sábado, 20 de agosto de 2022


20 DE AGOSTO DE 2022
LEANDRO KARNAL

Ocupar um espaço público parece ter um poder magnético: você atrai coisas. Sou atingido por diversas curadorias. As pessoas me indicam temas e criam interditos. Não é a saudável crítica a algo publicado. Trata-se do desejo de dirigir o vir a ser.

Explico-me. Um colega é militante ecologista. Estuda, escreve com zelo e muita profundidade sobre o tema. Li um livro dele e achei excelente. Porém... ele manda textos incisivos do estilo: "Leandro, nos dias de hoje, quem não defende o meio ambiente é uma pessoa sem caráter. Todos os textos devem ser sobre a defesa da Amazônia".

Acho necessária a defesa do nosso patrimônio natural, contudo nem sempre é meu único tema. Já entrevistei nomes relevantes da área. Ele, todavia, acha fraca a iniciativa porque "perco meu tempo" com recortes culturais, religiosos ou de comportamento. É o meu "curador verde".

Os orientadores políticos são os mais abundantes. É um crime, dizem uns, que eu não ataque, em todos os meus canais, a corrupção do PT. "Absurdo você não usar sua força midiática para denunciar Bolsonaro", garante outro grupo. "Você evita afrontar com força o STF", escreve-me alguém. "Faça um artigo contra Alexandre de Moraes!"

A lista continua. Há listas que meus curadores possuem de inimigos. Estes, para eles, devem ser destruídos. Na guerra, insistem, minha catapulta deve ser cooptada.

Faço um artigo sobre ateísmo, e alguém me diz que uso meu espaço para proselitismo. Escrevo sobre Jesus, e meus curadores céticos dizem que faço jogo duplo. Se eu me inclinar ao candomblé, é - para outros - pura concessão populista para a "esquerda mimizenta". Falar de Arte? "Careca elitista decadente", tentou insultar-me uma menina com identidades políticas mais radicais.

Mais uma vez: um texto em jornal é um diálogo público. Faz parte das normas da comunicação que eu responda por tudo aquilo que publico. Pelas minhas ideias e afirmações, presto contas. Aceito, assim, a enorme responsabilidade de ocupar espaço tão importante como este. Quem canta recolhido, no fundo da sua garagem e em voz baixa, não pode e nem deve ser criticado. Quem vai para a calçada e solta a voz está, necessariamente, submetido aos críticos musicais do passeio público. Uso a metáfora para garantir: criticar textos publicados é um direito lícito de toda leitora ou todo leitor.

Minha constatação é sobre a curadoria do que eu possa ou deva falar. Uma espécie de censura prévia, mas não de crítica póstuma Aceito a responsabilidade de ser vidraça exposta. Entendo as muitas vontades de interferência que tentam a tantas almas. Alguns casos são até divertidos. Um jovem leitor me escreve dizendo que não confia em um filósofo de terno igual a mim. Respondo tranquilo que sou historiador e que ele está certo: não deve confiar em ninguém, de terno ou de croc. O ceticismo é uma metodologia boa nas ciências humanas. Lembrei que até o "diabo veste Prada", mas ele não acompanhou minha ironia ou, talvez... prefira Armani.

Feitas as ressalvas e assumindo as responsabilidades, quereria sempre ressaltar que a agenda de um cronista de jornal pode não ser a sua. Cada leitor é livre para buscar os autores com que se identifique na sua visão de mundo. O contraditório é bom, uma das bases do direito e da democracia. A mesma liberdade de leitura que preside ao sagrado gosto individual preexiste, igualmente, à escrita. Sou livre para escrever tudo aquilo que não ferir a lei. Você possui livre-arbítrio para acessar o que bem entender. Seria equivocado obrigar um vegetariano a consumir carne e seria, da mesma forma, estranho um vegano frequentar uma churrascaria e afirmar que nada encontra ali de bom para consumir.

Conciliar gosto e local é uma arte. Harmonizar valores e autores também é importante. Há pessoas na imprensa que me irritam muito. Eu os evito. Outros produzem coisas de que discordo, porém são inteligentes e me fazem pensar. Por fim, há os que parecem ter limado quaisquer arestas com o meu mundo e dizem coisas que eu subscrevo na íntegra.

Imagino ser válido tentar povoar as páginas do jornal com outras escolhas. É o seu caso? O ideal seria, claro, você enviar à direção do jornal seus próprios textos que consagrassem sua visão de mundo e vieses analíticos. É um caminho interessante. Crie seus podcasts, abra seu canal de vídeos, escreva textos, elabore palestras e mostre como coisas mais relevantes podem ser ditas. Até lá, siga o conselho de uma professora de ioga, em uma aula que tive na praia com a família: "Aceita, entrega, confia e agradece".

Abandonar o conforto do estilingue é inquietante. "Posso sempre criticar, é meu direito sagrado e constitucional."

Escreva textos! Publique! Crie! Ganha o Brasil e ganha você. Viva a liberdade de ler e, mais ainda, a liberdade de fazer melhor. Aceita o desafio? Cultive a esperança de um jornal ainda melhor. Faça curadoria de si!

LEANDRO KARNAL

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas