sábado, 6 de maio de 2023


06 DE MAIO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

O JURO ESTACIONADO E O ARCABOUÇO FISCAL

Apesar das críticas reiteradas do presidente Lula e das queixas cada vez mais contundentes dos setores produtivos, o Banco Central manteve inalterada a taxa básica de juro pela sexta vez consecutiva na reunião do Conselho de Política Monetária da última quarta-feira, deixando claro em seu comunicado que não hesitará em retomar o ciclo de ajustes caso o processo de desinflação não transcorra como esperado. A taxa Selic (sigla de Sistema Especial de Liquidação e Custódia, programa virtual de negociação de títulos do Tesouro Nacional) é o principal instrumento do BC para manter sob controle a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Ao contrário do que alega o primeiro mandatário do país na sua pregação contra o presidente do Banco Central, a fixação do percentual elevado, que deixa o Brasil na segunda posição do ranking das maiores taxas de juros nominais do mundo (atrás, apenas, da Argentina), não é decisão de um homem só. Todos os sete integrantes do Copom - presidente e executivos do Banco Central - votaram pela manutenção do índice, com o argumento de que o ambiente externo da economia se mantém adverso e de que, no cenário doméstico, a inflação ao consumidor segue acima do intervalo compatível com o cumprimento da meta estabelecida. O comitê também destacou em seu informe que persiste uma incerteza sobre o desenho final do arcabouço fiscal encaminhado pelo governo para aprovação pelo Congresso Nacional.

Embora a decisão do Copom seja coletiva e reconhecidamente técnica, suas consequências são sociais, políticas e econômicas - e estão contribuindo para paralisar a economia do país. Como gostam de dizer os economistas, o remédio necessário, ministrado em doses tão elevadas, já está se transformando em veneno: juro alto paralisa a atividade produtiva, inibe investimentos e geração de empregos e penaliza especialmente a parcela mais pobre da população, acentuando as desigualdades sociais.

Se é verdade que todos os brasileiros desejam uma posição mais flexível do Copom para que os juros baixem e a roda da economia volte a girar, também se espera que o governo e o Congresso se esforcem mais no sentido de remover do caminho um dos maiores obstáculos, representado pelos sempre excessivos gastos públicos. Nesse contexto, o arcabouço fiscal pode ser a peça-chave da engrenagem. Se os parlamentares conseguirem incluir no projeto um mecanismo compatível com o antigo teto de gastos, que efetivamente condicione o crescimento das despesas federais à receita e à inflação passada, superando as resistências do Executivo a tais limitações, é bem provável que o Banco Central receba o estímulo que espera para revisar sua visão até agora inflexível em relação à taxa Selic.

Evidentemente, outros fatores precisam ser considerados. O arcabouço fiscal - ou regime fiscal sustentável, como foi rebatizado pelo relator - não é o único condicionante para o destravamento dos juros. Mas é uma possibilidade concreta, viável e que só depende da habilidade e da boa vontade dos governantes e representantes políticos do país. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas