter ego ou como companheira seu reflexo no espelho, a que chama Pandora.

Para quem não lembra, Pandora foi mandada por seu pai, Zeus, rei do Olimpo na mitologia grega, para um possível marido, levando como dote uma caixinha, e a ordem: “Não abra!”.

Como eu também faria, a moça abriu a caixa e dela saíram voando os males do mundo.

Não sei se faz parte da lenda, mas em algum lugar li que bem no fundo da caixinha ficou escondida uma pálida Esperança. Por isso gosto da Pandora do espelho da minha personagem, que quer construir ou inventar a sua casa.

A casa da vida, a casa da alma. Com múltiplas e difíceis escolhas à frente: operários, materiais, prazos, formas. Em última análise seria uma aventura. Primeiro a porta, fascinante e ameaçadora: o que haverá por trás dela? Depois abre-se um corredor, com espelhos nas  paredes... com portas que dão para quartos e salas, porão e, finalmente, nos fundos, o jardim secreto, onde tudo acaba.

Antes se passa pela sala da família, onde perduram falas, gestos, rostos ou máscaras, afetos e rancores, falsidade e amor. Palavras como plumas ou punhais... segredos nunca revelados.

Depois, o quarto das crianças, que desenham nas paredes seus sonhos e medos e projetos. O quarto do casal de que pouco se sabe: paixões e segredos, perfídias e ternuras, filhos e traições, lágrimas no escuro.

Finalmente, depois do porão das aflições onde ecoam soluços, mas a gente diz “é o vento”..., vem o pátio de sol e sombras, com três árvores ao fundo, um muro meio arruinado e encostada nele uma precária escadinha que parece não levar a lugar algum.

Essa será talvez a hora mais interessante. Atenção: na construção da casa da vida, não somos inteiramente responsáveis nem donos de nossas escolhas: pois não somos nem engenheiros nem arquitetos. Somos amadores.

LYA LUFT

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