sábado, 26 de dezembro de 2020



26 DE DEZEMBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

As previsões da cartomante

Outro dia, uma amiga veio me contar que foi a um pai de santo para saber do futuro e pedir aconselhamento, talvez até algum encantamento. Fiquei animado.

- Ele disse alguma coisa de mim? Hein? Disse? Disse?

Ela tergiversou: - Não diretamente, mas... - Como assim, "não diretamente"? Tu não perguntaste nada sobre mim???

Fiquei decepcionado com minha amiga. Sempre que alguém que conheço vai a um pai de santo ou a uma cartomante ou a qualquer outro tipo de vidente, fico atento para saber se algo foi dito a meu respeito.

Eu, em pessoa, levado por minhas próprias pernas, não iria a um desses profetas - sentiria vergonha, porque a imagem que faço de mim mesmo é a de ser um homem que se guia estritamente pela razão. Cerebral, entende? É isso que acho que sou: um homem cerebral. Como diria Belchior: sei que nada é divino, nada é maravilhoso, nada é sagrado, nada é misterioso.

Exatamente!

Só que volta e meia constato, com melancolia, que não sou tão cerebral assim. Que crenças e superstições se insinuam na minha alma e me fazem ficar aflito ou ansioso ou até alegre se o vaticínio ou o presságio forem bons. "Ela disse que sou um príncipe? Sério?"

Felizmente, muitas mulheres não sentem vergonha de ir a cartomantes. Quando elas se separam ou estão enfrentando algum outro problema na vida, não poucas buscam a ajuda de videntes. O que mais gosto é quando uma amiga relata que foi a uma cartomante famosíssima, que muitas pessoas conhecidas consultam, uma cartomante tão boa, que é preciso marcar hora com ela e leva um mês para abrir vaga. Ela vê tudo, essa cartomante, ela acerta sempre. Sempre! Inclusive, quando a minha amiga foi lá, a cartomante, de cara, antes que minha amiga sequer abrisse a boca, observou:

- Tu perdeste uma pessoa muito querida há pouco tempo... Uma pessoa da família...

- Meu avozinho, David! Ela estava falando do meu avozinho!

Sinto reverente respeito pelas cartomantes infalíveis. Então, fico na expectativa:

- E de mim? Ela falou algo de mim???

Como gostaria de ter coragem de consultar uma cartomante infalível. Mas não tenho, sou um pusilânime. A única vez que estive cara a cara com um vidente do gênero foi quando trabalhava no Diário Catarinense, nos anos 1980. Um médium fazia trepidante sucesso em Maracajá, no extremo Sul. Em frente a sua casa, pequenas multidões se reuniam em busca da cura de algum mal ou, simplesmente, de paz. Era boa pauta. Fomos lá, conferir a história, eu, o fotógrafo Ezequiel dos Passos e o motorista Salézio Vasconcelos. Passamos o dia no lugar, acompanhamos cirurgias espirituais e consultas, entrevistamos as pessoas. Por fim, interpelamos o médium. Ele deitou falação. Discorria acerca de seus poderes mentais, das façanhas que era capaz de cometer e tal. Em meio à conversa, olhou bem para mim e falou, com voz grave:

- Vejo que você é um espírito cético. Você não acredita... - estremeci. - Vejo, também, no brilho dos seus olhos, que você vai longe... Mas, atenção: você deve acreditar... Você deve acreditar...

Saímos de lá impressionados, eu, o Ezequiel e o Salézio. Aboletado no banco traseiro do carro, eu repetia, imitando a voz do homem: "Você deve acreditar... Deve acreditar...".

Bem. Não é do meu feitio. Sou um cerebral, você sabe. Um cerebral. O problema é que, às vezes, quando me distraio, até acredito. É verdade. Mas não conte para ninguém.

DAVID COIMBRA

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas