sábado, 5 de agosto de 2023


O triste fim da verdade

Eram 11 da noite quando me deitei na cama com um livro nas mãos, mas o celular apitou. Resolvi conferir. Um SMS comunicava uma compra em dólares supostamente feita por mim. Valor alto. Em seguida, a mensagem de estorno. Alívio, já que não fiz compra alguma. No instante seguinte, outra mensagem de compra aprovada, valor mais alto ainda. E logo a mensagem de estorno, novamente. Alguém não estava dando sorte ao utilizar meu cartão.

Fosse um tempo atrás, seria o suficiente para acabar com meu sono. Sairia de pijama e acamparia na frente do banco. Porém, quem não se acostuma com tentativas de golpe, não dorme mais. Na manhã seguinte, a primeira chamada recebida foi de um número desconhecido do interior de São Paulo. Normal. Não atendi e fui tomar café.

Não sou tão esperta, já perdi dinheiro em golpes fajutos, quando ainda me permitia ser inocente. Hoje, inocência virou defeito de caráter. É outro mundo. Nada mais é o que parece ser. A verdade caiu para a segunda divisão. A verdade despencou no ranking. A verdade teve queda violenta na Bolsa. A verdade foi expulsa de casa. Não está mais aqui quem falou. A mentira é a nova dona do pedaço.

Pessoas abrem conta em clínicas de estética e acabam com os vestígios do próprio rosto: não está me reconhecendo? Pessoas postam fotos com bebês que nunca tiveram. Pessoas abusam de filtros na hora de gravar vídeos glorificando o envelhecimento. 

Pessoas manipulam com deep fakes: faz de conta que aquele presidente anunciou rendição, que aquele outro foi algemado, que o Papa dançou uma rumba dentro de uma pizzaria, que uma onda gigante encobriu Ipanema, que o avião se desintegrou no ar, que havia dois milhões de manifestantes na passeata - efeitos especiais 24 horas por dia na palma da sua mão. Jornais? Ainda são feitos por gente, não robôs. Não é de admirar que estejam perdendo leitores. A verdade, que nos libertaria, agora só conduz à uma vida sem emoção.

Notícias exageradas, números maquiados, falas editadas, aspas fora do contexto, falsos perfis, invenções, boatos, má-fé: viva la vida loca. Fatos não confirmados são espalhados em segundos e as opiniões são formatadas assim, apressadamente. Se o que foi lido nas redes agrada, mesmo tendo jeito de empulhação, para quê checar e correr o risco de descobrir que está sendo enganado? A inexatidão é a nova verdade.

História, conhecimento, biografia, quase mais nada disso serve de base, o que importa é sensacionalizar, que se danem as consequências. Na arte ainda se acredita, mas nem tanto no direito autoral. Quem garante que não foi o Neruda que escreveu este texto, com a ajuda da inteligência artificial?

Verdadeiro ou falso? Pergunta boba. Não existe mais resposta certa.

MARTHA MEDEIROS 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas