sábado, 2 de outubro de 2021


02 DE OUTUBRO DE 2021
LYA LUFT

O espelho sobre a mesa de jantar

Desde quando me lembro, família tinha para mim uma importância extraordinária. Meu pai a considerava muito. Era a árvore, com raiz e galharia, com sombra, com tempestade, ramos caindo, raios atingindo, mas estava ali, a velha árvore. Eu, menina intrometida, de orelhas em pé ouvindo conversas adultas, pois durante alguns anos fui a única criança na casa, absorvia aquelas tramas, dramas, comédias, e coisas ternas e alegres que passavam como fios de teia de aranha entre tantas pessoas.

Eu adorava os almoços: avôs, avós, tios, tias, primos, primas. Aquilo me dava uma extraordinária sensação de proteção e pertença. E tudo se refletia num grande espelho diante da mesa de jantar. Também me fascinavam - não foi por nada que décadas depois comecei a escrever sobre laços familiares, embora nada a ver com aquela minha família - as conversas e posturas, que em qualquer grupo podem passar da inocência à bizarrice. Sentada à mesa, tendo de me esticar para manejar os talheres, embora posta sobre almofadas, com as perninhas balançando no ar, mais do que comer ou beber meu suco, eu espiava as pessoas.

Tomava um distanciamento involuntário, que me divertia e assustava: as pessoas pareciam salsichas enormes, com tufos de cabelo em cima, buraquinhos com olhos dentro, que giravam, outro buraquinho que se abria e fechava para receber comida ou soltar palavras. Ali aprendi que palavras podem ser plumas ou punhais - e que significam muito mais do que aquilo que expressam. Que uma inflexão muda o sentido, de amoroso para crítico; e que as mãos complementam tudo, com arabescos bailarinos por cima dos pratos.

Talvez tenha nascido assim meu encanto pelas palavras, pelo que dizem nos sons ou letras, e mais ainda nos espaços brancos ou silêncios. Ou isso simplesmente veio comigo como a cor dos olhos e dos cabelos, um sinal qualquer. Para mim, foram sempre motivo de felicidade, palavras como balas de tantos sabores e cores, ou pedrinhas coloridas que eu revirava na boca como se fossem pitangas ou uvas.

Sou uma mulher das palavras, e família tem entre elas um lugar especial: mais do que dissidências, importam as semelhanças; mais do que contradições, reinam os encontros; mais do que as ausências, predominam os gestos, as vozes, ou os sinais num WhatsApp. Uma dor por mal-entendidos pode ser curada com a palavra certa; uma ilusão alegrinha pode virar ferida, mas a gente nunca tem certeza...

Esse berço, esse colo ou esse peso chamado família pode magoar, irritar e salvar se tivermos a sorte de nascer num grupo amoroso. Nas horas mais escuras, essa rede pode nos impedir de cairmos no alçapão embaixo do poço. Nada como lembrar brincadeiras infantis entre irmãos, carinho de pais abrindo a porta com braçadas de orquídeas, dessas pequenas meio silvestres que florescem presas aos troncos das árvores no jardim. Nada como jogar conversa fora com quem se recorda, e nada como semear recordações futuras para os que, tão jovens, ainda nem têm passado. Não sei onde foi parar aquele grande espelho, com um raro tom rosa-antigo. Quem sabe ainda estamos lá, presos: imortalizados os momentos felizes, os risos, brindes, lágrimas - e todos nós, como éramos um dia.

Texto originalmente publicado na edição de 26 e 27 de agosto de 2017

LYA LUFT

02 DE OUTUBRO DE 2021
MARTHA MEDEIROS

Barbeiragens emocionais

Antes mesmo de o sol raiar, as ruas começam a ser preenchidas por milhares de carros, motos, bicicletas e pedestres, em um balé de deslocamentos nem sempre organizado. Nossos corpos são conduzidos dentro de caixas metálicas sobre quatro rodas e por veículos com apenas duas, e quem vê de fora acredita que estamos todos concentrados, cientes das responsabilidades que o trânsito exige e nem por um segundo com a cabeça na lua.

Tem, claro, quem beba uma garrafa de vinho e saia de carro depois. Quem fume um baseado e dirija logo em seguida. Quem se entupa de medicamentos e pegue o volante. Vou chamar de exceções. Condescendência minha, mas prefiro acreditar que a absoluta maioria de nós jamais seria reprovada no exame psicotécnico.

O mundo ideal, um delírio.

Esquecemos que essa absoluta maioria é regida por sangue, bile, humor, espírito, tormentas. Você descobre que seu namorado tem ficado com outra, vai até a casa dele, grita, explode em soluços, borra a maquiagem, termina o namoro de três anos, sai batendo a porta e entra no carro. Arranca cantando pneu, sem uso de bebida, maconha ou medicamento: dirige sob efeito de uma aguda dor no coração, droga que altera muito mais.

Ou você ficou acordado quase 24 horas durante um plantão. Ou está lidando com uma desesperante notificação de despejo. Ou acaba de ser demitido, e faltava tão pouco para se aposentar. Ou ligaram da escola dizendo que seu caçula está passando mal. Ou sua vizinha mandou um WhatsApp dizendo que viu água escorrendo por baixo da porta do seu apartamento. Você dá a partida no carro, totalmente atordoada, sem lembrar para que serve o sinal vermelho ou a placa de PARE.

Foram poucas as vezes em que me envolvi em algum incidente de trânsito e lembro que nunca sofri um arranhão, mas a alma já estava machucada. Na primeira vez, minhas lágrimas escorriam, a visão ficou turva, demorei a frear. Em outra, alguém fragilizado não via a hora de eu chegar e acelerei demais. Teve a vez em que, indo para o aeroporto, me distraí e colidi numa rua calma, em baixa velocidade, mas, ainda assim, o airbag estourou. 

Saí ilesa, apenas perdi o voo, o terceiro daquele mês: foi o aviso de que precisava diminuir o ritmo. E, semana passada, meu nível de estresse estava alto e bati com o carro no portão da garagem do meu edifício, barbeiragem aparentemente inexplicável. Foram apenas quatro vezes em 42 anos de habilitação, sem nunca ter sido preciso acionar polícia ou ambulância, mas acho que a reflexão é bastante oportuna: abalos emocionais sempre foram gatilhos para acidentes, e mais do que nunca andamos frágeis, tensos, preocupados. Sinal vermelho: pare. Menos empáfia, mais cautela.

MARTHA MEDEIROS

02 DE OUTUBRO DE 2021
CLAUDIA TAJES

Anticorpos contra o negacionismo

Viagem com o filho de uns cinco anos. Na hora em que a comissária avisou que "máscaras de oxigênio cairão automaticamente, coloque a sua antes de ajudar crianças ou pessoas com necessidades", ele me disse:

- Não mesmo, né? Coloca primeiro em mim.

Além de me fazer rir, aquilo também me comoveu. Coloca primeiro em mim. Eu sou pequeno, não me deixa correr nenhum risco, passa logo essa máscara de oxigênio que eu tenho muita coisa para viver.

Quando eu me vacinei antes do meu filho - por óbvio -, lembrei dessa cena. Queria que o primeiro a se vacinar fosse ele, que tem tanta coisa para viver. Não que eu não tenha, não me entenda mal. Mas em caso de despressurização, preferia vê-lo salvo antes.

A pandemia já foi comparada a aviões caindo, uma quantidade enorme deles por dia. Ainda hoje, quase dois anos depois, seguem caindo um ou dois aviões a cada 24 horas - e esse número, que ainda é tão grande, só diminuiu por causa da vacinação. Que agora chegou, enfim, aos pequenos.

Minhas sobrinhas de 14, 15 e 16 anos estão vacinadas, viva. Amigas e amigos postam as fotos de suas filhas e seus filhos sorrindo sob a máscara na hora da picada, situação bem diferente da de quando eram levados aos postos de saúde para as vacinas obrigatórias da infância. Lembra a sinfonia? Parecia que o choro de um contaminava o outro. Quando a gente via, estavam todos chorando, mesmo os que nem tinham sido vacinados ainda. Fora os que choravam até para tomar a gotinha.

Adorava ver as fotos dos avós e pais alheios se vacinando, adoro ver as fotos dos adolescentes e crianças sendo imunizados. Traz a esperança de que o mundo, aos poucos, fique mais ou menos parecido com o que a gente conheceu um dia, e a certeza de que essa geração acredita muito mais na ciência do que em kits inócuos ou placebos para gado dormir. O que deve tornar menos doloroso o enfrentamento de uma nova pandemia (bate na madeira), no infeliz caso de uma delas atravessar novamente o nosso caminho.

Anticorpos contra o negacionismo ativados. Enfim, uma boa notícia.

Outra boa notícia vem de Canoas: a Feira do Livro, que costuma levar grandes autores para a Praça da Bandeira, também vai ter atividades presenciais neste 2021 da vacina. Misturando o formato ao vivo com o online, a Feira, que acontece de 1º a 12 de outubro, tem confirmados nomes como os de Anna Mariano, Caetano Galindo, Eucanaã Ferraz, Eduardo Bueno, Heloísa Buarque, Isabela Figueiredo, Jeferson Tenório, José Falero, Luís Augusto Fischer, Nilson Souza, Paula Taitelbaum, Paulo Scott e muitos mais. Mário e Diana Corso são os escritores homenageados, e a patrona é Lilian Rocha, tudo com a curadoria de Luciano Alabarse. Para saber mais e participar: canoas.rs.gov.br.

Também a Feira do Livro de Porto Alegre terá programação ao vivo na edição que vai de 29 de outubro a 15 de novembro. E já que o ano é de retomada, nada como um patrono pop e esfuziante para garantir a alegria. Parabéns, Fabrício Carpinejar. A praça é tua.

CLAUDIA TAJES

02 DE OUTUBRO DE 2021
LEANDRO KARNAL

Meu canal no YouTube (Prazer, Karnal) e a pandemia estimularam uma nova faceta profissional. Virei entrevistador. Função curiosa para a qual não houve preparo. Não fiz curso, nem sequer li um livro introdutório (algo no estilo Como se tornar entrevistador...). Aliás, não existe um curso superior sobre entrevistas. O mais próximo disso é um jornalista que tem de estudar muitas coisas, não apenas a arte de entrevistar.

Por outro lado, assisti, como você, querida leitora e estimado leitor, a muitas entrevistas ao longo de minha vida toda. Fui entrevistado algumas vezes. A partir dessa experiência, lanço a pergunta: o que é ser um entrevistador?

Eu começaria dizendo o comum: há entrevistadores que têm enorme amor à própria voz, preferindo ouvi-la mais tempo à do entrevistado. São os que se aproveitam de quaisquer deixas e fazem longos comentários pessoais a cada resposta. Em resumo: são entrevistadores que não deixam o entrevistado falar. Sim, feche os olhos e logo lhe vem à cabeça um ou dois tipos assim.

Há, claro, o entrevistador advogado do diabo. Busca as contradições de cada fala, apresenta provas contrárias ao que foi dito, estabelece as incoerências e, no fundo, "detona" o entrevistado. Há tipos ainda mais complexos, pois montam armadilhas para os entrevistados: colocam no ar um inimigo dele para uma pergunta ao vivo na busca de uma humilhação disfarçada como "debate". Há os que agridem o entrevistado, inclusive fisicamente. De uns tempos para cá, ser entrevistado tem risco de hematoma.

Há ainda outro tipo de armadilha com entrevistados: recebo você, deixo-o à vontade, sirvo água e cafezinho, conversa "fiada" enquanto arrumamos as luzes e os microfones. Bem relaxado, o entrevistado emite opiniões variadas e livres, mais "solto" do que se estivesse sendo filmado. Enfim começa a entrevista formal só que os trechos que mais serão aproveitados são os primeiros, quando o entrevistado supunha que ainda não estivesse sendo gravado. É uma entrevista-armadilha, infelizmente real e até comum.

Uma boa entrevista tem como alvo o diálogo entre uma pessoa e um público. A pessoa é seu convidado e, como tal, merece todo respeito. O público também merece o melhor possível de dados e de informações. O entrevistador é um intermediário que facilita a comunicação entre os dois mundos. A primeira virtude do entrevistador é o controle do narciso. Não pode se comportar como um aluno mais velho que ataca os que estão começando aquele estudo. Existe, diante de mim, um ser humano que tem algo a dizer. Existe um público a quem também eu sirvo. 

Eu sou a peça mais descartável de todas naquela situação. No máximo, sou um facilitador, um esclarecedor. Assim, cabe a mim deixar a pessoa bem à vontade para ela não se sentir agredida ou constrangida. Há pessoas tímidas e o bom entrevistador deve lidar com isso. Devo também lidar com o respeito ao público. Muitos entrevistados querem apenas falar de coisas positivas e eu posso trazer, com todo respeito, outro olhar. Não creio que um entrevistador bom deva ficar em silêncio quando uma opinião contrária à ética seja emitida na entrevista. Existem dois polos a serem evitados: um é a vontade de destruir o entrevistado, de "lacrar", chocar, causar impacto e colher likes. 

Nesse caso, não estou entrevistando alguém, mas "bombando" a audiência do meu canal ou do meu veículo de comunicação. Não entrevisto, apenas miro na minha carreira e nos ganhos da audiência monetizada. Esse tipo de entrevistador é, no fundo, um mercador desonesto. No polo oposto, aquele que concorda com as maiores barbaridades ditas pelo entrevistado, inclusive racismo ou homofobia. Assim, poderíamos dispensar o entrevistador e dizer ao entrevistado: fale o que quiser por todo o tempo que puder.

Devo pontuar a entrevista com tópicos de interesse público. Devo dirigir a resposta de volta ao tema da pergunta quando o entrevistado foge do tópico. Introduzo algum humor para dar leveza. Confiro ritmo, sem quebrar a cada instante as frases. As técnicas não são fixas, porém se adaptam ao tipo do entrevistado e ao tema. Nunca devo promover "armadilhas" para alguém que aceitou falar comigo. É desonesto. Com frequência, a falta de caráter se traveste de interesses nobres como "interesse do público".

A boa entrevista tem um traço de maiêutica socrática: busca a resposta dentro do entrevistado. A boa pergunta tem o traço do mestre de Atenas: revela algo para o público e, igualmente, para o entrevistado. É uma arte de dar à luz, trazer algo à vida, sem fórceps, da forma mais natural possível.

O diálogo não é um desafio de entrevista: é um obstáculo humano e quase universal. A comunicação é complicada, sempre. Se enfrentamos problemas para diálogos em família, com ambiente reduzido e conhecido, imaginem-se os obstáculos com pessoas mais desconhecidas.

A favor do entrevistador? Quase todo mundo quer falar, e muito. Adoramos falar de nós mesmos. Tenho entrevistado a quem mal consigo dizer um "boa noite" e dali sai uma saraivada de fatos e histórias. Há pessoas muito divertidas. Outros, um pouco menos. O narciso é universal, inclusive de quem faz as perguntas. O dom do silêncio é algo escasso sob holofotes. Minha esperança é aprender a me ouvir para ser capaz de escutar outros de forma intensa. Acho que é a virtude final de um entrevistador: ser analisado antes de se dispor a analisar alguém.

LEANDRO KARNAL

02 DE OUTUBRO DE 2021
DRAUZIO VARELLA

O QUE FAZ UM MINISTRO DA SAÚDE SE PRESTAR AO PAPEL DESPREZÍVEL DE MENTIR?

É injusto considerarmos o presidente apenas um negacionista. Não vamos minimizar seu papel nesta pandemia: ele é um ativista empenhado de corpo e alma em disseminar o novo coronavírus.

Desde o início da pandemia, justiça seja feita, ele faz tudo o que está a seu alcance para que o vírus infecte o maior número possível de brasileiros: condena o uso de máscara, promove aglomerações, recomenda medicamentos sem atividade antiviral e retardou o quanto pôde a aquisição de vacinas.

Finalmente, quando entendeu que o peso da opinião pública ameaçava seu futuro político, autorizou a compra, mas não se vacinou, para servir de exemplo aos seguidores. A pressão para que seus colaboradores fizessem o mesmo deve ter sido tão persuasiva que um de seus ministros, general da reserva, admitiu ter se vacinado às escondidas, "para não criar problemas".

Havemos de reconhecer o esforço do nosso dirigente máximo para realizar o sonho de atingir a inatingível imunidade coletiva, não importa que ao preço de tantas mortes. Envolveu tirar máscara de criancinha em público, recrutar médicos para defender remédios inúteis, estimular redes sociais para espalhar falsidades, arregimentar parlamentares para repeti-las, desacreditar os profissionais que ousaram defender evidências científicas e, entre outras medidas, nomear e demitir três ministros da Saúde, até chegar ao atual.

Imagino que não tenha sido fácil para sua excelência encontrar um substituto tão dócil quanto o general que chefiava o ministério anterior, homem que não se envergonhava de dizer que aceitara o cargo "sem conhecer o funcionamento do SUS" e que seu relacionamento com o chefe "era simples assim: um manda, o outro obedece".

No entanto, a julgar pela confusão armada pelo ministro atual a respeito da vacinação dos adolescentes, dias atrás, a persistência presidencial foi muito bem sucedida. Levou a vantagem de que o escolhido trouxe para o ministério a credibilidade que nós, médicos, costumamos desfrutar na sociedade.

Numa entrevista coletiva, o ministro levantou suspeitas sobre possíveis efeitos colaterais da vacina da Pfizer em adolescentes, que estariam a exigir avaliações "cuidadosas" do Ministério da Saúde.

Queixou-se de que alguns Estados aplicavam vacinas não autorizadas pela Anvisa para uso nessa faixa etária, sem dizer quais. Não contente, deixou no ar que a morte de uma adolescente em São Paulo talvez guardasse relação com a vacina recebida uma semana antes.

Para completar, acrescentou que a vacinação dos adolescentes, programada para ter início no dia 15 de setembro, seria suspensa, porque fora abandonada no Reino Unido e contraindicada pela Organização Mundial da Saúde. Duas mentiras deslavadas.

O que teria levado um ministro da Saúde a mentir e a levantar suspeitas infundadas sobre uma vacina testada e aprovada em estudos internacionais, administrada com segurança em adolescentes nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia e na América Latina?

A resposta é simples: um manda, o outro obedece, como ficou claro na live do cordato ministro sentado ao lado do presidente, apresentada no mesmo dia. A justificativa foi a de atender a um "sentimento" do chefe, muito "preocupado com os jovens que são o futuro deste país".

Na verdade, o senhor ministro se prestou ao papel desprezível de desacreditar uma vacina importante, apenas para esconder a falta dela em quantidade suficiente para imunizar os adolescentes e, ao mesmo tempo, administrar a terceira dose para os mais velhos, vacinados há mais de seis meses com a Coronavac ou a AstraZeneca.

Suas excelências devem ter concluído que pegava mal junto ao eleitorado reconhecer a falta de uma vacina negligenciada pelo governo, quando foi insistentemente oferecida pela Pfizer, no ano passado.

O que faria um ministro honesto diante da situação atual? Viria a público para dizer que a falta de disponibilidade da vacina da Pfizer, para administrá-la aos adolescentes e oferecê-la como reforço aos mais velhos, só nos deixava uma saída: dar preferência aos que correm mais risco de morrer. Todos estaríamos de acordo.

Preferiu, no entanto, lançar dúvidas sobre a segurança de uma vacina aprovada pela Anvisa, apenas para atender a um apelo político de seu chefe. Assim agindo, assegurou fidelidade irrestrita e se perfilou ao lado dele na luta pela disseminação da pandemia.

DRAUZIO VARELLA

02 DE OUTUBRO DE 2021
BRUNA LOMBARDI

A MÁGICA DA SERENDIPIDADE

Se você nunca ouviu essa palavra, serendipidade é a arte de encontrar uma bela surpresa, quando, na verdade, se buscava outra coisa. Aparentemente, significa descobrir algo maravilhoso assim por acaso, por sorte? Se bem que o acaso e a sorte, na verdade, só acontecem para quem acredita neles e está preparado e pronto para se aventurar.

Quando a gente se abre para o desconhecido, deixa o controle de lado e permite que a vida possa nos surpreender positivamente. Todo descrédito, todo pensamento negativo formam uma espécie de barreira no fluxo dos acontecimentos. Impedem o acaso de te procurar com aquele jeito distraído, dissimulado, mas na verdade, cheio de planos pra você.

Para quem quer a origem desse anglicismo, serendipity foi um termo criado pelo escritor Horace Walpole, no século 18, a partir de um conto persa, Os Três Príncipes de Serendip, nome do antigo Ceilão, hoje Sri Lanka. Na história, eles descobriam soluções acidentalmente, por acreditarem na vida.

Serendipidade é usada com frequência na ciência, na química e na medicina, quando buscando um propósito, acaba-se descobrindo casualmente uma nova cura ou invenção. Um exemplo de serendipidade houve na época dos descobrimentos, quando Cabral, que dizem seguia em busca às Indias, acaba descobrindo o Brasil.

Seja como for, serendipidade define a capacidade ou fenômeno ou a agradável surpresa de encontrar algo totalmente inesperado quando estamos na busca de uma outra coisa. Isso só acontece quando nos colocamos num estado de uma certa liberdade de flanar na vida. Quando vamos um pouco mais leves e distraídos na direção do que queremos, quando a nossa intenção acontece sem tanta tensão. Mas com muita atenção.

Porque faz parte da vida buscar uma coisa e encontrar outra pelo caminho. Ter flexibilidade, estar aberto a novas oportunidades não significa perder o foco, mas, sim, aprender a surfar nas ondas, não lutar contra a correnteza e diminuir o desgaste, compreendendo como lidar com as circunstâncias. E sabendo que a rigidez nos afoga.

Olhe para trás na sua vida, pense e me responda: quantas coisas que você quis e não aconteceram?

Em compensação, quantas outras coisas ótimas aconteceram, justamente como consequência daquilo que não aconteceu? Quantos aparentes fracassos, na verdade, acabaram trazendo vitórias?

Foram sempre necessárias algumas derrotas para que muitas conquistas acontecessem. Muitas vezes sem que a gente nem perceba, porque estamos tão ocupados olhando o problema, nem conseguimos ver o grande desenho da solução.

Uma vez escrevi que as fadas só aparecem quando a gente está relaxada. Eis o segredo. As coisas só acontecem quando a gente deixa fluir, a gente só ganha quando aceita perder, porque a aceitação é a grande chave.

Com certeza a vida ainda vai trazer muitas surpresas boas, basta a gente ficar aberto ao imprevisto, ao prazer do acaso e confiar na sorte.

Ter um propósito e agir, um pouco levando a vida, um pouco deixando ela nos levar nessa aventura do desconhecido. Essa é a mágica da serendipidade.

BRUNA LOMBARDI

AMOR, SÓ SE FOR INCONDICIONAL

Nenhum tema fascina mais nem é capaz de despertar reações tão imprevisíveis de admiração, inveja, preconceito, espanto, humilhação, ódio, veneração, euforia, delírio, estupor, idolatria, submissão e loucura.

Cada um ama do seu jeito, e a maior bobagem é aconselhar alguém a como proceder ao bater de frente com ele. Então, nunca digas que o amor é cego, só porque ele te cega.

Como ocorre com todos os sentimentos complexos, sempre estamos disponíveis para dizer o que julgamos adequado em cada situação, completamente relaxados na nossa condição de juízes afetivamente descomprometidos. Numa espécie de punição dos deuses que mistura ironia com deboche e castigo, nem nos reconhecemos quando caímos na teia, sempre de tocaia, que o amor verdadeiro não se anuncia.

A literatura está cheia de amores que se excederam, perderam a noção do ridículo ou, para mostrar que o amor transcende a razão, quando perceberam que não havia como viver sem ele anteciparam o fim.

A história que inspirou esta crônica é verídica e foi contada pelo professor Silvano Raia, um grande mestre da cirurgia brasileira, responsável pela formação de centenas de cirurgiões, de todas as idades, que estufam o peito para anunciar quem os treinou.

Silvano estava no sexto ano do curso médico, quando era interno do Hospital das Clinicas, em São Paulo. Num plantão noturno, os doutorandos, em ordem alfabética, recebiam os pacientes admitidos em ordem de chegada. Foi assim que ele teve o azar de receber um menino pequeno, sangrando bastante com um ferimento na língua. Não bastasse a enorme dificuldade de conter o capetinha, que gritava, esperneava e mordia os dedos do cirurgião, ainda teve de acompanhar a paciente destinada a sua colega, vizinha de box, futura ginecologista, que recebera o caso dos sonhos para um projeto ambicioso de cirurgião, porque todos os grandes no futuro nunca tiveram dúvidas de que o seriam.

Tratava-se de uma mulher jovem e bonita, que fora agredida com uma navalhada, causando um longo corte superficial nas costas, do ombro direito até a região ilíaca esquerda. Aquele tipo de lesão, pela maior exigência técnica, sempre parecerá mais desafiadora a um aprendiz. Triste com a tarefa que lhe coubera de suturar a língua da criança rebelde, observava invejoso sua colega que atendia a jovem morena na mesa de mármore ao lado, a dois metros de distância. Assim, não pôde evitar de ouvir o diálogo que se estabeleceu entre ambas: "Minha filha, quem foi que fez isso em você?".

" Ah, doutora, foi o meu homem, o Mexerica. A polícia está dando em cima do nosso trabalho na Avenida Paulista, a renda diminui, e ele fica furioso".

A doutora encheu o peito, e fez aos brados o seguinte discurso : "Que você se prostitua já é uma miséria. Pior ainda que você dê o resultado do seu trabalho ignóbil a um homem. Ainda mais para um FDP, que faz isso em você".

A paciente não respondeu. Passados alguns minutos, a doutora insistiu: "Então, você não diz nada?".

E para surpresa dele, da doutora e de todos os que puderam ouvir, a paciente respondeu: "Doutora, não adianta lhe explicar, a senhora não conhece o Mexerica!".

J.J. CAMARGO 


02 DE OUTUBRO DE 2021
DAVID COIMBRA

Os domingos eram assim

A gente ouvia o som comprido e distante da corneta do sorveteiro e dava uma preguiça. Eram tardes quentes de domingo e não havia muito o que fazer, a cidade inteira parecia estar cochilando e quem se mantinha acordado evitava gestos bruscos.

Minha avó caprichara no almoço: massa feita em casa. Ela passava horas preparando. Primeiro misturava farinha, água, sal e ovos e transformava aquilo em uma pasta e ia amassando com as mãos e amassando e amassando, até que jogava o bolo numa mesa polvilhada com farinha de trigo e o comprimia com o rolo de madeira e passava o rolo para frente e para trás e fazia chover mais um punhado de farinha e passava o rolo outra vez e outra vez espalhava farinha. Quando a pasta virava uma lâmina dourada quase que do tamanho da mesa, ela tomava de uma ripa que lhe servia de régua e ia cortando os fios um a um com um estilete, pacientemente, todos com a mesma espessura e o mesmo comprimento.

Pronta a massa, minha avó se ocupava do molho. Vermelho. Sempre vermelho, que molho branco é uma fraude. Ela se concentrava naquele molho, acrescentava cada ingrediente com critério e mexia sem parar. Ao terminar, o que se via no fundo da panela de ferro não era molho, era creme. O queijo ela mesma ralava em cima do prato de cada um.

Nunca mais comi massa igual, nem na Itália, nem em Nova York, nem no alto da serra gaúcha.

Meu avô, é claro, bebia vinho tinto. E nós? Nós também! Para as crianças, vinho com água e açúcar, que os tempos eram menos vigilantes.

Não ficava só nisso, evidente que não. Havia ainda bifes dourados temperados com alho e sal e batatas feitas na manteiga e inclusive alguma salada. De sobremesa, as compotas que a minha avó tinha adrede preparado, doce de abóbora e pêssego em calda ou sagu com nata.

Normal, tamanha fartura. Em casas de famílias de imigrantes, a mesa havia de ser opulenta, a fim de repelir as lembranças da fome pela qual passaram os ancestrais que chegaram ao Brasil.

Mais tarde, na hora do futebol, a cidade já estava desperta. A voz veloz e os erres triplos dos locutores evaporavam dos radinhos de pilha e, de repente, um gol de 12 ós explodia por toda parte. Então, outro som típico vinha lá de onde viera o da corneta do sorveteiro: o claque-claque da matraca do vendedor de casquinha. Que instrumento especial era aquele! Por que só o vendedor de casquinha o usava? Ainda existe? Não sei, só sei que, se já havíamos perdido o sorveteiro, o vendedor de casquinha não deixaríamos passar incólume. Corríamos para o vô e arrancávamos dele uma nota grandona e azul e em um minuto estávamos saltitando em volta das casquinhas fininhas da cor da cuia.

Ao voltarmos para casa, antes do café da tarde, que seria servido debaixo da parreira, a madrinha surgia do fundo do pátio com a proposta: - Que tal um banho de mangueira? Aí era uma farra.

Por que é que, depois do banho de mangueira, a mãe nos botava no banho de chuveiro, isso é algo que nunca entendi.

O dia já ia terminando e a vó anunciava que, para a janta, havia preparado moranga com linguiça, eu adorava moranga com linguiça. À noite, tudo ficava mais calmo e a gente podia ouvir os grilos cantando do outro lado da rua. Eu dizia para a minha irmã que estava preocupado: as férias se aproximavam do fim. Então, a madrinha pegava da gaita e nós pedíamos:

- Toca Al Di La! Ela tocava e nós silenciávamos para ouvir. Os domingos eram assim.

Texto originalmente publicado na edição de 18 e 19 de novembro de 2017

DAVID COIMBRA

02 DE OUTUBRO DE 2021
FLÁVIO TAVARES

MAPA DA MINA

A declaração do governador Eduardo Leite de que a Mina Guaíba, de carvão a céu aberto à beira do Rio Jacuí, "não vai sair" e é um assunto "arquivado" foi recebida com euforia. Essa mina em terras de banhado a 12 quilômetros da Capital é, em si, nefasta à saúde da população da área metropolitana.

Médicos, biólogos e geólogos advertiram sobre o horror, que, em poucos anos, pode fazer do Guaíba um lago de águas putrefatas, além do maléfico "material particulado" no ar. Sem tocar nisto, Leite limitou-se a falar da "carbonização", para mostrar-se moderno e atual.

Assim, como na marchinha de Carnaval, "nem tudo o que reluz é ouro", agora surgem dúvidas sobre o significado real do que ele disse. Em minuciosa análise das declarações do governador, o Comitê de Combate à Megamineração no RS alerta que "Leite mente ao afirmar que o processo está arquivado". Lembra que o processo "foi suspenso" por decisão judicial para que a mineradora Copelmi sane as omissões do Estudo de Impacto Ambiental apresentado à Fundação do Meio Ambiente. Ademais, tramitam outros três processos judiciais, sobre os riscos à água, à pesca no delta do Rio Jacuí e aos danos do eventual polo carboquímico.

Frisa ainda o comitê que "segue em vigor" o protocolo de intenções firmado entre o governo estadual e a mineradora para postergar o ICMS na aquisição de máquinas e equipamentos até de outros Estados e importados. Ao ser implantada a mina, o protocolo prevê que o governo irá diferir o ICMS pelo prazo mínimo de 15 anos, com o que R$ 54 milhões anuais de tributos não iriam para o Tesouro estadual.

Estes fatos definiriam as palavras de Eduardo Leite como mero gesto eleitoral do pré-candidato a presidente da República. A declaração de que "a mina não sai" foi dada a um "podcast" de São Paulo, na tentativa de o governador gaúcho lá aparecer como defensor do meio ambiente, pois a ciência e a ONU apontam o carvão como fonte das perversas mudanças climáticas.

O verdadeiro mapa da mina estaria, assim, bem distante do que disse o governador, pois não se revogou o Plano Estadual do Carvão do governo Sartori, adotado por Leite.

O histórico do atual governador não favorece o meio ambiente. Em 2018, ele promoveu mudanças no Código Ambiental que facilitaram a poluição e alteraram pontos essenciais à proteção florestal. Mudou ainda a lei dos agrotóxicos, permitindo aqui o uso de pesticidas proibidos na própria origem.

Euforia e demagogia rimam sem poesia.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

02 DE OUTUBRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

APOSTA NO CONHECIMENTO

Investir em inovação e tecnologia significa mostrar a intenção de não ficar para trás na corrida do desenvolvimento, cada vez mais alicerçada no conhecimento. Produzir pesquisas que um dia poderão se materializar em novos produtos, métodos ou processos, com benefícios econômicos, maior bem- estar para a população e proveitos sociais é o diferencial de ser protagonista em um mundo em que as novidades surgem cada vez mais rápido ou ir apenas a reboque, consumindo o que é criado em outras partes do globo.

A chegada da pandemia fez com que o interesse pela ciência ressurgisse com força, mas no Brasil constata-se que os recursos disponíveis para aplicar na área são decrescentes nos últimos anos, na contramão das nações que lideram a maratona do crescimento. Há inúmeras iniciativas que envolvem a iniciativa privada, é verdade, mas em todo o mundo capitalista o apoio do poder público é essencial, seja na injeção direta de recursos ou na formulação de incentivos de toda ordem.

Sintonizado com essa necessidade de apoio estatal, o governo gaúcho apresentou o programa Avançar na Inovação, que prevê aportes de R$ 112,3 milhões em ciência e tecnologia no Rio Grande do Sul. Os recursos, segundo o Piratini, são os maiores vindos diretamente do Tesouro do Estado ao menos nos últimos 10 anos. A Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia (Sict), a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs) serão contempladas. Alguns editais da Sict já estão abertos, abrangendo uma série de programas, como os que dão suporte para startups e iniciativas que visam ao desenvolvimento de games.

É, sem dúvida, uma aposta correta. Muito do conhecimento que será produzido, ao ser aplicado, poderá ser transformado, no futuro, em uma economia mais forte e dinâmica, criando condições de geração de mais emprego e renda. Não apenas para as pessoas diretamente ligadas às pesquisas. Os efeitos benignos se espalham por toda a sociedade, com mais produtividade, novas soluções e, ao fim, maior PIB. E cria, sobretudo, um ambiente propício para mitigar um dos grandes problemas não só do Estado, mas do país: a fuga de cérebros. 

Um bom aproveitamento dos recursos fará com que seja possível, para muitos jovens talentosos, alcançar a realização profissional sem necessariamente ter de estar longe de suas famílias. O Rio Grande do Sul, na Capital e no Interior, conta com capital humano capacitado e toda uma vasta rede de universidades, parques tecnológicos e incubadoras, entre outras instituições, que formam um bem-estruturado ecossistema vocacionado para a produção de conhecimento. Há precondições, portanto, para os gaúchos se posicionarem como referência. Direcionar fatia maior do orçamento para a inovação é estratégia básica de qualquer país, Estado ou cidade que queira não ser apenas um espectador do curso da História.



02 DE OUTUBRO DE 2021
SAÚDE

Por que Caminhar?

Para economizar energia ao percorrer distâncias maiores, os seres humanos passaram a andar sobre os dois pés, com as pernas esticadas e a coluna ereta. O que, hoje, soa óbvio, não era tão lógico assim há cerca de 3,6 milhões de anos, época na qual, segundo estudos, apareceram os primeiros bípedes que se tem conhecimento.

Graças a essa evolução, os seres humanos passaram a poupar muita energia. Para se ter uma ideia, esse fenômeno rendeu um gasto 50% menor quando comparado a outros animais de tamanho semelhante.

- A caminhada é um traço comportamental fundamental no processo evolutivo. É altamente funcional, pois, durante milhões de anos, nosso organismo se adaptou para realizar esse tipo de movimento. Simplificando: é algo que somos preparados evolutivamente para fazer, por isso é tão prazeroso - diz Leonardo Tartaruga, professor da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Esefid/UFRGS).

Nesse trajeto de milhões de anos, a caminhada também se desenvolveu: foi deixando para trás o aspecto exclusivo de sobrevivência e, mais recentemente, ganhou ares de exercício físico. A partir dessa nova percepção, cresceu o interesse em investigar a atividade e seus benefícios para a saúde, resultando em inúmeros estudos.

Um dos mais recentes, publicado no começo de setembro, associou a quantidade de passos por dia à mortalidade. Mas esse não é o único. Pelas bibliotecas virtuais, há uma infinidade de pesquisas que analisam os mais diversos pontos dessa atividade básica, simples e essencial na existência humana.

 O que melhora?

Acessível e democrática, a caminhada oferece diversos benefícios para a saúde física: melhora o transporte de oxigênio pelo corpo, a força do coração e o fluxo sanguíneo cerebral. Também ajuda na osteoporose, reduz a chance de trombose venosa profunda, o risco de infarto, de acidente vascular cerebral, controla a pressão e melhora o diabetes, enumera o médico Glauber Signorini, diretor-técnico do Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul.

- O corpo humano não foi feito para ficar parado. O movimento faz a máquina ser funcionante. É como um carro que não é ligado: começam os problemas - compara Signorini.

De lambuja, o exercício dá uma força para a saúde mental, diminuindo a ansiedade, a depressão e melhorando a autoimagem.

Para além de tudo isso, a caminhada tem impacto social importante na vida de seus praticantes. À frente de diversos projetos da Esefid, Tartaruga observa que grandes repercussões em grupos de maior vulnerabilidade, como em indivíduos com Parkinson, por exemplo:

- O Parkinson é uma doença degenerativa que aparece em pessoas de meia idade que já têm a vida estabelecida. Então, começa esse desligamento com as relações sociais. Aí, vem o exercício como uma coisa incrível. Os familiares vêm nos agradecer. Temos alunos que voltaram a patinar, a dirigir e a caminhar para cumprir distâncias mínimas que impactam socialmente.

Quantos passos devo dar?

Bastante popular, a recomendação de dar 10 mil passos por dia não é uma diretriz científica. Conforme pesquisadores, a ideia de quantificar os passos diários surgiu na década de 1960, quando uma empresa japonesa lançou um pedômetro batizado justamente de manpo-kei, que significa "medidor de 10 mil passos".

Agora, uma pesquisa realizada pela University of Massachusetts, nos Estados Unidos, avaliou se o número de passos diário e a intensidade deles tinha associação com o risco de morte prematura em homens e mulheres de meia idade. Publicado no The Journal of the American Medical Association, o trabalho acompanhou 2.110 adultos por 10 anos e conseguiu evidenciar que aqueles que deram ao menos 7 mil passos por dia tiveram risco de mortalidade 50% a 70% menor na comparação com aqueles que caminharam menos. A intensidade, por sua vez, não teve efeito negativo e nem positivo.

Apesar dessa medida, o médico do exercício e do esporte do Hospital Mãe de Deus, Felix Albuquerque Drummond, explica que andar entre 5 mil e 7 mil já traria vantagens.

- Isso varia conforme a idade, a condição de saúde da pessoa, se tem doença associada, se é obeso. O fundamental é que devam se mexer dia sim e dia não, ou diariamente, se estiver acostumada. Mas podemos dizer que, de 4 mil a 8 mil passos por dia, é uma recomendação razoável.

CAMILA KOSACHENCO

02 DE OUTUBRO DE 2021
+ ECONOMIA

Crise dos combustíveis trava venda da Refap à Ultrapar

O comunicado da Petrobras de que "finalizou sem êxito" a negociação com a Ultrapar para venda da Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), em Canoas, foi uma surpresa. As duas companhias atribuíram o fracasso a "certas condições críticas". No mercado, havia temor do impacto na privatização de refinarias das sucessivas ameaças do presidente Jair Bolsonaro de intervenção na Petrobras e na formação de preços de refino. A mais recente ocorreu nesta semana, provocando resposta imediata da estatal, que reafirmou sua política de preços.

Um dos efeitos dessa situação é a depreciação dos ativos, o que dificulta um acordo sobre o preço justo entre comprador e vendedor. Na mais recente reunião com analistas de mercado, o CEO da Ultrapar, Frederico Curado, foi indagado sobre o eventual aumento do risco do segmento, inclusive diante dos sinais de Bolsonaro, e respondeu assim:

- Vemos a refinaria como possibilidade de grande retorno sobre o investimento. A nossa proposta, que foi selecionada pela Petrobras, dá bom equilíbrio entre risco e retorno.

João Luiz Zuñeda, diretor da consultoria Maxiquim, pondera que vender refinarias, que têm margens baixas, não é fácil não só no Brasil, mas em todo o mundo. Mas avalia que a interrupção das tratativas, depois de todos os sinais da Ultrapar de que avançava, pode sinalizar um "reposicionamento" da Petrobras:

- A política de preços de combustível pode estar afetando, mas algo pode ter mudado com o novo CEO (Joaquim Silva e Luna). Se fosse problema de preço, Guedes (o ministro da Economia) e o Castello Branco (CEO demitido por Bolsonaro) bateriam o martelo.

Para Ilan Arbetman, analista de Research da Ativa Investimentos, embora a compra pudesse criar sinergias para a Ultrapar, "o momento não é propício para investimentos que passariam da casa do bilhão de dólares em setor no centro das discussões nacionais e envolto em pressões de custo que extrapolam as discussões políticas que o envolvem".

Agora, a empresa capitalizada por vendas pode se interessar por uma das fatias regionais da Braskem e pela privatização da Sulgás, como indicavam os executivos. A Petrobras não desistiu da venda da Refap. Conforme a nota, "iniciará tempestivamente (no momento oportuno) novo processo competitivo para essa refinaria".

MARTA SFREDO

02 DE OUTUBRO DE 2021
MARCELO RECH

Uma revolução na porta

Em tempos normais, levas de turistas invadem as ruas de Delft, na Holanda, para admirar sua arquitetura e rica história – são sepultados na cidade os monarcas holandeses, por exemplo. Os turistas também se encantam com as tradicionais porcelanas azuis, uma arte trazida da China que fez Delft prosperar no século 17 com mais de 30 fábricas do gênero.

Com a concorrência da porcelana inglesa, no fim do século 19 a cidade perdeu o fôlego econômico, embora tenha preservado o seu charme medieval. O que os turistas não enxergam é a onda revigoradora de Delft graças a um cinturão tecnológico em torno de uma universidade de ponta – a Technische Universiteit Delft, mais conhecida como TU Delft, que construiu ao seu redor um universo de laboratórios e negócios em engenharia, microbiologia e computação quântica.

A capacidade de uma universidade de vanguarda catapultar economias é bem conhecida no mundo, mas ainda subaproveitada no Brasil. O Rio Grande do Sul mesmo assistiu nos últimos 15 anos ao nascimento de uma série de iniciativas em torno de algumas de suas principais universidades e que já gerou uma impressionante coleção de novos empreendimentos. Mas, apesar da visão de algumas universidades lá atrás, falta algo para que essas iniciativas puxem uma revolução na economia da Região Metropolitana.

Para além da evasão de cérebros e do descaso federal com a ciência, é preciso confiança da sociedade na própria capacidade, o que inclui apoio em peso do empresariado, secundado por financiamentos públicos e privados. Também seria salutar se universidades conseguissem concentrar esforços em especializações que as tornassem reconhecidas fora do país e atraíssem atenção internacional.

Assim como a tecnologia, a concorrência avança em saltos, inclusive no Brasil. Na última semana, graças a uma doação privada de quase R$ 300 milhões, o governo de São Paulo anunciou a criação do IPT Open, um programa para instalar no Instituto de Pesquisas Tecnológicas uma espécie de MIT brasileiro – a universidade de Boston que é um dos principais polos científicos do planeta.

Todas essas questões só ressaltam a importância e a propriedade do lançamento do programa Avançar na Inovação pelo governo gaúcho, na quinta-feira, e das viagens do governador Eduardo Leite e do prefeito de Porto Alegre, Sebastião Mello, para conhecer e atrair os efeitos transformadores da inovação. Por muito tempo, o Estado se apequenou em questiúnculas paroquiais ou visões preconceituosas contra novidades tecnológicas e a convivência do capital privado com o conhecimento acadêmico. 

Na era da inteligência artificial, porém, ficarão para trás os que ainda insistem em se manter na posição antônima.

MARCELO RECH

sábado, 25 de setembro de 2021


25 DE SETEMBRO DE 2021
LYA LUFT

O fim do mundo

Minha avó paterna, Olga, morava numa casa ao lado da nossa. Foi a melhor pessoa que conheci, bem-humorada, e nos defendendo, meu irmão menor e eu, da severidade de seu filho, nosso pai, quando fazíamos desordens.

Eu não me cansava de ouvi-la falar com ele como filho, dizendo "Arthur" à moda alemã com acento no A. Parecia estranhíssimo aquela mulher grisalha, baixinha, às vezes ralhando com nosso pai. A gente adorava aquilo.

Minha avó Olga falava os dois idiomas, pois éramos de várias gerações no Brasil, mas algumas expressões vinham em alemão e se gravaram em mim.

Uma delas era die Welt geht unter (o mundo está acabando). A graça eram os motivos, como quando meu namoradinho de 18 anos (eu com 15) voltou de férias no Rio onde tinha família. Vestia calça jeans, camiseta amarelo-ovo, tênis e meias da mesma cor ofuscante.

À medida que ele chegava, ela se virou, sacudiu a cabeça e soltou o inevitável fim do mundo.

Hoje, com os indescritíveis horrores ao nosso redor, penso que ela teria de escolher outros termos, talvez "o inferno chegou!!!". Ou "viva Satanás!"

Isso me ocorre hoje, e me dá muita saudade dela, vendo a vergonhosa postura de homens e mulheres que deviam ser modelos e líderes se engalfinhando, insultando, descabelados e salivantes, seus colegas, plateia atônita, envergonhada ou cúmplice, enquanto fatos criminosos são tratados com cinismo.

Tenho vontade de chorar, gritar, escrever com virulência. Mas a certeza de que vai cair no vazio pestilento me detém. O que vai ser de nós? Quem somos e seremos?

Para não desabar porque preciso cuidar da saúde e ainda amo a vida, olho o jardinzinho na sacada do meu quarto e penso que nem tudo causaria a indignação de minha amada avó Olga quando nós adolescentes ainda achávamos graça de horrores tão mais inocentes.

LYA LUFT

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