sábado, 23 de dezembro de 2023



23 DE DEZEMBRO DE 2023
EUGÊNIO ESBER

ENTRANDO NUMA FRIA

Não lembro exatamente quantos Natais foram, mas de uma coisa tenho certeza: Dona Irene sonhava com uma geladeira nova, ou pelo menos uma melhorzinha do que aquela que tínhamos lá em casa e que já acusava o peso da idade. Minha mãe sempre foi sonhadora, e quem a puxava para o rés do chão era minha avó, Dona Rosa, que a ajudou a pastorear e manter na linha a filharada que ficara órfã de pai no início dos anos 1970.

- Geladeira... Pra botar o quê?

Dona Rosa sabia bem para quê, mas era seu jeito de fustigar a filha e quem mais estivesse por perto para ouvir suas imprecações contra a dureza daquela vida de voltar do açougue com meio quilo de guisado.

Eu não entendia muito bem o que se passava, e como todos os inconscientes vivia sossegado em minha alienação. Só queria saber de ganhar um revólver de espoleta para brincar de soldado e ladrão, mas, como cantou João Nogueira no clássico Espelho, "foi mais uma vontade que ficou para trás" no ir-e-vir de Natais em que Papai Noel voava a jato pelo céu, inalcançável.

O sonho de Dona Irene era o de milhões de donas de casa, e se existe uma coisa que o brasileiro foi à luta para conquistar desde aqueles antigos Natais é a sua "Frigidaire", sua "Steigleder" e todas as marcas que viriam depois, oferecendo mais comodidade e menor consumo de energia dentro, é claro, das nossas possibilidades de aquisição, que ainda estamos longe de viver como suecos.

Fabricantes se esmeraram para fazer geladeiras adequadas a todos os bolsos. As famílias foram à luta. Governos não atrapalharam - ao contrário. E o que se vê é que, hoje, quase 100% dos brasileiros têm uma geladeira em casa - boa parte, é claro, já pedindo aposentadoria, como a de minha mãe lá nos tempos do sobrado da Rua Riachuelo, em Cachoeira do Sul. Para tais brasileiros, este Natal de 2023 trouxe um embrulho no estômago. O atual governo brasileiro quer enquadrar a indústria de refrigeradores em padrões de eficiência energética que, segundo a associação de indústrias do setor, deve elevar o custo de uma geladeira básica de menos de R$ 2 mil para cerca de 5 mil.

Dona Rosa certamente perguntaria: - Pra quê isso?

Há muitas respostas, nenhuma convincente. O salto no preço das geladeiras seria compensado, diz o governo, com a redução da conta de luz. Um argumento fraco diante de pessoas que não podem ou não querem fazer um investimento que só se pagará ao longo de anos. Mas o objetivo central desta e de outras medidas que estão no forno do governo federal, e que não têm encontrado no parlamento ou na imprensa maior questionamento, é reduzir de forma drástica e leviana a emissão de carbono no país para se apresentar ao mundo rico como exemplo no combate ao aquecimento global. Uma afetação. O Brasil é responsável por menos de 5% das emissões de dióxido de carbono - muito atrás das emissões de Estados Unidos e Europa, no mundo rico, e de países que vêm acelerando seu desenvolvimento industrial, casos da China e da Índia.

O Brasil se atrasa para seu governo posar de vanguardista ambiental, enquanto finge não ver grande parte da população exposta ao esgoto que corre a céu aberto.

É uma fria, diria Dona Rosa.

EUGÊNIO ESBER

Meus votos

Que eu não recrimine quem não concorda comigo.

Que eu não tente convencer o outro a pedir desculpas - cada um tem seu tempo e seu ritmo.

Que eu dispense chantagens e birras.

Que eu aguente o silêncio e as dúvidas.

Que eu não olhe para baixo antes de me aventurar nas alturas.

Que eu escreva bilhetes de amor fora das datas comemorativas.

Que eu planeje meu aniversário com antecedência e não dependa de festa surpresa.

Que eu telefone mais e mande menos áudios.

Que eu visite mais meus afetos e dê menos explicações.

Que eu frequente mais a academia e menos as farmácias.

Que eu viaje para sentir saudade.

Que eu mate a fofoca quando ela passar por mim.

Que eu aprenda a somente gastar o que recebo, a pagar à vista para não sofrer depois com o cartão de crédito.

Que eu cuide de mim ao atravessar a rua ou a inveja.

Que eu me dê o luxo de ficar na varanda até anoitecer, até ouvir as cigarras.

Que eu repare como está a lua, se o céu anda estrelado.

Que eu não me atrase nos encontros e reuniões, não deixe ninguém esperando.

Que eu ajude sem questionar.

Que eu ofereça conforto sem condenar.

Que eu não exija demais de mim.

Que eu não exija demais de quem eu amo.

Que eu leia diante da lareira, diante da janela durante a chuva, diante do mar quebrando as ondas.

Que eu dance sem música.

Que eu gargalhe sem piada.

Que eu me emocione sem motivo.

Que eu chore sem censura.

Que a reciprocidade e o merecimento possam reger meus contatos.

Que eu esteja apenas onde sou bem-vindo, que eu me demore onde sou benquisto.

Que eu não vá a nenhum lugar contrariado, só para agradar.

Que eu me reserve o direito de me afastar de pessoas tóxicas.

Que eu fique bem quando estiver de mal com alguém.

Que eu espere a raiva passar.

Que eu encontre frestas para ser livre, para tomar banho de cachoeira, para me conectar com a natureza.

Que eu desfrute de companhia para dividir o chimarrão, companhia para brindar com vinho.

Que eu esqueça o celular no bolso.

Que eu tenha coragem para diversificar os pratos, para me arriscar em receitas exóticas, para sair um pouco do que já gosto.

Que eu jamais passe adiante segredos de amigos.

Que eu nunca seduza para me sentir importante.

Que eu conte animadamente como foi meu dia na hora do jantar.

Que eu não veja somente o que está errado.

Que eu durma em paz e desperte mansamente, longe de sobressaltos.

Que eu escute meus pais com paciência, não querendo me antecipar aos seus pensamentos.

Que eu doe as roupas que não uso.

Que eu gaste as roupas novas dentro de casa, mostrando-me elegante aos meus íntimos.

Que eu não tenha medo da sinceridade.

Que eu não procure culpados para meus próprios desacertos.

Que eu saiba do meu valor, que eu reconheça o meu esforço.

Que eu demonstre empatia na doença e no luto.

Que eu reze para agradecer.

Que eu não desista de um objetivo pelo tamanho das filas.

Que eu não me preocupe com a volta quando estiver me divertindo.

Que eu use somente as palavras em que acredito.

Que eu tenha menos vaidade na hora de ouvir e mais vaidade na hora de falar.

Que eu atenda aos conselhos da intuição.

Que eu não sofra mais com o meu time, que ele não leve gol nos últimos minutos.

Que eu faça brigadeiro para maratonar séries e não me aflija com a dieta.

Que o governo seja competente para ser esquecido.

Que eu não tenha que jurar por Deus para me tornar confiável.

Que eu regue as plantas, hidrate os meus sonhos.

Que eu não reclame do calor e do trânsito a todo momento.

Que eu aceite a vida escolhida pelos meus filhos.

Que eu estabeleça amizades a partir da gentileza.

Que eu não precise repetir o que me dói.

Que eu me lembre de ser feliz enquanto ainda estou vivo.

CARPINEJAR 


23 DE DEZEMBRO DE 2023
FLÁVIO TAVARES

NATAL & NOEL

O Natal aí está. E com ele, Papai Noel trazendo presentes e nos levando a presentear. Mas a data vai além dessa troca, pois presentear é uma forma de recordar o nascimento daquele menino que, adulto, proclamou o maior ensinamento a nortear nossas vidas: "Ama ao próximo como a ti mesmo".

Não é este o presente maior que a humanidade pode dar a si mesma?

Hoje, o comportamento humano e filosófico tem como pauta suprema o amor ao próximo. Por isso, amaldiçoamos as guerras e os conflitos, pois matar e destruir são a negação do amor. Aí estão as guerras da Rússia contra a Ucrânia ou entre o Estado de Israel e os palestinos do Hamas mostrando que não aprendemos sequer a dialogar. Muito menos a amar.

Aí estão as brigas ou desavenças entre os casais, substituindo o amor de ontem pelo ódio de hoje. Os crimes passionais e os feminicídios, hoje comuns, são pequena mostra disso, tal qual uma gota d?água no oceano.

Tudo isso (e muito mais ainda) se opõe ao espírito do Natal e dos presentes do Papai Noel. Natal e Noel estão unidos entre si, simbolizando o que os Reis Magos presentearam ao recém-nascido.

Em alguns países é hábito presentear no dia 6 de janeiro, que recorda a visita de Gaspar, Melchior e Baltazar à manjedoura da estrebaria em que nasceu o menino. Hoje quase se perdeu o costume de armar em casa os presépios natalinos, que nos templos católicos e luteranos chegavam a monumentais. Pouco se vê o pinheirinho de Natal ornado com globos símbolos de vida.

Mas o símbolo maior de amor que presenciei foi-me dado por quem não era religioso, nem comungava a visão cristã do Natal. Chamava-se Israel Wengrover e tinha uma fábrica de bonecas na Rua São Pedro, em Porto Alegre. Nas noites de Natal, saía às ruas com um saco às costas, distribuindo presentes à gurizada. Nascido num gueto judaico na Polônia, seu gesto era uma prova de amor ao país que o acolhera.

Contrariando tudo isso, agora a prefeitura da Capital deixou sem abastecimento de água alguns bairros da cidade, muitos deles habitados por gente humilde e trabalhadora, que nem sequer pode pretender festejar o Natal, pois água é vida.

FLÁVIO TAVARES

23 DE DEZEMBRO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

A RADIOGRAFIA DO TRABALHO INFANTIL

Depois de três anos seguidos de redução, quando parecia que o Brasil estava vencendo um antigo inimigo que obstaculiza o futuro de muitos jovens, o trabalho infantil recrudesce no país. Foi o que mostrou a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua sobre o trabalho de crianças e adolescentes divulgada na última quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Até 2019, o levantamento iniciado em 2016 vinha mostrando retração no número de menores de 18 anos submetidos a atividades incondizentes com sua fase de desenvolvimento, mas o período da pandemia provocou um retrocesso na situação: o número de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil saltou de 1,76 milhão em 2019 para 1,9 milhão em 2022.

Ainda que as dificuldades impostas pela pandemia possam explicar parte do fenômeno, o levantamento revela um aspecto que torna o problema mais grave e preocupante: entre 2019 e 2022, a população de cinco a 17 anos diminuiu 1,4% no país - e mesmo assim o contingente de trabalhadores neste grupo etário aumentou 7%.

É evidente que o agravamento da deformação está relacionado com a queda de renda das famílias mais vulneráveis no período da pandemia, mas não se pode desconsiderar, também, uma questão cultural que ainda precisa ser mais bem trabalhada em nosso país. Muitas pessoas continuam achando que o ingresso precoce de meninos e meninas no mercado de trabalho, quase sempre na informalidade por causa da legislação, ajuda na sua educação. É um grande equívoco: crianças precisam ser protegidas, alimentadas, educadas, em casa e na escola, e precisam também desfrutar da infância com liberdade para brincar. Trabalho sistemático, mesmo que sejam tarefas domésticas, priva a criança de parte desses direitos.

Há, evidentemente, exceções compatíveis com a faixa etária se considerarmos que a definição de criança não é única para as organizações que atuam nesta área. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) considera criança "qualquer pessoa com menos de 18 anos de idade". Já o Estatuto da Criança e do Adolescente define criança como "pessoa com até 12 anos de idade incompletos". A legislação brasileira proíbe qualquer forma de trabalho antes dos 13 anos, mas admite que adolescente entre 14 e 15 anos atue como aprendiz e restringe para a faixa de 16 e 17 anos apenas o trabalho noturno, insalubre e perigoso.

Independentemente de interpretações técnicas, porém, o crescimento do contingente de crianças envolvidas com o trabalho degradante - perceptível inclusive nos sinais de trânsito das cidades maiores - é um retrocesso que exige revisão de políticas públicas e urgente interferência das autoridades para resgatá-las. Considerando-se o contexto social, não basta apenas devolvê-las à escola. É imprescindível, também, oferecer alternativas para que as famílias de baixa renda possam sobreviver sem o auxílio financeiro proveniente do trabalho que sacrifica a infância, como acaba de ser revelado em números pela constrangedora radiografia do IBGE.


23 DE DEZEMBRO DE 2023
MÍDIA

Grupo RBS celebra conquistas de 2023

Em uma tarde de celebração dos resultados de 2023 e de projeções para 2024, o Grupo RBS reuniu líderes, comunicadores e membros do Comitê Executivo e do Conselho de Representantes. Realizado no Grezz, Espaço Multicultural, na quarta-feira, o tradicional Encontro de Líderes foi conduzido pelo CEO da RBS, Claudio Toigo, e pela mestre-de-cerimônias Alice Bastos Neves, e destacou o ciclo de crescimento da empresa e a transformação digital em curso.

Com a meta de dobrar os resultados do digital em três anos, foi anunciada em 2023 uma frente de 11 iniciativas. O objetivo é ampliar ainda mais a relevância e o protagonismo das marcas de Jornalismo, Esporte e Entretenimento no digital, apostando em novos conteúdos e formatos, bem como na renovação do portfólio comercial. Para isso, mais de cem novas posições serão abertas em 2024.

- Estamos investindo no desenvolvimento das pessoas da empresa e em uma profunda transformação digital para seguirmos manifestando o nosso propósito, mantendo o papel essencial que exercemos na comunidade - destacou Toigo.

Entre dezenas de conquistas, foram destacadas a liderança de audiência em todos os veículos de Jornalismo e Esporte do Estado, em 2023, com três rádios no pódio das mais ouvidas na Grande Porto Alegre, com a Gaúcha em primeiro lugar, seguida por Atlântida, na segunda colocação, e 92, em terceiro lugar. Este também foi o ano da renovação dos três telejornais locais e consolidação do projeto Bem Pra Ti, com 18 edições, e de grandes coberturas, como a das enchentes que assolaram o Estado.

Como spoiler do que está por vir em 2024, foram anunciadas novidades para maio, quando Zero Hora completa 60 anos: uma "revolução do projeto impresso e do projeto de GZH", nas palavras de Toigo.

Na ocasião, foram apresentados os resultados e projetos da RBS Ventures, media capital do Grupo RBS. Maurício Sirotsky Neto, membro do Conselho de Representantes e sócio-fundador da RBS Ventures, salientou que o mercado reconheceu o modelo media for equity: com pouco mais de um ano, a media capital do Grupo RBS encerra 2023 com seis empresas investidas e está em estágio avançado de negociação com mais de 15 oportunidades de negócio.

Em nome do Conselho de Representantes, o vice-presidente Fernando Tornaim destacou a sintonia entre conselheiros e gestão da empresa. Membro do Conselho e Publisher, Nelson Sirotsky reforçou a importância do novo modelo de governança, que se reflete no que classificou de desempenho extraordinário do Grupo em 2023:

- Nosso objetivo é criarmos um modelo de governança que dê suporte à continuidade da nossa empresa, acreditando no futuro do nosso negócio, no futuro da comunicação, no futuro do Rio Grande do Sul e, especialmente, nas nossas pessoas.

Reconhecimentos

As mais de 200 pessoas presentes homenagearam o acionista Pedro Sirotsky, que completou 50 anos de casa. Ao lado de familiares, Sirotsky recebeu o troféu de jubilado e um quadro que retrata o período em que esteve à frente do programa Transasom, nos anos 1970. Ao longo desse período, Pedro foi chave na construção da linha editorial da Rádio Gaúcha, na criação da rádio Atlântida e se dedicou à gestão empresarial dos veículos em Santa Catarina. No encontro, Pedro também inspirou o público com a performance Mr. Dreamer - A Vida, os Ciclos e a Música, na qual fala de seu amadurecimento como comunicador e como empresário, contextualizando sua história com a do rock.

Ao final, o acionista Fernando Ernesto Correa recebeu o reconhecimento por seus 60 anos de história na RBS. Jornalista e advogado, Correa teve participação decisiva na consolidação da empresa. O acionista Jayme Sirotsky entregou o troféu de jubilado ao amigo de longa data. Ao discursar, o homenageado ressaltou a importância da liberdade de imprensa e do compromisso do jornalismo com a veracidade da informação.


23 DE DEZEMBRO DE 2023
DIÁRIOS DO PODER

Por que a Grécia é o "país do ano" - e o Brasil, não

Desde 2013, a cada ano, a revista The Economist, referência global em jornalismo econômico, escolhe o "país do ano". Como toda "premiação" do tipo, os indicadores não são completamente objetivos. E, para uma publicação com forte característica liberal, os quesitos obedecem a cânones como livre-mercado, liberdade de imprensa e expressão e reformas que privilegiam o Estado enxuto.

Em 2023, o "país do ano" eleito pela Economist é a Grécia. A nação que, há uma década, era símbolo da quebradeira provocada pela crise da dívida que quase levou o bloco europeu ao colapso, deu a volta por cima.

Para recordar: no auge da tempestade, em 2012, o PIB grego despencou 25%, e o desemprego atingia quase um terço da população. Entre 2010 e 2015, o país recebeu três pacotes de ajuda emergencial da União Europeia (UE), enquanto empresas iam à falência sob governos que seguiam cartilhas de extremos - da direita à esquerda.

Passados 10 anos, a Grécia voltou à "normalidade" política: tem um primeiro-ministro de centro-direita, Kyriakos Mitsotakis, reeleito em junho e uma política externa pró-UE e EUA. É uma das economias que mais cresceram no continente: em 2022, o PIB avançou 5,9% e, no ano anterior, chegou a incríveis 8,4%. A taxa de desemprego ainda não é das melhores (11%), mas para quem chegou a 28% naquele trágico 2012 é um grande avanço. Parte importante do segredo para voltar ao clube de bons pagadores está na austeridade fiscal adotada pelo país e nas reformas econômicas aprovadas nos últimos anos.

No poder desde 2019, Mitsotakis deflagrou uma série de políticas de disciplina fiscal, como corte de gastos e reformas que diminuíram a máquina pública, gerando maior produtividade e dinamizando a economia grega.

Para a "premiação", a Economist ficou em dúvida entre três países. Além da Grécia, a Polônia e o Brasil eram candidatíssimos.

Com relação ao primeiro, a revista elogia o fato de a economia polonesa ter resistido à guerra entre Rússia e Ucrânia que se avizinhou, ter ganho relevância interna na Otan e ainda feito um trabalho de acolhimento dos refugiados do conflito. Mas a herança do partido populista Lei e Justiça (PiS) seguiu fazendo estragos, cerceando a independência da Justiça e violando liberdade de expressão e de imprensa. Recentemente, a legenda sofreu derrota nas urnas, e o país voltou à racionalidade com um primeiro-ministro de centro, Donald Tusk. Por isso, não levou a distinção.

Por falar em "normalidade", o Brasil, também candidato a "país do ano", foi destacado pela Economist pelo resultado das eleições de 2022 e pelo primeiro ano do novo mandato do presidente Lula, com respeito às instituições. Também chamou a atenção dos editores da revista a redução do desmatamento na Amazônia.

Mas o Brasil não ganhou o prêmio devido às relações próximas do governo com a Venezuela de Nicolás Maduro e com a Rússia de Vladimir Putin. Nas palavras do editorial da Economist, tanto Polônia quanto Brasil "se destacam por voltar à moderação após caminhar no lado selvagem".

RODRIGO LOPES

23 DE DEZEMBRO DE 2023
POLÍTICA +

É preciso fazer justiça com o ministro Fernando Haddad

As previsões catastróficas feitas no final do ano passado, quando Fernando Haddad foi anunciado ministro da Fazenda, não se confirmaram. Pelo contrário. A bolsa de valores chega ao final de 2023 com recorde de pontos no Ibovespa, o dólar recuou e segue em trajetória descendente, a inflação caiu e voltou para o centro da meta, os juros vêm baixando de forma consistente, o desemprego caiu e o PIB de 2023 vai crescer acima das previsões dos economistas.

Caso se confirmassem as previsões dos catastrofistas de que o Brasil viraria uma Argentina ou uma Venezuela, Haddad levaria a culpa. Por que, então, os economistas e as entidades empresariais, sobretudo no Rio Grande do Sul, resistem tanto em lhe dar os créditos? Para setores alinhados com o bolsonarismo, todos os acertos vão para o prontuário do presidente do Banco Central, Roberto Campos Netto, como se fosse ele o responsável pela política econômica do governo.

Campos Netto tem seus méritos, já que resistiu às pressões políticas e só concordou em reduzir o juro depois de ter certeza de que a queda da inflação era consistente. Mas Haddad está longe de ser um ministro decorativo e teve papel fundamental na colheita de bons resultados.

Até o insuspeito ex-presidente Michel Temer reconheceu que foi surpreendido positivamente com o desempenho do ministro. Na Faria Lima, coração do mercado financeiro de São Paulo, existe o reconhecimento de que Haddad tem pulso firme sem deixar de ser cortês.

As viúvas de Paulo Guedes não conseguem perceber que o ministro da Fazenda trava uma batalha cotidiana com os setores do PT que defendem a gastança a qualquer custo (Gleisi Hoffmann à frente) e têm urticária quando se fala de equilíbrio fiscal. Se querem o bem do Brasil e não compactuam com a tese do "quanto pior, melhor", deveriam trabalhar pelo fortalecimento do ministro da Fazenda. Por que não o fazem? Talvez por medo de que ele venha a se fortalecer como possível candidato à sucessão de Lula, mas faltam três anos para a eleição e ninguém tem nada a ganhar com a crise.

Justiça se faça também à ministra do Planejamento, Simone Tebet, que trabalha com discrição e se revelou uma aliada de Fernando Haddad no time do bom senso. Adepta do equilíbrio fiscal, Simone evitou discussões públicas com os detratores e manteve a serenidade em um ano que teria tudo para ser turbulento, mas não foi.

ROSANE DE OLIVEIRA

23 DE DEZEMBRO DE 2023
cLÁUDIA LAITANO

Meu filme de Natal

Não é aquele tipo de filme que a gente coloca na televisão enquanto as crianças tentam desmontar os brinquedos novos e os adultos esvaziam as últimas taças de champanhe. Também não é a melhor opção para se assistir no dia seguinte, de ressaca, liquidando o que sobrou da ceia da véspera.

Meu filme de Natal preferido não é uma comédia romântica como Simplesmente Amor (2003), que nos últimos anos virou o favorito da temporada. Também não é um clássico que restitui nossa fé na Humanidade, como A Felicidade não se Compra (1946), ou uma comédia que agrada a família toda, como Esqueceram de Mim (1990) ou Elf (2003).

Conclusão: meu filme de Natal preferido, Fanny e Alexander (1982), provavelmente não é um bom filme para se assistir no Natal. Ou é?

Ingmar Bergman lançou duas versões da sua obra mais claramente inspirada em suas memórias de infância. A versão "compacta", com pouco mais de três horas, passou nos cinemas de Porto Alegre no início dos anos 1980. A versão completa, em formato de minissérie para a TV, tem mais de cinco horas de duração. Foi esta segunda que eu assisti, pela primeira vez, nos últimos dias - e nada poderia ter me colocado mais no clima da festa.

No primeiro episódio de Fanny e Alexander, uma família está reunida diante de uma alegre e suntuosa mesa de Natal (estamos no início do século 20, na Suécia). Mas o espírito natalino da história não está no aparato festivo ou na reencenação das muitas tradições ligadas à data. Sentimentos que a maioria de nós aprende a associar ao Natal são a própria matéria de que o filme é feito: alegria, fantasia, nostalgia, melancolia... Tudo junto, misturado, e vivido de formas diferentes em cada etapa da vida.

O filme conta a história da exuberante família Ekdahl, que entra em crise quando o adorado pai dos irmãos Fanny e Alexander morre, e a mãe se casa novamente com um homem incapaz de amar ou de se divertir (no Natal ou em qualquer outro momento). A história é contada do ponto de vista de Alexander, alter ego de Bergman, que aprende a enfrentar a aridez espiritual do padrasto com a força da imaginação e das histórias que são passadas de uma geração para a outra.

Fanny e Alexander é um filme sobre memória, sobre afetos e sobre a variedade de personalidades e dramas íntimos que compõem uma grande família. O Natal, por sua vez, é a festa que pontua a passagem do tempo, as perdas, as dores e as esperanças renovadas por um nascimento ou qualquer outro tipo de aposta no futuro (casamentos, viagens, mudança de emprego?). Natais às vezes são alegres, outras nem tanto. Às vezes são tediosos, outras cheios de drama.

Seja como for, é a festa que nos lembra de onde viemos, para onde vamos e com quem podemos contar na jornada.

CLÁUDIA LAITANO

23 DE DEZEMBRO DE 2023
MARCELO RECH

Insubstituíveis

O apelido dele não é esse, mas o batizamos de Seu Gentileza por motivos óbvios. Cordial, atencioso, incansável em atender bem quem atravessa a porta de sua pequena ótica. Seu Gentileza lembra um passado de atendimento próximo e preocupado com o bem-estar dos clientes, mas na verdade ele é o futuro - o contraponto a um comércio digital asséptico, robótico, ordenado por programadores de inteligência artificial a milhares de quilômetros.

Seu Gentileza cuida dos óculos da família há umas duas décadas. Tinha uma lojinha de esquina, mantida por ele e pela mulher, igualmente atenciosa. Sem surpresa, cresceram, se mudaram há alguns meses para instalações maiores e contrataram uma auxiliar, dedicada como ambos. Não saíram do bairro, do círculo de crianças e adolescentes que veem crescer e dos antigos clientes que vão precisando de lentes com grau cada vez mais alto.

O segredo de Seu Gentileza não são só a gentileza e os preços justos. O que o torna notável é a sua paixão por armações e lentes. Fico extasiado ao ver seu entusiasmo em discorrer sobre o aro que melhor se adapta ao rosto do cliente e demonstrar paciência de monge em sugerir alternativas até que se consuma a compra.

Seu Gentileza não precisa exercer o posto de embaixador em Paris para ser feliz e encontrar seu propósito a cada dia em que repete o ritual de abrir a lojinha. Ainda que sem as emoções de montanhas-russas, basta-lhe contentar a clientela com a convicção de que não está só vendendo óculos, mas ajudando alguém a enxergar melhor. E cumprimentar pelo nome o cliente que entra para um ajuste e uma limpeza - sem pagar nada, é claro.

Ali no bairro, a algumas quadras de Seu Gentileza, também tem uma ferragem das antigas, de prateleiras alcançáveis por escadas e corredor entupido de quinquilharias. Quando me mudei, há quase três décadas, já estava lá, bem como, acredito, alguns de seus funcionários. Ao contrário de Seu Gentileza, eles não primam pela simpatia. O que os distingue é a experiência adquirida. Alguns já devem estar bem entrados nos 70 anos, mas deus os livre de irem pro Litoral pescar. Eles têm prazer em descrever em detalhes os diferentes modelos de dobradiças e encontrar a conexão mais adequada para cada tipo de encanamento. Valem ouro para clientes enredados nos enigmas dos parafusos.

A ótica da gentileza e a ferragem do conhecimento são insubstituíveis. Mesmo que um dia possamos apertar um botão no computador e horas depois receber uns óculos personalizados, dispenso a conveniência. Não troco a gentileza e a experiência do comércio do bairro por uns tostões economizados, e muito menos por um robô apatetado que finge simpatia, mas é apenas um incompetente digital na relação com humanos.

MARCELO RECH

sábado, 16 de dezembro de 2023


16 DE DEZEMBRO DE 2023
MARTHA MEDEIROS

Fartura de estilhaços

Redes sociais. Venho percebendo que minha estafa vem também desse lugar. O cansaço não é proveniente apenas do excesso de compromissos, mas do movimento de uma única parte do meu corpo: o dedo indicador que conduz, na vertical, a rolagem das postagens do feed, e na horizontal, a sequência de stories. Um único dedo promovendo a anarquia destrutiva dos sentidos. Em um minuto sinto compaixão, e no outro, cobiça. Um minuto de informação, e no seguinte, espanto. Sentimentos fragmentados pelo vício em consumir tudo sem sentir o gosto.

É o fim da experiência completa. Apenas caquinhos de um universo craquelado. O domínio sobre o aparelho em nossas mãos tornou-se ilusório diante da ansiedade crônica: queremos mais e mais deste quase nada com filtro.

Pílulas de sabedoria, edição de programas, pedaços de podcasts, frases soltas, conhecimento mastigado. Tudo muito prático, uma bandeja de aperitivos. A integralidade ruiu. A vida rarefeita vai passando pela janela do celular em rapidez supersônica, como as cenas do clássico Koyaanisqatsi, filme que há 40 anos já denunciava o nosso colapso diante da pressa.

Alta velocidade gera adrenalina, mas também desespero: a que momento surgirá o muro contra o qual nos chocaremos? O medo se mistura ao desejo de que esse muro exista mesmo e nos pare. Suplica-se por uma via de escape dessa ciranda frenética. De repente, a vontade é de não mais saber, não mais conhecer, não ser encontrado pelos sites de venda - interrupção do fluxo contínuo. Abandonar as redes seria uma opção de livramento, mas um suicídio metafórico: o sujeito desconectado será ainda considerado um ser vivo?

Olhos esbugalhados, sem piscar, para não perder nada do que acontece: me veio agora a cena aflitiva de outro clássico do cinema, Laranja Mecânica, em que o personagem Alex é impedido, por pinças metálicas, de fechar os olhos. O objetivo é fazê-lo se acostumar com o que ele não pediu para ver, até que ele perca o senso crítico e a profundidade, tornando-se mais um objeto a serviço dos interesses de quem detém o poder. E o poder tem nome. Dinheiro.

A impaciência tem sido um dos efeitos colaterais desse frenesi. Interrompemos a fala dos outros, amamos e odiamos por impulso e não conseguimos assistir a um reels até o fim. E assim, humilhados pela nossa própria inquietação, seguimos fazendo de conta que é possível se tornar mais sábio e atualizado, apenas acelerando o dedo indicador, enquanto reduzimos a zero nossa concentração. Quantos livros você leu este ano?

Sem coragem para desembarcar deste trem-bala, mantenho meus perfis operantes, já que a tecnologia facilita a divulgação do meu trabalho. Mas contra o esgotamento da alma, só a nostalgia me ampara.

MARTHA MEDEIROS

Então é aquilo

Você sabe que acabou-se o que não necessariamente foi doce quando entra nas lojas e supermercados e músicas natalinas - nos piores arranjos jamais cometidos por um arranjador - estão tocando em looping.

Tlintlin-tlin-tlin-tlin-tlin.

Música de Natal tocando sem parar no comércio significa que o ano já era, meu chapa, minha chapa. E que antes de pular as sete ondinhas - metaforicamente, que seja - você vai ter que ouvir muito sino, muito guizo, muita harpa, muita trombeta.

Tlintlin-tlin-tlin-tlin-tlin.

Chegou o 30 de novembro? Pimba. Os gerentes abrem a gaveta de enfeites de Natal e tiram de lá o pendrive com a coleção que vai embalar os clientes até a última venda do dia 24 de dezembro. O clássico dos clássicos: Então é Natal - e Ano Novo também, canta Simone há décadas, como se a gente ainda não tivesse entendido.

Então é Natal, a versão brasileira de Happy Xmas, a música em que John Lennon mirou no fim da Guerra do Vietnã e acertou no peru com arroz à grega de todas as famílias cristãs ao redor do planeta.

Isso sem falar nos temas instrumentais que não saem dos alto-falantes do varejo, machucando os ouvidos mais sensíveis - e, às vezes, as almas, por trazerem recordações nem sempre tão boas.

Jingle Bells. Bate o Sino Pequenino. Noite Feliz. Sapatinho de Natal. A trilha do Banco Nacional, que faliu, mas deixou como legado música natalina mais bonita de todos os tempos. "Quero ver você não chorar/ Não olhar pra trás/ Nem se arrepender do que faz." Bem verdade que isso não inclui quem investiu no banco.

De todas, a trilha mais inadequada para um cliente em compras é Eu Pensei que Todo Mundo Fosse Filho de Papai Noel. Você lá, gastando mais do que pode para presentear seus filhos e sendo lembrado de que muita criança não vai ter Natal. Dá vontade de desistir de tudo, mas o que dizer para os seus filhos?

Uma prática que tenho considerado bastante cruel é música de Natal tocando no Uber. No supermercado você consegue reagir, corre pelos corredores, não entra na fila da padaria, deixa para trás metade dos víveres e escapa. No Uber, impossível. Você está preso com os sinos, os guizos, as harpas, as trombetas. E se pedir para o motorista baixar o volume, periga tomar uma estrela só na avaliação.

Pode parecer mau humor, e é, mas meu desejo de Natal é que dezembro chegue sem o tlintlin-tlin-tlin-tlin-tlin que toma conta do comércio.

Se der para vir junto a paz no mundo, aí vai ser o melhor Natal da história.

Onde não toca música de Natal? Nas livrarias. Então seguem aqui algumas com a certeza de que livro é sempre um presentão. Tem a Baleia, linda livraria itinerante; a Taverna, maravilhosa na Casa de Cultura Mario Quintana; a Pocket Store, charmosa como só ela na Félix; a Bamboletras, o templo da Venâncio; a Cirkula, a Londres e a Traça, muito de tudo na Osvaldo Aranha; a Paralelo 30, cheia de graça na Vieira de Castro; a Calle Corrientes, tudo em língua espanhola; a Isasul, com educação e literatura; a Via Sapiens, na Cidade Baixa; o Beco dos Livros e suas lojas no centro da cidade; as novíssimas Clareira, na Henrique Dias, e Gato Preto, em Ipanema; a Pandorga, mais bonita de Canoas. Fora todas as outras. E o melhor: todas sem tlintlin-tlin-tlin-tlin-tlin.

CLAUDIA TAJES 


16 DE DEZEMBRO DE 2023
LEANDRO KARNAL

Como muitos casais, os anos de convívio tinham produzido atritos entre Aparecida e Ricardo. As crises começavam sobre o tema gastos, continuavam no campo da limpeza da pequena casa e seguiam aceleradas quando tratavam dos procedimentos em relação à educação do filho.

No primeiro triênio, a harmonia tinha reinado ao lado do desejo. Acertaram-se na sala e na cama. Acarinhavam-se. Incendiavam-se. A sogra do marido reconhecia que eles se pareciam com a música Côncavo e Convexo, de Roberto Carlos: "Cada parte de nós tem a forma ideal/ Quando juntas estão, coincidência total/ Do côncavo e o convexo/ Assim é nosso amor no sexo". Como um jogo de Lego, a peça de um tinha encontrado o perfeito encaixe no outro.

Veio o pequeno Jorge. A alegria renovou-se, mas... O desemprego de seis meses do marido trouxe a erosão das poucas economias. A casa foi assaltada, para piorar o quadro de amarguras. Quem se havia esquecido de trancar bem todas as portas? A imprecisão da culpa envenenou a relação.

Pouco dinheiro e um filho que demandava coisas combinavam-se para arranhar a beleza original da dupla. Ricardo, enfim, voltou a trabalhar. Havia dias bons, todavia um pouco de ressentimento tinha entrado sob a soleira, como o chorume de uma matéria viva de outrora. Por mais que ignorassem, havia algo de podre naquele pequeno reino.

Dispostos por orgulho e por pressão familiar a manter a família, seguiam juntos. A sociedade conjugal que antes deslizava como uma navio em lago tranquilo avançava, agora, a remo forçado. Os silêncios tinham aumentado; o sexo conhecia espaçamentos frequentes. O endereço dos corpos era o mesmo, mas as almas tinham migrado dali.

Ricardo, como dito, já estava recolocado no mercado. Temendo novo momento de desamparo, Aparecida começou a fazer conservas e doces em potes. Recolhia vidros na vizinhança, fervia com zelo, cozinhava bem (uma das suas habilidades) e vendia na rua, quando o filho estava na escola. Era um complemento de renda, buscando restaurar a poupança evaporada.

Acontece que Cida (como a chamavam) era excepcionalmente boa com conservas e doces. Enrolava mamão, arranjava-o nos vidros e elaborava cocadas moles e doce de leite com ameixa. O caju em calda era de uma leveza única. Descobriu que fazer aquelas laranjinhas, kinkans, em leve líquido açucarado, havia despertado até o interesse de um restaurante chique. Em poucos meses, a muleta financeira tornou-se a principal fonte de renda da laboriosa Cida. A dona de casa empreendedora criou um site para seus doces. Teve a ideia boa de colocar no rótulo os poemas de uma célebre doceira de Goiás, que, antes de brilhar nas letras, fora sucesso nas panelas: Cora Coralina. Estava criada uma identidade de mercado.

Estaria solucionado o caso financeiro que cobrou um preço tão alto em um amor intenso? Sim e não. Por um lado, Cida comprou um pequeno furgão de entregas e já contava com quatro auxiliares. O que o marido obtinha como corretor de imóveis era, agora, 20% da renda do casal. O orgulhoso Ricardo era um quinto da felicidade, apenas. O sucesso era o brilho de uma pessoa. O chorume avolumou-se, as discussões aumentaram e ambos consideraram que o fim se aproximava.

Tiveram uma briga forte. Era noite de sexta-feira. Estavam cansados. O filho dormia na casa da avó materna. Ricardo deixara uma toalha molhada sobre o leito. Trocaram palavras amargas até que... o tom subiu muito acima do usual. Olharam-se com dor, porque eram uma família, com um filho, mas contemplavam o esgotamento do projeto. Interromperam a discussão. Nada mais havia a dizer.

Ficaram em silêncio na cozinha, avaliando o fracasso conjugal. Cida, de forma chorosa, tentou abrir os vidros para seguir sua atividade. O trabalho seria seu refúgio. Tentou, contudo a tampa da conserva resistia. Não poderia pedir ajuda. Apenas olhou. Ricardo foi até lá. Pegou o vidro e, com as mãos fortes, abriu com facilidade. A tampa resistira ao côncavo e cedera ao convexo A mulher se lembrou do seu homem e dos desejos que os tinham incendiado. As mãos tocaram-na mentalmente. Ricardo notou que ela mordera a ponta do lábio e abraçou-a por trás. Ela gemeu e cedeu. Afastaram os potes com força e, sobre a mesa da cozinha, recuperaram a conexão sexual. A tampa abriu-se: masculino e feminino reencontraram-se. Cida era a mulher de sucesso; Ricardo, seu homem. Amaram-se com certa fúria e muito prazer. A cozinha estava bagunçada, mas o casamento, arrumado de novo.

Cida convidou-o para trabalharem juntos. Ele era hábil com números e poderia fazer entregas. Ela era a mais inteligente do casal, poderia empreender e coordenar tudo, desde que ele abrisse alguns potes de quando em vez. Não precisavam concorrer, poderiam recriar a sociedade afetiva e sexual, com paridade business. E toda esperança havia, então, renascido por causa de uma tampa.

LEANDRO KARNAL

16 DE DEZEMBRO DE 2023
FRANCISCO MARSHALL

HIPÓDAMOS E HIPÓCRATES

A escola de filosofia inaugurada por Tales de Mileto (626-545 a.C.) instaurou um espírito de argúcia que animou muitas gerações de intelectuais para que seguissem transformando o mundo, criando conceitos e metodologias aplicadas ao pensamento especulativo e à vida social. Dessa escola, proveio Hipódamos de Mileto (496-408 a.C.), o primeiro pensador do urbanismo. 

Na ilha de Kós, próxima de Mileto, viveu o primeiro médico moderno, Hipócrates (460-370 a.C.), autor do célebre juramento e de uma nova medicina, analítica e laica. Hipódamos viveu na era em que as cidades gregas se reconstruíam após as Guerras Greco-Pérsicas (490-479 a.C.), e o faziam com o otimismo dos vencedores, animados pela aura de um regime revolucionário, a isonomia ateniense. Ainda jovem, Hipódamos foi chamado a Atenas para reconstruir o porto do Pireu, destruído pelos persas; ali implantou um sistema urbano geométrico, equilibrado, que perdura até hoje não apenas naquele bairro, mas em milhares de cidades de todo o mundo, que aplicaram o sistema hipodâmico, uma grade de quarteirões em escala proporcional, que dá ordem ao território, e permite distribuírem-se funções e serviços da cidade de modo planificado, com racionalidade. 

Muitas cidades gregas adotaram aquele regime urbanístico, querendo tornar-se poleis ideais. Viver em harmonia em uma cidade inteligente era (e segue sendo) caminho para a felicidade.

Pensar a cidade e nela, corpos e mentes saudáveis, eis o legado de Hipódamos ao jovem médico Hipócrates, insuflado pelo espírito iluminista da Grécia clássica, no século V a.C.. Assim como os filósofos descartaram as explicações tradicionais impostas por mito e religião, em favor do pensamento emancipado, também Hipócrates abandonou a medicina arcaica, baseada em crenças religiosas de possessão e exorcismo e em teatralizações rituais da cura, para avançar em uma medicina de registro e análise de sintomas, prognósticos e profilaxias voltadas para uma vida saudável. Os escritos de Hipócrates difundiram-se e com o tempo produziram um conjunto de textos de história, ciência médica e ética, o chamado Corpus Hipocraticum, a obra mais difundida da história da saúde. 

Dessa obra, acredita-se que 14 textos são de autoria de Hipócrates, incluindo-se o tratado Sobre os Ares, Águas e Locais, em que se desenvolve a análise dos fatores virtuosos de aeração, iluminação e abastecimento que podem gerar cidades saudáveis, com populações sadias e aptas à felicidade. Urbanismo e medicina encontravam-se formando conceitos e métodos voltados ao bem viver, com saúde.

Ora vagamos em cidades inimigas da inteligência urbanística, arboricidas, democratofóbicas, cativas de especuladores despudorados e demagogos estéreis, com agressivas sombras artificiais, que destroem o patrimônio edificante e trocam os bons fármacos do saber por epidemia de farmácias feias. Crias da filosofia, urbanismo e medicina dialogavam em suas origens; hoje ambas nos olham e perguntam: por que abandonastes o saber precioso que esteve na raiz de tudo?

FRANCISCO MARSHALL

16 DE DEZEMBRO DE 2023
CARPINEJAR

Saudade não é carência

Banalizamos a digestão das emoções. Por necessitarmos de grandiosas demonstrações românticas, não enxergamos o conjunto das ações de quem nos acompanha. Sofremos de permanente insegurança, assustamo-nos por qualquer desconforto passageiro de nosso par. Um "ai" dele é motivo de terremoto.

Mais importante do que repetir o "eu te amo" é dar atenção, é incentivar, é se fazer presente, é ser leal nos momentos difíceis e cúmplice nos momentos felizes.

O controle das palavras ditas não pode ofuscar os exemplos. Há pessoas que amam quietas, amam de modo mais contido, amam pelos gestos, mas amam tão escandalosamente por dentro quanto aquele que confessa apego a cada instante.

Há quem diga "eu te amo" cinco vezes na vida, porém pode ter certeza de que expressou a afeição sempre emocionado, com absoluta sinceridade. Não falou da boca para fora, tinha plena consciência do peso e da responsabilidade da declaração.

Meu amigo Luiz Felipe foi criticado pela esposa por seu coração de chumbo. É que ela saiu em viagem profissional para a China e perguntou, no primeiro dia em que se encontrava longe, se ele estava com saudade.

Ele respondeu "ainda não". Para quê? Soou como grosseria, como indiferença, como despeito. A esposa já achou que ele não gostava mais dela, mesmo com 10 anos de casamento, mesmo com todas as lições das experiências em comum, mesmo com a amizade mais do que provada, mesmo com a fidelidade e a lealdade implacáveis.

Surgiu um medo bobo, à toa, um mal-estar colocando tudo o que haviam conquistado juntos em xeque. O alarmismo nos constrange a professar juras sem vontade, por educação, simplesmente para não discutir e evitar complicações.

Luiz Felipe apenas não mentiu. Ela tinha acabado de partir. Recém havia aterrissado no outro continente. Não existiu nem tempo para sentir falta. Nem espaço livre para fabricar nostalgia. Estava curtindo - não há problema nenhum nisso - a casa vazia, a procrastinação, a independência de não ter horário para comer, dormir ou prestar contas dos seus atos. O beijo dela ainda se mostrava recente na boca dele. Não bateu nenhum desespero por reciprocidade.

Ele exercitou a verdade. A saudade aconteceria depois, dia após dia, com a ausência crescendo devagar e firme, quando viessem à tona as lembranças da voz, das brincadeiras, das conversas compreensivas, das implicâncias inteligentes, dos passeios.

Quando eu viajo - e com frequência me vejo em trânsito para palestras e shows -, não sou louco de questionar a minha esposa sobre a sua saudade. Espero um pouco para perguntar. Espero transcorrerem 24 horas no mínimo. Pois eu tenho a convicção de que ela fica provisoriamente aliviada. Não estrago a sua folga de mim. Saudade não é carência.

CARPINEJAR

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