sábado, 15 de dezembro de 2018



15 DE DEZEMBRO DE 2018
CLÁUDIA LAITANO

Mercadores da esperança

Trata-se do negócio mais lucrativo do mundo: o produto que eles vendem é inesgotável e, às vezes, é o único alívio disponível no mercado
O medo da morte matou minha mãe. Às vezes, diante de uma doença grave, a única chance de sobrevivência passa pela decisão de encarar alguns terrores íntimos o que, obviamente, nunca é simples.

Em vários momentos, nos estágios iniciais do câncer que a mataria menos de dois anos depois do primeiro diagnóstico, minha mãe poderia ter agido de forma mais ágil na busca da cura. Como o tumor que a matou não costuma ser letal, é provável que tivesse se curado - ou assim me disseram alguns médicos. Mas, em vez de dividir o problema com os filhos e acatar as orientações de tratamento disponíveis, ela trocou várias vezes de oncologista, na esperança de que um deles oferecesse o diagnóstico que gostaria de ouvir. Confiava em sua própria força, que sempre foi imensa e nunca nos faltou, e também na capacidade da fé de remover montanhas - assim como tumores. Quando finalmente decidiu dividir o problema comigo e meus irmãos, já não havia mais nada a ser feito.

Entre o consolo de uma esperança mística e a irrevogável materialidade de um diagnóstico ruim, muitos preferem acreditar no primeiro. E não é difícil de entender por quê. A proximidade da morte engendra aquele tipo de circunstância capaz de mudar quase tudo o que sabemos sobre nós mesmos, inclusive aquilo que consideramos essencial - como a fé ou a ausência de. É por isso que pessoas doentes (e todos aqueles que as amam e sofrem com elas) são as vítimas preferidas dos mercadores da fé e da esperança. Trata-se do negócio mais lucrativo do mundo, já que o produto que eles vendem não apenas é inesgotável como muitas vezes é o único alívio disponível no mercado.

Não tenho dúvidas de que minha mãe teria ido ao encontro de João de Deus, tivesse tido tempo ou oportunidade para tanto. E eu, mesmo considerando o gesto inútil e desesperado, teria provavelmente me oferecido para acompanhá-la. Naquele momento, também eu estava desesperada. Não tanto a ponto de rever minhas posições em relação a curas espirituais (abandonar o materialismo que me situa e me constitui seria como desistir de um pedaço do meu próprio corpo), mas o suficiente para apoiar qualquer movimento que diminuísse sua dor e seu medo.

É curioso que os dois maiores casos de abusos sexuais e estupros em série, no Brasil, tenham sido praticados por um homem de ciência (o ex-médico de reprodução assistida Roger Abdelmassih, condenado a 181 anos de prisão por estupro de pacientes) e um homem de fé (o médium e curandeiro João de Deus, acusado por cerca de 200 vítimas). Ambos têm, em comum, o fato de terem explorado a confiança e a fragilidade das mulheres que recorriam a eles em busca de ajuda.

Pela forma torpe e desumana como agiram durante décadas, convencidos da impunidade e da própria importância, merecem todo o rigor da lei. A grande diferença entre os dois é que o escritório do médico ficou às moscas assim que as denúncias começaram a vir à tona, enquanto a Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia, continuou atraindo fiéis mesmo depois de uma procissão de vítimas aparecerem na televisão relatando situações horrendas de abuso. A fé tem poderes a que o espírito crítico e a razão apenas aspiram - como bem sabem todos aqueles que aprenderam a extrair dela sexo, dinheiro e ainda mais poder.

CLÁUDIA LAITANO

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas