sábado, 12 de março de 2022


12 DE MARÇO DE 2022
MARTHA MEDEIROS

Make love

Se não há como impedir a pulsão doentia dos que se excitam destruindo vidas, façamos amor. É minha proposta, eu que sou especialista em nada, menos ainda em furores assassinos. Façamos amor com a desenvoltura de um acrobata que desvia do tiro, com a flexibilidade de um contorcionista, façamos amor como os dançarinos do tango, deixemos para os gestores do inferno os discursos longos e gelados.

Façamos amor com a boca, as pernas, os olhos e o coração pra fora do peito. Que o prazer que inflamamos em nossas trincheiras íntimas atinja em cheio a humanidade. Que dediquemos a esse hospício mundial alguma compaixão, que nossos corpos não se despedacem em vão, que se mantenham inteiros para, fazendo amor, tocarem o sublime. Façamos amor hoje ainda, com a lâmpada acesa.

Façamos amor porque é isso que falta a eles, porque é um luxo que nunca terão, ocupados demais em ganhar dinheiro e anexar territórios, em apoiar a indústria bélica e em iludir-se que são imortais, façamos amor que isso eles não sabem, que isso eles também têm que comprar.

Façamos amor para tirar a roupa, para ficarmos nus como nua é nossa alma, para glorificar a mais antiga forma de pureza - sexo é o antipecado. Despir-se é uma valentia, uma contravenção poética, é quando retornamos ao nosso estado primitivo, ancestral. Não precisamos de armas para sermos majestosos, não precisamos camuflar o ódio que não sentimos, façamos amor entre nós, porque esse é o nosso acordo de paz.

E façamos não apenas o amor erótico e revolucionário, mas também o amor solidário, o amor de existir com plenitude, o amor que nos encontra pela manhã com a mesma integridade com que fomos dormir à noite, o amor que não é assombrado por pesadelos e culpas, já que nunca traímos nossa essência, não optamos por viver apartados, defendendo apenas um lado. Nosso amor é universal.

Façamos amor, como propusemos em guerras passadas, aquelas que julgávamos finitas e inspiradoras de slogans singelos, make love not war, quando acreditávamos que a estupidez do mundo seria passageira. Façamos amor, mesmo o amor tendo esse nome viciado, quase cafona de tão desgastado, amor. Diante da iminência de morrer pelas mãos dos medíocres, façamos o que nos resta fazer.

A morte não é de todo má, nem de todo abrupta, a morte valoriza o poder das nossas palavras, o silêncio da nossa comoção, as cores vivas da nossa existência, a morte é um prêmio ajustado entre as partes, mas a violência é sempre atroz, a covardia mais vil, o ato verdadeiramente obsceno que emerge do escuro. Façamos amor antes que o último miserável apague a luz, façamos amor à tarde, no claro, de um jeito libertário e insolente, enquanto eles ainda não estragaram tudo.

MARTHA MEDEIROS

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas