sábado, 22 de dezembro de 2018



22 DE DEZEMBRO DE 2018
DAVID COIMBRA

O super-homem e o super-hímen

Os americanos chamam o Estado da Virgínia de Vrdgínia. A palavra sai meio anasalada, como se tivesse um til entre o vê e o erre. V~rdgínia. Acho bonito.

Quem deu esse nome ao Estado foi Sir Walter Raleigh, um marinheiro que? Na verdade, chamar Walter Raleigh de marinheiro é uma redução tosca. Raleigh teve uma vida que merecia uma série da Netflix. Era um super-homem. Foi pirata e poeta, historiador e explorador, viajou por todo o mundo, inclusive pelo Brasil. E era um galanteador. Um dia, a rainha Elizabeth I caminha pelas ruas de Londres e, no meio do caminho, havia uma poça d?água, havia uma poça d?água no meio do caminho. Raleigh, airoso, tirou a capa de sobre os ombros e estendeu-a na água para a soberana passar. Ela ficou encantada. Depois disso, dizem as más línguas do século 17, eles se tornaram amantes.

Foi justamente em homenagem à rainha Elizabeth que Raleigh, ao chegar às inexploradas terras norte-americanas, chamou-as de "Virgínia". Porque Elizabeth era conhecida como "a rainha virgem". Neste momento, você vai desconfiar: "Como é que ela era virgem, se foi amante de Raleigh?". Há explicação, perspicaz e suspicaz leitor. É que ela era virgem por dois motivos: de direito, porque nunca se casou; de fato, porque, segundo certos historiadores maliciosos, sofria de um mal chamado "hímen complacente". O hímen real, por mais que fosse golpeado e vergastado durante o amor, comportava-se como uma defesa formada por Kannemann e Geromel: não se rompia. Muitos médicos se ofereceram para resolver o problema com uma cirurgia razoavelmente simples, mas Elizabeth jamais aceitou.

Por quê?

Porque ela temia a dor que sentiria quando o hímen fosse cortado. Na época, lembre-se, a anestesia não havia sido inventada.

Agora pergunto: como o ser humano viveu tanto tempo sem anestesia? Dentes arrancados, membros serrados, cortes costurados, tudo era feito no seco, com o paciente desperto e, não raro, amarrado. Os antigos egípcios faziam trepanações sem anestesia, imagine.

Nós vivemos no melhor mundo que já existiu, desde que o primeiro Homo sapiens desceu das árvores, na África, há uns 300 mil anos. Nós temos anestesia e a medicina nos fará viver até os 120 anos, como predisse a Bíblia no Gênesis. Nós comemos melhor e nos vestimos melhor. Nós temos a noção universal de que os direitos humanos e a democracia são bens em si mesmos. Nós temos leis que protegem os mais fracos. Nós temos mais respeito por minorias e pela diversidade.

Mas ainda temos muito a melhorar. E, quando o mundo melhorar e já não estivermos mais entre a sua superfície e o sol, o que os pósteros dirão da maneira como vivíamos? Quando souberem, por exemplo, que em grandes cidades do Rio Grande do Sul faltava energia elétrica depois de cada chuva e que milhares de residências ficavam sem luz todas as semanas? Você pode imaginar o que dirão?

Eu posso. Eu sei. Basta contar isso a um americano, a um europeu ou a um japonês. Eles ouvem isso, abrem a boca e se espantam:

- Como os brasileiros conseguem viver assim?

Como? Sei por quê. É porque o Brasil ainda está no passado. Vivendo no passado, ninguém sabe como o futuro pode ser melhor.

DAVID COIMBRA

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas