sábado, 15 de dezembro de 2018


15 DE DEZEMBRO DE 2018
SCOLA ENTREVISTA


Ambientalismo brasileiro é muito esquerdista

Entrevista - XICO GRAZIANO, Agrônomo e ambientalista

Xico Graziano foi um dos primeiros tucanos históricos a abandonar o partido, ainda antes do primeiro turno da eleição presidencial, em outubro, e anunciar apoio a Jair Bolsonaro (PSL). Próximo a Fernando Henrique Cardoso, foi seu chefe de gabinete na Presidência da República, secretário do Meio Ambiente de São Paulo e deputado federal pelo PSDB. Graziano é agrônomo e ambientalista, e com essas credenciais chegou a ser cogitado para assumir o Ministério do Meio Ambiente de Bolsonaro. O ex-tucano diz que não está frustrado pela falta de convite porque nunca almejou o cargo, mas ofereceu ao presidente eleito um diagnóstico detalhado para lidar com o embate campo versus ambientalismo.

Seu nome foi cotado para o Ministério do Meio Ambiente. Chegou a ser convidado por Jair Bolsonaro (PSL)?

Não fui convidado. Fui consultado sobre os temas que estavam em pauta na questão da agricultura versus meio ambiente, naquele período em que o presidente eleito imaginava fundir as duas pastas. Nesse contexto, tive conversas com ele. Mas isso nunca envolveu nenhum convite.

Qual o grande desafio da agenda ambiental do Brasil?

No Brasil, o ambientalismo foca muito na questão da agricultura. Então é agricultura, desmatamento e biodiversidade, aquilo que chamamos no contexto das políticas ambientais de questões verdesa. Só que, progressivamente, os problemas ambientais do Brasil e do mundo todo, cada vez mais, estão presentes nas cidades, especialmente nas metrópoles. O Brasil é o país no mundo que pensa meio ambiente e pensa agricultura, e normalmente briga com a agricultura. Nos outros lugares, não há esse foco tão puxado. Por exemplo: os rios foram todos destruídos pelas cidades, poluídas pela falta de tratamento de esgoto. 

Até hoje, não tratam o esgoto como deveriam. Além da questão de saúde pública e saneamento, é um problema ambiental terrível sobre o qual as entidades ambientalistas pouco ligam. É como se não fosse um problema. Então, pega no pé do agricultor, mas não olha para a questão da cidade, do urbano. Esse é um defeito da política ambiental brasileira. Bolsonaro disse que precisa acabar com essa encrenca, e concordo plenamente. Quer dizer, não é só acabar com a encrenca do meio ambiente com a agricultura, é prestar atenção nos outros assuntos importantes.

O senhor sugere que o meio ambiente está contaminado pela ideologia?

Se por um lado há um foco muito grande em agricultura, por outro o ambientalismo brasileiro é muito esquerdista. Existe um problema ideológico, ligado à política. Por essa razão, aqui no Brasil, como já aconteceu em alguns lugares, como Portugal, muitos dizem que os ecologistas são como melancias: são verdes por fora e vermelhos por dentro, são socialistas ou comunistas. Isso é, em parte, verdadeiro para o Brasil no que tange o movimento ambientalista. Não estou me referindo às entidades ambientais, especialmente às principais, como SOS Mata Atlântica, WWF e Conservation International. São entidades sérias. Estou me referindo ao movimento político do ambientalismo, porque ele é muito esquerdista. Sempre combati isso, sempre escrevi contra isso e acho que, agora, o governo que vai tomar posse poderia tirar a ideologia da política ambiental. Política ambiental é importante na direita, na esquerda, no centro. Não tem de ter ideologia quando se pensa em sustentabilidade.

O presidente eleito tem razão quando fala que o Ibama multa excessivamente e é movido por ideologia?

Tem total razão. Quando conversei com ele, disse que não só ele tinha razão como a situação era mais grave ainda. O problema não é só o Ibama. Os órgãos ambientais dos Estados também cometem isso: multam exageradamente, cobram pedágio para dar licenças e para escapar de multa. Não é brincadeira essa corrupção que domina o poder público.

Mas aí é combate à corrupção, não ideologia.

A melhor forma de enfrentar isso é dando transparência aos processos, colocando tudo aberto na internet. Porque os fiscais ou aqueles que fornecem autorizações trabalham com grau muito grande de subjetividade e as normas são meio exageradas. Existe exagero da legislação e poder discricionário muito grande dos órgãos ambientais. Então, é preciso realmente botar o dedo nessa ferida.

Mas isso não significa que os órgãos ambientais tenham de se preocupar com o desmatamento da Amazônia ou do Mato Grosso?

Não tem nada a ver uma coisa com a outra, mas se misturam. Hoje, no Brasil, os agricultores em geral não gostam quando se fala em meio ambiente. Dou aula e sei disso, meus alunos são agricultores ou são gerentes e administradores. (A visão do) meio ambiente é atrapalhada com a lerdeza, a corrupção, o exagero etc. Quando você pergunta se precisamos preservar, todos concordam que precisamos. Realmente está na hora de dar um freio de arrumação na política ambiental do Brasil, e acredito que Bolsonaro está com esse desejo. Tomara que ele consiga fazer.

O senhor ficou frustrado por não ter sido convidado para ser ministro?

Não me frustrou porque não esperava. Nunca militei politicamente ao lado do Bolsonaro, nem daqueles que fizeram a campanha com ele. Sempre fui ligado ao PSDB, sou fundador histórico do partido. Saí para apoiar Bolsonaro porque entendia que ele era a pessoa certa para enfrentar a ameaça do retorno do PT ao poder.

O que houve com o PSDB nesta eleição?

Na eleição deste ano, não sei. O PSDB foi perdendo a sua razão de ser durante toda a trajetória desses últimos anos, distanciando- se dos seus ideais e das suas ideias. Enfim, foi realmente uma tragédia que acometeu não só o PSDB, mas, infelizmente, quase todos os partidos. As legendas brasileiras estão destruídas. Cá entre nós, elas não servem para quase nada.

Por que isso aconteceu no PSDB?

Dizem que nunca é uma razão só que derruba um avião. Foram vários fatores. Um deles foi o fato de que o PSDB não soube renovar a sua proposta para o país.

DANIEL SCOLA

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas