segunda-feira, 14 de agosto de 2023


12 DE AGOSTO DE 2023
FRANCISCO MARSHALL

HARMONIA

Harmonie é palavra e conceito grego. É como Homero refere, no canto V da Odisseia (v. 248), a jangada que Odisseu construiu para partir da ilha de Calipso, Ogígia, rumo a seu lar em Ítaca. Harmonia, as toras bem atadas e que nos permitem avançar, a ferramenta da cultura feita para a sobrevivência. A harmonia musical é composta de notas bem ajustadas que permitem à melodia navegar feliz sobre as águas da fantasia harmônica; harmonia social é a meta maior de toda a sociedade, e visa à coesão que reduz a violência e amplia a cooperação e a energia para avançarmos como se fôssemos também música, e vagar na jangada que nos salva, a cidade. Não seria lindo haver um parque dedicado à harmonia, símbolo das potências de concórdia e sobrevivência?

Além de conceito, harmonia foi também nome de duas figuras míticas gregas: uma, a ninfa Harmonia, guardiã dos bosques de uma cidade da Frígia, e que hora faz falta em uma cidade frígida, que não sabe das bodas de céu e terra, que movimentam o cosmo na copa das árvores, devastadas no parque com nome da ninfa ora agredida; outra Harmonia foi a filha de Ares e Afrodite, tema do livro As Núpcias de Cadmo e Harmonia (1988), de Roberto Calasso (1941-2021), onde se lê que "o domínio harmonioso dos elementos é a mais precária das formas". Neste romance, conta-se do banquete em que se iniciou a discórdia entre deuses e homens, e de outras violências que apontam para Éris, irmã e oponente de Harmonia. Mais que desarmonia, há intrigas locais que botam a perder o patrimônio público, tragicamente, e fazem uma cidade que já foi e pode ser bela se tornar a cada dia mais feia, maltratada por quem mais dela devia zelar.

O espanto diante do arboricídio traz à tona outros dados gravíssimos da trama sórdida armada no Parque da Harmonia contra o interesse público. O negócio que ora se implanta é resultado da concorrência 14/2020 da SMF-PMPA, que celebrou em dezembro de 2022 contrato cujos valores revelam desarranjo homérico. As áreas da Orla Moacyr Scliar (orla 1) e do Parque da Harmonia e seus anexos foram cedidas por 35 anos (!) para empresa sem histórico, fundada em 2020 para papar essa parada; na orla 1, foram gastos cerca de R$ 60 milhões em dinheiro público. A área total dos terrenos cedidos é de mais de 25,6 hectares, em valiosa paisagem junto ao centro da cidade, e foi entregue por reles R$ 201 mil (!), na assinatura do contrato (?). 

A concorrência foi vencida sem concorrência e estipulava pagamento mínimo de R$ 200 mil, mais 1,5% do faturamento anual do negócio, o que faz do poder público sócio de uma empresa privada em que não atua diretamente, embora a favoreça indecorosamente. A estimativa é de uma renda de R$ 7 milhões ao município no período, o que significa aluguel mensal de R$ 16 mil. A cera que tapou os ouvidos de Ulisses diante das sereias é pouca para tamanha surdez do Tribunal de Contas - aliás, já habituado a chancelar com subserviência muitos erros de maus gestores.

Essa negociata fétida rende à cidade dissabores e um parque cafona - cacoparque de Éris, altar da desarmonia. Ah, Ítaca! Precisamos de nossa jangada Harmonia!

FRANCISCO MARSHALL

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postagem em destaque

12 de Agosto de 2026 CARPINEJAR Os efeitos colaterais das canetas nos restaurantes Desde maio, já circula no Brasil uma caneta emagrecedora ...

Postagens mais visitadas