sábado, 20 de novembro de 2021


20 DE NOVEMBRO DE 2021
COM A PALAVRA

CARLA CAMURATI

atriz e diretora

de cinema, 61 anos Responsável por filmes ficcionais como "Carlota Joaquina, Princesa do Brazil" (1995), ela acaba de lançar o documentário "8 Presidentes 1 Juramento - A História de um Tempo Presente", sobre a história recente da política brasileira

Dirigido por Carla Camuratti, o documentário 8 Presidentes 1 Juramento - A História de um Tempo Presente chegou aos cinemas na quinta-feira. Fruto de uma pesquisa minuciosa, em que a cineasta se debruçou em arquivos de diferentes mídias, o filme relata o processo da redemocratização brasileira, do movimento das Diretas Já, na década de 1980, até a posse do presidente Jair Bolsonaro. Atriz destacada no cinema e na TV entre os anos 1980 e 1990, ela fez história na direção de seu primeiro longa, Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995), apontado como marco inicial no período de retomada do cinema nacional pós-estagnação com a extinção das agências de fomento no início da década de 1990. Carla também atuou na gestão pública, sendo presidente da Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro entre 2007 e 2014. Nesta entrevista, a diretora fala sobre 8 Presidentes 1 Juramento e seus demais projetos.

QUAL FOI O PONTO DE PARTIDA PARA 8 PRESIDENTES 1 JURAMENTO? O QUE TE LEVOU A REALIZAR ESSE DOCUMENTÁRIO?

Ter vivido essa história. Eu era diretora de conteúdo de cultura nas Olimpíadas do Rio 2016. Quando acabou o evento, já vinha com a ideia de fazer esse filme. Adoro História, desde pequena é um assunto que me interessa. Eu nem sabia que esse projeto existia com tanta força dentro de mim. Um dia acordei e ele estava ali. Sabia exatamente o que e como queria falar. É engraçado, me acontece um pouco isso com meus filmes: são assuntos que ficam dentro da minha cabeça, no plano das ideias.

VOCÊ TRABALHA COM IMAGENS DE ARQUIVO PARA TRAÇAR UMA LINHA DO TEMPO DO PROCESSO DE REDEMOCRATIZAÇÃO. QUE CAMINHO VOCÊ BUSCOU REPRESENTAR DOS FATOS?

Eu não queria fazer um documentário entrevistando os presidentes. Não queria os bastidores, mas os fatos em si. E as emoções. Não queria filtro algum, e sim a crueza dos fatos. Se fosse uma série de entrevistas, seria insuportável e não chegaria a lugar algum. Realizamos uma pesquisa minuciosa de história e, depois, de mídias. Então, fomos atrás das imagens para começar a montar esse grande mosaico. Achamos que era importante não deixar o filme desanimador. Quem viveu o período anterior ao processo de redemocratização sabe a pedreira que foi.

CHEGOU A COGITAR FAZER UMA MINISSÉRIE?

Não cheguei, mas ainda tenho muita vontade de fazer. O filme tem muitas informações. Não deixa você parar para pensar. Se você pausa, tem que ir somando. De repente, essas informações que a gente viveu fluam melhor de forma seriada.

QUAL FOI O CRITÉRIO PARA DAR MAIS FOCO A CERTOS ACONTECIMENTOS EM DETRIMENTO DE OUTROS?

Quando você faz uma síntese, não dá para resumir em duas horas e 20 minutos tudo o que aconteceu. Há muitas histórias nesse percurso. O critério teve de ser as histórias que mudaram o país de alguma maneira, ou ao menos a impressão da população quanto a isso. Quando chegam 100 mil pessoas em Brasília, isso é forte, independentemente do partido ou se você acha certo ou errado. Não importa o que você acha. Importa que isso é um fato e existe. E um filme é um filme. Serve para inspirar você, fazer você refletir, se interessar. Quero despertar uma reflexão, uma curiosidade. Do jeito que fizemos, conseguimos passar todas as turbulências grandes que vivemos no período e como cada presidente as enfrentou. Sem precisar acusar ou defender. Não era a intenção. Não quero catequizar ninguém de nada com esse filme. Quero construir memória e reflexão.

O DOCUMENTÁRIO TRAZ OS ALTOS E BAIXOS DE TODOS OS PRESIDENTES DO PERÍODO. A SENSAÇÃO QUE FICA É DE QUE HÁ MAIS BAIXOS DO QUE ALTOS, CONCORDA?

É uma curva dramática que a ficção dificilmente faria: sobe, desce, aí sobe, sobe, desce, desce, desce e desce! Caramba! (Risos.) Imagina se fosse reconstruir esses fatos na ficção com atores? Não teria estúdio que comprasse! Por isso documentários são importantes: porque permitem que a gente consiga se ver no espelho. Olhe o que está sendo a nossa construção de História. Precisamos de reflexão, não podemos seguir num caminho imprudente, imaginando que não dá para conviver com as nossas diferenças.

OBSERVANDO ESSES MAIS DE 35 ANOS, QUAL É O CAMINHO PARA A MATURIDADE POLÍTICA DO BRASIL?

Quem tem de pautar o país somos nós, a população. Nós que entendemos as dificuldades da vida no país. Nós que não moramos em Brasília. Não conhecemos os bastidores, mas uma coisa precisamos saber: o que a gente quer. Para que Brasília siga um desejo comum, não o desejo de um candidato, mas o desejo da população como um todo.

VOCÊ CONSEGUE VER ALGUMA RENOVAÇÃO OU A HISTÓRIA É UMA REPETIÇÃO DE CICLOS?

Pode ser uma repetição até que a gente amadureça. Assim como na história das nossas vidas, se formos observar: costumamos repetir erros até aprender (risos). Quantas vezes você brigou inutilmente? Quantas vezes foi desatento? Quantas vezes foi agressivo desnecessariamente? Se a gente fizer essa reflexão por dois segundos, já pensa: "É verdade, eu poderia ter feito diferente". Creio que os erros se repetem, sim, mas você tem possibilidade de aprendizado e de mudança quando se criam a memória e um espelho da história viva, em que os personagens ainda estão aqui. A gente percebe que a história está nas nossas mãos. Por isso tentei construir um equilíbrio, em que todos têm o seu momento. Olhando para trás, buscando elaborar esse painel que sirva para todos. Se a gente não fizer isso, vamos continuar repetindo os erros. Tenho essa sensação.

QUE CONCLUSÕES VOCÊ TIROU AO OBSERVAR ESSES OITO PRESIDENTES EM CONJUNTO?

Eu gostaria de me manter isenta de opiniões. O público que assista e reflita sobre o que sentiu emocionalmente. Apesar de ter estudado muito, minha intenção não é sentar no lugar de quem sabe. Vou deixar que as pessoas tirem as conclusões. Pouco importa meu julgamento pessoal. Importa mais essa sensação de a gente ter encontrado o processo que tanto queríamos: a redemocratização. E pensarmos como chegamos até aqui. Todo o processo teve uma intensidade muito grande, tudo foi e continua sendo muito violento de alguma maneira. Foi tóxico para a população. A gente precisa parar. Não adianta a gente se comportar sem nenhuma reflexão do que estamos construindo no dia a dia.

NO FILME, HÁ UM MOMENTO EM QUE DILMA ROUSSEFF DESTACA QUE A MULHER, QUANDO ASSUME POSIÇÃO DE MANDO, É VISTA FORA DE SEU PAPEL. ELA ESTÁ COMENTANDO SOBRE SER VISTA COMO DURONA. VOCÊ JÁ SE SENTIU ASSIM?

Nunca. Sempre me senti muito confortável dirigindo. Nunca fui desrespeitada no set. Às vezes, parece que boto medo nas pessoas (risos). E sou uma pessoa muito acessível! Quando estou trabalhando, tenho a consciência plena de que, se eu não der acesso total a minha equipe, vou perder mais do que ganhar.

SEU PRÓXIMO DOCUMENTÁRIO, FEMININO.COM (TÍTULO PROVISÓRIO), IRÁ EXPLORAR A RELAÇÃO DAS RELIGIÕES COM AS MULHERES. COMO SERÁ ESSE PROJETO?

É um estudo que estou fazendo há muito tempo, desde que li um livro chamado A Bíblia da Mulher, de Elizabeth Stanton. Nessa obra, ela separou da Bíblia todos os textos que mencionam as mulheres. Então, passei a trabalhar com essa ideia, estendendo-a a outras religiões que têm manuscritos, que foram elaborados em momentos da humanidade em que as mulheres não sabiam escrever e eram proibidas de toda e qualquer coisa.

CARLOTA JOAQUINA, PRINCESA DO BRAZIL É APONTADO COMO O FILME QUE TROUXE O PÚBLICO DE VOLTA PARA OS CINEMAS PARA VER AS PRODUÇÕES NACIONAIS. ESSE LONGA-METRAGEM RETRATAVA UM PERÍODO HISTÓRICO COM LEVEZA E HUMOR, MAS AO MESMO TEMPO FOI REALIZADO EM UM MOMENTO DE GRANDE DIFICULDADE PARA O CINEMA BRASILEIRO. PASSADOS MAIS DE 25 ANOS, COMO CARLOTA JOAQUINA ENVELHECEU PARA VOCÊ?

Carlota não envelhece. É um filme que ainda é muito visto. É vendido até hoje (para exibições na TV, nos cinemas e em outros espaços). Os filmes históricos estão dentro de um recorte diferente. Eu continuaria fazendo Carlota do jeito que eu fiz. Quando estou dirigindo, sou obsessiva na construção. Da maneira que construí, era tudo no limite do que eu tinha. Não deixei nada que estava ao meu alcance de fora. Se poderia fazer melhor? Talvez sim, em outro momento. Mas, naquele momento, estava na mesa tudo o que eu tinha.

QUAL FOI A MAIOR DIFICULDADE QUE VOCÊ TEVE AO REALIZAR CARLOTA JOAQUINA?

Todas (risos). Era um projeto que não tinha dinheiro, que foi sendo feito à medida que eu ia mostrando o filme. O máximo que a gente conseguiu rodar direto foram duas semanas. Filmava tudo picadinho, semana a semana. Tudo era muito delicado. Mas conseguimos organizar de tal maneira que não perdemos ninguém da equipe ou elenco nesse processo. As pessoas continuavam dentro do filme, torcendo e se dedicando. Marco Nanini e Marieta Severo (protagonistas do longa), que tinham uma agenda para lá de ocupada, estavam sempre presentes, mesmo nas dificuldades. Talvez por isso a gente conseguiu superar todos os obstáculos e lançá-lo.

HOJE, AS LEIS DE FOMENTO E OS EDITAIS DE FINANCIAMENTO DO AUDIOVISUAL ESTÃO SENDO PARALISADOS PELO ATUAL GOVERNO. VOCÊ TEME QUE O CINEMA BRASILEIRO ENFRENTE ALGO SEMELHANTE AO COLAPSO DOS ANOS 1990 QUE FOI REFLETIDO NA REALIZAÇÃO DE CARLOTA JOAQUINA?

Consigo ver claramente que, no Brasil, tudo sofre desmonte ou desestruturação. É uma coisa muito delicada, porque um país não consegue sobreviver destruindo aquilo que havia sido construído, mas sim aprimorando e refletindo. É muito mais difícil construir do que destruir. Destruir você enfia a marreta e pronto. Temos que parar de derrubar o que foi tão difícil de ser desenvolvido, em todos os cantos, independentemente de quem estiver no poder. É incompreensível isso, que a gente se sabote desse jeito. Isso não tem outro nome que não seja sabotagem. A arte inspira e provoca reflexões, mas quem muda a História são as leis e instituições. Precisamos olhar para o que temos ao nosso redor de uma forma mais madura e responsável, menos reativa e inconsequente.

COMO VOCÊ AVALIA A ATUAL PRODUÇÃO DO CINEMA BRASILEIRO? O QUE TEM TE CHAMADO ATENÇÃO?

Melhorou em muitos aspectos. Alguém pode falar "ah, tem filme isso ou aquilo". O Brasil tem uma multiplicidade enorme, com uma grande quantidade de pessoas produzindo conteúdo audiovisual. E temos construído coisas muito interessantes, múltiplas, abrangentea, para tudo o que é gosto. Falta? Falta. Temos muito a fazer e a construir. Conseguimos criar conteúdo e oportunidade, por isso é importante que a gente tenha amadurecimento e consciência de que é preciso investir em uma política de Estado. Não interessa se você acha A e eu acho B, pouco interessa o que a gente pensa, o mundo é entupido de opiniões de pessoas que não entendem do que falam, o que importa é que o Estado tenha uma política permanente, que possibilite ao país ter uma produção contínua ao longo dos anos. A gente só vê continuidade dentro de um mandato. É tudo muito fechado num tempo, sem planejamento ou perspectiva de formação.

VOCÊ NÃO SENTE QUE MUITO DESSA PRODUÇÃO ATUAL SEJA FRUTO DA SEMENTE PLANTADA LÁ ATRÁS, POR EXEMPLO, COM FILMES COMO CARLOTA JOAQUINA?

Tudo é uma construção. Cada um vai lá e põe o seu tijolo. Tenho muita alegria quando vejo os números que o cinema brasileiro faz, fico muito orgulhosa. E temos filmes com perfis muito diferentes. Há uma produção diversificada e com muita aceitação. Se a gente não se atrapalhar, temos muito a oferecer.

VOCÊ ABANDONOU A ATUAÇÃO EM DEFINITIVO PARA INVESTIR NA CARREIRA DE DIRETORA E GESTORA?

Eu adoro interpretar! Na verdade, tenho me dedicado a outras coisas. Mais do que interpretar, eu adoro aprender. Não me acho sabendo de tudo. As coisas que não sei me interessam muito. Talvez por isso eu tenha saído do Carlota para dirigir uma ópera filmada (o longa-metragem La Serva Padrona, de 1998), para a qual tive que estudar muito (risos).

VOCÊ JÁ DIRIGIU ÓPERAS PROPRIAMENTE DITAS, COMO CARMEN (2001) E O BARBEIRO DE SEVILHA (2003). O QUE TE ATRAI NO GÊNERO?

Adoro dirigir ópera. Neste ano, tenho convites para dirigir três, duas que estão sendo compostas e uma nova versão de Carmen. Para mim, ópera é um presente. Me faz entrar quase em outra dimensão. Quando estou ali, ouvindo aquela música, aqueles cantores, aquela orquestra, é tão prazeroso.

EM AGOSTO, MORREU O ATOR PAULO JOSÉ, DE QUEM VOCÊ FOI COMPANHEIRA NOS ANOS 1980. COMO VOCÊ RECEBEU ESSA NOTÍCIA? QUE LEGADO PAULO DEIXOU?

Paulo deixou vários legados. As três filhas que teve, que conheço bem. Bel, Ana e Clara são mulheres incríveis. Sem falar no ator que o Paulo era. Ele tinha uma quantidade de recursos, da comédia ao drama, que era muito impressionante. Sabido que só ele! Sabia Fernando Pessoa de cor, trechos de Erico Verissimo. Foi uma perda muito grande para todos nós da cultura brasileira. Mas a vida tem esse sentido. Paulo já estava preso dentro dele mesmo. Não estava mais vivendo com a potência que ele tinha e que teve durante a vida inteira (o ator sofria de Parkinson). De alguma maneira, sofri muito porque vou sentir saudades dele e de sua voz, mas tenho dentro de mim as memórias tão claras de tudo que vivemos. A gente sempre se deu muito bem, mesmo depois que nos separamos. Minha relação com as filhas é de um amor profundo, fico até emocionada... É muito difícil a relação com a morte. Já tive tantas perdas. Não tenho pai, não tenho mãe, perdi minha melhor amiga.

DESPEDIDASACUMULADAS.

Ao longo da vida, você vai sofrendo perdas e, de alguma maneira, você vai revendo tudo o que viveu. Talvez a coisa que mais me doa seja a memória do som, porque a memória de imagem de tudo que vivi é tão nítida dentro de mim que, se eu fechar o olho, quase consigo viajar para aquele momento. O som, a voz das pessoas, isso não. Isso me dá uma tristeza, sabe? Minha mãe estava doente, e, no dia que me dei conta de que, quando ela morresse, eu nunca mais escutaria sua voz, aquilo foi de uma dor imensa no meu coração. Eu estava na ioga e comecei a chorar imediatamente. Esse pensamento triscou a minha mente. E, no mesmo dia, minha mãe faleceu.

QUE HISTÓRIA.

Tinha marcado com as minhas tias e a minha irmã de irmos a CTI ver minha mãe. Tínhamos um tempo, das 14h às 15h. Estávamos lá eu e duas tias, minha irmã estava entrando, quando os aparelhos começaram a apitar. Até, de alguma maneira, incluí um pouco isso em 8 Presidentes 1 Juramento. Quando tem a quantidade de operações que o Tancredo Neves sofreu em 38 dias, é isso: você vai vendo um coração parando e um bip acelerando, aquela máquina fora de controle...

 WILLIAM MANSQUE


20 DE NOVEMBRO DE 2021
DRAUZIO VARELLA

TESTES E ANTICORPOS PROTETORES

No início da pandemia, surgiram aqueles testes de farmácia para detectar a presença de anticorpos numa gota de sangue. Muita gente correu para fazer.

Seria de grande utilidade um exame que detectasse anticorpos contra o vírus, para identificar quem já foi infectado e se está protegido contra nova infecção.

Desde os primeiros casos de covid-19, foram lançados no comércio vários testes com essa finalidade. Naquela época sem vacinas, a identificação dos que estariam imunes lhes daria liberdade de movimentação, sem correr risco. O mercado foi inundado de preparações de procedência duvidosa, distribuídas pelas farmácias do país.

Os resultados desses testes rápidos criaram mais dúvidas do que respostas, especialmente porque não foi possível definir quais seriam os anticorpos realmente protetores, nem por quanto tempo ofereceriam proteção.

Com o advento das vacinas, entretanto, renasceu o interesse pela detecção de anticorpos no sangue das pessoas imunizadas. Seria possível documentar os efeitos do estímulo imunológico, por meio da dosagem de anticorpos induzidos por ele? Haveria uma forma de relacionar a quantidade de anticorpos presentes no sangue com os níveis de proteção, de modo a revacinar aqueles em que as concentrações não fossem consideradas ideais?

Depois de analisar os dados obtidos em vários estudos, o Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, concluiu que os testes não apresentavam sensibilidade nem especificidade suficiente para indicá-los na avaliação da imunidade induzida pelas vacinas.

Apesar da recomendação do órgão oficial, muitos médicos continuam solicitando a dosagem de anticorpos pós-vacinação, para estimar o grau de imunidade e a necessidade de doses de reforço.

A revista JAMA, publicada pela American Medical Association, traz uma discussão sobre esse tema. Cita o caso de uma empresa da Flórida que anuncia diretamente para os consumidores um teste vendido a U$ 170 que, segundo apregoam, "identifica corretamente o número de anticorpos neutralizantes que você tem, com 100% de especificidade, de modo que em 24/48 horas você saberá se o seu sistema imune ainda protege contra a covid".

Ouvida pela revista, Elitza Theel, diretora do Laboratório de Sorologia das Doenças Infecciosas, da prestigiosa Mayo Clinic, foi clara: "Sei que muitas pessoas fazem o teste apenas para saber se reagiram à vacina ou se estão imunizadas, apesar dos melhores esforços que temos feito para educá-las".

Os testes sorológicos hoje disponíveis são mais específicos e sensíveis do que os anteriores, mas não está comprovado que sejam capazes de avaliar o grau de proteção. Mesmo porque muitos detectam apenas a presença de anticorpos induzidos pela infecção natural. Portanto, pessoas que não foram infectadas podem apresentar resultado negativo depois de receber a vacina, ainda que tenham imunidade protetora. Outras podem adquirir a infecção apesar da presença de anticorpos neutralizantes.

Além dessa inconsistência, não está definida a concentração de anticorpos necessária para garantir proteção, dado fundamental para revacinarmos os ainda vulneráveis.

Outro problema é o de que os anticorpos atingem o máximo de concentração dois ou três meses depois da infecção natural ou da vacinação, período depois do qual seus níveis sanguíneos caem. No entanto, permanecem no organismo células B responsáveis pela memória de longa duração, capazes de produzi-los rapidamente em caso de novo contato com o vírus.

Finalmente, a produção de anticorpos - tarefa a cargo dos linfócitos B - não é o único recurso do sistema imunológico para combater o coronavírus, parte importante da resposta é executada pelos linfócitos T, responsáveis pela imunidade celular, função que não é medida nos testes para detectar anticorpos.

Em resumo: embora os testes disponíveis permitam detectar a presença de anticorpos induzidos pela infecção natural ou pela vacinação, esse dado é de pouca valia, porque: 1) não sabemos se eles são de fato capazes de neutralizar o vírus; 2) não conhecemos a concentração necessária para assegurar proteção; 3) não permitem avaliar a eficácia da imunidade celular; 4) não está demonstrado se a redução dos níveis de anticorpos depois da vacinação guarda relação direta com o aparecimento de doença grave.

Os manuais ensinam que o médico não deve solicitar exames sem saber para que eles servem.

DRAUZIO VARELLA

20 DE NOVEMBRO DE 2021
MONJA COEN

CONSCIÊNCIA

Este sábado é o Dia da Consciência Negra. Por que ainda precisamos de um Dia da Consciência Negra? Porque ainda não há consciência geral, porque ainda há racismo estrutural no Brasil. Racismo de estrutura na formação de um país. Como a estrutura de um prédio, de uma casa, do metrô, das ruas da cidade. O arcabouço, o esqueleto de sustentação de um corpo, na construção da sociedade.

Estamos iniciando o processo de mudança. Mudança conceitual, de paradigma, de maneira de ser e de pensar, de se relacionar com a vida que permite a nossa vida.

O Dia da Consciência Negra começou em 2003. Até então, celebrávamos o Dia da Abolição da Escravatura, 13 de maio. Foi importante, sim, a Lei Áurea. Equidade e liberdade. Sem compra e venda de seres humanos.

Entretanto, antigo escravo não tinha vez. Foi ser periferia carente, com raras exceções que confirmaram a regra. Mas ainda há compra e venda de seres humanos. Desde criancinhas até a idosas prestando serviço de graça em casa de gente que explora gente. Não importa se são brancos, negros, amarelos, vermelhos, multicores.

Há gente comprando gente. Há gente vendendo gente. Há gente abusando de gente de muitas formas: com drogas, com armas, com insultos, perversidades, mentiras e manipulações mentais. Até quando?

Você pode fingir que não vê. Mas está acontecendo agora.

Gente que vende corpos inteiros ou suas partes. Gente que compra ideias e destrói ideais. Quanto custa o seu pensar? Você precisa pensar como eu penso, se não vou te cancelar. Uma campanha e logo você já era. Pode até ser trucidado em praça pública por uma multidão manipulada pelo ódio. Cuidado!

Queremos todos participar, ser incluídos. Quantas bobagens fazemos para não perder nossos afetos, seguidores, compradores, vendedores de sonhos e de esperança? Esperança não se compra nem se espera. Esperança se constrói.

Trabalho enobrece? Trabalho empobrece, humilha, nem sempre engrandece. Faça isto, faça aquilo e ficou faltando isto e aquilo. Você não entende? Burra. Louco, parece que não entende o que a gente fala. Tira tudo, recomeça. Das bocas sem ternura ou compaixão saem impropérios.

Consciência e compaixão. Vi escrito em algum lugar que paixão vem de pathos, sofrimento. Paixão pensei que fosse amor forte, arrebatador. Mas há também a paixão de Cristo, sofredor. Fazer com paixão seria fazer qualquer coisa com ardor, inteireza, dedicação completa, certeza de resultados, muito amor.

E que tal se houvesse o Dia da Consciência? Quando esse dia houver, ainda estará faltando consciência. Se houve necessidade de um dia especial, é porque ainda há falta. É preciso despertar toda a humanidade.

Estar desperto é perceber que precisamos uns dos outros, que nada é fixo ou permanente, que tudo é interdependente e que a África é um continente abusado e de lá veio a vida.

Nossa! Está na hora de cuidar e agradecer, rever o passado para que as malvadezas não se repitam. Havia gente que não acreditava que indígenas e negros eram gente. Que tinham direito, não apenas deveres. Havia quem duvidasse que as plantas sentiam e que os animais se comoviam. Havia quem nada soubesse do coração das pedras e das terras, do ar e dos mananciais. Havia gente sem consciência, que mentia, abusava, destruía e explorava.

Esse tempo está correndo, está passando. Há de passar. Tremendo, segure a minha mão e vamos juntos levantar a bandeira branca da paz, do amor, da inclusão, mesmo que para isso precisemos nos munir de todo estoque de ternura, sabedoria e bondade. Você vem?

Mãos em prece

MONJA COEN

20 DE NOVEMBRO DE 2021
J.J. CAMARGO

OS QUE NÃO DESISTEM

As pessoas que trabalham em emergências são especiais, naturalmente selecionadas pela capacidade de se opor à ideia da morte com tenacidade, sem se acomodar na aceitação de que todos morreremos e, portanto, nada mais natural que a toda hora ela se imponha. É muito mais adequado para a preservação da sanidade de quem trava o bom combate que nos mantenhamos inconformados com essa naturalidade biológica e pensemos viver como se fosse para sempre. Sem a preocupação de cronometrar esse tempo.

A experiência ensina que o imprevisto tem manhas de originalidade. Por isso, uma das tarefas médicas mais difíceis é a desistência das manobras de ressuscitação em traumatizado grave, especialmente quando a vítima, sendo jovem, teria muito mais vida por viver do que aquele que, circunstancialmente, está ali com a missão audaciosa de se opor à morte extemporânea.

A adrenalina transbordante nesta situação explica a energia colocada em cada manobra e a indescritível sensação de êxtase ao constatar que a danada se rendeu. Alguns, preconceituosos, atribuem aos doutores o complexo de divindade por esses momentos vitoriosos, porque ignoram que os médicos verdadeiros se contentam com a alegria silenciosa e genuína de terem sido capazes de fazer o que fizeram. Tanto é assim que, muitas vezes, a gratidão surpreende, por vir quando o autor da proeza já nem pensa mais no ocorrido, porque a vida continuou com suas pequena vitórias e grandes desistências.

Da experiência do Rui Haddad, um notável cirurgião carioca, restou, ao menos, uma linda história. Vítima de um trauma severo, um homem de 35 anos foi trazido de ambulância e aportou no hospital em parada cardíaca, depois de um grave acidente de carro, num subúrbio do Rio. Com o coração sendo massageado no elevador, alcançaram o bloco cirúrgico. Não importa quando tempo decorreu nas manobras de ressuscitação, porque cada minuto parece uma eternidade enquanto se caminha nessa divisória em que ajudaria se a vida, ao menos, oferecesse um corrimão.

Contrariando todos os escores de mortalidade, o paciente teve alta depois de quatro dias internado na terapia intensiva. Semanas depois, novamente de plantão, o Rui foi abordado por um paciente que não conseguiu reconhecer, tal a transformação desde o dia em que estiveram separados por uma maca ensanguentada.

"Doutor, eu sou aquele paciente que só sobreviveu porque Sua Excelência, segundo os médicos do hospital me contaram, durante meu atendimento disse a eles, várias vezes, que não ia, de forma alguma, desistir de mim. E eu aqui estou."

Depois disso, por 41 anos, no Dia do Médico, do aniversário do Rui e daquele que chamou de "meu segundo nascimento", o telefonema se repete: "Sou eu, doutor, para agradecer à Sua Excelência por não ter desistido de mim."

Confiar em quem cuida tem essa exigência: é apostar que o cuidador seja do tipo que nunca desiste.

J.J. CAMARGO

20 DE NOVEMBRO DE 2021
DAVID COIMBRA

Um espelho que me deixava bonito

Tinha, lá em casa, um espelho que me deixava bonito. Ficava no meu antigo apartamento. Eu era solteiro e livre, livre, LIIIIVREEEEE...

Bem, melhor não me empolgar muito. O que importa é que, antes de sair para a noite, eu me admirava naquele espelho. Gostava do que via. Às vezes me elogiava:

- Cara bonito, esse aí.

E ia para a guerra cheio de confiança.

Nunca mais fui bonito como naquele espelho. Por onde ele andará? A gente se muda e deixa coisas importantes no caminho.

Mudei-me muitas vezes na minha vida. Já morei em umas 20 residências diferentes e sempre deixei algo para trás, como se os objetos caíssem do caminhão da mudança ou voltassem correndo para a casa velha, como gatos abandonados.

Numa dessas, perdi minha coleção de moedas antigas. Era uma coleção que eu fazia desde guri, estimulado pelo meu avô. Tinha moedas bem antigas mesmo, inclusive algumas do século 19 e até uma do século 18. Pois sumiram todas e nem sei exatamente quando foi. Que tristeza.

Perdi livros, livros à mancheia, estatuetas de prêmios de literatura ou de jornalismo, uma jaqueta branca de que gostava, relógios de pulso, do tempo em que usava relógio de pulso, e uma caixa com cartas, do tempo em que a gente trocava cartas.

Como lamento ter perdido as minhas cartas. Quer dizer: não eram minhas, eram cartas que outras pessoas haviam me enviado. Hoje ninguém mais sabe o que é receber uma carta, aquele sentimento de expectativa quando você abre a caixa de correspondência, a ânsia de ler logo o que está escrito. Tive namoradas em outras cidades, então fui um missivista ativo. Dava para perceber, pela maneira que ela escrevia, se ela estava mais ou menos apaixonada, se o amor florescera ou se estava, melancolicamente, sumindo. E vou dizer algo para vocês, jovens dos tempos do WhatsApp, embora já saiba que não acreditarão: uma carta bem escrita podia conquistar um coraçãozinho serelepe.

Uma vez, estava apaixonado por uma moça de Cachoeira do Sul. Pouco nos encontrávamos, eu ia a Cachoeira uma vez a cada dois ou três meses. Também não falávamos ao telefone, porque as ligações interurbanas eram caríssimas naquela época. Assim, nosso namoro era mais por correspondência mesmo. Mas eu gostava dela, ah, como gostava.

Certo fim de semana, fui a Cachoeira só para vê-la, mas, ao chegar lá, brigamos por algum motivo. Depois da discussão e antes de eu embarcar no ônibus para Porto Alegre disse a ela, a voz tremendo de indignação:

- Não me manda carta nunca mais! E ela obedeceu! Durante meses me frustrei abrindo aquela caixa de correspondência vazia. Ou pior: cheia de contas a pagar.

Hoje sei por que aquela moça deixou de gostar de mim, depois te termos usufruído de um amor tão belo. É porque ela não me via como se estivesse refletido pelo meu velho espelho. Se ela soubesse como tive momentos de máscula beleza na intimidade do meu banheiro, não teria me abandonado com aquela insidiosa indiferença. Espelho, espelho meu, onde andarás, espelho meu?

DAVID COIMBRA

20 DE NOVEMBRO DE 2021
NO AR

Campanha de fim de ano da RBS propõe celebrar a vida

A pandemia da covid-19 mostra sinais claros de arrefecimento a partir do avanço da vacinação, em nível global e local, o que contribui para a retomada das atividades em todas as dimensões. Nesse contexto, é possível ter um olhar mais otimista para o ano de 2022. A partir da crença na importância de valorizar cada momento que a gente vive junto, o Grupo RBS lançou sexta-feira sua campanha de fim de ano. A ação reforça a mensagem de viver intensamente, a aproveitar o privilégio de estar vivo.

- Felizmente, vivemos a fase de retomada pós-pandemia, e a RBS quer participar desse momento com os gaúchos e retratar esse espírito na campanha de fim de ano. Nossa visão para o futuro é positiva e queremos convidar a todos a olhar nessa mesma direção. Aprendemos com os desafios e estaremos mais fortes, juntos. Nossa mensagem é de otimismo e de valorização da vida - destaca a gerente-executiva de Comunicação do Grupo RBS, Caroline Torma.

A campanha marca também o momento vivido pelo Grupo RBS, que iniciou um novo ciclo estratégico, passando por renovação da estrutura organizacional, um plano de investimentos robusto e um novo posicionamento institucional focado no desenvolvimento do Estado do Rio Grande do Sul, a partir de um diálogo ainda mais próximo com a sociedade gaúcha, em especial com o setor produtivo.

Em 2021, a RBS anunciou o aporte de R$ 70 milhões (até 2024) na modernização dos parques tecnológicos de rádio e televisão, no desenvolvimento de produtos e em digital.

Emoção

A voz da nova campanha da RBS é da atriz gaúcha Glória Menezes, que volta aos estúdios depois da perda do marido, o ator Tarcísio Meira, com quem foi casada por 59 anos.

Para embalar as principais peças da campanha dentro do conceito de celebrar a vida, foi usado o instrumental da música tema Vida, com protagonismo para a locução de um texto profundo, lido por Glória Menezes, que incentiva a viver intensamente, a aproveitar o privilégio de estar vivo. O tom é mais emotivo, tocante e forte em comparação aos anos anteriores.

- Glória personifica o sentimento de superação que está em todos nós. Estamos muito felizes em poder contar com essa grande estrela para dar voz aos nossos desejos para os gaúchos - ressalta Caroline.

Produzida pela Agência Escala, a campanha tem dimensão 360º e contempla peças para TV (VT 60), jornal (anúncios), rádio (spot 60) e digital, além de ações especiais de endomarketing e para o público B2B. O resultado pode ser conferido nos veículos do Grupo RBS até o dia 2 de janeiro.

A música Vida foi composta em 1985, em Porto Alegre, por Ricardo Garay e Carlos Ludwig, a pedido de Maurício Sirotsky Sobrinho, fundador do Grupo RBS. Desde então, a música está presente em grande parte das campanhas de passagem de ano da empresa. Para os gaúchos, a canção remete às celebrações desta época do ano.

sábado, 13 de novembro de 2021


13 DE NOVEMBRO DE 2021
LYA LUFT

Inspiração

O que é inspiração, como lhe vem a inspiração...? - pergunta que persegue artistas criadores a vida inteira. Que músicas escuta para se inspirar? Que pessoas o inspiram? Cada escritor (falo do meu território) dará uma resposta diferente. Alguns precisam de silêncio, outros, de música, outros escrevem em qualquer parte, alguns ainda só na sua toca, seu escritório: mil maneiras de trabalhar.

Há quem diga que inspiração é bobagem, o que importa é a transpiração. Não é bem assim. Importa uma harmonia entre as duas coisas, pois, sem esse chafariz de ideias e emoções que se organiza quando escrevemos e acaba num romance, um conto, um poema, dificilmente se faz um bom trabalho.

Qualquer pessoa com alguma fantasia e bom conhecimento do seu português consegue fabricar um texto, até um livro. Mas arte não é assim, e possivelmente vai faltar a centelha que diferencia uma obra fabricada conforme os esquemas vigentes de uma obra de arte, por mais fraquinha que seja. Sim, obras de arte podem ter gradações de "bom, médio, ótimo, incrível"...

Não acredito também que artista tenha de sofrer para produzir. Em tempos muito difíceis de minha vida (sim, também os tive), passei seis anos sem escrever, só traduzindo. Pensei ter ficado afásica para sempre, e, como já tinha escrito vários livros, deduzi que a fonte tinha secado. E de repente, caminhando na beira da praia sem pensar em nada importante, voltou a história que eu tinha começado a fantasiar seis anos antes. Sem computador, sem máquina de escrever ali, corri para a papelaria, comprei canetas e papel em profusão e comecei a escrever feito desvairada. Voltando para casa, botei tudo no computador ou na máquina de escrever, não lembro, e publiquei A Sentinela, em 1994.

De onde vem, enfim, a tal inspiração? Cada caso é um caso, cada autor é um autor. Comigo, é como se tudo o que vivo, olho, sonho dormindo, sonho acordada, me contam, assisto, se depositasse em mim através dos anos, como aquela lamazinha no fundo de um aquário. Quando alguma coisa me toca especialmente (ou não), é como se mexessem com um lápis nessas águas tranquilas, e todo o depósito do fundo sobe à superfície: feita a inspiração, a história que estava meio pronta nas neblinas do inconsciente começa a emergir. Eu lhe dou nomes e formas, trabalho, escrevo e reescrevo, e com sorte tenho um texto.

Também quero dizer que, para ser escritor, coisa que me perguntam incessantemente, é preciso, primeiro, ler muito. Ler sempre. Segundo, dominar o mais possível o idioma, pois o bom escritor é como o cirurgião que sabe manejar o bisturi, conhece anatomia, a doença, e o resto. Ninguém escreve "de ouvido". E atenção: português ou qualquer língua não se aprende decorando regras, mas lendo. Além disso, é bom abusar de simplicidade, paciência, humildade, autocrítica sem neurose, e usar dessa maravilhosa liberdade que o texto nos dá.

É difícil? É difícil. Porque, além disso, precisa de sorte, persistência, nada de ressentimento do tipo "ninguém se interessa por meu livro, ninguém quer me publicar", pois quase todos nós levamos várias recusas, esperamos algum ou muito tempo para finalmente iniciar (iniciar...) o caminho dessa arte e dessa profissão que serão o chão por onde caminharemos, amados, criticados, abominados ou estimulados, pelo resto da nossa vida.

Texto originalmente publicado na edição de 6 e 7 de maio de 2017

LYA LUFT

13 DE NOVEMBRO DE 2021
MARTHA MEDEIROS

Tanto tudo

Você sabe que os anos estão passando quando não identifica mais quem são as pessoas que a maioria da população admira. Há um sem-número de ídolos populares que, se entrassem num elevador comigo, eu não faria ideia de quem seriam, enquanto, para seus fãs, compartilhar com eles os poucos segundos entre o térreo e o décimo andar ressignificaria a vida. Muitos artistas estão neste exato instante quebrando recordes no Spotify e fazendo lives acompanhadas por milhões de seguidores, e ao ouvir seus nomes pela primeira vez, eu talvez os confundisse com algum ex-colega de faculdade.

Parece absurdo que alguém nunca tenha escutado a respeito de Anitta, por exemplo, mas há pouco tempo, um advogado me perguntou quem era. Fiquei chocada. De que planeta você veio? Pode-se gostar ou não gostar, mas jamais ter ouvido falar de Anitta? Só então me dei conta de que eu estava caindo na armadilha comum de achar que, se alguém ignora a existência de uma celebridade, não passa de um esnobe.

O showbiz mudou. Antigamente, as capas de revista consagravam carreiras. A televisão era o eletrodoméstico mais importante da casa. Todo mundo conhecia o rei do iê iê iê, o galã da novela, a miss de cetro e coroa. Eram intocáveis, distantes, quase sobrenaturais - pois raros.

Hoje você grava um vídeo caseiro, posta na internet, cai na graça de uns, viraliza e dentro de um ano pode estar morando numa mansão, e quem vai dizer que o valor passou ao largo? Quase sempre o êxito vem do talento artístico, mas pode vir também do faro para tendências, para criar conteúdo motivacional, para fazer dinheiro nas redes - algum talento toda pessoa tem, é só descobrir qual e como usá-lo, manejando as ferramentas que dispõe. A frase célebre de Andy Warhol não caducou pelo sentido, e sim pela duração: 15 minutos, hoje, é uma eternidade, mas uns poucos segundos de visibilidade estão garantidos a todos.

Nós, os sobreviventes da era analógica, não conseguimos acompanhar tanta novidade circulando pelo palco digital. Eu, ao menos, admito a lentidão que me domina: cultivo paixões antigas e algumas atuais, e já me perdoei por, mesmo trabalhando num veículo de comunicação, não conseguir estar informada sobre tudo e sobre todos. Não conhecia Marilia Mendonça. De que planeta eu vim?

De outro século e deste aqui, vim lá de trás e de hoje cedo, administro como posso o meu passado e este presente intenso, me espanto com a oferta atordoante de eventos e existências, tantas que nem todas são por mim assimiladas. Ainda assim, junto-me aos lamentos. Toda morte é trágica, ainda mais de jovens que deixam órfãos uma família, amigos, fãs e um futuro. Não é esnobismo, não, é esse tempo agora, voraz.

MARTHA MEDEIROS

13 DE NOVEMBRO DE 2021
CLAUDIA TAJES

Terror no supermercado

Depois de alguns dias sem ir ao supermercado, me enchi de coragem - não posso dizer o mesmo com relação ao dinheiro - e tomei o rumo das gôndolas. Desde o começo da pandemia, ir ao súper é uma tarefa tensa. É um tal de escolher os horários com menos movimento, passar álcool até o cotovelo entre um produto e outro, esperar de longe enquanto os clientes apertam o pão para só então pegar o pacotinho que sobrou meio esgualepado. Bem verdade que a coisa melhorou agora que as duas doses estão no braço de tantos. Que cheguem logo, e o reforço também, para todos os brasileiros.

Os astronautas que andavam pelos corredores dos supermercados nos primeiros tempos da pandemia já aposentaram os uniformes plásticos. As máscaras seguem, vão seguir por muito tempo ainda, e agora servem também para esconder a boca aberta diante do espanto pelos preços de tudo.

Sério que o leite está custando tudo isso? Pobres das famílias com mamíferos em desenvolvimento. Pobres das famílias, ponto. A Pesquisa Nacional da Cesta Básica divulgada há algumas semanas pelo Dieese estimou que, para garantir as necessidades básicas de uma casa com dois adultos e duas crianças, o salário deveria ser de pelo menos R$ 5.500,00. Valor atual do salário mínimo: R$ 1.100,00.

Andar pelos corredores do supermercado é um eterno Halloween fora de época, um susto atrás do outro.

Na parte dos hortifrútis: não vou dormir com o preço desse tomate.

E ainda: tá na safra e custa isso tudo? Só pode ser pegadinha.

Nos grãos, farináceos e aparentados: vou ter pesadelo com o preço do feijão.

E também: precisei de um calmante depois de ver o preço do arroz.

Já na frente do supermercado, chorando: vi o preço da carne, foi horrível.

Não faz muito, ir ao supermercado era programa de final de semana. Você via pai, mãe e filhos empurrando o carrinho quase com alegria, demorando nos corredores pelo prazer de descobrir um xampu para cabelos estressados ou o desinfetante que trazia o ar dos Pireneus para dentro do seu banheiro. Pois bem, a diversão acabou. Agora vai ao supermercado quem perder no par ou ímpar. Depois a vítima tem direito a duas semanas de folga para se recuperar da experiência.

Só faça o possível para evitar que o coitado passe na frente de um posto. Se ele enxergar a plaquinha aquela, gasolina a R$ 7,999999, aí é trauma para o resto da vida.

Últimos dias da Feira do Livro, últimos dias para comprar artigos de primeira necessidade com preços reduzidos. Uma dica de última hora: Doida pra Escrever, de uma cronista, ensaísta, professora e mil coisas mais, a mineira Ana Elisa Ribeiro. Autora que escreve com muita sensibilidade sobre tudo isso que a gente vive e que é dona de ideias assim: "Ler (...) é como uma experiência que não se salta: um beijo inteiro, um abraço de saudade ou de despedida, a dentição da criança (...)". Mais um: "Fui, naquela tarde, à floricultura comprar uma futura árvore e três arbustos. Na verdade, fui comprar futuras sombras". Vejo delicadeza no futuro dos leitores da Ana Elisa.

CLAUDIA TAJES

13 DE NOVEMBRO DE 2021
LEANDRO KARNAL

Sérgio e João estavam empenhados na obra. Era necessário usar uma espátula de pedreiro, colheres e facas, niveladores em seguida. Com isso, como se fossem arqueólogos cuidadosamente afundando uma imensa quadrícula em uma escavação, retiravam o equivalente a poucos centímetros de terra por igual do terreno todo, durante uma semana. Cuidadosamente, nas últimas horas do trabalho, nivelavam o chão escavado escondendo qualquer marca da empreitada. Ninguém perceberia. Mas o volume de terra retirado dava alguns bons quilos que precisavam ser removidos dali. Daí o domingo. Saíam para as compras já com sacolas cheias. Esvaziavam aquilo tudo num terreno baldio não muito longe dali, enchiam as sacolas com víveres, desviavam-se do olhar sempre curioso dos vizinhos e voltavam à casa no centro do terreno.

No início, Jonas percebeu que a grama se fora. Perguntou aos tios, que resmungaram algo sobre estarem reformando o jardim. Não demorou para que começasse a tropeçar quando saía da porta da casa. Com desconfortos crescentes, o jovem decidiu se mudar.

No mesmo dia em que Jonas comunicou que estava saindo e agradeceu aos velhos empoeirados pelos anos em que vivera ali, Sérgio disse ao irmão que deveriam acelerar o projeto, pois, se o sobrinho percebera, o peso noturno e ancestral poderia igualmente se inteirar de que algo estava diferente. João concordou. Em pouco tempo, a casa estava suspensa em um pequeno promontório acima do nível do chão em mais de 2m50cm.

A cena era improvável, insólita: quem passasse em frente ao muro, andando na calçada, não suspeitava de nada extraordinário; os vizinhos tampouco, pois nenhuma janela era alta o suficiente para poder enxergar o terreno dos excêntricos e reclusos Soares. Mas caso alguém conseguisse espiar ali dentro, veria que, do portão da rua até a casa no centro do terreno, tudo era um imenso e profundo fosso, com cheiro de terra fresca, absolutamente plano, meticulosamente cavado milímetro a milímetro. Os irmãos perderam peso, ganharam dores no corpo, mas, com aquelas toneladas de terra removidas, o barulho na alma se amainara. Não se extinguira por completo, porém o suficiente para que conseguissem dormir o sono dos justos.

Calculavam que seria necessário aprofundar mais um ou dois metros o terreno, enquanto subiam as escadas improvisadas para aquele bunker reverso. Teriam conseguido não fosse a visita da irmã. Antônia chegou de surpresa e ficou horrorizada. A conversa com os manos aumentou seu desespero. Não houve debate: ela internou os irmãos em uma casa de repouso.

A história que contei é real. Nomes e circunstâncias foram alterados para não trazer constrangimento aos envolvidos. Mas o que ocorreu é fantástico demais para que escape ao nosso olhar. A esperança necessita de fossos de isolamento, por vezes. A vida é estranha, porém tem gente que exagera.

LEANDRO KARNAL

13 DE NOVEMBRO DE 2021
DRAUZIO VARELLA

CIÊNCIA AINDA DEVE EXPLICAR POR QUAL MOTIVO HÁ INDIVÍDUOS IMUNES À COVID

O telefone tocou numa segunda-feira, às 23h. "Meu marido acordou com febre, fez o teste PCR, e deu positivo. O que eu devo fazer para não pegar?"

Expliquei que seria preciso isolá-lo num quarto, os dois deviam usar máscara o tempo todo e guardar o máximo de distância um do outro.

Ela quis saber se era fundamental manter o isolamento com rigor. Respondi que sim, que o período em que a transmissão acontece com mais facilidade é o que vai de dois dias antes dos primeiros sintomas a três dias depois do aparecimento deles. Ela acrescentou meio sem graça: "Pois é. Nós tivemos relações no sábado e no domingo".

A doença do marido evoluiu com comprometimento pulmonar, ele foi hospitalizado, mas não houve necessidade de transferi-lo para a UTI. Ela permaneceu assintomática, com testes repetidamente negativos.

Como explicar esses casos de contato íntimo com uma pessoa infectada, sem ocorrer transmissão? Alguns indivíduos são naturalmente resistentes ao SARS-CoV-2?

Esse fenômeno é descrito em outras viroses. Pessoas que dividem a cama com alguém resfriado ou gripado nem sempre ficam doentes. Num inquérito epidemiológico que realizamos na Casa de Detenção, o Carandiru, encontramos uma travesti presa havia vários anos que tivera mais de mil parceiros sexuais no ano anterior à pesquisa, com os quais tinha praticado sexo anal receptivo, desprotegido - a prática sexual de maior risco. Era HIV negativa. O teste foi repetido e o resultado confirmado três vezes. Naquela época a prevalência do HIV no presídio era de 13,7%.

Numa publicação na revista Nature Immunology, um grupo internacional de cientistas iniciou uma pesquisa para estudar pessoas geneticamente resistentes ao coronavírus. O objetivo é identificar os genes que as protegeram da infecção.

A dificuldade numa pesquisa com essas características é encontrar participantes que foram expostos, sem proteção, a uma pessoa infectada, por tempo prolongado, mantendo o teste negativo, como o da paciente que me ligou na segunda-feira.

No caso do estudo em questão, eles vão se concentrar em casos semelhantes: pessoas não vacinadas que dividem a casa e a cama com alguém infectado, situação definida em medicina como pares discordantes. Em 10 centros de pesquisa, um dos quais no Brasil, já foram recrutados 500 candidatos em potencial.

Desde a publicação do estudo, no entanto, surgiram mais 600 que se apresentaram como voluntários. O objetivo é chegar a mil participantes. A dificuldade será saber se o parceiro infectado eliminava quantidades altas do vírus na época do contato.

Em pesquisas anteriores, outros grupos detectaram algumas mutações genéticas que são candidatas a exercer o papel de reduzir a suscetibilidade à infecção. Uma delas seria uma mutação rara no gene ACE2, que codifica o receptor no qual o coronavírus se ancora para penetrar na célula.

Esse tipo de mecanismo foi descrito nos anos 1990, quando foi achada uma mutação rara capaz de inativar um receptor - CCR5 - na membrana dos linfócitos, que o HIV utiliza para entrar na célula. É provável que a travesti do teste negativo, depois de tantos contatos sexuais, apresentasse essa mutação.

Na época, essa descoberta conduziu ao desenvolvimento de uma classe de medicamentos contra a aids. Amplamente noticiado nos jornais foi o caso de um paciente com leucemia e aids que recebeu um transplante de medula óssea de um doador que apresentava essa mutação no CCR5.

O paciente adquiriu a mutação do doador e ficou curado da Aids. Foi a primeira cura documentada da doença no mundo.

Outro mecanismo de resistência ao SARS-CoV-2 pode ser explicado pelo desenvolvimento de respostas imunológicas potentes, especialmente nas células que revestem as fossas nasais.

A presença de mutações nos genes dessas células poderia impedir que o vírus se instalasse e se replicasse para formar novas partículas virais.

As dificuldades de uma pesquisa como essa foram resumidas por Isabelle Meyts, imunologista pediátrica da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica: "Se existir resistência genética ao SARS-CoV-2, deve haver apenas algumas pessoas com esses genes".

No caso da aids, as mutações em CCR5 também eram raras, mas a identificação delas levou à descoberta de medicamentos que ajudaram controlar a doença.

DRAUZIO VARELLA

13 DE NOVEMBRO DE 2021
REFLEXÃO

SALVE JORGE

MÉDICA RELATA A EXPERIÊNCIA DE UM COLEGA DE PROFISSÃO QUE, COM CÂNCER, É SEU PACIENTE

Jorge possui um biotipo grande. Jorge é rabugento, mas gente boa. Jorge não é de explicitar seus sentimentos, mas se derrete feito manteiga. Jorge tem câncer. Jorge é médico. Jorge é meu paciente.

Nosso primeiro encontro não foi amigável. Jorge mostrava-se nervoso com sua estadia no hospital. Seu grau de irritação denotava o que seu conhecimento técnico teimava em negar. Pressentia que as novidades não seriam boas. Os respingos de sua ira para com o mundo me atingiram.

Expliquei-lhe o que ele já sabia, mas de uma forma organizada para que chegássemos ao diagnóstico o mais breve possível. As hipóteses mestras eram um linfoma agressivo, ou uma grave infecção. Infelizmente, a primeira confirmou-se.

Durante a biópsia de medula óssea, sob anestesia local, ficamos conversando - é uma tática para distrair o cérebro do desconforto trazido pelo procedimento. Jorge me contou de seus dois filhos e dos planos recentes, que incluíam trabalhar menos. Dizia-se receoso e solicitou a presença da esposa enquanto eu retirava uma amostra do interior de seu osso do quadril para análise. Contudo, não tenho certeza se ele segurou a mão dela enquanto eu trabalhava, como dissera precisar fazer.

Passaram-se alguns dias repletos de angústia até a confirmação definitiva do problema. A doença progredia em ritmo de galope, e um tratamento igualmente potente precisou ser iniciado. A partir da quimioterapia, um outro Jorge surgiu -- ao menos para mim. Ele aceitou que, dessa vez, encontrava-se do outro lado do jogo. Deixara de ser o técnico que decide para ser um centroavante que, mais do que nunca, era fundamental para o gol. Jorge, sabiamente, assumiu o papel de paciente.

Disciplinado e cordial, acatou as orientações como um soldado em batalha. Compreendeu, de maneira natural, que trocaria de lugar em mais uma atribuição de sua vida: permitiu que seu filho, um jovem tão determinado quanto protetor, cuidasse do pai. Desta forma, ambos aprimoraram modos diferentes de experimentar afeto.

Jorge e sua doce esposa encontraram uma forma peculiar de se mostrarem gratos - ao meu trabalho e à vida em geral.

Presenteiam-me com comida. Alimento com gosto de aconchego. Comida da casa da mãe, impregnada de afeto a cada garfada. Mantimentos de esperança.

São Jorge é considerado o Santo guerreiro. Meu paciente, decerto, tem se inspirado na história do padroeiro homônimo, uma vez que me confessou que tem revisto suas crenças: "que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar".

Como na oração a São Jorge, meu paciente luta por sua saúde de forma bela e serena, minimizando o estrago em seu entorno provocado por uma guerra ímpia. Coisas de Jorge.

RAFAELA KOMOROWSKI DAL MOLIN (*)

13 DE NOVEMBRO DE 2021
BRUNA LOMBARDI

CLARICE

Comecei a escrever muito cedo, sem saber que isso me levaria a conhecer de perto meus maiores ídolos. Desde os 11 anos, meus pais me davam os livros e eu lia, imaginando que os escritores eram todos de algum outro século.

Anos mais tarde, comecei a publicar poemas em revistas literárias. E uma vez recebi um cheque de 400 dólares da Universidade de Nova Iorque por uma poesia. Foi assim que descobri que se podia ganhar dinheiro escrevendo.

Quando lancei meu primeiro livro, No Ritmo dessa Festa, fui convidada participar da Feira do Livro em Porto Alegre, um dos maiores encontros literários, que reuniu escritores de todo país. Foi quando conheci gente que eu tanto admirava, como Luis Fernando Verissimo, Carlos Nejar, Sergio Faraco, Clarice Lispector, Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, entre tantos outros. E naturalmente, Mario Quintana, que se tornaria meu grande amigo da vida inteira. Perto desses gigantes, eu era considerada a "mascote" da turma.

Para minha surpresa, Clarice Lispector e eu nos aproximamos. Ela era uma entidade, eu era fã e agora ela conversava comigo como uma amiga, apesar da enorme diferença de idade, e me fazia sentir seu afeto. Tinha um carisma incrível. Era muito bonita e fiquei sabendo que tinha tido um acidente, um incêndio no apartamento quando ela adormeceu com um cigarro aceso. Tinha cicatrizes e certa dificuldade de movimento. Mas nada disso tirava a sua beleza. O rosto de desenho forte, marcante, as maçãs do rosto salientes. Tinha um brilho intenso. E um olhar tão profundo. Parecia que olhava dentro da gente.

Tudo nela me impressionou, sobretudo sua generosidade. Quando nos despedimos em Porto Alegre, me convidou para ir ao seu apartamento no Rio de Janeiro. É claro que eu fui.

Minha lembrança é a de um apartamento meio na penumbra, com as venezianas baixas e reflexos de luz e sombras na parede.

Clarice tomava café preto forte. Eu a acompanhava. Uma vez comentou sobre a dificuldade de ser mulher escritora no Brasil e me mostrou o cheque de seus direitos autorais. Era um cheque de 16 cruzeiros, uma quantia ínfima. E me disse:"Bruna, você precisa ter outra profissão. Todos nós temos". E acrescentou: "Não dá pra viver disso que a gente faz".

Para mim, foi um aviso, compreendi que não ia conseguir viver de literatura se uma das maiores escritoras brasileiras não podia sobreviver dos direitos de seus livros.

Ela era cheia de perguntas, curiosa de tudo. Lembro que falamos que era a curiosidade que nos movia, essa inquietação que não sossegava dentro da gente. Acho que nos reconhecemos nisso. E talvez foi por essa curiosidade que se aproximou de mim.

Clarice era uma mulher poderosa e extraordinariamente sábia. Era um mulher que impressionava, muito observadora e atenta e eu a via com puro encantamento.

Um raro ser humano que dava a impressão de viver de sensações e intuições, como se as palavras não lhe fossem suficientes para traduzir. Nem agora são para que eu possa agradecer esses momentos preciosos.

No ano seguinte, ela se foi para sempre.

BRUNA LOMBARDI

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