sábado, 22 de dezembro de 2018


22 DE DEZEMBRO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

BOAS FRESTAS



Quando eu era adolescente, a escrivaninha do meu quarto ficava encostada contra uma parede onde havia uma janela que dava para a rua. Entre mim e o mundo havia persianas feitas de lâminas horizontais que ocultavam o que acontecia lá fora, a fim de que eu pudesse me concentrar nos estudos do colégio. Mas, de vez em quando, eu abria um espaço entre uma lâmina e outra para espiar.

Era através dessas frestas que eu reparava num garoto que morava quase em frente. Ele entrava e saía de sua casa, andava de skate, se reunia com os amigos do quarteirão. E eu ali, escondida atrás das persianas, observando e sonhando. Inventei um romance entre mim e ele pelas frestas. Muitos anos depois, a realidade atravessou a janela e a história aconteceu pra valer, mas esse tempo também já acabou.

O que não acabou foi essa mania de abrir um espaço para ver o que acontece do outro lado da vida, quando eu deveria estar atenta apenas ao que acontece bem na minha frente.

Frestas. Pequenas aberturas necessárias para fazer contato com a imaginação, com a fantasia, com o que, estimulado pela curiosidade ou pela fé, pode se tornar menos impossível do que parece.

Abro a página de um livro e ganho o universo. Ouço cinco minutos de música em meio ao expediente e já troco de ânimo. Envio um e-mail audacioso para uma colega e passo a participar de um projeto. Basta uma pequena quebra de rotina, mudar de tom, arriscar um sim. O sim é a fresta necessária entre lâminas e lâminas de nãos. O não bloqueia a vida sonhada.

Às vezes parece que já está tudo escrito, o destino determinado. É desse jeito, dessa forma, não invente coisa, está bom assim. Apenas respire e vença os dias, um após o outro. As persianas estão fechadas protegendo você dos raios ultravioletas, dos temporais, das tentações, de tudo o que existe do lado de lá, onde você não está. Aquiete-se. Nada de mal pode lhe acontecer, querida.

Mas nada de bom também, se a gente não teimar.

Então procuro escutar além do que ouço, enxergar além do que vejo, acreditar no que vai além do racional. Com a ponta dos dedos, separo uma lâmina da outra para descobrir de onde virá o indefinido, aquilo que ainda não existe senão como possibilidade, o big bang que será capaz de produzir um novo mundo, a explosão que sinalizará que é hora de zerar o cronômetro e recomeçar a contagem do tempo.

Estamos terminando dezembro. E se, em vez de falar de Natal, que é sempre igual, a gente abrisse pequenos vãos por onde alguma novidade possa entrar e tornar a vida menos repetitiva? Eu, que não suporto trocadilhos, até a eles estou recorrendo para fugir da mesmice: boas frestas para todos.

MARTHA MEDEIROS

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas